Vizinhos

Era fim de tarde, hora em que as maritacas voltam prá suas casas anunciando  que a noite vai chegar, que interrompi um texto ao ouvir um grito. Antes de me dar conta de onde vinha, o silêncio foi novamente invadido por mais gritos de prazer, em uma altura tal que parecia terem colocado microfones no quarto reproduzindo para toda a vizinhança os gemidos de amor

A minha primeira preocupação foi com os cães que costumam latir com qualquer barulho diferente e poderiam interromper o colóquio. Mas diante da pouca importância deles ao fato, fiquei calculando em qual apartamento o casal estaria hospedado na pousada ao lado da minha casa. O que menos importava é se estavam no apartamento de cima ou no de baixo, e o que me chamava atenção era a volúpia do som inusitado. Não que as pessoas não se amem em férias à beira mar – e como se amam! – , mas jamais ouvi sexo estereofônico na vizinhança.

Hoje na praia fiquei tentando identificar qual  dos dois casais hospedados na pousada seria responsável pela festa no fim de tarde. Um casal é mais comportado, na faixa dos 30 e tantos anos, ela loura com pernas brancas e finas, maiô inteiro, com um livrinho de sudoku nas mãos sentada na sombra; ele com uma sunga cor de vinho, cabelos curtos e escuros, uma suave barriguinha, jeito de gerente de banco. O segundo casal tem perfil mais jovem, ela usa um biquíni reduzido, longos cabelos escuros, o rapaz é moreno com sunga moderninha, e jogam frescobol. Fiquei olhando o comportamento de ambos e na incapacidade de identificar quem se derreteu de paixão no dia anterior, fico torcendo para que os sussurros e gemidos tenham sido de libertação da comportada trintona com cara de professora de inglês.  Aí sim teriam valido estes dias na praia e quem sabe o ano que vem não a encontro de biquíni.

A 1a. impressão

Não há uma 2ª. chance para se deixar uma 1ª boa impressão. Lembrei disso andando pela praia ao ver o mar cor de coca-cola. Este não é o meu mar, mas também pode ser algumas vezes depois de muitos dias de chuva. O Rogério Paixão, da Pousada Ponta de Santo André, foi pescador por muitos anos e explicou que como nessa região tem uma grande plataforma continental  sem muita profundidade, com alguns rios desaguando no mar, quando entra um vento nordeste para afastar o vento sul o mar se remexe. Com isso uma espécie de lodo que há no fundo, perfeito para a criação de camarão, sobe para a superfície e somado as águas que descem das cabeceiras do rio, o mar fica com esse tom, que não é normal.

Quando Ricardo Freire www.viajenaviagem.com  esteve aqui pela primeira vez encontrou o mar assim e ficou desapontado. Nos comentários que fez em um de seus livros sobre Vila de Santo André disse que a vila era linda, mas o mar… E hoje pensei exatamente sobre isso, na impressão que os turistas que passam por aqui pela primeira vez irão levar e sobre a impressão que as pessoas podem ter de mim ao me conhecer num rompante de “rodar a baiana”.  Já não sou mais ventania, sou um vento suave, mas ainda posso fazer barulho. Tenho a impressão que tenho uma cara que acredito ser a minha, e esta ainda não passou dos 35 anos. Outra cara como as pessoas me vêem, e ainda uma terceira que é a real e no momento tenho duvidas se ela existe. Mas de todos esses jeitos sou na essência dias de mar azul, outros verdes e quando mexem muito no fundo, sou cor de coca-cola.

Procuro

Em Larchmont, NYC, maio 82

Procuro um amigo bem humorado, afetuoso, sensível à arte, sempre com muitas histórias prá contar… Ele tem paladar sofisticado, sabe silenciar na hora certa, é capaz de esquecer o tempo passar olhando alguma paisagem pela janela, encaracolando os cabelos e refletindo sobre a vida. Um sonhador. Apaixonado por novos projetos, repleto de idéias que expressa com um brilho nos olhos como se tivesse descoberto o caminho para as Índias.

Este amigo querido abriu a sua casa em New York para me receber “pelo tempo que quiser”. Foi ele quem me ensinou a andar pelas ruas de Manhattan, os caminhos do metrô, me levou aos lugares mais charmosos, aos museus, me apresentou aos subúrbios e foi a primeira pessoa a me mostrar nos anos 80 um computador na vitrine de uma loja na 6ª. Avenida.

No tempo do Beco das Garrafas ele era iluminador dos shows nas pequenas boates. Dizem que o termo “bicão” foi inspirado nele que colocava “um bico de luz” para dar mais brilho ao artista no palco. Não havia produtor, mas ele era um faz tudo, ficava em volta ajudando os artistas. Foi assim que conheceu pessoas incríveis e entre essas, Elis Regina, de quem se tornou grande amigo. Em janeiro de 82 eu estava em sua casa e no café da manhã ele contou que sonhara com “a baixinha”, como a chamava. A noite quando voltou do trabalho comentou que havia telefonado para o Brasil, mas so conseguira falar com Rogério, irmão da cantora. No dia seguinte acordei com o telefone tocando, era um amigo avisando sobre a morte de Elis.

O meu amigo aprendeu inglês lendo revistas e capas dos antigos LPs com um dicionário ao lado. Selecionava meia dúzia de palavras por dia e ficava decorando. Desde o final dos anos 70 vivia na ponta aérea com os Estados Unidos.  Foi ele quem levou Leny Andrade para cantar pela primeira vez no Blue Note em Nova York, o que gerou uma crítica deslumbrante no The New York Times… Lembro que ficamos uma madrugada andando por Manhattan, passando de bar em bar, esperando a hora de ir para a porta do jornal comprar o primeiro exemplar e nos deliciar com os comentários elogiosos à diva Leny que hoje tem lugar garantido em todos os palcos do mundo…

Com ele compartilhei muitas gargalhadas, choramos de tanto rir… Com ele  me debulhei em lágrimas de tristeza e saudades de amores mal sucedidos. Ai Zé, por onde você anda ? Quem tiver notícias de José Luiz de Oliveira, ou simplesmente Zé Luiz, sou grata…Dos amigos não abro mão…

Fiz esta foto saindo do Blue Note : Zé ao lado da Lali Jurowsky, bem atrás de Leny Andrade com seus músicos.

O ciclo

Em maio do ano passado uma amiga veio passar o fim de semana em minha casa e trouxe de presente um vasinho com orquídeas. Durante alguns meses as flores alegraram a minha varanda até saírem voando, pétala a pétala, e restar apenas a folhas verdes bem vivas que transportei para um xaxim e pendurei numa árvore de murtinho. Com um pouco de sol e otima vizinhança de samambaias, quando voltei para casa em setembro deste ano reencontrei o xaxim em flor. As orquídeas voltaram tão ou mais bonitas que as do  passado. Elas me olham e sorriem enquanto estou na rede ou quando ando pelo jardim. Hoje, no entanto, percebi uma pétala no chão. Não sei se orquídea tem pétala, mas uma de suas flores estava em fase de desmanche. Percebi que as que ficaram ja não sorriem do mesmo jeito. Estão ficando opacas, perdendo o vigor.  Tanto em flor como em gente o processo é igual. Não se brilha para sempre, mas se renasce com mais beleza.

Reflexões no café

Na falta de jornal para ler, tomo café da manhã olhando os passarinhos que ciscam as sobras do meu mamão colocado em uma das “praças de alimentação” do jardim. Hoje, no vai e vem dos passarinhos, percebi que um deixou a fruta e estava com outra coisa no bico. A princípio parecia uma folha, mas se passarinho comesse folhas as arvores do jardim seriam apenas galhos secos. Fixei mais os olhos e percebi que estava devorando uma mariposa, cheguei a ver uma asinha se soltar e ser levada pelo vento. Não imaginei que a lei da sobrevivência dos pássaros chegasse ao ponto de atacar uma “voadorazinha” como ele… Longe de ser um ato antropofágico era descaradamente a lei do mais forte sob o mais fraco.

Esta semana Amale, uma amiga que mora em Santo Antonio, um povoado aqui do lado,  contou que uma galinha do seu quintal estava chocando os ovos e um belo dia surgiu um pintinho. Sairam mamãe e filho pelo terreno, esquecendo que ainda tinham outros ovos a serem chocados. Preocupada com o abandono, Amale pegou outra galinha e colocou na função de chocadeira. Todo o dia ela passava pelo galinheiro e a galinha convidada ali estava sentada nos ovinhos. Mas já era tempo dos pintinhos terem nascido, quando minha amiga foi saber a razão viu que a galinha substituta estava comendo os ovos que fingia chocar…

Essa é a lei da nossa pequena selva. A competição, a inveja, a disputa acontece em todos os níveis. E em tempo que voador come voador e galinha de aluguel come os ovinhos, creio que nada mais me espanta. Utilizo estas cenas simples do cotidiano, um olhar atento para o que está a minha volta, para concluir que considero possível qualquer gesto humano.Não é o final dos tempos, é o início dos tempos de acreditar que cada um dá apenas o que tem.

Vento sul

Quando entra o vento sul, quem mora perto do mar sabe o que significa. O vento sul chega para mim como a imagem de um batalhão de cavaleiros, vestindo bombachas, facão na bota e chicote na mão cavalgando em alta velocidade derrubando os galhos das árvores e trazendo não a poeira da estrada, mas a chuva fina… Vão passando e deixando galhos secos no chão, árvores caídas, folhas trituradas e barcos se batendo no porto…

Quando entra o vento sul significa ficar em casa, fechar portas e janelas, ouvir o sino dos ventos na varanda tocar insistentemente novas composições, procurar o que fazer para ocupar o tempo. Arrumar gavetas, fazer cortinas, voltar a ler o livro que sobrou da última viagem, retomar os quadradinhos para uma colcha de crochê, colocar ordem no desktop do notebook que parece porta de loja de R$1,99 com tanta informação. Ler os posts de todos os amigos no FB, e isto inclui ver todos os vídeos, assistir filmes na TV.

Quando entra o vento sul o telefone fica mudo, a praia deserta e o mar revolto  traz o lixo e derrama na areia…É tempo para examinar os resíduos, sejam os do mar sejam os dos meus pensamentos em dias onde quase não se tem com quem falar. Converso com meus botões, organizo os projetos de vida, coloco ordem e prioridade: os que dependem apenas do meu empenho, os que precisam de um esforço maior e os muito difíceis – não impossíveis – quem sabe com um belo empurrão de Deus aconteçam…

Adoro quando entra o vento sul, é tempo de repensar…

O relógio

Às vezes penso no tempo, não o que passou, mas o que virá com as tantas coisas que ainda quero fazer. Esta noite sonhei que os ponteiros do meu belo relógio dourado tinham desaparecido. Eu chacoalhava o relógio e os ponteiros não voltavam. Ficaram só as horas e como não podiam ser marcadas o tempo não passava… Por alguns momentos me senti Alice caindo na toca do Coelho Branco da historia de Lewis Carrol, com as pernas balançando no ar rumo ao desconhecido. O que me tranqüilizava era saber que o meu relógio não era igual ao do medroso Coelho Branco que sempre está atrasado para alguma coisa temendo a bronca da Rainha de Copas e da própria Alice. E neste mundo dos absurdos que os sonhos nos levam, como que por encanto um amigo chegou e apertando alguns botões as horas mudaram de lugar formando um ponto de interrogação que ocupava todo o mostrador. E por mais que tentássemos colocar ao menos às horas em seu lugar a interrogação continuava desafiadora. Este processo está longe dos meus sentimentos em viver bem cada dia dentro da medida de onde estou e o que tenho prá fazer. Deixo o tempo acontecer, reparo nas marcas que ficaram com gratidão pelo o que representaram em minha vida… A interrogação é instigante e bem vinda em cada amanhecer, independente dos sonhos…

A Fé

José chega sozinho à missa aos domingos. Tem pouco mais de 7 anos e o conheço desde que nasceu, pois foi logo que vim morar na vila. É filho de Simone e do velejador Carlindo. Seu pai, nascido e criado em Vila de Santo Andre é quem melhor conhece os caminhos para as embarcações que vem por mar e entram no rio Joao de Tiba. Ele também leva os turistas à passeios maravilhosos, como subir o rio num fim de tarde e ver o show das maritacas cantando de volta pra casa, ou à Coroa Vermelha, um banco de areia e corais no meio do mar. Ele é uma doce criatura que ainda ensina a velejar.
Ontem quando fui comprar peixe à beira do rio encontrei Carlindo e contei da alegria em ver Jose compenetrado na missa aos domingos. Ele contou que o menino tem essa religiosidade, e mesmo que os pais não vão à missa faz questão de ir.
Carlindo relembrou que quando criança ouvia a mãe e a madrinha rezar. Um dia ele perdeu seu objeto mais precioso, o pião com o qual brincava todas as horas e com muita fé pediu ao Deus das orações da mãe que o brinquedo aparecesse. Encontrou e ficou feliz com sua crença. Alguns dias depois o seu primo, companheiro de brincadeiras, também perdeu um pião e ele sugeriu que pedisse à Deus. O primo achou que era bobagem fazer o pedido e nunca mais encontrou o pião.
A força da fé no Deus que salvou o pião, acompanhou Carlindo em tantos mares revoltos ao longo de sua vida. Fico refletindo em que momento a fé entrou em mim e não encontro um elemento material que pudesse simbolizar. Acho que a minha fé é como a de José, veio sozinha. É essência e vida. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Talking talking…

Nem me lembrava como são este dias de pre-mega evento, mas é como andar de bicicleta, a gente não esquece. Rapidamente se encontra o equilíbrio na agitação, por mais incoerente que possa parecer. É a volta ao habitat natural, sinto que meu gens é de grandes estréias, expectativas, adoro este clima, é a minha adrenalina.
Nas últimas 24horas reencontrei o cansaço de falar em outro idioma. Um test drive para os dias que virão. Nem sei a quanto tempo o tal do “inglês” estava guardado com carinho numa gavetinha por falta de uso. Ou preguiça. Mas como a necessidade é a melhor escola, rapidamente as portinhas abriram e as palavrinhas surgiram. A principio gaguejando, mas a cada frase uma ou duas novidades. Percebo que nada foi esquecido dos quase 3 anos que morei na América, apenas deixados como memórias antigas, brinquedos guardados. Vou tirando o pó, lubrificando, talvez não voltem a cor natural mas não perdem seu significado. Assim estou convivendo com esse tal de “inglês” pois frente a um israelense que nos visita não há outro jeito de contar quem é Roberto Carlos a não ser soltando a língua. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Grávida

Tem um bom tempo que não passo por aqui. Muito trabalho, muito texto e só um assunto : Jerusalém. Não consigo ser metade, quando entro num projeto estou inteira, grávida do tema. Há 3 noites sonho com as ruelas da cidade santa, com a via que une Tel Aviv a Jerusalém e até com pessoas falando uma língua que não entendo. Não sei se árabe ou hebraico. O caso é grave e a causa é justa. Enquanto aguardo no aeroporto a chegada de uma pessoa de Israel – so podia ser de lá !! – penso como adoro o que faço e a oportunidade de estar sempre frente ao novo. Bem vindos os desafios e os aprendizados que eles me trazem !! Enviado do meu BlackBerry® da TIM