Viva o Flávio !

Belinha e Flavio, inicio dos anos 80 quando mudaram-se para São Paulo.

Hoje meu amigo essencial faria 88 anos. Eu me refiro a ele deste jeito, pois durante muitos anos foi o meu norte, conselheiro generoso e disponível para qualquer situação…. Sempre penso nele, mas nos últimos meses tenho pensado mais, pois acompanhando as notícias sobre a contratação da Hebe aos 81 anos pela Rede TV!, do recém contrato de 10 anos que Roberto Carlos assinou com o Credicard, a crise financeira do Silvio Santos aos 80, Bibi Ferreira aos 88 nos palcos de todo o país, imagino que ainda estaria atuante. Ódios e amores, ele não passava despercebido. Com certeza seria referencia, ponto de discussão e estaria fazendo movimento na TV como fez desde que lá pisou pela primeira vez em 1955.

Em 1970 quando fui trabalhar com ele eu era uma repórter de 21 anos que acreditava poder mudar o mundo. Tínhamos trajetórias diferentes. Ele fazia parte do esquema que apoiara a revolução de 64. Eu já tinha levado uma “dura” da polícia, cacetadas em passeatas e alguns amigos estavam presos. Ele me ensinou sobre televisão, jornalismo e timing... Comecei na sua equipe de jornalismo e acabei como sua secretária. Em nenhum momento achei que tinha sido rebaixada de posto, pois foi com ele que aprendi a dar valor a minha profissão em qualquer posição que estivesse… A minha essência foi e sempre será de jornalista…  Ele foi exemplo de comprometimento, lealdade e caráter… Com ele entendi o que era gratidão e em sua homenagem participei durante 10 semanas de um programa de televisão – Sem Limite, TV Manchete – contando sobre sua vida e escrevi um livro com suas historias.

Só por isso, neste 15 de janeiro faço um brinde para Flávio Cavalcanti, o Senhor dos Domingos, meu amigo essencial!

 

O inesperado

Num email curto veio a noticia da morte do França. Eu tinha visto a foto na TV, mas passou tão rápida que só prestei atenção na bonita moça loura com uma criança no colo. Pensei: uma família que parte junto. E na seqüência complementei o pensamento: uma família que parte em bloco. Seguem irmãos sobrinhos mãe amigos e ficam os outros por aqui estáticos com o inesperado de uma água que desceu mais do que se podia prever… A cada dia que passa acomoda dentro de mim a consciência da minha pequenez e inoperância em prever qualquer coisa. A água do mar sobe, a água do céu desce, as terras se movem, as pedras rolam e estamos expostos a todas as intempéries. Um sinal de transito que não abriu, um freio que falhou e vamos para os ares. O engasgo com algum alimento, uma mágoa mal digerida, a respiração estanca, a vida para. É o agora, o momento em que escrevo é certo, o próximo é uma incógnita.

Não quero viver sempre alerta com a mala pronta para partir, mas saber na hora de ir que foram ótimos os tempos por aqui… Domingo passado ao chegar à missa, encontrei o padre na porta da igreja e ao me ver queimada do sol comentou que a praia devia estar ótima e se lamentou por não tomar um banho de mar desde 2009.

“Deus castiga!”, respondi ao padre que levou um susto. Se for para seguir ao pé da letra a culpa cristã acredito que “Deus castiga” quem não usufrui a vida que tem e não usa os seus dons… Se eu ganhei o presente de viver à beira mar, todos os dias dou uma olhadinha nas ondas, um mergulho, aproveito esta dádiva. Assim como presto atenção nos passarinhos que bicam a  casca do mamão depois do café da manhã, no caminho das formigas mudando de lugar no fim do dia e querendo devorar uma roseira, o céu estrelado e estalado pelo barulho das árvores no vento da noite… São essas coisinhas simples que me preenchem, alegram e me deixam pronta para o inesperado… Pois esperar mesmo, só a água ferver e passar um café para tomar deitada na rede pensando na vida…

Em tempo : na foto,em primeiro plano, Alexandre França, marido da estilista Daniela Connolly, que partiu com as águas de Itaipava. No final dos anos 90 ele era guitarrista da banda Os Anjos, formada por Bernardo (camisa clara) e que ainda contava com Marquinhos (louro) e Chimpa (as gargalhadas). A autora deste click, Adriana Pitigliani,também partiu de maneira inesperada há alguns anos… E a vida segue, aqui e agora…

 

Meu Novo Ano

 

Foto : Caio Girardi

Na verdade o meu ano novo começa amanhã. Sou capricórnio, ascendente Leão com a lua em peixes… Não entendo muito de astrologia, mas algumas pessoas disseram que estar com a lua em Peixes me acalma, me leva a reflexões, a ter um lado espiritual, místico, e também a dobrar um pouco o chifre da cabra que persiste em subir a montanha, incansável, sem direito a prazer, é só trabalho… O que não sabem é o prazer que tenho ao trabalhar…

Não faço listas de novas atitudes, nem promessas para o ano que começa… Só agradeço aos que já passaram e me permitiram chegar aqui como estou: saudável, feliz com a família e com os amigos, profissionalmente plena e certa de que sei qual a missão que tenho nesta existência…  Penso que já andei 2/3 do caminho, sou otimista em desejar mais 30 anos pela frente, mas só espero vivê-los se for neste mesmo shape... Lúcida e independente, seguindo como a cabra incansável morro acima…

Uma amiga comentou hoje no café da manhã que seu lema este ano é tolerância zero. Eu desejo ter muita paciência… Quero apagar menos incêndio, ficar atenta a mudança do vento que pode transformar a fagulha em fogo… Quero que minhas pernas reclamem menos e me deixem andar mais, mesmo faltando uma safena… Se não der no pé, andar mais de bicicleta e menos de carro… Quero que o barulho da metrópole soe aos meus ouvidos de forma tão suave quanto as folhas e pássaros no quintal, sem perturbar o meu silencio interior… Quero viver cada dia como se fosse único, tenha este dia a cara que tiver, pois vivi o suficiente para saber que nem tudo são flores e também que tudo passa…

E mesmo não fazendo listas nem promessas, que eu continue teimosa e possa até apreciar a minha incoerência quando percebo que onde nada podia em poucos minutos se torna possível…  Estas constantes mudanças é o que mais me fascina… Quebrar, cortar, picar e juntar de novo… Feliz meu novo ano !!!

Em tempo : esta foto foi feita pelo Caio Girardi num intervalo de preparação do palco para o show do Roberto Carlos em Copacabana…

 

Lembrando Chico em Copacabana

Escrevi sobre Copacabana e recebi o seguinte comentário da Constancia : Você só esqueceu de mencionar, Chico cantando em Copacabana na Galeria Menescal!!!! Bjus e Saudades!!!!

Na hora a ficha não caiu, levei alguns segundos pensando no que dizia esta mensagem quase psicografada. Chico Buarque na Galeria Menescal, será que ele fez alguma musica com esta referencia? E aí a ficha caiu. A Constancia faz parte da família Gondim de Oliveira que nos anos 60 eram os donos dos Diários Associados, a mais poderosa rede de comunicações do país: rádios, emissoras de TV, jornais e a revista O Cruzeiro.Um verão em Vila de Santo André ela comentou o fato e eu contei esta historinha… Leão Gondim de Oliveira era diretor dos Diários Associados, dona Lili (Amélia Whittaker Gondim de Oliveira) presidente da revista O Cruzeiro, e eram pais de Léo, meu colega no curso Bahiense que preparava para o vestibular. Em 1967, no seu aniversário, Léo convidou alguns amigos para jantar em sua casa. Aos 17 anos eu não tinha a menor noção da importância da sua família. Ele era um rapaz como qualquer outro no cursinho. Mas quando cheguei ao apartamento que ocupava toda a extensão da cobertura da Galeria Menescal em Copacabana fiquei boquiaberta. Obras de artes em todas as parede. Um apartamento elegante, altamente conservador e sofisticado, e ali estavam reunidos uns 10 amigos do Léo para um jantarzinho de strogonoff como mandava o cardápio da época.

Tudo mais que perfeito. Todos andando com cuidado para não esbarrar em alguma peça de arte até a grande surpresa na sobremesa: um tímido Chico Buarque sentado na sala, com o violão ao colo esperando a turma para tocar e cantar as canções que já faziam sucesso… Ele já era famoso e não sei qual a lembrança que os outros amigos guardam deste momento, mas eu fiquei encantada em ver um ídolo tão de perto. Fez um show acústico, particular e nós fizemos coro com as músicas do seu primeiro LP, lançado no ano anterior… Nos esbaldamos com Quem te viu quem te vi, A Banda, Noite dos Mascarados,  A Rita, Madalena foi pro mar, Você não ouviu, Juca, Olê olá, Meu refrão…. “Vem que passa o teu sofrer, se todo mundo sambasse seria tão fácil viver…”

Uma noite para nunca esquecer… Naquela época não se andava com maquina fotográfica na bolsa, eu não imaginava ser jornalista e o registro na memória é impecável. Anos depois encontrei Chico Buarque, fiz uma ou duas entrevistas exclusivas, não toquei neste assunto, mas jamais esqueci o privilégio de ter feito parte de uma platéia tão seleta. Dos amigos do cursinho testemunhas deste encontro ficou o Roberto Abramson, a Angela Gonzaga partiu há alguns anos. Assisti muitos dos shows do Chico, nenhum igual a este. A foto em que estou na platéia é de um show de 87 ou 88 no Canecão. Pela localização em que estava sentada devo ter sido convidada do Mario Priolli… A foto saiu em uma reportagem no Globo com os comentários sobre a estréia e consegui uma cópia… Obrigada Constancia por lembrar Chico e eu em Copacabana…Obrigada Léo, por onde estiver…

 

Vovó Mercedes

 

Foto de família em dia de Natal : no contato em preto e branco Bernardo, vovó, eu, Paulo e no último fotograma Da. Flora Nobre, mãe do Paulo, avó do Bernardo.

Saí cedo andando pela praia de Copacabana e lembrei de Da. Mercedes Martins, bisavó do meu filho que acabou se tornando também minha avó. Um personagem, Vovó Mercedes morava num apartamento no 12º andar da Av. Atlântica com a deslumbrante vista para a praia. No início da década de 70 foi feita uma enorme obra na praia para aumentar da faixa de areia e o alargamento das pistas com objetivo de passar uma tubulação (interceptor oceânico) para transportar todo o esgoto da Zona Sul até o emissário de Ipanema e evitar que as ressacas chegassem à Avenida Nossa Senhora de Copacabana e às garagens dos prédios da própria Avenida Atlântica. Com essa obra foi criado o calçadão em frente dos edifícios num belo projeto paisagístico de Burle Max.

Vovó assistia a tudo do alto, esperando a obra chegar à frente do edifício onde morava entre as ruas Santa Clara e Constante Ramos. Já haviam feito o calçamento com as pedras portuguesas fazendo lindos desenhos, mas faltava o paisagismo. Um dia ao acordar olhou prá baixo e viu que caminhões descarregavam árvores. Tomou banho, salpicou talco no pescoço, soltou os papelotes que prendiam os seus cabelos louros, rouge e baton no rosto, vestiu um elegante tubinho de seda estampada e calçando sapatinhos sob medida (tamanho 32!!) desceu  no elevador para ver o que estavam fazendo em “seu jardim”. Vovó viu que um rapaz separava as árvores por canteiros e ao perceber que na frente de seu edifício seriam amendoeiras protestou.

“Em frente da minha casa não se planta árvore vagabunda!”

O rapaz explicou que o projeto era de Burle Max, que os quarteirões seriam mesclados entre palmeiras e amendoeiras, e naquele espaço estavam determinadas aquelas espécies. Depois de muito reclamar e ver que ninguém atendia seu pedido decidiu ir ao Departamento de Parques e Jardins. Pegou sua bolsinha, chamou o taxista que sempre a atendia e foi para a Praça da República, em frente da Central do Brasil, onde ficava o tal departamento. Na recepção apresentou-se como jornalista – de fato ela era – e pediu para falar com o diretor. Deve ter causado certo impacto a presença daquela senhorinha com mais de 80 anos e não demorou a ser levada à sala do diretor Gildo Borges. Contou que imaginava ter palmeiras em frente de seu edifício e não amendoeiras que sujam as calçadas com frutos e folhas. Impressionado com a determinação da “jornalista”, o diretor comentou que as pessoas não estavam preocupadas se plantavam ou não árvores, quanto mais qual a espécie e, sem consultar Burle Max, mudou o desenho do projeto…

Quem passar pela Av. Atlântica em frente ao número 2736 pode ver que apenas ali, em todo quarteirão, foram plantadas palmeiras…E viva Da. Mercedes, onde estiver !!!

 

Impossível esquecer

Reencontrar o Rio neste fim de ano tem sido uma viagem… Eu apareço nas esquinas, nas ruas, nas praças em diversas fases (e faces) da vida… Me vejo na adolescência, juventude e maturidade… Em quase todos os lugares ficou um pedaço, alguma coisa prá contar … Posso lembrar como era sonhar que um dia iria me apaixonar e como foi chorar no fim de paixões …  Me vejo solteira, casada, grávida, descasada, feliz e infeliz… Me vejo chegando e saindo, com o dinheiro contado para o ônibus e desfilando de carro importado com motorista… Me vejo juntando pedaços e recomeçando em mais de uma dúzia de casas por onde morei…

Não posso fechar as narinas para o eterno cheiro da maresia que carrego na memória e já me fez viajar horas para sentir algo parecido em uma praia distante de Nova York… Mas posso de olhos fechados lembrar cada detalhe do percurso entre a Barra da Tijuca e o Santos Dumont apreciando a beleza da paisagem, e me deslumbrar ao ver a Lagoa na saída do Túnel Rebouças.

E eu só andei um pouquinho pela Zona Sul, não atravessei o túnel, não fui à Tijuca nem vi o Maracanã, mas foi o suficiente para constatar que não importa aonde eu vá viver, o Rio estará comigo… Mesmo que eu pense em nunca mais voltar, que seja apenas um cartão postal ou a estampa num guarda-chuva que pode um dia se esgarçar, não tenho como tirar do meu coração…

 

Copacabana

Em construção o palco para o show de Roberto Carlos na noite de 25 de dezembro.

Estava com saudades de caminhar na areia fofa da praia de Copacabana.  Não sei por que achei que o mar estaria poluído, mas a água estava transparente. Olhei o horizonte e vi navios ancorados. Em Vila de Santo André quando olho para o mar o horizonte é pleno. Às vezes um barquinho de pesca, uma chalana ou escuna, mas nada estático… Com o sol nascendo fui caminhando até o Leme procurando encontrar algum amigo entre as pessoas que passavam. Passou por mim “quase” que um Renato, “quase” que uma Celina e “quase” tantos outros queridos que não encontro há muitos anos… Era usual encontrá-los nestas caminhadas nos anos que morei em Copacabana… Passei por um grupo que ao longe, com meu olhar anos 70, pensei que eram hippies, mas de perto vi mendigos. Sentei para meditar, respirei fundo para sentir a delicia do cheiro do mar e o arrulhar dos pombos tirou a minha atenção. Lembrei então de quantos pombos ciscam na areia.  Voltei à meditação, e quando estava num momento íntimo de agradecimento e adoração ao dia passou o vendedor oferecendo mate e biscoito Globo. Estou realmente em Copacabana !!!

 

Avião

A primeira vez que viajei de avião foi de São Paulo para o Rio, tinha 9 ou 10 anos. Era inverno e mamãe preparou o figurino para a viagem com capricho : saia de lã xadrez cinza mescla e azul + conjunto de BanLon azul claro. Lembro do deslumbramento ao subir a escada do avião da Aerolineas Real, me senti uma princesa. Os anos passaram, viajei milhares de vezes e apesar dos aeroportos e os vôos terem perdido o glamour eu continuava me vendo de sainha xadrez e banlon mesmo com o vizinho da poltrona ao lado de bermudas e havaianas.
Hoje passei praticamente o dia em um aeroporto sujo, calorento e em obras esperando um avião da Trip me levar de Porto Seguro ao Rio e pensei em desvincular a imagem glamurosa das viagens. O barulho das furadeiras, serras elétrica e martelos me faz sentir dentro de um canteiro de obras. Mas mesmo estando quase que numa rodoviária de interior lavo o rosto, passo baton e não jogo fora, por nada desse mundo, minhas boas recordações. Voar ainda é um sonho em todas as formas. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

O canoeiro do João de Tiba

A balsa que atravessa o rio João de Tiba é como o portão da rua, o balcão do bar, o banco de uma praça. É possível ficar apenas olhando o movimento, mas se estiver disponível sempre aparece alguém para conversar. Conheci ótimas pessoas neste leva e traz fluvial, recentemente um homem magro de chapéu de palha fumando cachimbo se apresentou como mineiro poeta e novo morador da vila. A semana passada ao encontrar o poeta pescando na praia ganhei de presente um livrinho de cordel que ele escreveu com a historia “O canoeiro do João de Tiba” . E não é que o poeta escreve ?

Ali no cais de Sta Cruz Cabrália havia duas opções de travessia para os povoados de Sto André, Sto Antônio e Guaiu e há os que se atreviam a seguir mais adiante chegando a Belmonte. Ou se seguia pela bareeira, ruidosa na batida do motor ou se assentava sereno qualquer passageiro na retaguarda do canoeiro que seguia de pé feito um guia de travessia e de existência. Cobrava uma moeda que já tinha algum valor um pouco antes do cruzeiro virar real. Num desses dias de sol a pino, o poeta que dispensava a balsa e nem se dava bem com o ruído da bareeira sentou-se pela primeira vez na retaguarda do canoeiro e ambos desfilaram primeiramente o silêncio de cada um. Não era de fato um silêncio pesado e sim aquele silêncio de respeito pela calmaria das águas e o andar trôpego e sem sentido dos caranguejos do mangue.

– O Senhor faz esta travessia há quanto tempo? – indagou o poeta, observando a alva barba despontando até o peito castigado pelo sol.

– Primeiro gastei dois anos de minha vida trabalhando a tora para que virasse canoa e aqui são vinte e seis anos corridos em cima da tora que eu mesmo fiz canoa.  – de súbito, respondeu, sentindo-se assim invadido em seu silêncio, mas assentiu de bom grado percebendo naquele passageiro algo especial no contemplar de olhos séquitos e reverentes diante daquele verdadeiro espetáculo que para ele, canoeiro era sempre desafiador.

– E dá para sobreviver bem com uma moeda aqui e outra ali nesse vai e vem?

– Moro naquela mata acolá, onde ninguém me acha, os pássaros que tenho nem preciso tratá-los. O dinheiro que ganho aqui é mais para a palha e o fumo que acendo a noitinha pras muriçocas

– E água e comida? – rearguiu o poeta.

– Água doce e limpa para beber e banhar é abundante aqui e comida a mata me dá tudo o que preciso.  – desta feita ele respondeu com mais tenacidade sentindo-se invadido na decisão e opção de vida.

O poeta pressentiu o incômodo que começava a causar no canoeiro e delimitou-se apenas a comentar: Deve ser maravilhoso ter como rotina o ir e vir dessas travessias e quantas histórias já deve ter ouvido…

– Melhor são as histórias que se ouve do que as histórias que se conta.

Não se contentando, o poeta num tom desafiador afirmou:

– O senhor não tem histórias para contar?

_ Tenho muitas e tantas histórias, mas as de mim mesmo, prefiro deixar embaixo dessas águas, empurradas pelo meu remo; mas as histórias dos mistérios dessas águas e desses mangues gostaria de ter ouvidos para escutá-las.  – revidou assim o canoeiro em tom mais desafiador ainda a indagação daquele poeta curioso.

O poeta se arrepiou dos pés a cabeça e disse para si mesmo: trata-se também de um poeta. Esse velho homem de barba alva, castigado pelo sol, ouve também as mensagens do mistério natural e sobrenatural desses lugares paradisíacos e decifra tão bem seus mistérios. Já não se sentia tão só ali, o escritor, e permitiu um largo sorriso ao canoeiro e aumentou o tom pressentindo a resposta.

– Canoeiro, o senhor consegue tirar palavras e músicas dessas águas?

– As duas coisas de uma só vez ou uma de cada vez; mas o que mais me intriga é saber que aqui há um espelho mágico nessas águas. Todos aqui se revelam.

Uma pessoa chega aqui pensando ser uma coisa e vai fazendo miração nessas águas e acaba descobrindo que não é nada daquilo que achava ser. Vi pessoas chegarem aqui com muito ouro e prata e terminarem descobrindo muita pobreza em si. Vi outros que penavam na idéia de se enxergarem miseráveis e depois da miração se entenderam riquíssimos. As mulheres procuram amores verdadeiros e fortes e há homens que passam a tocar as fêmeas com as costas da mão. Há meninos que ficam velhos e velhos que ficam meninos. Um sonho que era por demais colorido se enegrece e outro que rebrilhava prateado se torna de um dourado solar. A natureza quando pega forte na veia faz muita coisa virar do avesso. Sou apenas um remador que observa e se sigo sempre em frente, indo e voltando é porque aprendi a fazer de um pouco, um tanto bom de se viver.

Naquele momento o poeta se reportava a tudo o que foi escrito e reescrito por toda humanidade. Lembrava-se de pensadores, profetas, poetas e mergulhava fundo em sim mesmo e chorou copiosamente sem deixar perceber, o pescador entretido pela serenidade do mangue, que já se avizinhava na margem. Descortinava-se para ele a verdade absoluta da vida. Outros tantos pela história das navegações pequenas ou grandes puderam confirmar o que para ele era nítido: Uma canoa e um remo podem ser de madeira ou de ouro. Naquele momento ele estava assentado na retaguarda de uma canoa dourada com remos de ouro. Ali no sul da Bahia, na travessia do João de Tiba, na Santa Cruz Cabrália, na Costa do Descobrimento.

O livrinho de Cássio Poetta está à venda  na lojinha da Monica, Cores e Sabores, no restaurante Gaivota ou através do próprio poeta que está sempre pela vila.

 

 

Mães são todas iguais

Ninguém é mais diferente de mim e, incoerentemente, ninguém é tão igual a mim, como meu filho… Eu sou um milhão de amigos, ele é de poucos, raros e as vezes  nem os procura. Sou facebook, blog, twitter, MSN, blackberry, Nextel e skype, ele navega em busca de conteúdo num processo  introspectivo, solitário… Leu e viu mais filmes do que eu,  sou emoção, ele cérebro… Enquanto me reciclo, me refaço, jogo fora o que não uso, ele guarda, acumula coisas que até Deus duvida… Ambos nos encontramos na criatividade, mas até agora foi impossível criar juntos…

Desde 2005 ele mora em São Paulo, integra a equipe do Tom Cavalcante, se encontrou como autor de comédia, redator de humor… Eu jamais consegui contar uma piada, o que dirá escrever… Nos tempos em que tinha uma banda de rock com contrato em gravadora, cd na praça, na trilha de Malhação e tocou no Rock in Rio 2001 na Tenda Brasil, jamais se imaginou neste caminho. A música entrou em recesso, passou para a publicidade e a convite do Tom usou a criatividade no humor. E foi dando certo. Tratou com seriedade o desafio. Dignidade e respeito ao novo projeto de vida, mudança total, de cidade e produto.

Convivendo com o maior comediante brasileiro, tenho a impressão que aprendeu a fazer um mix de todas as suas experiências. De uma maneira genérica acho que pega uma parte da obra de Shakeaspeare que leu num carnaval quando não quis viajar comigo à Bahia, os livros de PNL que lê em inglês desde os 18 anos, mais a vivência em Nova York e Los Angeles por quase 3 anos, soma isso aos filmes de todos os estilos e gêneros que assiste compulsivamente, com um olhar crítico presta atenção o povo na rua, mistura tudo e sai humor…

Tem livros escritos pela metade, sonhos de montão e poucos sabem o quanto em casa é irônico e engraçado… Fala pouco do seu trabalho, às vezes telefona apenas para jogar uma idéia na roda como se pensando alto surgisse a solução para os roteiros que escreve… Aprendeu a viver em São Paulo e nestes anos jamais me enviou uma foto com algumas das “estrelas” do Show do Tom, nem mesmo com o próprio patrão. Mas na ultima semana enviou a primeira com o seguinte email:

Oi mãe, tudo bem?

Eis uma foto minha com o Pedro Manso, que faz o Faustão do Tom. Carlinhos, que faz o Mendigo. Além de Solange, a Gaga de Ilhéus, Paloma e Mariana, sobrinha do Tom. Acho que ficou boa essa foto.

bjo, Bernardo.

Não resisti a colocar no post… Mães, são todas iguais !

Bernardo, Pedro, Paloma, Carlinhos, Solange e Mariana.