A árvore de almescla foi morrendo aos poucos. Durante alguns anos uma parte ficou saudável e a outra seca, até que veio uma grande chuva e a ventania jogou abaixo os galhos verdes prenunciando o seu fim. Ficou apenas o tronco seco com quase 2 metros de altura. Um dia colocamos fogo, mas restou o toco que a semana passada foi por terra com machadadas. Fizemos uma pequena fogueira e durante um dia a madeira foi se consumindo e perfumando o quintal. Ontem, sentada no pátio com noite estrelada, chegou um vento suave, mexeu nas cinzas e pequenas chamas surgiram… Fiquei fascinada olhando aquele fogo e refletindo sobre quantas vezes acreditei que um sentimento estava apagado mas bastava assoprar um pouquinho para reacender. Tanto o amor como a mágoa voltam a incendiar quando não foram extirpados, quando ainda não viraram cinza, como foi o caso da almescla. Aproveitei a solidão com o silencio da noite para passar em revista algumas alegrias e tristezas, um bom exercício para o fim de ano. Fui separando os sentimentos, alguns achei que ainda poderiam ser inflamáveis, outros percebi que estavam ignifugados, livres de incêndio. E com a pequena luz da lua nova, guardei os amores para que sempre se acendam, e coloquei, mágoa por mágoa, dor por dor, para queimarem na pequena fogueira…Hoje recolhi as cinzas e coloquei na caixa de compostagem, misturei com as folhas secas, com os restos de cascas de frutas e legumes, e tudo vai virar terra. Aqui nada se perde, a vida e nós nos transformamos a cada dia. Com isso a casa está arrumada. Pode chegar 2012 e seja muito bem vindo !
Em tempo : quando vim morar na Bahia não sabia distinguir uma almescla de um pau-brasil. Mas aprendi bastante, tenho algumas almesclas no quintal, é uma árvore da Mata Atlântica e do seu tronco escorre uma seiva perfumada que usam para fazer incenso. Esta seiva é facilmente inflamável e por isso quando há um incêndio na floresta, a primeira árvore a queimar é ela…









