3031 dias…

Às vezes penso qual o processo que aciona a criatividade das pessoas. Aquele momento em que dá um click, cai a ficha, quando a gente diz eureka, peguei o fio da meada… Quando penso no processo criativo não incluo o tempo em que escrevia na redação onde os textos saiam quase automaticamente, pois o jornal/e ou revista tinha hora prá fechar e quando lia no dia seguinte sempre achava que ficara faltando algum detalhe… Li em algum lugar que o João Ubaldo se “obriga” a ficar frente ao computador para escrever alguma coisa todos os dias. Jorge Amado me contou que produzia suas historias teclando numa velha máquina de escrever, mas a minha curiosidade é saber até o momento de se escrever como surge o texto. Posso falar do meu processo, que se não me considerasse uma pessoa normal diria que é uma coisa de louco… Isto não me leva a procurar um analista, mas como tenho tempo para reflexão, é um tema interessante…

Começo a escrever mentalmente enquanto ando pelo jardim e vou catando ervas daninhas no meio do gramado, quando junto pedaços de tecidos para montar uma colcha de retalhos, enquanto quebro azulejos para criar efeitos decorativos em mosaicos, enquanto faço crochê assistindo TV e ontem “escrevi” este texto no meio de um banho de mar… As ondas vinham e no sobe e desce da maré pensei na alegria que é escrever por escrever, sem pressa ou cobrança, easy rider, brincando com as palavras e lembrando historias…

Os fatos vêm como se eu abrisse caixinhas que são acessadas por um componente mágico que desconheço. Quando trabalhava no jornal O Globo reencontrei um rapaz que fora continuo / mensageiro / boy ou qualquer título que se dê a quem ficava no leva e traz de pastas/arquivos/memorandos/ layouts entre a redação e departamentos na Bloch Editores, onde comecei como repórter. Foi lá que ele ganhou o apelido de Tim, por conta de uma vasta cabeleira black power no estilo Tim Maia. No Globo ele já era Tim Lopes, repórter da redação geral, cobria policia, cotidiano e o que viesse… Era sensível, sonhava escrever para o Segundo Caderno,  reduto dos chamados “intelectuais” e às vezes vinha me mostrar uns textos mais elaborados dizendo que eu era sua “copy desk moral”. Tim fez belíssimas matérias, colocando poesia mesmo em situações duras como quando se fez passar por morador de rua ou trabalhador num canteiro de obras…

Por incrível coincidência no final de 1991 nos encontramos num vôo do Rio para São Paulo. Ele estava levantando informações para uma matéria e eu indo para receber o prêmio Marketing Best de Comunicação do Projeto Rock in Rio II. Era um momento importante na minha vida e estava sozinha na paulicéia… Comentei com Tim, não precisei nem pedir e na hora marcada lá estava ele de terno e gravata me esperando na entrada do local de entrega do premio onde não conhecíamos uma só pessoa… Éramos realmente estranhos no ninho e nos divertimos com isso quando saímos para comemorar com pizza e vinho..

O processo criativo é tão interessante que quando escrevi a primeira parte deste texto mentalmente não tinha Tim Lopes… Ele chegou e pediu licença para ser lembrado… E busco no Google sobre mais informações deste amigo que se foi e encontrei um site em sua homenagem com  a seguinte frase:

Hoje é Domingo, 19 de Setembro de 2010. Já se passaram 3031 dias desde que Tim Lopes partiu…

E lá se vão 60 anos da TV brasileira…

Alguns jurados do Programa Flavio Cavalcanti : Alvaro Valle, Erlon Chaves. Humberto Reis, eu e Marcia de Windsor. 1972

Lembro-me da TV marca Invictus com pés de ferro chegando à nossa casa em São Paulo. Não era uma data especial, como foi a enceradeira que Papai Noel colocou na varanda e deu umas pancadinhas na porta me deixando assustada. Simplesmente a TV chegou como status, afinal duas outras casas na rua já tinham a maravilhosa caixa que reproduzia imagens e algumas vezes éramos convidados a assistir. Foi amor à primeira vista. Eu e a TV nos tornamos quase uma pessoa só em todos estes anos. Antes de sonhar que um dia a minha historia estaria tão ligada à sua ao ponto de escrever um livro sobre um período importante de sua trajetória, com menos de 11 anos eu ia sozinha assistir ao programa “Pulmman Jr” na TV Record apresentado por Idalina de Oliveira, que tinha uma jovem assistente chamada Cidinha Campos.

Com a TV dei muitas gargalhadas assistindo ao Circo do Arrelia aos domingos na hora do almoço. Era a única exceção que meus pais abriam para fazer alguma refeição assistindo TV . Descobri a dor de cotovelo antes de me apaixonar na adolescência vendo Maysa cantar “Meu Mundo Caiu” num programa que papai considerava impróprio. Por acaso no final dos anos 60 fui trabalhar na TV Continental como secretária/assistente do jornalista Eli Halfoun. Ali comecei a construir uma trajetória profissional que me levou a ser memorialista do apresentador Flávio Cavalcanti, amigo essencial por muitos anos..

Foi através da TV que conheci Regis Cardoso e admirei tanto seu trabalho como diretor de novelas que um dia ao vê-lo receber um prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) desejei me casar com ele. E não é que me casei ?

Um dia Moyses Weltman, diretor da primeira concessão de TV do Sílvio Santos, a TV Studio no Rio de Janeiro, me propôs apresentar um quadro com noticias sobre espetáculos no único jornal que a emissora transmitia e ia ao ar quase à meia noite. O jornal só existia para cumprir uma lei que exigia algumas horas de jornalismo, pois a maior parte da programação era composta de velhos filmes . Uma vez por semana eu gravava todas as entradas no jornal. Não tinha recurso de entrevistas gravadas. Era tudo muito precário. Eu sozinha num estúdio falando sem parar olhando para uma câmera…

Em 1984 quando voltei a morar no Rio de Janeiro depois de um período em Nova York, fui trabalhar na TV Globo como pesquisadora do programa “Caso Verdade” que ia ao ar antes da novela das 6. A minha função era ler cartas e selecionar as que pudessem virar uma novelinha para ser encenada em 5 capítulos, de segunda à sexta-feira. De pesquisadora passei a roteirista, mas acabei voltando para a redação e a minha vida de autora se resumiu em 5 boas historias no ar, uma delas contando a historia da atriz Darlene Gloria – do primeiro nu no cinema a sua conversão à Igreja Evangélica – com o título de “Toda a nudez será perdoada”…

Alguns anos depois, cheguei em casa e meu filho estava assistindo a final de um participante no programa “Sem Limite”, na TV Manchete. Achei aquilo tão legal que no dia seguinte telefonei para a emissora e me inscrevi para responder sobre a vida do Flávio Cavalcanti. Estudei muito e foi quando percebi que a memória é como um músculo, quanto mais se exercita melhor  fica. Durante 10 semanas respondi a mais de 300 perguntas sobre a vida do Flávio e no final, quando aos prantos falei sem titubear a carta de duas páginas que  escreveu ao neto, ao ouvir Luiz Armando Queiróz dizer “absolutamente certo” tive o sentimento de ter concluído um ciclo…

E ainda um dia um homem que eu não conhecia chamado Carlos Alberto Vizeu através de um grande amigo me procurou propondo apresentar um programa de entrevistas. Por que não ? Juntei amigos, pessoas interessantes e durante um ano, fazia entrevistas diárias.  Conheci muita gente bacana como Adriana Calcanhotto recém chegada ao Rio…Gostava de ouvir as histórias e dizia que o programa era a alegria do assessor de imprensa, quase uma hora no ar…

Vejo quanto a historia da TV brasileira se confunde com a minha. Praticamente  crescemos juntas, temos a mesma idade, orgulho e respeito por nosso caminho…

Um encontro inesquecível

foto : daryandorelles - site Ed Motta

Ed Motta colocou hoje no Facebook o link http://www.youtube.com/watch?v=Ax-cjt2_P-Y com Lúcio Alves cantando “Rio à Noite”, 1961.  Que delicia… Lúcio (1927-1993) era super afinado, elegante, pré-bossa nova.  Conheci o Lúcio, adorei ouvir a música, mas o que tocou minha lembrança foi o Ed,  e uma foto que fiz num camarim do Canecão nos anos 90. A DCSet Promoções – leia-se Dody Sirena e Cicão Chies – trouxera Ray Charles (1930-2004) para uma série de apresentações nas principais capitais, e uma obviamente, seria no Rio de Janeiro, no Canecão.

Ingressos esgotados, um espetáculo inesquecível. Ed Motta estava entre os convidados que aplaudiram esta noite e,  no final,  foi convidado a ir ao camarim cumprimentar este que considero um dos maiores gênios da música negra americana. Ed devia pensar o mesmo, tal a animação em encontrar o artista. Quando entramos no camarim, fiz as apresentações em inglês, falei um pouco sobre o trabalho de Ed, sua obra como compositor e intérprete de um jazz pop sofisticado.  Minha surpresa foi que na seqüência eles começaram a conversar, nem em português nem inglês. Falavam em “musiquês”, com fraseados abstratos recheados de onomatopéias, num maravilhoso improviso musical.  Na seleta platéia do show único de Ray Charles e Ed Motta, eu e Edna. Lastimo imensamente a falta de uma câmera digital. Fiz uma foto, creio que na câmera do Ed, e não sei se ele ainda tem… Mas na minha memória a cena permanece intacta…

A mala…

Primeiro foram caixas e álbuns. Depois foram colocadas em envelopes com identificação, hoje estão numa grande mala e há alguns anos prometo que serão digitalizadas. Na verdade algumas já foram, mas quando comecei a me ver com tantas caras, rever tantas historias e “encadernações”, na ameaça de uma depressão desisti.

Ontem abri a mala de fotos e comecei o processo de digitalizar a vida. Encontrei esta de 1985, logo após o Rock in Rio, num passeio ao Corcovado com minha amiga Lali Jurowski. Nós nos conhecemos em Nova York, dividimos apartamento, e eu voltara em 1994. Lali voltou meses depois, foi para a casa da família em São Paulo e diante do anunciado Rock in Rio veio para o Rio e se candidatou a uma vaga como intérprete. Levou na hora tal a qualidade e domínio do idioma.

A delicia desta foto, além da paisagem do Rio, é que estou vestindo a camiseta de lançamento do disco Lilás, do Djavan… A música que deu titulo ao disco foi executada mais de 1.300 vezes nas rádios brasileiras em seu dia de estréia. Este disco ainda traz  uma música que continua super viva “Esquinas”.

Ganhei a camiseta da Monique e da Silvinha Gardemberg, na época empresárias do Djavan, quando fui entrevistar o cantor para O Globo sobre um show que faria na Apoteose. Algo me diz que este show foi cancelado. O show se chamava Luz mas o disco era Lilás. Esta entrevista foi o meu reencontro com Djavan. Eu saí do Brasil em 1981 e ele ainda era cantor da noite, crooner do 706, uma boate pra lá de charmosa no Leblon – Av.Ataulfo de Paiva 706 – ao lado do restaurante Mariu´s. Foi lá que o ouvi muitas vezes, no final dos anos 70, cantando o que viria  ser seu primeiro sucesso  em 82,  “Flor-de-lis”, que ao ser gravada por Carmen McRae, com o título de “Upside Down”, abriu-lhe todas as portas do mercado internacional. Um privilégio ter dançado com Djavan cantando ao vivo no velho e bom 706…

Detalhe : Esta foto foi feita pelo Bernardo, meu filho, e é tão antiga que eu e a Lali ainda fumávamos…

Campeão de audiência !

Em 2003 quando fui morar em Lisboa para me juntar à equipe que produziria o 1º Rock in Rio-Lisboa, comecei a escrever um blog como uma forma de contar para os amigos esta experiência.  Este blog informal acabou sendo absorvido pelo site do festival com o título Diário do Rock e foi um enorme aprendizado conversar com milhares de portugueses. Quando vim morar na Bahia comecei outro blog com textos esporádicos sobre a vila e os seus raros acontecimentos…

Até que este ano, abduzida pelo wordpress com os ensinamentos de Lady Rasta – Flavia Penido – comecei a contar as minhas historias.  Enviava o link para alguns amigos, depois para o Facebook e não sei de onde surgiam tantos leitores virtuais até que um dia numa postagem, a estatística me mostrou 108 leitores !!! Uau, campeã de audiência!!  Até ontem, ao escrever sobre a foto do Chico (Anysio) com o Tom (Cavalcante) que me comoveu muito. Na rapidez de um rastro de pólvora as visitas ao blog dispararam.  Tom retwittou e quando eu vi, 831 leitores ontem, 148  até agora…

Acho que as pessoas gostam de ouvir historias. Somos eternas crianças. Passamos do tempo das fadas e dragões, gostamos de ouvir sobre gente como a gente, fatos reais de amigos com alegrias e superação… O sucesso de audiência não é meu. O Tom emprestou um pouco do seu Ibope na Record, o Chico do seu na Globo… Obrigada a todos…

Chico e Tom

Foto de Felipe Assumpção / AgNews - No ultimo sábado, no Citybank Hall.

Fiquei comovida com esta foto. Um exemplo de amizade, respeito e profissionalismo dos mais sérios homens de humor que conheci.

Chico Anysio : O gênio da comédia, um artista pleno na sua arte. Como jornalista tive o privilégio de entrevista-lo muitas vezes. Na verdade a primeira entrevista foi no inicio da minha vida profissional quando ele já era um sucesso e estava estourado com um show na boate Sucata na Lagoa (RJ). Tenho o registro em preto e branco, é uma foto hilária. Entrevistei-o para as revistas e jornais por onde passei e lembro-me de uma com detalhes: num intervalo de gravação do programa no Teatro Fênix, sentamos na escada, ele vestido com a personagem Salomé, a velha gaúcha de Passo Fundo, e juntos lamentamos o final de nossos casamentos. Ele contava a separação de Alcione Mazzeo e eu de Régis Cardoso. Foi um desabafo de amigos e tive o maior cuidado em escrever esta matéria. Meses depois nos reencontramos numa festa no meu aniversário, quando eu estava tentando reatar com o ex-marido e ele me deu de presente um rolo de macarrão escrito Começar de Novo. Humor em todas as circunstâncias, com delicadeza e elegância.

Tom Cavalcante : Em meados dos anos 80 ele era a grande revelação do humor, estava arrebentando de sucesso na TV Globo, e foi contratado pela Agência DC Set, empresa que reunia os maiores artistas nacionais e para quem eu trabalhava. Não tínhamos muito contato até que um dia entrou pelo meu fax a copia de uma carta que Tom enviara a Chico justificando-se de um mal entendido. Se eu achasse conveniente, podia distribuir à imprensa. Era uma carta sincera e com enorme humildade. Era o aluno retratando-se ao mestre por uma tolice qualquer. Lamento não ter guardado esta carta, mas ali estava o caráter do artista que passei a admirar dentro e fora do palco. Jamais o entrevistei, mas tive o privilégio de acompanhá-lo quando saiu da TV Globo para a TV Record. Foram três meses convivendo diariamente e participando da implantação de um programa que aos poucos ganhou sua cara. Aprendi a admirar a sua capacidade de se transformar com os personagens e a genialidade do imitador.  É único.  Aprendi também a conhecer o bom marido, pai e amigo.

Tom e Chico : um encontro que estava escrito nas estrelas. Dois cearenses geniais que se amam, que me emocionam com sua arte e me fazem chorar com uma foto.

Igual a ela…

New York, janeiro 1982 - Mamãe, eu e Bernardo

Acabei de almoçar sozinha, coloquei os cotovelos sobre a mesa, cruzei as mãos e por um momento me vi igual a minha mãe. Era exatamente nesta posição que ficava quando constatava que todos tinham acabado a refeição e balançava o sino de prata chamando a empregada para retirar os pratos da mesa. Os dedos longos cruzados, a cabeça num porte altivo, com os olhos ela acompanhava o movimento da empregada ao recolher os pratos e travessas acomodando tudo com muito cuidado na bandeja. Nesta postura permanecia até chegar à sobremesa e servir cada um de nós. Os pedaços de goiabada com queijo, ou colheradas de doce de leite cozido na panela de pressão junto com o feijão, eram divididos irmamente para evitar discussões. E hoje me peguei de mãos cruzadas repetindo o gesto, mesmo sem ter campainha para tocar nem empregada a chamar para recolher o único prato que eu mesma preparei.

Passei grande parte de minha vida não querendo ser igual a minha mãe. Já basta a semelhança física, e sempre foi difícil conviver com seu jeito pouco afetuoso. Impossível lembrar um abraço, um afago ou um colo. Se existiram foram tão rápidos que esqueci. Recordo seu jeito impecável de se arrumar para qualquer ocasião. Nenhuma ruga em suas roupas, sempre limpas e perfumadas. Mamãe tinha uma forma simpática de receber as visitas, atender ao telefone e se relacionar com os vizinhos. Quase que uma profissional em relações públicas. Jamais esqueceu um aniversário ou deixou de visitar amigos em momentos importantes. Os que a conheceram não devem ter percebido que seus filhos sentiam falta de um beijo de boa noite, um abraço ao voltar da escola, ou apenas ficar sentada de mãos dadas assistindo um filme na TV. Este último item nem pensar, pois mamãe odiava filmes. Não entrava no mundo dos sonhos e ilusões. Apesar de ser professora, jamais a vi com um livro nas mãos. Mas apesar de tudo isso era uma pessoa interessante e boa de conversa.

Somos exatamente o que rejeitamos ser. Li isso algumas vezes e acreditei que o fato não se repetiria comigo. Ledo engano. Hoje me vejo subindo as escadas apoiando as mãos sobre as coxas, exatamente igual a ela. Sou surpreendida em me ver com as mãos no queixo prestando atenção em algo que se passa na TV, assim como ela. E se for prestar mais atenção descobrirei mais semelhanças, pois ela está em mim muito mais do eu queria.

Há pouco mais de um ano ouvi pela primeira vez ela dizer “eu te amo minha filha”. A voz já muito fraca, a dificuldade em falar proveniente de uma paralisia facial, só próxima do fim conseguiu verbalizar o que deve ter sentido muitas vezes. Não sei o que aconteceu na trajetória dessa mulher que sempre teve gestos educados, não gritava nem gargalhava. Uma mulher contida, que manejava as agulhas de tricô com extrema agilidade fazendo roupas para bebê com tamanha delicadeza que me faz acreditar que somente ali colocava o enorme amor que não sabia expressar.

Mamãe não me ensinou a rezar nem a conversar com Deus. Passou grande parte da vida sem tocar no assunto, e quando surgia o tema num encontro familiar dizia: “política e religião não se discutem”. Nos últimos 10 anos depois da perda do marido e do filho, fez um altar em seu quarto com santos, anjos, fitas e flores com bênçãos diversas. Uma vez estávamos sentadas à mesa da cozinha conversando sobre o que acontece quando a vida acaba e, depois de ouvir todas as minhas colocações, ao ver uma formiguinha rondando o açucareiro esmigalhou-a com a unha comentando: “minha filha, a vida termina assim não tem nada depois. Morremos como a formiguinha. Acabou.”

Não lamento mais ter suas semelhanças físicas nem gestuais, pois na essência somos completamente diferentes. E a vida continua…

Nada além… nada além de uma ilusão…

Uma cena da novela Passione se tornou meu objetivo de vida. Eu já assisti inúmeras novelas, tanto como telespectadora, quanto como jornalista e também como mulher de diretor, mas jamais imaginei que uma cena fosse me tocar tão intensamente. Uma belíssima produção de jantar à beira da piscina – a Globo faz isso magistralmente – com orquestra tocando “Nada além” e, de repente, Olavo convida Bete Gouvea  para dançar.  Não sonho em ter casa com piscina, nem festa com orquestra ao vivo, mas desejo chegar aos 80 anos dançando com a mesma leveza que Fernanda Montenegro nesta cena.

Aprendi a dançar com meus irmãos quando tinha menos de 10 anos. Os três mais velhos ensaiavam para as domingueiras no clube, e como faltava par eu era  levada ao posto de dançarina de salão. E gostei da brincadeira! Fui par constante do meu irmão Victor, dançamos até poucos meses antes de sua partida. E assistindo Bete e Olavo, como num filme, fotogramas, algumas imagens com cor, outras esmaecidas, como os meus sentimentos me fizeram voltar ao tempo… Lembrei pessoas, senti cheiro de festas, vi o quanto fui feliz em todos aqueles momentos e sorrisos estampados no papel, viajei num tempo em que eu ouvia:

“Dança esta música  comigo ?”

Quero sentir mais uma vez o cheiro bom do seu perfume Lancaster misturado com o meu Toque de Amor…  Quero acreditar que ainda estou com aquele vestido de renda azul turquesa, com um decote nas costas e sinto a sua mão suada na minha cintura… Faz calor e às vezes vem uma brisa morna do ventilador, um leve abano que não descola a franja da minha testa, mas alivia como uma delicada esponja de pó de arroz empoando meu nariz…. E somos apenas nós dançando La Mer ao som do disco de Ray Conniff  que roda na vitrola no enorme salão do clube da Tijuca… O mundo parou ali… Parou sim, por alguns segundos e deixou cravado em mim este sentimento que se torna tão vivo quando fecho os olhos e lembro de você…   Meu corpo se mexe, meus pés seguem os seus passos e sinto que sou Ginger Rogers e você Fred Astaire… Ninguém dança melhor do que nós… Posso perceber, mesmo com os olhos fechados que abriu uma grande roda no salão e todos admiram nossa coreografia…Como ensaiamos tantas vezes no quintal de casa, embaixo da mangueira, você assobiando no meu ouvido, às vezes cantoralando a melodia bem baixinho… Passos perfeitos, gestos delicados, somos só nós e Ray Conniff… Dança comigo mais esta noite para eu pensar que você ainda está aqui pois sei que ainda dançaremos outras vezes, na verdade nunca paramos de dançar … Você meu par perfeito e desfeito, partiu antes da música terminar … Mas tenho aqui o registro do seu sorriso ainda me olhando como se dissesse “tolinha, o baile não acabou”…

Já esqueci os momentos tristes da sua partida, a memória é seletiva, ficaram as boas lembranças, como das nossas danças… Os anos desfilam em papéis e concluo que a nossa vida é um grande baile… Com quantos dancei, esbarrei, e cada um saiu seguindo seus passos, em seu ritmo, tempo e hora… Nunca recusei uma dança, nunca fugi dos desafios… E hoje compreendo que cada um dança seus conflitos e esperanças, em busca do par perfeito para completar sua essência… Você se foi também numa manhã de sol, num cortejo simples que seguiu um caminho de terra onde podia se ouvir ao longe o barulho do mar. La Mer, o mar que tanto dançamos. Descansa em paz enquanto eu continuo nessa dança, mesmo me sentindo às vezes muito sozinha, mas sem esquecer os passos que você me ensinou…  Os 80 que me aguardem, estarei lá, firme e forte, dançando com você na memória…

Escolhas

Barra do Peso, Belmonte-BA

Acordei pensando em escolhas. Nada tão profundo como a que coube à Sofia ao optar entre a morte do filho ou da filha em um campo de concentração, mas na de pares, grupos, amigos… Quando criança,  brincava de roda e tinha uma canção que dizia “escolho a …… para ser meu par” . Com a amiga escolhida ia-se para o meio da roda onde se ficava requebrando e se exibindo por alguns minutos, enquanto todas as outras crianças rodavam olhando a cena… Eu ficava muito constrangida quando chegava a minha vez de tirar apenas uma amiga para dançar no meio da roda, seria mais justo se todos saíssem requebrando como em uma escola de samba, assim não estaria deixando alguém de lado…E da roda às festinhas na adolescência a escolha continuava, só que desta vez era mais dramático : alguém me tirava para dançar. Tinha a opção de recusar a dança, mas jamais consegui tomar esta atitude, morria de dó do pobre rapaz… E lá ia eu pelo salão dançando com quem me convidasse, mas raramente surgiam estranhos. Fazíamos parte do mesmo grupo, gostávamos das mesmas coisas, tínhamos o mesmo comportamento e educação…

Naquele tempo ainda não sabia que eu seria o reflexo do meu grupo e esta seria a mais desafiadora experiência… Os grupos que escolhi fazer parte ou me escolheram, como a família de onde vim, as crianças com quem brinquei, os rapazes que me tiraram para dançar, as garotas com quem troquei confidencias na adolescência, os amigos da escola, os parceiros profissionais, os amores e casamentos todos foram espelho dos momentos que vivi. A estrutura do núcleo familiar me deu os princípios básicos de educação, moral, ética e segurança para escolher minhas tribos. Amei nas semelhanças que me via no outro e na mesma proporção odiei a fragilidade do outro que era também a minha e que eu não queria enxergar. Sou os lugares por onde passei e as pessoas com quem andei. Sou um caleidoscópio de tudo isso, caquinhos coloridos que refletidos no espelho se multiplicam em dezenas de formas. Às segundas-feiras quando me vejo sentada à mesa da varanda com Cláudia, Flávia, Luciana e Suely, o pequeno grupo de estudo e meditação, fico feliz em constatar que aonde eu for sempre vou encontrar pessoas com a mesma essência… Acho até que o universo já conhece o meu estilo, visto os bons pares da minha vida…

Sim e Não

Nos últimos dias o NÃO tem sido constante no meu vocabulário. Que palavrinha difícil!  Disse NÃO de forma suave, gritando, rindo, chorando, implorando, lúcida e louca. Já disse NÃO me negando, sem mesmo saber quem eu era e o que era …

Algumas vezes falei NÃO politicamente, em outras amorosamente, e em muitas – mas muitas mesmo – profissionalmente. Creio que me contratam também para isso. Mas o meu atual desafio é falar NÃO para educar, impor limites, determinar espaços e reafirmar posições. Falar NÃO quando seria mais fácil dizer SIM, mas com o passar do tempo eu iria morrer de raiva…

Estas reflexões profundas chegaram por conta do exercício diário que estou fazendo para ensinar Bella, uma cadela da raça Pastor Alemão, nova paixão em casa, a viver civilizadamente e se tornar guardiã… Bella tem menos de 3 meses e mostrou coragem ao enfrentar o Xico que, apesar de enorme, é o mais delicioso e amoroso Golden Retriever do planeta…

Se todos os NÃOS da minha vida tivessem sido para educar cães, esse texto nem teria surgido… Mas quando os NÃOS repetidos para Bella começaram a me incomodar, percebi que havia alguma coisa a mais ……Preciso rever os NÃOS que disse querendo dizer SIM e os SIM com a boca travada querendo dizer NÃO … Continuo pensando no assunto, esperando que um dia eu seja apenas SIM…