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Um pé lá outro cá. 3 noites e 3 dias na grande capital e quanta novidade. Encontro com a família em festa de aniversário, com direito a parabéns, bolo e brigadeiro. Visito o centro com amigas, conheço o prédio histórico Farol Santander, passamos na exposição do Adoniran Barbosa, depois teatro de onde saí embasbacada. Não com o talento notório das atrizes de Eva Wilma e Suely Franco, mas pela memória perfeita. Com 84 e 78 anos respectivamente, um show com o texto correndo inteiro, só as duas em cena, do riso à emoção.

Volto para casa e no caminho para o aeroporto uma parada rápida para visitar uma amiga no hospital. Estou em um tempo que tem sempre algum amigo partindo ou se preparando para seguir viagem.  Por morar distante, na maioria das vezes as notícias chegam pelas redes sociais, sem chance de acompanhar um funeral…. Mesmo sendo um momento de dor, nos velórios se reencontra amigos, sabe-se como estão envelhecendo…

No Uber pelas ruas de São Paulo fui pensando o que me aguardava no apartamento 306. Há alguns anos a amiga com quem compartilhei tantos momentos, que testemunhei casamentos, crescimento dos filhos, separações, sucessos e fracassos, que vi dar a volta por cima tantas vezes, entrou num processo onde viver é o que menos importa. Acabou o tesão. Uma apatia tão grande e foi se deixando para o nada… Como companhia para a solidão o cigarro, algum comprimido tarja preta e as vezes uma taça de vinho. Esse conjunto não dá certo pra ninguém.

Bato delicadamente na porta, entro com cuidado e a encontro na cama com os cabelos presos num rabo de cavalo no alto da cabeça, o que lhe dá um ar jovial. O rosto está magro, são poucas as rugas, não faz o tipo velhinha…. Uma sonda no nariz, outra no braço, as mãos enroladas com ataduras e amarradas na cama. A enfermeira justifica de que ela ficou agitada, arrancou as sondas e precisou tolher os movimentos. Olho para trás e lembro nossas mãos soltas correndo pelo Jardim Botânico atrás da filha de uma amiga que se perdeu. Nossa juventude estava ali com os filhos pequenos, tantos desejos e sonhos… Até as perdas eram provisórias…

Mais de 40 anos de amizade e, mesmo que as vezes a distância fazia um vácuo, bastava um telefonema para resgatar o carinho e continuávamos qualquer assunto do ponto que havíamos deixado, sem importar o tempo. E encontro a amiga falando com dificuldade. Queria ouvir contar sobre este momento, onde foi que tudo degringolou, como chegou a este ponto. O tubo no nariz, a boca machucada com os lábios desidratados, a voz embargada, os efeitos dos medicamentos, deixaram a voz fraca, as vezes titubeante. Falei mais do que ouvi. Derramei um longo discurso com bons pensamentos, palavras de fé e positivismo. Rezei ao seu lado, agradeci ao nosso encontro nesta encarnação. Do pouco que consegui ouvir, com total lucidez, guardei a frase: “sei que quando bato com o pé no fundo do poço, tomo impulso e subo”. E quantas vezes ela fez isso… Despedi com um beijo na testa, saí pedindo a Deus que este fundo do poço chegue rápido, que ela tenha força para bater o pé e voltar breve para a vida…

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As duas amigas

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Tenho uma amiga que está desistindo de viver e outra que está lutando para continuar viva. Uma entrou em depressão temperando alcoolismo com medicamentos de tarja preta. A outra descobriu por acaso um câncer quando estava no meio de um belo projeto. Apesar de nunca terem se encontrado, são da mesma geração, estão chegando aos 70. Ambas percorreram o movimento libertador da mulher nos anos 60, aderiram à pílula, tiveram atitudes fortes, lutaram por seus direitos, emocionalmente nem sempre fizeram escolhas sensatas, mas construíram uma bela trajetória. Sem religião, seita ou crença passam por esta turbulência na fragilidade da matéria.

Temo a depressão e o câncer, mas temo muito mais a falta de fé. Acompanho a distância os dois casos, envio boas energias, pensamentos positivos, Ave Maria, Pai Nosso e Salve Rainha, torço pela superação e desejo que encontrem algum alento para acalmar a angustia que deve dar cambalhotas no silencio das duvidas. Não sei como superaria qualquer uma dessas situações sem um santinho do lado, uma meditação, um terço, uma energização…. Nestas horas lembro uma conversa com minha mãe. Estávamos tomando café na pequena mesa da cozinha e, nos seus quase 80 anos, ela comentava sem mágoa ou dor, apenas relatava a certeza da velhice, o sentimento de que o tempo estava mais escasso e via o final de forma patética: “acaba como uma formiguinha que esmagamos com a unha, não existe mais nada”.

Insisti :

E a coleção de imagens de santos e anjo expostas na prateleira do quarto, o Coração de Jesus na mesinha de cabeceira, servem para quê ?  

Ela não soube responder. Como sempre pediu que rezasse por ela…

É o que tenho feito, por ela, pelas amigas e por todos… Livrai-nos da falta de alguma fé.

Livrai-nos

Primeira visita à Vila de Santo André... Balsa aberta, eu e a alegria da Tania...

Primeira visita à Vila de Santo André… Balsa aberta, eu e a alegria da Tania…

Ardilosa, matreira, falsa é a depressão. Pega no susto, vai corroendo de mansinho, criando artimanhas, se esconde entre sorrisos e de repente explode de uma forma que nem dá tempo para pedir socorro. Tira do eixo e a vida escapole num salto.

Hoje perdi uma amiga assim e aprendi que não posso confiar na alegria dos posts no facebook, nem nas curtidas… É preciso mais palavras, conversas ao telefone, visitas, olhar no olho, pegar na mão e saber como vai a vida… Ah! Tania, você surpreendeu a todos os seus amigos. Ensolarada, alto astral, feliz, algum nó deu em seu coração e a opção foi o caminho mais curto…Fiquei esperando a sua visita para relembrar o primeiro verão na pousada, o réveillon da estreia, a boa sorte que você trouxe com toda a sua alegria…

Peço a Deus que você siga em paz. Peço também à Deus que nestes tempos em que não somos mais tão jovens, afaste de nós não as dores, pois para elas tem remédio, mas livrai-nos dos maus pensamentos, das caraminholas, dos falsos desejos, da menos valia, da baixa estima e da solidão, pois o caminho para a depressão é silencioso e cruel…