Sexta-feira

Esta sexta-feira me peguei com uma vontade louca de voltar pra casa, como se fosse uma empregada doméstica que só tem folga no fim de semana. Remexendo nos pensamentos percebo que estou em crise de teto. Não sei se minha casa é em Sao Paulo onde trabalho ou na Bahia onde, como diria Zé Rodrix “plantei meus discos, meus livros, amigos” e tudo mais. Nestes tempos em que se carrega num pen drive a trilha sonora da vida, num tablet alguns livros e se fala toda hora com muitos amigos via FB e twitter, a poesia do Zé ficaria fora de jeito. Mas a questão é muito mais de sentimento do que de fato.
As vezes penso que deveria resolver que moro em SP e tenho casa de praia na Bahia, talvez aliviasse a crise de teto. Mas enquanto não me resolvo, faço como nas boas sextas quando estou paulistana: janto na casa da Cacaia. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

As mãos

Antes de desligar o abajur coloquei o livro na mesa de cabeceira e a luz amarelada, única no quarto, deu destaque às minhas mãos revelando manchinhas e rugas. Passei alguns minutos olhando para as mãos estendidas no ar e pensando sobre elas… Lembrei do monólogo escrito por Ghiaroni imortalizado por Procópio Ferreira, repetido e aplaudido por Bibi Ferreira, que começava Para que servem as mãos?”

Não estou agora me importando prá que elas servem, mas a razão por ter dormido com este sentimento das mãos estendidas ao alto e a lembrança voltar ao ler no FB sobre um fotografo que passou 36 anos fotografando 4 irmãs para mostrar como o tempo age … Fui no site que tem as fotos  muito lindas… Um profissional sensível, o tempo passou para estas irmãs, fico aqui a imaginar as historias e os encontros para estes links e viajo num filme, num livro…  Parecem felizes e dignas com os anos passados…

Quem procura defeitos, problemas, acaba encontrando… Estou começando a desacelerar o olhar para tudo isso… Vou procurar uma outra forma de  pensar nas quantas coisas boas as minhas mãos  fizeram em minha vida e menos na forma… Vou para o conteúdo de quantas mãos apertei, quantas pessoas conheci, quanto escrevi, quantos acenos, quantos aplausos… Elas estão ágeis, é a glória ! E esta noite quando for desligar o abajur, vou dar mais uma olhada nas manchinhas e ruguinhas com enorme gratidão…Elas contam a minha trajetória…

Mamãe mamãe mamãe

Mamãe e Bernardo no Central Park, NYC, 1981.

Num domingo das mães resolvi fazer o almoço em casa. Família convidada, cardápio caprichado, flores enfeitando a mesa posta com a melhor toalha, louça e talheres. Criativa, resolvo fazer uma surpresa: peço ao porteiro para avisar quando mamãe estiver no elevador. Deixo tudo preparado e quando o interfone chama, ligo o som que já estava programado. Resultado : uma choradeira de filhos e mães…

Hoje fica só a choradeira da filha … Ouvindo o link abaixo…

 http://www.youtube.com/watch?v=ZJeUU8QnPSU

Caixinha de música

Ele já estava atrasado para pegar o vôo, mas enquanto arrumava algumas coisas na mesa, guardava o Ipod e o notebook, ia repassando o que tenho pra fazer nas próximas semanas, quando abriu a gaveta e encontrou uma pequena caixinha preta. Colocou na mesa, continuou arrumando os papéis, falando e por uma fração de segundos deixou de pensar nas centenas de coisas/projetos/responsabilidades que o acompanham destampou a caixinha e eu bem curiosa estiquei o olho para ver o que tinha dentro: uma pequena caixinha de música.

Sou apaixonada por caixinhas de musica, já escrevi sobre isso https://leapenteado.com/2010/07/30/outra-encadernacao/ e apesar de sermos amigos há mais de 20 anos ele não tinha a mínima idéia do que esta pequena caixa podia tocar o meu coração nesta sexta-feira.  Viajei no tempo… Cabelos compridos de trança, carta para o Papai Noel : uma caixinha de música… Não veio neste tempo, conquistei com a vida… Ainda fui o acompanhando até o elevador, discutindo os últimos detalhes dos tantos projetos que temos a frente, ao mesmo tempo em que tocava  “Let it be… let it be”…   Valeu  Dody Sirena, o  brinde da Lereby, produtora do Daniel Filho, está na minha mesa…

Os Vital Brazil

Eu tinha 1 ano quando ele morreu e cresci ouvindo falar do vovô Vital, uma lenda que ia muito além da foto no álbum, onde aparecia elegantemente vestido e sentado ao lado de vovó Dinah. As minhas melhores lembranças de férias na infância estão ligadas diretamente a esta família, a casa tão grande, quase um sitio em Niterói ao lado do laboratório (hoje Instituto) e do bairro que leva seu nome: Vital Brazil. Memórias da casa de meus padrinhos Eliah (Vital Brazil) e Álvaro (Protásio) no bairro das Laranjeiras, repleta de primos e apesar do barulho da garotada tinha alguma coisa de silencioso no ar. Talvez o jeito calmo e manso dos meus padrinhos em conduzir seus 11 filhos.

 Nesta casa cercada de árvores, como muitas salas, tinha uma especial, onde estavam expostos objetos e documentos do vovô Vital distribuídos com cuidado em uma escrivaninha, estantes, quadros e aparadores.  Eu ficava horas admirando as relíquias, um verdadeiro museu. E hoje quando vi esta foto postada no FB feita no almoço da família ontem em Niterói, foi voltar ao tempo e lembrar uma historia antiga de amor e amizade…

 Minha avó Déa nasceu em Curitiba, ali vivia com os pais e quando jovem tinha uma amiga chamada Dinah, cuja mãe havia morrido. E não é que a vovó se apaixonou pelo viúvo, pai da melhor amiga? Um escândalo! “Como casar com alguém com a idade do seu pai e ainda por cima com filhos prá acabar de criar?” Mas Déa foi firme, casou com Paulo e, algum tempo depois, Dinah, para escândalo ainda maior, casou com um homem quase da idade do seu avô. O marido de Dinah era o cientista Vital Brazil, também viúvo com muitos filhos. Déa e Dinah tiveram filhos quase ao mesmo tempo.  Déa enviuvou primeiro, costurava para os seus filhos e para os de Dinah …Se consolaram nas perdas, comemoraram as conquistas, nascimento de netos e bisnetos. Dinah generosa deu uma casa prá Déa e partiu primeiro. Esta relação de carinho – amizade se perpetuou nas gerações… Como dizia papai “são os Vital Brazil” e gostei de ver a foto do vovô Vital feita por sua bisneta Inês Lampreia tendo com a modelo a trineta Maria Carolina. E viva a família !!!

quase maio

O mês de maio sempre foi de festas em casa : dia 5 era aniversário da mamãe e no domingo seguinte dia das mães. Este vai ser o segundo ano que a festa acabou, e reencontrei um texto que escrevi no penúltimo encontro que tive com ela… Patético, inesquecível…

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Caminho de casa

 Vi o dia nascer no aeroporto de Confins, vejo o dia acabar a caminho do aeroporto do Galeão. Um risco rosado no ceu azul de verão avisto enquanto o carro vai pela Linha Vermelha e sinto o indefectivel cheiro de enxofre, ou de podre, mas que tanto marcaram minha saídas e chegadas do Rio.
Não sei expressar como estou. Ou sou muito forte ou tão fragil que me escondo em um personagem. Talvez em algum momento eu desabe. Estou exausta. Sai de casa no sul da Bahia, atravessei na balsa de 1 da manhã, peguei um voô às 3h30 para BH, depois outro às 7h40 para o Rio, depois até as 14hs com minha irmã para a visita na UTI e encontrar mamãe dormindo.
“Não mamãe, isso não. Acorde só um pouquinho pra me ver.” O corpo magrinho coberto por avental. Onde estão as lindas camisolas que papai presenteava e sempre repetia a mesma piada : “pedi para a vendedora experimentar para ver se ficava bem”. Esse era o maximo de insinuação de sensualidade que ouvi em casa. E hoje mamãe esta envolta em panos. Os braços presos a cama transpiram muito. Estranho, só os braços, como se um liquido em forma de suor fosse saindo do corpo apesar do frio do ar condicionado. As mãos estão inchadas com as tantas picadas para injetar soro. Penalizada com a cena rezo em silêncio implorando para mamãe acordar. Ela não escuta. Insisto mais um pouco, agora chamando quase que em seu ouvido e aos poucos vai despertando. Vejo na máquina sob a cama que aumentam muito os numeros marcando o batimento cardiaco ao me ver. Desculpe interromper seu sono, mas filhos querem sempre atençao e eu não poderia voltar pra casa sem falar algumas coisas. Lucida ela presta atenção às graças que falo. Posso ate ouvir sua voz dizendo ” uma palhaça” seguido de um risinho curto. Mamãe nunca foi de exteriorizar sentimentos. Continuo falando, meus irmãos falam tambem, fazem sinais e ela se mexe na cama querendo sentar. Ainda não dá mamãe. O enfermeiro avisa que o tempo da visita esta acabando. Ainda faço uma prece em voz alta. Dou um beijo e ela balbucia : Deus te abençoe. Eu respondo : Deus te abençoe tambem, eu te amo.
Volto pra casa e ja não sei quando nos veremos de novo. Por enquanto mamãe ficamos combinado que vamos nos ver qualquer dia. Não mais no Natal nem no seu aniversário, nem no Dia das Mães…

O meu amigo Lula

Tempos VS : Felicia Brafman, eu, Lula e Silvana Grendene.

Na última semana a secretária de um amigo me procurou via FB. Posso até vê-lo dizendo: “quero falar com a Léa Penteado” e a esperta foi na internet e me achou. Viva o mundo virtual ! Não nos víamos há mais de 10 anos e ontem almoçamos juntos. Quem é da área de publicidade conhece Lula Vieira, um apaixonado pelo rádio, criador de um jingle de Natal marcante feito para o extinto Banco Nacional (“Quero ver, você não chorar, não olhar pra trás, nem se arrepender do que faz…”) e exímio contador de casos. Com o jornalista Mauricio Menezes montou o genial show “Lula contra o Mau” uma profusão de comentários ácidos e debochados às suas profissões que virou sucesso no teatro. É daquele tipo de pessoa disponível para a vida proporcionar situações divertidas e inusitadas. É um dos meus tipos inesquecíveis e algumas de suas historias estão no meu repertório “de causos” que conto para os amigos. Lula é Diretor de Marketing da Ediouro e ainda escreve para o jornal Propaganda & Marketing. A crônica desta semana é deliciosa, convido à leitura : http://www.propmark.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=64293&sid=23 .  

Lula foi sócio do Valdir Vieira em uma agencia de publicidade, a VS Escala, onde fui  Gerente de Comunicação. Eram duas casas contiguas no Humaitá (Rio de Janeiro), numa rua simpática, a Maria Eugenia, onde havia feira livre as quartas-feiras, dia que não podíamos receber clientes. Era um trabalho com jeito de família, tinha café da manhã, festas temáticas no quintal embaixo da mangueira e terapia de grupo para diretores e gerentes… Além de ser gerente na VS eu fazia um programa de entrevistas na TV, o Programa da Noite, produzido pela Teletape do Carlos Alberto Vizeu e exibido na TV Corcovado (hoje CNT). O programa era de 2ª. a 6ª., tinha uma hora de duração e eu chamava de “alegria dos assessores de imprensa”. Sempre fiquei muito sem graça fazendo TV, mas tentava abstrair as câmeras e ficava bacana. Eu gosto de conhecer pessoas e durante mais de um ano conversei com muita gente legal – acho que fiz a primeira entrevista com a Adriana Calcanhoto chegando ao Rio!! –  e é uma pena que não tenha este material para colocar no Youtube… Geralmente gravava em uma tarde ou noite os programas para toda a semana…Como não tinha cenário fixo, fazia programas em festas, bares, restaurantes, livrarias, no terraço da Teletape e até na sala de reuniões da VS….Ontem o Lula lembrou o dia em que voltando do encontro com um cliente chegou na agencia e viu a maior confusão na porta da sala de reuniões… Boys, atendimento, contabilidade, criação, todos os homens da agencia esperando a Roberta Close sair de uma entrevista. Gentilmente a bela Roberta usando um mini vestido, exibindo suas incríveis pernas, saiu distribuindo beijinhos e sorrisos… Não podia ser mais elegante mais feminina nem mais chic… Saudades do final dos anos 80 e a certeza do quanto a vida tem sido boa … Tks God !

Um encontro no sábado de Aleluia

Apesar de nos conhecermos há muitos anos, nunca conversamos. Ela era pra mim a juíza com cara de garota que tem uma casa na vila onde passa as férias e os feriados. Nos cumprimentavamos a distancia, temos muitos amigos em comum, mas ontem a noite acabamos na mesma mesa em torno de uma pizza comentando sobre a vida. A passagem do tempo, as marcas e as experiências de cada um, os resultados dos aprendizados e quem chegamos a ser agora. Histórias de mesa de bar com baixo teor alcoólico, e ela contou que aos 17 anos saiu de sua casa no interior e foi morar num pensionato de freiras em Sao Paulo levando uma mala, um colchonete e a aprovação para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Morou 7 anos no pensionato e como a sua família estava distante muitos kms, ali ficava mesmo nos fins de semana. Com isso , conhecia todas as moradoras, entre elas uma senhora pobre que por caridade das freiras ocupava um quarto no subsolo. Como não tinha família por perto, a futura advogada interiorana e a velhinha abandonada ficaram amigas. Um dia a velhinha morreu. Sabendo da amizade com a estudante a freira pede para que ela ajude abrir o quartinho. A surpresa foi descobrir que moravam com a velhinha mais de 200 passarinhos que saíram em revoada com a porta aberta. Reclusa e solitária a velhinha tinha amigos livres. Entravam e saiam do seu quarto por pequenas frestas. Sabe la quais fantasias criava com as noticias que os pequenos traziam todos os dias. A estudante e a freira sentaram no chão e choraram. Pela vida da velha, por suas próprias vidas também sem poder voar. Acho que foi ai que a jovem decidiu que voaria mais alto e aos 25 anos ja era juíza federal.
PS: Esta foto fiz sobrevoando de helicóptero Vila de Santo Andre. É um pedaço do rio Joao de Tiba e eu me senti passarinho voando.
Enviado do meu BlackBerry® da TIM

As águas do mundo

Quando mergulhei no Mediterrâneo na costa da Espanha pensei que aquela água um dia chegaria a minha praia no sul da Bahia, assim como as baianas correm o mundo. A principio uma imagem de criança admirada com um antigo globo terrestre de madeira em cima da mesa da diretora da escola. Com os dedos fazia o mundo rodar interessada em ver onde as águas e as terras se encontravam. Era muito facil correr o mundo, atravessar o Brasil, cruzar aquele pedacinho da América do Sul, passar a América Central e chegar a América do Norte. Muito simples viver num pensamento de criança que não precisa de dinheiro nem passaporte quanto mais saber outro idioma.
E hoje com o tempo nublado ao encontrar este coqueiro trazido do mar, sei que não veio da África nem do Mediterrâneo, decerto bem perto, Santo Antonio, Guaiu, Mogiquiçaba, Belmonte ou Canavieiras. Mas este tronco velho e sem palhas me fez lembrar que as águas se encontram e se misturam sempre, como os amigos que reencontramos neste mundo virtual. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

O caminho do arco-íris

Conta a historia infantil que tem um pote de ouro no fim do arco-iris. Depois da chuva o sol abriu com este show colorido de luz sem fim. Não um arco, mas um risco colorido que me leva a viajar para um ouro que não precisa ser procurado no fundo de um ponte, mas disponível como o ar puro da beira do rio.
Uma porta semi aberta convida para novos sonhos e oportunidades. Posso tudo, é so começar, ter vontade para dar o primeiro passo e, mesmo que eu caia no rio, é razão para aprender a nadar.
Hoje começo algo de novo, ainda não sei o que. Talvez um texto para uma peça, um argumento para um filme, um livro, mas não posso deixar de seguir o caminho que este arco-iris me propõe.

Enviado do meu BlackBerry® da TIM