O relógio

Às vezes penso no tempo, não o que passou, mas o que virá com as tantas coisas que ainda quero fazer. Esta noite sonhei que os ponteiros do meu belo relógio dourado tinham desaparecido. Eu chacoalhava o relógio e os ponteiros não voltavam. Ficaram só as horas e como não podiam ser marcadas o tempo não passava… Por alguns momentos me senti Alice caindo na toca do Coelho Branco da historia de Lewis Carrol, com as pernas balançando no ar rumo ao desconhecido. O que me tranqüilizava era saber que o meu relógio não era igual ao do medroso Coelho Branco que sempre está atrasado para alguma coisa temendo a bronca da Rainha de Copas e da própria Alice. E neste mundo dos absurdos que os sonhos nos levam, como que por encanto um amigo chegou e apertando alguns botões as horas mudaram de lugar formando um ponto de interrogação que ocupava todo o mostrador. E por mais que tentássemos colocar ao menos às horas em seu lugar a interrogação continuava desafiadora. Este processo está longe dos meus sentimentos em viver bem cada dia dentro da medida de onde estou e o que tenho prá fazer. Deixo o tempo acontecer, reparo nas marcas que ficaram com gratidão pelo o que representaram em minha vida… A interrogação é instigante e bem vinda em cada amanhecer, independente dos sonhos…

A Fé

José chega sozinho à missa aos domingos. Tem pouco mais de 7 anos e o conheço desde que nasceu, pois foi logo que vim morar na vila. É filho de Simone e do velejador Carlindo. Seu pai, nascido e criado em Vila de Santo Andre é quem melhor conhece os caminhos para as embarcações que vem por mar e entram no rio Joao de Tiba. Ele também leva os turistas à passeios maravilhosos, como subir o rio num fim de tarde e ver o show das maritacas cantando de volta pra casa, ou à Coroa Vermelha, um banco de areia e corais no meio do mar. Ele é uma doce criatura que ainda ensina a velejar.
Ontem quando fui comprar peixe à beira do rio encontrei Carlindo e contei da alegria em ver Jose compenetrado na missa aos domingos. Ele contou que o menino tem essa religiosidade, e mesmo que os pais não vão à missa faz questão de ir.
Carlindo relembrou que quando criança ouvia a mãe e a madrinha rezar. Um dia ele perdeu seu objeto mais precioso, o pião com o qual brincava todas as horas e com muita fé pediu ao Deus das orações da mãe que o brinquedo aparecesse. Encontrou e ficou feliz com sua crença. Alguns dias depois o seu primo, companheiro de brincadeiras, também perdeu um pião e ele sugeriu que pedisse à Deus. O primo achou que era bobagem fazer o pedido e nunca mais encontrou o pião.
A força da fé no Deus que salvou o pião, acompanhou Carlindo em tantos mares revoltos ao longo de sua vida. Fico refletindo em que momento a fé entrou em mim e não encontro um elemento material que pudesse simbolizar. Acho que a minha fé é como a de José, veio sozinha. É essência e vida. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Talking talking…

Nem me lembrava como são este dias de pre-mega evento, mas é como andar de bicicleta, a gente não esquece. Rapidamente se encontra o equilíbrio na agitação, por mais incoerente que possa parecer. É a volta ao habitat natural, sinto que meu gens é de grandes estréias, expectativas, adoro este clima, é a minha adrenalina.
Nas últimas 24horas reencontrei o cansaço de falar em outro idioma. Um test drive para os dias que virão. Nem sei a quanto tempo o tal do “inglês” estava guardado com carinho numa gavetinha por falta de uso. Ou preguiça. Mas como a necessidade é a melhor escola, rapidamente as portinhas abriram e as palavrinhas surgiram. A principio gaguejando, mas a cada frase uma ou duas novidades. Percebo que nada foi esquecido dos quase 3 anos que morei na América, apenas deixados como memórias antigas, brinquedos guardados. Vou tirando o pó, lubrificando, talvez não voltem a cor natural mas não perdem seu significado. Assim estou convivendo com esse tal de “inglês” pois frente a um israelense que nos visita não há outro jeito de contar quem é Roberto Carlos a não ser soltando a língua. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Grávida

Tem um bom tempo que não passo por aqui. Muito trabalho, muito texto e só um assunto : Jerusalém. Não consigo ser metade, quando entro num projeto estou inteira, grávida do tema. Há 3 noites sonho com as ruelas da cidade santa, com a via que une Tel Aviv a Jerusalém e até com pessoas falando uma língua que não entendo. Não sei se árabe ou hebraico. O caso é grave e a causa é justa. Enquanto aguardo no aeroporto a chegada de uma pessoa de Israel – so podia ser de lá !! – penso como adoro o que faço e a oportunidade de estar sempre frente ao novo. Bem vindos os desafios e os aprendizados que eles me trazem !! Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Saudades de Portugal

Na Serra da Arrabida !

Talvez o frio dos últimos dias em São Paulo, a madrugada de sexta-feira chegando aos 6 graus, me deu uma saudade danada de Portugal… A proximidade com o Tejo e o mar, fazem com que haja tanto vendo nas esquinas de Lisboa que dá vontade de ficar na ponta do pé, pegar impulso e sair voando apreciando a paisagem do alto… Morei quase um ano na cidade que quando cheguei achava que era velha como os meus avós, mas em pouco tempo conheci sua modernidade e frescor, mesmo andando por ruas estreitas com casarios antigos iguais ao interior de Minas. Afinal a arquitetura veio de lá…

Não pensei que fosse gostar tanto de Portugal. Tive a oportunidade de visitar 25 universidades em todo o país falando sobre o projeto Rock in Rio-Lisboa. Eu e Nuno viajávamos de carro pelas mais lindas estradas contando “causos”. Duas vezes na Universidade de Coimbra – a 2ª. mais antiga do mundo -, em Aveiros onde tem os famosos doces de ovos moles e ruas que são rias, ou seja, rios…Braga, Porto, Beja, Batalha, Setubal, onde conheci a Serra da Arrabida o lugar mais lindo de Portugal, e o país a fora… Não tenho CDs me acompanhando em viagens, nem mesmo no apartamento paulista. Tenho um pen drive onde salvo os meus textos e onde “salvei” as minhas melhores lembranças em forma de músicas. Selecionei estas músicas num fim de semana de muito frio em Lisboa. Fui fazendo download sem critério. Coloquei o que soava bem aos meus ouvidos, o que me trazia a lembrança da experiência de viver nesta cidade de cultura tão próxima e ao mesmo tempo tão distante. No arquivo que intitulei “Marilea in Concert”, compartilhando com minha querida amiga Mariangela Sedrez que também morava por lá naqueles tempos, tem de tudo. Do rock dos ótimos Xutos e Pontapés, a fados com Amalia Rodrigues, Maria da Fé, Dulce Pontes e Marisa, as canções românticas de Rui Veloso (o maior cantor português!), Luiz Represas, Pedro Abrunhosa e João Pedro Pais, e a maravilha do Madre Deus e seu incrível Rodrigo Leão de quem fiz um dos seus cds como meu disco de cabeceira…

Os tempos em Lisboa foram de uma vivência profunda. Hoje ouvindo Portugal neste “solinho” de inverno paulista, remexendo em uns textos daquele tempo, encontrei este que segue abaixo. Gosto de lembrar o que vida me deu de bom.. Thanks God !

Quinta-feira, Novembro 13, 2003

Morri. Foi o que pensei ao olhar pela janela esta manhã e ver que estava cercada de nuvens. Estiquei o pescoço e vi que o estacionamento e a pequena quadra de futebol na entrada do edifício haviam desaparecido. O Parque Bela Vista foi junto, assim como a linha de trem. Do alto do 15º andar eu estava nas nuvens. Será que quando a gente morre leva junto o cenário onde estava pela última vez? Será que estou no céu? Mas morri de que ? Parada cardíaca ? Ao menos não doeu…Fui até a janela da sala, depois na cozinha e a cidade inteira havia sumido… O Tejo, a ponte Vasco da Gama, os conjuntos residenciais, era tudo uma névoa só. Fiquei um bom tempo apreciando aquele nada e tomando consciência de que continuava viva em Lisboa. Menos mal… Depois das 8 da manhã o cenário foi abrindo, esboçou um solzinho, mas a temperatura vai ficar entre 13 e 18graus…
Este aprendizado de inverno europeu é interessante. É preciso entender o organismo e adaptá-lo para uma convivência pacífica. Um surto de gripe tem rolado na equipe, passando de um para outro há alguns meses… Neste último mês acompanhei a minha gripe, depois a do Daniel, a da Agatha no fim de semana e ontem o Roberto (Medina) caiu mais uma vez… Nós do lado de baixo do equador somos despreparados para o inverno… Não percebemos que dentro de casa está tudo quentinho com o aquecimento central e na hora de ir para rua damos mole. Aí vem um ventinho qualquer e catapow ! Lá vamos arder em febre… Às vezes vejo na rua turista com aquela cara de leste europeu. Pele muito branca, bochechas rosadas, vestindo bermudas e camiseta. Chego a tremer de frio com a cena. Mas tenho pensado que quanto mais a gente se protege, mais fica vulnerável a ataques de todos os tipos. É a defesa que chega antes mesmo do ataque, gerando um círculo vicioso. Se eu me defendo, sou atacado. Mas se me despojar de todas as defesas serei forte. Pois ninguém caminha pelo mundo em uma armadura sem que o terror esteja golpeando-lhe o coração. Vale isso não só para o frio, mas para a vida. Este despojar do medo faz com que se consiga realizar sonhos. Roberto tem mostrado que esse é o caminho. Lembro que no Rock I, no meio da maior correria, perguntei a ele se não tinha medo e respondeu que alguém precisava manter a calma. Este não medir obstáculos é que faz com que as dificuldades sejam superadas. Roberto não se arma não se protege nem ataca. Ele simplesmente acredita no seu sonho e conviver com uma pessoa assim é estar aprendendo a cada dia.  

Em casa

Estou há dois dias trabalhando num novo projeto sem sair do apartamento em São Paulo . Acordei muito inspirada na 3ª. feira, encarei as teclas bem cedo, avisei ao pessoal do escritório e quando dei conta estava quase na hora do almoço. E ainda vestida de pijama e roupão. Continuei escrevendo e quando vi estava noite. Já passei por um processo desses e é mesmo assim, absorvente, dedicação total, alienação do que está do lado de fora. Hoje acordei e voltei ao computador até três da tarde quando constatei que ninguém no edifício notou que há dois dias eu não passara pela portaria. Tenho horários bem estabelecidos, aviso quando viajo e os porteiros nem notaram a minha ausência. Penso nas pessoas que vivem sozinhas, algumas morrem e só muito tempo depois encontram o corpo. Nascer e morrer são atos solitários, mas não precisamos levar ao pé da letra. Fico bem sozinha. Escrevo no silêncio, às vezes ouço o Adagio de Albinoni outras os Noturnos de Chopin, sempre alguma musica suave. E vamos combinar que é praticamente impossível estar fora do mundo quando se está conectada a internet, ligada no skype e no MSN. Mas a experiência destes dias me fez refletir em quem se importa com quem… E numa cidade tão grande como São Paulo as pessoas passam rápidas… Penso que o mundo está preocupado em postar um alô no facebook e mandar emails com novenas ou piadas. E enquanto refletia sobre o assunto, fazendo uma análise psicológica do indivíduo perante a sua solidão, escutei um grito do apartamento ao lado. Era a vizinha, uma viúva solitária, apaixonada por futebol, comemorando a vitoria do futebol feminino.

– Elas ganharam, elas ganharam !! Foi três a zero !!!

Os porteiros devem ter ouvido. Nada como ter alguma coisa para gostar e ocupar o tempo. Volto para as teclinhas, meu trabalho continua.

Sem prazo de validade

Na beira do rio enfeitado com bandeirinhas, o forró comendo solto no alto falante, os jovens dançando quadrilha, uma amiga paulista que tem casa na vila confessa a tristeza de não ter realizado o sonho de ser bailarina.  Quase chegando a casa dos 50 percebe que dançar na ponta do pé tinha prazo de validade. O assunto surgiu por conta do filho que tirou um tempo para viver uma experiência que os pais sabiam que não tinha futuro.  Deixaram que ele descobrisse por si que viver nessa vila de pescadores para um jovem formado, bem nascido e criado, fazia parte de uma rebeldia passageira. Alguns anos para amadurecer e voltar pra civilização com experiência em passeios por trilhas selvagens, conhecimento das marés e sobrevivência em área de grande diversidade social. No futuro ele não ira lastimar a falta de vivência do sonho como a mãe.
Refletindo sobre a conversa de ontem, aproveitando o pouco de sol e mar, percebo que meus sonhos não tem prazo de validade. Tudo o que desejo ainda esta em tempo. Faço uma pequena lista : escrever um livro, ler sem óculos, aprender a cozinhar algo inesquecível para os paladares mais apurados; acabar uma colcha de crochê, andar mais vezes de bicicleta, emagrecer 10 quilos. Saber escrever para teatro, começando por um monólogo; morar “ad eternum” em Sto Andre; ter uma vespa ou outro tipo de veículo de 2 rodas para ir ate a balsa, arrumar todas as gavetas e pastas com documentos, ver mais vezes o dia acabar com as andorinhas correndo no céu como se fosse um monte de papel queimado solto no vento. Decorar as letras de “Ne me quittes pás” e “Non, je ne regrette rien” com francês perfeito. Aos 70 bordar e escrever muito… Costurar e cansar de tanto blogar… Depois dos 80 reler alguns livros como “100 anos de solidão” (será que não vou me enrolar com tantos personagens?) e toda coleção do Monteiro Lobato. Talvez possa contar historias para crianças que não tenham Ipad.  Inspirada na bela Edoarda Casadei que se foi com bem mais de 80, ir a praia com o sol nascendo e tomar banho de mar só de calcinha sem causar espanto.
Tudo é possível quando os desejos não envelhecem. Podem ser simples e eternos como conseguir doações de amigos para fazer uma quadrilha na festa junina e agradecer a Ju Braga, Jorge Roberto Martins, Ana Veronica Mautner, Eleonora Santa Rosa, Andréa Pitta e Nel, amigos meus e da vila que atenderam ao pedido… A foto da Cláudia Schembri mostra a alegria antes de começar a quadrilha…

Rapidamente

Em menos de 6 meses o velho barco encalhado na praia foi desaparecendo. Era uma peça decorativa, descanso para os caminhantes, uma imagem bucólica. Quase não o encontrei. Foi coberto pela areia e a vegetação nativa se espalhou.
Como tudo na vida que se abandona, um dia desaparece. Desmaterializa no tempo, some das lembranças. No verão ninguém vai mais lembrar, será apenas um monte de areia. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

O que não da pra ver

Eu sei que a câmera do celular não revela na foto a delicadeza e todas as nuances que vi de um pequeno pesqueiro no mar azul cercado por gaivotas. Assim como na vida, nem tudo é visível, fotografável, registrável de forma estática. Sutilezas se encontram nas relações afetivas que de fora consideramos sólidas mas desmontam como os ondas na praia. Se espalham na areia, desaparecem como se nunca tivessem sido ondas altas, encarapitadas, amedrontadoras.
Impossível imaginar o que se passa com o outro. Ah! a mente, esta senhora de respeito e surpresas! Hohe um amigo bem casado telefonou cedo pedindo emprestado o modem. A mesa do café ainda estava posta quando chegou. Ofereci um cafezinho, ele sentou e contou a recente separação. Quase 20 anos e tudo foi para o brejo. Cansou, deteriorou e cada um vai seguir as novas revelações que a vida traz. Os budistas acreditam que quanto mais erramos maiores sao os desafios. Vamos apanhando ate aprender. Descobri com o tempo que muitas vezes quando a vida coloca um desafio em nossa frente, é o momento de tomar outro caminho, aprender algo novo. Se não vamos por bem, vamos por mal, ja dizia vovó.
Na claridade deste inverno no sul da Bahia que é a coisa mais linda do mundo, aproveito para expandir esta luz aos que passam por transformações em suas vidas. Que haja clareza e paz para enxergar novos tempos com os olhos da alma. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

A 2 passos do paraíso

Acordei sem saber a hora. Tentei adivinhar pela intensidade do sol que entrava pela janela e iluminava a cama. O cantar dos passarinhos, o barulho das ondas, o balanço das folhas das árvores, sem qualquer outra interferência sonora. Lembrei da musica do Evandro Mesquita, realmente estou a 2 passos do paraíso. Fiquei me espreguiçando, esticando dos pés a cabeça, cada pedacinho do corpo. Certa vez mamãe revelou uma intimidade do papai : ele se esticava todo antes de sair da cama, pois nenhum animal saía da cama correndo. Foi nesta época que ela também contou que fazia o mesmo em frente do grande espelho no banheiro, mas nos últimos tempos se sentia ridícula ao ver seu corpo magro refletido. Podia contar as costelas.
Sigo a tradição da família de espreguiçar enquanto penso sem pressa nas horas sem pressa. Creio que so quando estivermos chegando ao paraíso a vida deixa de ter pressa. Nada mais importa a não ser esta paz, o sol morno e a certeza de que tudo podia ficar assim, sem cheque especial, inflação, infiltração na varanda, metas a cumprir, engarrafamentos, desafios. E para esquecer de tudo faço a pequena prece do dia “Sou grata pela noite que passou e mais um dia que tenho para cumprir a minha missão. Eu estou aqui so para fazer aquilo que tem que ser feito. Não tenha nada a temer pois sei que Ele vai comigo. Que eu possa abençoar cada pessoa que passar por mim neste dia. Que eu seja amorosa, paciente, alegre e viva feliz todos os momentos. Obrigada. ” E por que hoje é domingo e faz sol vou ver a vida, praticamente no paraíso. Enviado do meu BlackBerry® da TIM