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Muito simples

Da. Peninha em foto de Cláudia Schembri na festa de Santo André em 2011.

Da. Peninha morreu ontem a noite. Aquela senhorinha miúda e magrinha fazia jus ao apelido. Nunca  eu soube seu nome, poucas vezes ouvi a sua voz. Nos encontrávamos aos domingos na missa, sempre vestida com simplicidade, roupa limpa, cabelos bem penteados presos num coque. Nos últimos meses deixou de frequentar a igreja. Disseram que estava doente, fora internada e depois levada para a casa de um filho. Recentemente uma candidata a vereadora fez uma pesquisa visitando todos os moradores da pequena vila onde moro e chegou a uma triste constatação : 10 casas não tinham banheiro. Uma delas era de Da. Peninha. Fiquei chocada, assim como tantos outros moradores. No movimento Linda Vila que tem como objetivo pintar e arrumar o povoado,  Zé de Broi, o idealizador, se ofereceu para construir o banheiro, Maninha doou o vaso e uma pia. Mas Da. Peninha não viveu para ver o sonho, simples como ela, de ter um banheiro em casa.  Um direito de todos, assim como água na torneira.

No velório conversando com Sebastião, seu marido, soube que Da. Peninha teve 7 filhos, mas só restaram 2. Um caiu no mundo e o outro ainda nem sabia da morte da mãe. Olhando o corpo dormindo no caixão simples, a pele morena, a blusa clara com rendas, fiquei imaginando quantos anos teria vivido e antes de me despedir perguntei ao marido.

“64”, respondeu ele. Voltei prá casa repetindo a idade dela. Parecia que carregava todos os anos nas costas curvadas, mas só tinha um ano a mais do que eu.

Memória

Um fio da memória foi solto ao ver uma antiga foto de capa da revista Amiga com Lucia Alves, Tereza Sodré e Paulo Goulart no Facebook que me levou prá muito longe. Fui a primeira repórter contratada para esta revista. Na verdade tudo começou alguns meses antes quando, a convite do Moyses Fuks, me demiti da TV Continental para ir trabalhar na Bloch Editores. Eles iam lançar uma revista semanal de artistas – ainda não chamavam de celebridades – e enquanto esperava, fui trabalhar na Sétimo Céu. Publicação mensal, que além de reportagens com artistas, produzia fotonovelas coloridas também com celebridades. Alberto Maduar, diretor da revista, fazia as vezes de diretor de fotonovela e nestas ocasiões usava um colete como se estivesse dirigindo um filme em Hollywood. Nilton Ricardo era fotógrafo, Leonel Kaz redator, Áureo Abílio diretor de arte e ainda tinha um produtor que não recordo o nome. Saída da Tijuca para o “grand monde” eu ficava fascinada quando começavam literalmente a montar as fotonovelas. Chegavam do laboratório rolos de negativos tamanho 6X6cm que eram espalhados sob uma mesa com tampa de vidro e luz interior. Ali selecionavam as fotos de acordo com os diálogos que entravam como “balãozinho” sob a cabeça dos artistas…. Era esquema de super produção, com locação para as fotos e tinham até figurantes de fotonovela…

Na redação de Sétimo Céu conheci Aninha (Ana Maria Farias) que me ensinou a fazer promoção da revista nas rádios e programas de TV. Aninha era secretária, fazia de tudo e quando a revista ia para as bancas ela ia para as rádios e programas de auditório na TV levando exemplares para distribuir aos comunicadores. Com isso eles falavam da revista, um merchandising que acontecia pela simpatia e a relação por ela desenvolvida com aquelas pessoas. Aninha me abriu boas portas juntos às gravadoras e artistas, uma querida amiga.

Deixei a Sétimo Céu quando a revista Amiga dirigida por  Moyses Weltman (1932–1985) se preparava para ser lançada. Quem tiver os primeiros números da revista poderá ler nos créditos das reportagens não apenas Léa Penteado, mas também Ceres Viana ou Léa Ceres, que também sou eu… Escrevi até horóscopo. A equipe era muito pequena. Luiz Augusto Chabassus era redator e só meses depois chegaram Lucia Rito, José Luiz Sombra, Alexandra Bertola, Adriana Monteiro vindos de um curso para novos jornalistas que a Bloch realizava anualmente. Weltman era um veterano do rádio onde escreveu novelas entre elas “Jerônimo, o Herói do Sertão” e também com experiência em novelas para a TV. Vinha com o trunfo de ter sido diretor da Radiolândia, primórdio das revistas de famosos, concorrente da Revista do Rádio. Sempre vestia camisa social impecavelmente branca e engomada, foi um grande professor prá mim. A revista Amiga nasceu inspirada em uma revista italiana chamada Amica.  Até o tamanho era igual, um pouco maior do que as publicações daquele tempo, alguma coisa como a Caras de hoje. O conteúdo era composto de fotonovela italiana e notícias do meio artístico. Toda a revista era em preto e branco. Aos poucos as fotonovelas foram diminuindo e aumentando as páginas de reportagens.

Fui repórter e depois colunista da Amiga, assinando como Leleca Novidade, apelido que ganhei do Carlos Imperial. Minha formação profissional começou atrás daquelas mesas de jacarandá em um sofisticado edifício da Praia do Russel onde no restaurante comia-se com talheres de prata, usava-se guardanapo de linho, bebia-se água em copos bico de jaca cercada de obras de arte. No vai e vem com a família Bloch, estive um tempo na Manchete em São Paulo e voltei ao Rio para dirigir Sétimo Céu, a revista onde eu comecei. Eu tinha 26 anos e os tempos já eram outros. A acirrada disputa entre as revistas Amiga e Intervalo pegava fogo. Sétimo Céu estava fora desta briga, era quinzenal, na verdade aparecia em duas versões, uma com um coraçãozinho “Série Amor”, mas era tudo a mesma coisa. Seguindo a tendência das revistas europeias os “publishers” Moyses Fuks e Roberto Barreira pediam que seguisse o estilo da revista francesa, creio que o nome era “7 Jours”, onde em muitas reportagens os artistas apareciam completamente diferentes do que em seus shows e na vida real. Transformavam-se em personagens, como Silvie Vartan e Johnny Hollyday encarnando Marco Antonio e Cleópatra.  Fazer isso com Vanusa e Antonio Marcos era uma missão impossível. Mas tínhamos que produzir ao menos a capa e uma grande reportagem e/ou fotonovela em estilo próximo. A Bloch tinha um belíssimo estúdio na Rua Frei Caneca, mas não era fácil levar um artista para passar uma tarde vestido de padre ou duelando como lutadores romanos como fizeram Wanderley Cardoso e Jerry Adriani. Não havia photoshop e as produções eram complicadas, mas sempre muito divertidas…  Trabalho de maravilhosos profissionais.  Revendo as fotos de tantas capas encontradas nos sites http://arquivoderevistas.blogspot.com.br e http://revistaamiga-novelas.blogspot.com.br passou uma fotonovela da minha vida… Este fio da memória foi solto ao ver uma antiga foto de capa da revista Amiga com Lucia Alves, Tereza Sodré e Paulo Goulart no Facebook que me levou prá muito longe.

Em tempo: prá matar as saudades fiz um álbum de fotos das capas de revista que recolhi na internet e está neste endereço https://www.facebook.com/media/set/?set=a.4667225518942.259778.1242664499&type=3&l=045a8dea11

Sobre poesia e mitos

Não lembro em qual show ouvi pela primeira vez Maria Bethânia falando um trecho do poema Cântico Negro do português José Régio, mas lembro perfeitamente que voltei prá casa com a última estrofe me acompanhando :

“ Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí! “

Vez por outra o poema me assola, como nos últimos dias ouvindo Maria Inêz do Espírito Santo contar lindamente o mito indígena do Caranguejo e do Jaguar que está em seu livro “O Gosto de Terra Natal”. Conta a lenda que o Caranguejo tinha o poder de jogar seus olhos para longe e ver outras terras. Os olhos iam, viam de tudo e voltavam. O Jaguar ficou fascinado quando soube que o Caranguejo tinha esse dom e pediu que fizesse o mesmo com seus olhos. O Caranguejo atendeu ao pedido do Jaguar e mandou seus os olhos para o outro lado do lago. Os olhos foram e voltaram. O Jaguar ficou deslumbrado com o que seus olhos tinham visto e  queria conhecer mais. Apesar do Caranguejo alegar o perigo, pois era a hora do pai da Traíra andar pelo lago e poderia devorar seus olhos, o Jaguar tanto insistiu que lá foram seus olhos. Foram e não voltaram. O Jaguar se desesperou com a cegueira, quis devorar o Caranguejo que fugiu para o fundo do lago. E lá ficou o Jaguar na mata desesperado até que apareceu o Gavião Real e ofereceu ajuda. Com leite retirado de uma árvore e sementes, o Gavião Real criou novos olhos para o Jaguar. Como pagamento exigiu que toda caça feita pelo Jaguar um pedaço ficasse para o Gavião Real. E assim foi feito. Até hoje o Jaguar não come tudo o que caça.

Mito e poema se encontram no momento em que a experiência de cada um é única. Não posso viver com os olhos dos outros, nem seguir o que não for o meu caminho.

Esta historia foi recolhida entre os Taulipang, nação indígena de Roraima e publicada no livro “Lendas do Índio Brasileiro” de Alberto da Costa e Silva. Quem quiser conhecer mais sobre Maria Inêz dê uma olhada em seu site www.mariainezdoespiritosanto.com.br

Ebulição

Foto : Cláudia Schembri

Resolvi processar diferente e fazer coisas que só estavam nos pensamentos. Sinto tal qual um formigueiro em fase de “correção”* transferindo ideias e sonhos de um lado para o outro, como fazem as formigas ao mudar de casa. Elas seguem em fila, às vezes atravessam áreas enormes até encontrar o que consideram seu espaço. Não sei se isto ocorre em alguma época específica ou em condições climáticas especiais, mas sinto que meus pensamentos estão fazendo uma trajetória parecida, buscando novos lugares dentro de mim.  Em alguns momentos brincam como num jogo das cadeiras disputando um lugar para sentar. Alguém sempre cai fora, o funil vai apertando, e como em toda disputa, que vença o melhor. Com isso concluo que nem sempre ideias antigas merecem ter espaço.

Estou em plena ebulição. É um processo tão interessante e para aliviar a agitação mental faço atividades fora do cotidiano. Tenho feito muito pão. Não amasso a farinha nem coloco prá descansar. É tudo na máquina, mas nem por isso sou uma “padeira” menos eficiente. Tenho saído pelas poucas ruas da vila a pé ou de bicicleta, visito amigos, releio livros antigos que foram importantes em momentos de reflexão e até mudei o escritório de lugar…   Agora vejo de um ponto mais alto as árvores e o jardim. Meu horizonte foi ampliado. Só uma questão de saber o que vislumbrar.

Com isso lembrei de uma metáfora que o Dr. Lair Ribeiro utiliza em seus cursos quando fala sobre o limite de cada um. Conta que nos circos criam os elefantes preso a uma corda. Crescem sem saber de sua força nem do seu tamanho. E mesmo quando são soltos não vão longe. Andam apenas no limite do picadeiro para as suas exibições. Às vezes reflito se amarrei a minha corda em uma das árvores do quintal, se não restringi o meu picadeiro, mas ao contrário do elefante fui  muito mais bicho solto. Não sei prá onde vou, posso até nem sair do lugar.  Mas sei que todos os caminhos são experiências ricas e algo está mudando dentro de mim.

* correção =  aprendi na Bahia que assim chamam o movimento das formigas mudando de lugar

Meu pai não ensinou

Meu pai era um homem admirável. Em contraponto a infância pobre o tempo o sofisticou.  Tinha humor fino, jogava tênis, fumava cachimbo e falava mansamente. Dizia que aprendera com o cachimbo a organizar seus pensamentos refletindo entre as baforadas. Ouvi de sua boca uma das piores coisas que uma filha pode esperar. Recém-separada, de volta à casa da família, depois de um mês no aconchego ele usou o dito popular para me posicionar: “quem pariu Mateus que o embale. É tempo de você construir a sua vida”. E com esta elegância me tirou da zona de conforto e fui à luta. Agradeço por isso, não sei qual seria meu futuro sem esta  chacoalhada.

Papai era bom conselheiro, mas teve uma lição que não me ensinou: “quem não bate, apanha”. Aprendi com a vida, mas gostaria de ter sido alertada por ele.  Como bom tenista ele certamente sabia que muitas vezes o ataque é a melhor defesa, mas me ensinou que, assim como Jesus, na hora da agressão eu devia oferecer a outra face. Tentei seguir ao pé da letra, mas no caminho pela sobrevivência antes de dar a outra face precisei sair esmurrando quem estivesse em minha frente. No final do dia sentia-me exausta e culpada. E mesmo tendo que me superar jamais puxei o tapete. Acredito que o tempo revela as pessoas, dilui mal estar, alivia as tensões e nem todos são sempre bons ou ruins…

Papai me ensinou a ser paciente, apesar de toda a minha natural agitação. Posso ser uma usina de ideias, mas sei que nada acontece fora do seu tempo. Acredito que existe um mundo mágico, paralelo ao que vivo, aonde o meu futuro está ali, vai se formando com meus pensamentos, atitudes e merecimentos. Nada é revelado, espero que os dias me surpreendam. Deixo o tempo se acomodar, melhor que faço é arrumar o fumo em um cachimbo hipotético, refletir entre as baforada e esperar a vida tomar prumo.

Não me leve a mal, hoje é carnaval…

Ele amava carnaval. Ia aos ensaios da escola de samba, comprava os ingressos para os melhores bailes. Semanas antes mandava o smooking para o tintureiro e programava a agenda. Ela gostava menos, mas fazia o gosto dele. Tirava do armário a caixa com plumas, paetês, strass, tiaras e bijuterias, fazia um balanço do que servia ou o que podia ser repassado para o maquiador desfilar no Baile dos Enxutos e se preparava os bailes. Trajes específicos, não repetia roupa nem cor.

E foram a muitos bailes até que na segunda feira de carnaval ela ficou em casa assistindo ao desfile das Escolas de Samba na TV. Ele ia desfilar e a convencera de que a Sapucaí era uma coisa muito chata. Longos desfiles, horas de espera e o desconforto de uma frisa já que não comprara camarote. Ela aceitou, dormiu com a TV ligada e não viu quando ele chegou. Acordou na terça-feira gorda muito feliz, era o ultimo baile. Catou na sala o resto da fantasia que ele deixou e passou a manhã na piscina. Às 4 da tarde quando ele acordou, ela já estava na sala de TV com o maquiador e o cabeleireiro. A festa começaria mais cedo com o grande desfile de fantasias gravado pela TV e ele fazia parte do júri.

Com cara de ontem e muito bem humorado ele chegou à sala. Cumprimentou cantarolando o samba enredo, foi para a cozinha, pegou um café a acendeu um cigarro. Ela continuou nas mãos dos magos que a transformariam em uma linda mulher com tons de lilás e algumas plumas roxas.  A TV estava ligada em algum programa vespertino, ele passou na sala para pegar o telefone sem fio e foi para o quarto.  Maquiador e cabeleireiro riam, falavam alto e somado ao barulho da TV ela não ouviu o telefone tocar. Como por mágica, um passe dos anjos – ou dos demônios? – em alguns minutos se fez silencio. Os rapazes voltaram-se às funções, a TV ficou quieta e ela pode ouvir perfeitamente a seguinte frase vinda do quarto…

“… e ficamos trepando no carro até o dia nascer…”

Volta o som da TV, os rapazes desconcertados retomam um assunto qualquer e ela em choque com a frase repetindo em sua mente.

“… e ficamos trepando no carro até o dia nascer…”

Ficamos quem ? Pensou ela. Ele não poderia fazer  isso. Uma confusão em sua cabeça, o bom humor dele ao acordar, uma sucessão de historias quanto ao desfile e ela não tinha mais o que fazer. Já estava na hora de sair. Ficou sentada como um manequim de loja, imóvel. Cabeleireiro e maquiador a levantaram da poltrona vestiram sua linda roupa lilás, colocaram os brincos com enormes pingentes de strass, as plumas na cabeça, um pouco mais de brilho nos ombros, calçaram suas sandálias douradas com salto 15 e estava pronta para a festa. Não chorava, não gemia, não falava. Estava em choque. A frase martelava.

“… e ficamos trepando no carro até o dia nascer…”

Os rapazes perceberam e acompanharam o casal até a garagem. Comentários bobos no elevador, ela em silencio. Antes de entrar no carro ela abriu a porta do banco traseiro, viu restos de purpurina grossa no estofamento, penas vagabundas no chão e sentiu náuseas.

“… e ficamos trepando no carro até o dia nascer…”

Sentou no banco do carona e nos poucos quilômetros até o clube não gritou. Mansamente ela soletrava cada um dos palavrões que conhecia. Não chorava para não estragar a maquiagem. Ele não sabia o que se passava com ela. Mas ficou calado, tinha culpa.  Da rua Toneleros, passando o Corte Cantagalo à Lagoa o discurso ia de filho da puta à cafajeste. Desfiou um rosário de um ódio jamais imaginado. A maquiagem, o cabelo, a roupa, tudo intacto. Cada sílaba era uma lágrima. Na entrada da festa chegou distribuindo simpatia com elegância  Sentou-se no camarote e viu que tinha se superado. Era a mais bonita de todas. Passou a noite tomando champagne sem olhar para ele. Voltou para casa em silencio, dormiu no quarto de hospedes, acordou na 4ª. feira de cinzas de ressaca. Telefonou para o advogado, fez as malas e nunca mais voltou. Ele pirou, nunca entendeu o que a fez deixar um bom casamento.

A lida do cotidiano

Tenho feito boas descobertas nos últimos anos e uma dela é o quanto gosto de varrer… Varrer, isso mesmo… Pegar uma vassoura e sair pela casa, o pátio, a varanda… A semana passada cheguei ao ponto máximo de rastelar o quintal, são mais de 60 árvores derramando  folhas na areia, terra e grama… Não fui muito longe, apenas a clareira embaixo de algumas árvores onde coloquei uma mesa para uma reunião com alguns amigos para mais uma vez conversar sobre caminhos da vila onde moro…

Nasci em uma casa onde não podia faltar empregada. Mamãe repetia “jamais algum filho irá lembrar a comida deliciosa que eu fiz. Odeio cozinha.” Era esta forma incisiva, dramática, passional de se referir à gastronomia. Era tão arredia aos prazeres da boa mesa que declarava poder viver apenas com “café, leite, pão e manteiga” e nos seus últimos anos desenvolveu uma doença – Síndrome de Jögren – cujo resultado é o organismo não produzir mais saliva (ou lagrimas),  com isso perdeu do paladar… Penso o quanto produzimos nosso futuro com pensamentos, desejos declarados, palavras mal ditas, não confundir com “malditas”…

Voltando a vassoura, razão destes meus pensamentos neste domingo, apesar de mamãe detestar cozinha, limpava a casa com primor. Talvez venha daí o meu gosto pela vassoura, arrumar a cama, guardar as roupas. Preguiça de tirar o pó, paixão por lavar roupa e louça. Nenhum problema em passar roupa desde que seja vendo TV ou ouvindo música. Apesar de ouvir que é monótono o trabalho de casa, eu viajo varrendo as folhas. Algumas caem completamente destruídas, amassadas pelo vento, outras caem de maduro, velhinhas, amarelecidas, e alguns galhos totalmente secos… Penso nas historia de cada uma delas, no prazer de estar vivendo no alto e de repente não ser mais do que uma sujeirinha no chão que alguns até jogam prá debaixo do tapete… Lembro-me da sombra que fazem e também do trabalho diário em recolher as que já são passado. Aprendo o quanto a vida é sutil e frágil. Um balanço do vento e nos espalhamos no chão. Já passou o tempo…

Do livro…

…. Quando coisas ruíns acontecem às pessoas boas, de Harold Kushner

“Não podemos ó Deus, pedir-Te simplesmente que acabes com a guerra;

Pois sabemos que fizeste o mundo

De maneira que o homem pode encontrar seu próprio caminho para a paz

Dentro de si e com seu vizinho.

Não podemos, ó Deus, pedir-Te simplesmente que acabes com a inanição;

Pois já nos deste recursos

Suficientes para alimentar o mundo todo

Se os utilizamos com sabedoria.

Não podemos, ó Deus, pedir-te simplesmente

Para acabar com o preconceito,

Pois já nos deste olhos,

Para vermos o bem em todos os homens,

Bastando usá-los corretamente.

Não podemos, ó Deus, pedir-Te simplesmente que acabes com o desespero,

Pois já nos deste o poder

De eliminar as favelas e distribuir esperança,

Se formos capazes de usar nosso poder com justiça.

Não podemos, ó Deus, pedir-Te simplesmente que acabes com a doença,

Pois já nos deste grandes inteligências

Para pesquisar e descobrir as curas,

Só nos faltando usá-las construtivamente.

Assim, em vez disso tudo, nós te pedimos, ó Deus,

Fortaleza, determinação e vontade,

Para fazermos e não apenas orarmos,

Para sermos e não simplesmente desejarmos.

(Jack Riemer, Likrat Shabbat)

 

Currículo

Uma amiga está refazendo o currículo e foi o bastante para pensar no meu.

Tenho um currículo simples que foi utilizado para a “orelha” do livro, mas revendo concluo que não é completo por trazer apenas a relação dos locais onde passei e as funções que exerci. Melhor seria dizer que escrevo “a metro”, não importa o quanto nem sobre o que, gosto de escrever. Sou criativa, basta uma palavra que saio inventando projetos e seus desdobramentos. Posso também acrescentar que acordo com ideias surpreendentes, não sei de onde elas vêm, surgem antes mesmo que meus olhos se abram. Foi assim hoje, um pensamento em relação a um assunto conversado na 6ª. feira e apareceu a solução. Também sou boa de conversa, não sei contar piadas mas posso entreter clientes e equipes. Visto a camisa, faço parte do time com o maior prazer, gosto de estar entre pessoas e compartilhar. Uma vez quando saí do jornal O Globo nos anos 80 deixei com uma repórter iniciante uma cópia do meu caderno de telefones.  Ela não conseguiu bons resultados. Não adiantava apenas ter o número da “celebridade” , pois relação é coisa que se conquista com o tempo.

Sou pau prá toda obra, não me incomodo de envelopar, separar papéis, organizar pastas, servir até cafezinho em reunião … Transito facilmente nas relações com autoridades públicas, clero e quem quer que seja… Conheço muitas formas de pronomes de tratamento, navego de Vossa Excelência à  Vossa Magnificência com tranquilidade. Conheço a etiqueta à mesa, sei comer com os talheres,  incluindo pinças e garfos para  “escargots “. Apesar de achar o molusco sem graça, prefiro o molho de ervas com bastante alho. Não gosto  de fígado nem miúdos, mas se for oferecido faço cara alegre e sigo em frente.  Sei o que servir em cada copo/taça, tomar sopa sem fazer barulho… Também sei como manda a tradição da boa mesa italiana, passar um pãozinho no fundo do prato onde foi servida a massa…

Se for necessário posso fazer pequenos consertos de roupas como barra de calça, cerzidos, apertar roupas e pregar botões. Conheço um toque de “do-in” que cessa dor de cabeça e sei também aplicar Reiki. Energizo locais de trabalho com incenso, sempre tenho um pouco de sal grosso para limpar o ambiente. Tenho ótima memória, tempo livre para fazer hora extra,  incluindo sábados e domingos, o passaporte está em dia e posso viajar até para o Alaska.  Sou ligada em tecnologia, conheço todas as ferramentas da Microsoft, e ainda Ipad, Notebook, Iphone, Blackberry…  Sei um pouquinho de Photoshop, mas faço relatórios lindíssimos utilizando um programa de criação de livros. Falo bem em público, de improviso, é so avisar o assunto com antecedência… Como aprendi que o que vai para o coração não sai da memória, se for sobre uma experiência que já vivi fica mais fácil. Para concluir meu currículo não vou esconder :   às vezes sou esquentada. Mas o melhor de tudo: não guardo mágoas.

Em tempo : não sei se esta foto é apropriada para um currículo, mas é atual.

Sobre Amado

Todas as homenagens que tenho visto dos 100 anos de Jorge Amado não são atoa. Além da sua importância como escritor, era um homem muito especial, e tenho um pequeno testemunho. Como gerente de imprensa na Editora Record fiz o lançamento do livro “Navegação de Cabotagem” na Bienal do Livro em São Paulo, em 1992, que coincidia com a celebração dos 80 anos do escritor. O  enorme stand para atender aos milhares de livros da editora foi tematizado com “Navegação de Cabotagem” o grande homenageado do ano. Vendedores com chapéu de comandante, tudo girava em torno deste que seria o grande lançamento. E fomos para São Paulo começando com uma coletiva de imprensa, algumas entrevistas para a TV – acho que ele foi ao Jô Soares ainda no SBT – e a famosa tarde de autógrafos na Bienal quando humildemente Paulo Coelho veio ao stand para ser apresentado ao escritor baiano. Ficamos hospedados no mesmo hotel nos Jardins e jamais vou esquecer seu profissionalismo. Num contrato entre a editora e uma grande livraria, teríamos que entregar 500 livros autografados para leitores que haviam efetuado a compra antecipada. Todos os dias um rapaz do hotel vinha em meu apartamento com um carrinho, pegava uma boa quantidade de livros e entregava no apartamento de Jorge e Zélia, retornando com os livros já assinados. Assim foi até assinar todos sem reclamar. E ele já tinha 80 anos! Ora, quem tem um respeito deste tamanho por seus leitores merece mesmo muitas homenagens em seus 100 anos de vida. Vivas ao Amado !

Em tempo : “Navegação de Cabotagem” são memórias do escritor e começou a ser escrito em janeiro de 1986. Na ocasião, o autor estava em Nova York, ao lado da mulher, Zélia Gattai, para participar do Congresso Internacional do Pen Club. Adoentado, sofrendo de pneumonia, não compareceu às conferências e se pôs a redigir algumas notas à medida que elas lhe acorriam à lembrança. Uma deliciosa leitura.