A menina e o anjo

anjo

No Natal a menina de cabelo alourado preso em tranças pediu ao Papai Noel “uma boneca branca, uma boneca preta e um carrinho para puxar boneca”. Os pais não entenderam a exigência da boneca preta. Como esta menina cheia de invencionice resolveu querer uma boneca de cor, afinal quase não havia negros nas redondezas onde morava, um bairro novo, afastado, na zona norte de São Paulo. Mas Papai Noel encontrou as duas bonecas, o carrinho e colocou embaixo da árvore.

Meses depois, no primeiro dia de aula na 3ª. série, Madre Cornélia, diretora da escola das freiras, entra na sala com uma aluna nova: uma menina negra. Os olhos da menina de tranças brilharam. Levantou o braço oferecendo para dividir a carteira com a novata. Em pouco tempo ficaram amigas e a alegria era ter uma amiga igual a sua boneca, só que falava e tinha opinião. E foram estas opiniões que vieram mudar a vida da menina de cabelos alourados.

A menina negra se superava em invencionice: dizia ver o anjo da guarda de todas as pessoas. Inclusive o da nova amiga. A menina negra com os cabelos bem crespinhos, amarrados e enrolados em diversos rabicós,  falava de forma segura e convincente sobre o anjo de cada um. E quanto ao anjo da menina alourada tinha  recomendações: estava proibida de correr no recreio, pois o anjo poderia se cansar, ou até se perder no meio dos anjos das outras crianças. E isto era um sacrifício. A menina alourada gostava de subir nas jabuticabeiras de onde vinha com os bolsos do avental carregados da fruta, cutucar os galhos até derrubar as ameixas amarelas que só mais tarde soube que chamavam nêsperas, e fugir das amigas com uma grande agilidade em pular os bancos do pátio como se fosse uma prova de obstáculos. Mas não ficava só nisso. Ainda tinha que ao comer deixar um pouco para o anjo e dormir deixando espaço na cama para as asas do companheiro.

Durante um ano a menina branca seguiu as instruções da amiga negra. Hoje chamariam de bullying, mas ninguém na família percebeu. A menina loura até gostava deste segredo, sentia-se cumprindo desafios quase impossíveis e estava encantada em saber que tinha um anjo que a protegia e a guardava como o da oração que fazia antes de dormir.

“Santo Anjo do Senhor, Meu zeloso guardador, Se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege me guarde me governe e me ilumine. Amém.”

Também sentia-se escolhida por ter em cima da porta da sala de aula um quadro com a imagem de um anjo protegendo uma menina. Isto lhe confortava, era como um bom presságio, um aviso que estava no caminho certo. E assim passou o ano em que teve o privilégio de saber que tinha um anjo, aprendeu a conviver com ele, além de ter sido a única da sala a escrever Kubitschek, o difícil sobrenome do presidente do país, no quadro sem errar uma letra,  a multiplicar e dividir, a não ter medo de andar de avião e ainda o ano em que nasceu seu irmão caçula.

Quando voltou a escola no ano seguinte não foi mais para a sala do anjo. Aprovada com distinção para o 4º ano reencontrou as amigas, menos a negra. Perguntou as freiras, ninguém soube explicar para onde tinha ido. Muitos anos depois, a menina que virou mulher ao acordar num dia que não era de nada, quando nenhuma invencionice passava por sua cabeça, percebeu que continuava dormindo num canto da cama. Os pés ficavam de fora e ao seu lado sobrava espaço para as asas do seu anjo.

Íntimo

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Enquanto depilava as pernas embaixo do chuveiro, correndo, cuidadosamente, o aparelho descartável do tornozelo em direção ao joelho, lembrei-me da primeira fez que vi este gesto. Tenho a imagem muito remota de mamãe vestindo peignoir de jersey, com a perna muito branca coberta por uma leve espuma de sabonete, apoiada na banheira e com o mão direita fazia subir e descer o aparelho de barbear do papai enquanto falava comigo.  Para ela algo muito corriqueiro, para mim era uma cena reveladora da intimidade feminina.

Algum tempo depois, com 11 anos, acreditei ter idade suficiente para fazer o mesmo. Por alguma razão fiquei em casa com a empregada que passava roupa na lavanderia. Justifiquei um banho no meio da tarde e entrei no banheiro com péssimas intenções. Retirei a roupa, peguei o peignoir da mamãe que ficava atrás da porto e vesti. Ficava enorme no meu pequeno corpo, praticamente um vestido de princesa com cauda. No armário sob a pia peguei cada peça do aparelho de barbear. Era assim que papai guardava, desmontado. Já o tinha visto montar algumas vezes e sabia como colocar a gilete. Com cuidado retirei de uma caixinha azul, desembrulhei atenta para não cortar os dedos, encaixei no aparelho e deixei ao lado da banheira. Umedeci as mãos, fiz um pouco de espuma com o sabonete e comecei a repetir a cena. As pernas tinham apenas uma penugem loura e fina que fui ensaboando. Limpei as mãos com a toalha e fui para a função mais importante: depilar a perna. No primeiro movimento tive medo de me cortar, mas não desisti. Uma perna, depois outra, a gilete corria pela perna dando uma sensação estranha, um misto de medo e alegria.  Será que este é o prazer que falam nos romances que minha irmã lê?  O que isso vai mudar a minha vida? Agora já sou uma moça?

Hoje me lembrei deste sentimento ao repetir a cena que fiz milhares de vezes em momentos, locais e situações mais diversas. Depilei as pernas com pressa, algumas vezes chorando, outras sonhando e idealizando amores, pensando em viagens, criando projetos, filosofando, falando com a empregada, ensinando o dever de casa ao filho, pensando na vida… Um gesto íntimo, para alguns uma coisa até atôa que faz parte do universo feminino, mas quem passou gilete na perna há de lembrar deste sensação…

 

Ouvi no verao

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De lei

Ela já estava com mais de 80 anos e morava num sitio que quando comprou ficava na área rural. A cidade cresceu e envolveu o terreno que passou a ser objeto de desejo dos construtores de condomínio. O lugar era perfeito, algumas propostas foram feitas, mas ela mantinha-se inabalável e avisava que só saia de lá morta. Tinha como herdeira apenas uma neta que morava distante. Fazia raras visitas e na última examinou bem o terreno imaginando o que poderia render quando a avó partisse. O que a jovem não sabia é que nos últimos anos a avó apaixonada por este pedaço de terra vinha plantando Pau Brasil, Jatobá, Peroba, Ipê, Mogno, Cedro e Jacarandá. Plantou apenas árvores nobres, conhecidas como “madeira de lei” ,cuja exploração é controlada pela lei de crimes ambientais. O corte destas árvores não pode ser feito sem a autorização do governo e pode dar até dois anos de cadeia. A idosa deixou todos os bens registrados em cartório para surpresa da neta que terá que aprender a gostar de árvores.

Demitida

Construiu uma casa com grande área para horta, jardim e até um pequeno pomar. Plantou uma pitangueira, os anos passaram e a árvore não desenvolveu. Um dia, cansada de ver a árvore sem uma fruta chamou o jardineiro e mandou jogar fora. Aquela árvore não servia prá nada, estava demitida do pomar. O jardineiro pediu uma segunda oportunidade para a pitangueira que parece ter ouvido a reclamação. No dia seguinte, uma mínima pitanga verde apareceu entre as folhas. A minha amiga ainda pensou que o jardineiro tinha colado uma fruta para justificar a permanência da árvore, mas era verdade. A pitangueira nunca mais deixou de dar frutos. As melhores caipiroscas de pitanga do país são servidas em sua casa.

O presente

Fez sinal para um taxi, entrou com cuidado, sentou vagarosamente acomodando no colo o pacote que carregava. O motorista estava com um profundo mau humor para perder tempo com uma senhorinha que ainda carregava um embrulho que podia sujar o estofado do carro. A passageira, elegante, ágil, beirando os 80 anos, estava feliz com o presente. Carregava como uma preciosidade. O motorista perguntou resmungando entre os dentes sobre o conteúdo do pacote. Alegremente ela respondeu: “uma muda de jaqueira, vou plantar no quintal”. Ele não acreditou que uma mulher daquela idade ainda pensasse em plantar uma jaqueira, esperar até 7 anos para dar fruto. Mas era o sonho dela, acreditava que ainda teria saúde para comer a jaca do seu quintal. E seguiu pensando que o taxista, do jeito que estava, não chegaria nem aos 40.

 

No carnaval

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Ele estava num grande momento. Aos 50 e poucos anos fez um mega negócio, teve um alto lucro e resolveu viajar com a mulher no carnaval. Queria ir para Salvador, a mulher resistiu e pediu por um resort. Podia até ser na Bahia. Um amigo sugeriu um vilarejo próximo a Porto Seguro, onde tudo o que tem no carnaval é no domingo a alegria do bloco ”das periguetis”. Pedreiros, motoristas, garçons, serventes, estudante, caseiros, aposentados, turistas todos saem vestidos de mulher. Capricham na maquiagem e vão prá rua atrás de uma charanga que toca velhas marchinhas.

Voltou prá casa com os folders do maravilhoso resort e o pacote comprado na CVC para uma semana de férias. Estava eufórico com a viagem. No resort instalaram-se na área das suítes mais caras. Dinheiro não era problema. Ao desfazer a mala entregou um presente à mulher: um vestido de oncinha. Ela achou estranho o gosto do marido, mas como era carnaval não discutiu… Ele ficou só na  piscina. Não quis nem olhar a praia, tinha muita areia e ondas no mar. Ela fez amigos, ia à sauna, à massagem, à meditação e tudo mais que fosse oferecido enquanto ele bebia toda a champagne do hotel.

No domingo de carnaval continuou na champagnota olhando com pouco caso para a mulher que, com tantos outros hóspedes, fazia um carnaval animado na piscina. Pediu o almoço onde estava, não se moveu da espreguiçadeira até às 4 da tarde quando chamou a mulher para ir ao quarto. Ela não entendeu. Ele entrou direto para o banheiro e saiu de barba feita,  perfumado, usando o vestido de oncinha. Ela teve um chilique. O vestido novo, nem pensar. Ele já tinha tomado todas e deu um chega prá lá. Ela começou a gritar e ele a espancar. O barulho foi tanto que os seguranças entraram no quarto, mas o homem de oncinha tinha a força de um touro.

Chamaram a policia que encontrou uma cena patética: a mulher em pânico, acuada num canto, rosto coberto de sangue e lágrimas. O marido em cima do salto dourado, em frente ao espelho desenhava os lábios com um batom vermelho e na sequencia ajeitava os seios de silicone. A suíte toda quebrada. Os policiais deram ordem de prisão e ele desafiou. Fez-se de sedutor, chamou o escurinho de negão e convidou para um trelêlê… Os policiais se ofenderam e usando a força algemaram e levaram para a delegacia.

Horas depois de ter suado toda a champagne e pagar a fiança, foi solto. Ninguém esperando por ele na porta de delegacia. Perdeu o caminho do resort. Foi parar num bairro distante onde saiu atrás de um bloco. “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que é…” e lá ia ele carregando os sapatos de salto na mão e rebolando. Bebeu, fumou e cheirou o que ofereceram. Quando o dia amanheceu foi encontrado num beco, morto com dois tiros, vestindo apenas uma sunga de oncinha.

A aula de francês

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Eu tinha 12 anos quanto tive a primeira aula de francês. Ate hoje lembro da textura, do  formato, do volume e do vermelho da capa do livro. O professor chamava-se Monsieur Fidelis. Era alto, magro, uns 40 anos, usava calças largas, paletó xadrez com um lenço de seda no bolso e nem sempre combinava com a gravata. Alguma coisa nele hoje me faz lembrar o personagem Zé Bonitinho que imortalizou o seu criador Jorge Lorêdo. Nunca soube se Monsieur Fidelis era francês, mas agia como fosse. Tinha um enorme prazer em ensinar àquela turma de 40 adolescentes a pronuncia correta das palavras, a conjugação dos verbos e ainda lembro-me de suas aulas. Tive outros professores, mas nenhum tão marcante. Depois veio o tempo de “ter que” falar inglês e o francês ficou nas vozes de Piaf, Aznavour, Ténant, Mathieu, Becaud …

Este verão Roseline, francesa, casada com Joshua, filho da Mikie (Pousada Corsário e La Floridita), que mora na França onde é professora de francês para estrangeiros e de português para franceses, concordou em dar aulas para um grupo pequeno. Roseline tem uma didática incrível e também a chave da minha memória, pois na primeira aula diversas palavrinhas vieram à tona. Algumas até com pronuncia!  Estou feliz com esta redescoberta, pareço adolescente. Mamãe tinha orgulho em contar que sua avó era francesa. “Pariesiense” exclamava – e se a genética ajudar ainda terei tempo para aprender a falar razoavelmente a língua de Victor Hugo… Já soube de um curso ótimo pela internet, pois Aliança Francesa nem sombra neste sul da Bahia. Um prazer prá mim, uma homenagem ao meu irmão Victor que adorava falar francês e declamar a fábula da cigarra e da formiga no original Quem sabe eu chego lá, o texto já consegui.

La cigale et la fourmi, la Fontaine

La Cigale, ayant chanté
Tout l’été,
Se trouva fort dépourvue
Quand la bise fut venue :
Pas un seul petit morceau
De mouche ou de vermisseau.
Elle alla crier famine
Chez la Fourmi sa voisine,
La priant de lui prêter
Quelque grain pour subsister
Jusqu’à la saison nouvelle.
“Je vous paierai, lui dit-elle,
Avant l’oût, foi d’animal,
Intérêt et principal. ”
La Fourmi n’est pas prêteuse :
C’est là son moindre défaut.
Que faisiez-vous au temps chaud ?
Dit-elle à cette emprunteuse.
– Nuit et jour à tout venant
Je chantais, ne vous déplaise.
– Vous chantiez ? j’en suis fort aise.
Eh bien! dansez maintenant.

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Na foto do topo, eu em Toulouse, cidade onde mora a professora, na foto acima Joshua, Roseline e o pequeno Rafael em janeiro 2012.

Confissões inesperadas

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Na noite estrelada a beira do rio, sentada com amigas num restaurante falávamos de amores encantados. A lua crescente abriu os corações e segredos passaram a ser revelados. Uma das amigas contou sobre uma relação mágica, um amor enorme, repleto de impossibilidades. Quando ele morreu, durante algumas semanas ela rezou por sua alma, até o dia em que ele deu sinais além da existência e ela concluiu que era tempo de deixar na paz.  Voltei prá casa com a história na cabeça, amores proibidos são inesquecíveis e quando sobrevivem além da morte são mais tocantes.

Algumas semanas depois, na mesma mesa, com outro grupo de amigas falávamos sobre a atração que alguns lugares exercem sobre nós. Por mais que tentemos ir embora é como se nossos pés criassem raízes e fosse uma tarefa inútil tentar move-los. Vai-se e volta-se à mesma base.  E como em todas as conversas que envolvem mulheres tem um caso de amor, uma contou seu relato de um amor também encantado que a mantinha presa a um local e que agora tentava se libertar indo para bem longe. Outro amor surgiu e estava num ritmo de descobertas. Entretanto o amor antigo se fazia presente e no desenrolar da historia percebi que o homem em questão era o mesmo da historia que ouvi dias atrás na confissão da outra amiga.

Não falei sobre a coincidência. Pedi mais um copo de vinho e entendi aquela mesa como um confessionário, depositório de declarações de afeto sobre a mesma pessoa, mas com pontos de vista diferentes. Em cada historia o sentimento de um amor único, só seu. Voltei prá casa pensando como o amor se torna especial para quem vive. É exclusivo, feito sob medida para o seu coração. Não importa do lado que esteja, o amor chacoalha, mexe, eleva, enleva, sangra e faz explodir. Ora em ódio, ora se multiplica em mais amor. E seguiram as duas neste verão com suas memórias, sem se cruzar nem na calçada do mesmo restaurante, enquanto ele descansa em paz.

Foto : Cláudia Schembri

O que se faz por um amigo

Quando Akira chegou a casa, Xico já tinha 6 anos. Ele a respeitou como filhote, ela o incentivou a sair do marasmo da sombra da varanda e correr no quintal. Algumas vezes pensei que se ele falasse diria “lá vem aquela menina me tirar da boa vida”. Mas o que percebo é que um trouxe alegria para o outro. São de raças bem diferentes. Enquanto ele, um Golden Retriever vem de uma raça desenvolvida para tornar-se um cão de caça de aves aquáticas e selvagens, ela, Pastora Canadense, nasceu de uma variante do pastor alemão capa preta, ótimo policial, bem sucedido como animal de pastoreio.

Xico foi a praia a primeira vez aos 6 meses e sua relação com o mar foi imediata. Estava no seu habitat. Akira, arisca e ainda em processo de adestramento, só este verão começou a andar na praia, e nos últimos dias vi algo maravilhoso. Apesar de não ter a menor competência para o mar, entra na água com destemor atrás do Xico. Vai por causa do amigo, quer estar junto. Vendo os dois na brincadeira de pegar um pedaço de pau jogado a distancia, pensei em quantas vezes fiz coisas que nem gostava para agradar um amigo. Aceitei o convite para programas chatíssimos, ouvi casos cansativos, ri de velhas piadas, provei temperos estranhos, assisti filmes sonolentos, tudo para estar junto. E sei que a recíproca é verdadeira. Nem sempre sou a melhor companhia, mas confesso que mesmo se eu não soubesse nadar, daria um jeito de ficar um pouco no mar para estar com um amigo. Eles é que conhecem a minha trajetória. Um brinde aos amigos nestas fotos da Akira e do Xico.

Em tempo : a Xico está tosado por conta do verão.

 

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Quando acabar

Foto : Cláudia Perroni

Foto : Cláudia Perroni

Completou 3 anos a morte da mamãe e recebi um email do meu irmão consultando sobre o que fazer com o que sobrou do seu corpo. Nossa família não tem jazigo. Papai amealhou algum dinheiro na poupança, deixou uma casa e uma aposentadoria para mamãe. Teve uma boa vida, sem grandes luxos, mas com muito conforto e queria que mamãe mantivesse o mesmo estilo até o final. Pensou no seguro saúde, mas não pensou no jazigo, pois sua compreensão do espiritismo entendia que o corpo/matéria era passageiro. Ninguém teria que ir a um cemitério rezar por sua alma. Podia fazer no meio de uma boa conversa, assistindo a um jogo de tênis ou ao sentir o aroma de um bom fumo para cachimbo. Eram coisas que ele gostava.

Somos 4 irmãos morando em cidades diferentes e conversamos sobre questões familiares por email coletivo. Mas este me tocou ao pensar nos restos mortais da mamãe decidindo se vai para uma gaveta, se compramos um jazigo ou se vai para a exumação em ossário geral sem acesso futuro. Ela também não pensou sobre isso. Ao inverso do papai temia a morte e não acreditava em qualquer coisa depois do ultimo suspiro. Diversas vezes me pediu para conversar com Deus e pedir aos Santos por sua saúde. Durante um café da manhã, na pequena mesa da cozinha, em meio a uma conversa comparou a nossa vida como a de uma formiga. Fazendo o gesto de matar uma formiga com o dedo disse: “quando morremos é assim, acaba tudo”. Ah! mamãe tão pouco crente mas cercada de tantas imagens de santos e anjos em torno de sua cama. Partiu no susto, creio que se surpreendeu.

Que pese as diferenças filosóficas, papai e mamãe foram muito unidos e felizes. Passaram para os filhos a importância do afeto, dos amigos e da familia, da justiça e respeito ao semelhante, e sobretudo do profissionalismo. Cada filho tomou estas informações da forma que quis e colocou em sua vida. Quanto a definição deste assunto, assino a opção da maioria dos irmãos. Para mim, isso não importa. Quando for a minha hora se não der para cremar e jogar as cinzas no mar de Santo André, que esqueçam meu corpo embaixo da terra no cemitério de Mogiquiçaba. Minha alma vai agradecer que estes restos da matéria se desintegrem próximo ao mar, com um vento suave varrendo a terra. Não precisa de sepultura, apenas uma pequena lápide com a inscrição: Amor e Gratidão.

Engano

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Alguém está mentindo. O espelho ou o meu olhar, um dos dois não revela a verdade. Vejo a imagem refletida não tão robusta como gritam as roupas. Os quilos surgiram vagarosamente e creio irão embora no mesmo movimento, serão longos anos de regime e provação. Menos pudim de pão e cervejinha. Uma vez alguém me disse do perigo em usar roupa larga e calça comprida com elástico na cintura. Não se percebe e quando se vê nenhum jeans fica confortável. É quase como o pé solto na havaiana que depois reage ao sapato fechado.

Mas eu sei que tudo isso tem por trás a menopausa, uma bomba na vida das mulheres. Ontem falava sobre isso com uma amiga bem mais jovem que está com os incontroláveis calores que me faziam morrer de vergonha em plena reunião de negócios ou em momentos de sedução. Isso sem contar a chegada de uma irritabilidade na TPM que me levava a cometer enormes grosserias a troco de nada, ou chorar compulsivamente ao receber o convite para uma viagem ao exterior !

Ah! Menopausa… Na verdade um grito de “menos pausa” e mais correria contra o tempo que se foi. Impossível recuperar o tamanho 42. Os hormônios são bem mais poderosos… A única vantagem é que depois de um tempo, mesmo com a roupa apertando no corpo, o coração fica largo e recebe o que vem da vida com mais alegria.     

Mais leve

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“Pede desculpa”

A frase autoritária era tão marcante quanto a “engole este choro”. Mamãe sabia dar ordens e lá ia eu pedir desculpa por ter brigado com os irmãos, respondido atravessado para alguém mais velho ou qualquer outra atitude grosseira. Não fui menina briguenta, pedir desculpa era um processo de educação, respeitar o direito dos outros, limitar espaço e por essa razão não me lembro de uma só vez ter usado esta palavrinha na infancia com sentimento de pesar. Não havia culpa. Era como um arranhão na perna depois da queda de bicicleta. Passava mercúrio cromo e no dia seguinte não tinha mais nada.

No hard feelings, aprendi na maturidade a levar a vida em fogo brando. E aprendi também o sentimento do perdão, a reconhecer o erro por palavras que saíram pela boca sem passar pelo cérebro, rompantes emocionais, atitudes impensadas. Constatar o tropeção, o mau jeito, ajuda a crescer. E quanto entendi o que era perdoar, comecei a me livrar das culpas. Faço o melhor que posso e se tomei uma atitude incorreta, era o que sabia e podia fazer naquele momento. .

Na última década descobri “Um Curso em Milagres”, um livro com quase 1300 paginas composto por 3 partes : texto, exercícios e manual do professor. É um livro cristão que envolve temas espirituais universais. Esse curso é um começo, não um fim e nas primeiras paginas assim se apresenta:

“Nada real pode ser ameaçado.

Nada irreal existe.

Nisso está a paz de Deus.”

 Com o curso aprendi a me redimir completamente das culpas. As vezes passo semanas sem folhear suas páginas, mas em diversos momentos difíceis da vida lembro que se não me perdoam eu me perdoo. E quase todas as manhã repito a frase e me aprumo para as revelações do dia.

“Eu estou aqui só para ser verdadeiramente útil.

Eu estou aqui para representar Aquele que me mandou.

Eu não tenho que me preocupar com o que dizer ou o que fazer, porque Aquele Que me enviou me dirigirá.

Eu estou contente em estar aonde quer que Ele deseje, sabendo que Ele vai comigo.

Eu serei curado na medida em que eu permitir que me ensine a curar.”

 E a vida ficou mais leve.