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A última sessão de cinema

Alguns amigos de Olímpia e Claudio na festa de despedida...

Eles chegaram de mansinho, se instalaram em uma casinha em frente ao rio, aos poucos abriram seu acervo de filmes e começaram a fazer sessões de cinema embaixo do cajueiro. Nasceu assim o Cine Cajueiro, da Olímpia e do Claudio Calmon, que vinham de Brasília para viver um novo tempo de aposentadoria à beira mar. Gostaram tanto da vila que compraram um terreno e construíram uma linda casa… Casa dos sonhos, arquitetura caprichada, cada detalhe pensado… O Cine Cajueiro, atração das crianças e jovens da vila, saiu da beira do rio e foi para o jardim da casa. Uma vez por semana a grande tela pendurada na árvore cercada por cadeiras e banquinhos. Os filmes tinham que ser dublados, pois são poucos os que conseguem ler as letrinhas corridas. Com enorme delicadeza Olímpia fazia a curadoria apresentando o que crianças/jovens queriam ver com o que ela achava que eles deveriam ver. Ao mesmo tempo, uma versão sofisticada do Cine Cajueiro ganhou espaço no Casapraia.  Uma vez por semana filmes recém lançados, temporadas “cults”, às vezes mini platéias, não mais que meia dúzia de moradores em noites frias, outras, ao ar livre, sentindo a brisa do mar, repleta de turistas encantados em ir ao cinema com luar e estrelas… Mais de 500 filmes exibidos…Cinco anos bastaram para jovens sem opção de diversão se apaixonarem pela magia da tela grande.

Claudio, além da casa, construiu um barco, o Bacana, e saía para pescar… Olímpia caminhava pelas ruas de terra, andava de bicicleta, chapeuzinho na cabeça, um dedo de prosa com um, trocava livros, conversava sobre literatura e problemas da comunidade, criou um blog http:// redefurada.blogspot.com que se transformou em referencia para a vila e visitantes … O casal era participativo nas reuniões em que a comunidade discutia os caminhos da escola, água, luz e eleições da associação local…

Mas de repente, a noticia bombástica, um final inesperado para um belo filme de amor e amizade : Olímpia e Claudio vão embora. Quando comentei com a Helenita, assessora de casa, a pergunta veio na bucha: “eles não gostam mais da gente?”…

Acho que este foi o sentimento de muitos nativos… Mas eles decidiram buscar outros caminhos, levar suas boas conversas e filmes para outras comunidades, estar mais perto da civilização. E para que a ausência fique ainda maior, hoje começa o período da baixa estação. Na intimidade, “a baixa”, falada pelos cantos como se fosse uma praga. Todo ano é assim. Os turistas partem, aqueles que têm casa de temporada também estão voltando às suas bases, e as ruas ficam vazias. As pousadas e o comércio se entristecem com este período de quase nenhum movimento onde a vila fica realmente como ela é: pequena, onde nada acontece… “A baixa” é cruel para uma vila que só tem como sobrevivência o turismo. Eu gosto deste tempo, menos agito externo, mais movimento interior… Mas confesso que hoje me sinto mais pobre com a saída de Olímpia e Claudio. Eles me davam a certeza de ter uma conversa boa bem perto… Mas a vida é feita de escolha e é bom ver amigos atrás de novos assuntos, paisagens, conhecimentos…

Ontem foi a última sessão de cinema na casa de Olímpia e Claudio em Vila de Santo André. Assistimos no jardim o filme argentino “Medianeira” uma historia que tem final feliz  e espero que a mesma alegria eles tenham na nova vida…  Que Paraty os receba com muito carinho…

Questão de tempo

Antes de começar a hidroginástica no mar, conversávamos  sobre o dia lindo e céu sem nuvens, quando chegou uma aluna queixando-se das pernas e braços flácidos pela idade, reclamando da velhice. Este assunto tem sido recorrente entre algumas amigas, pois como somos da mesma geração passamos pelo processo de forma coletiva o que reafirma o meu pensamento de que tudo tem seu tempo. Ja ouvi comentários do tipo “ah! se eu tivesse 30 anos com a cabeça que tenho hoje…” Mas discordo plenamente, acho que seria um desastre. Nada mais desconcertante do que criança prodígio e mulher ou homem mais velhos se portando como adolescentes. Soa como musica fora do compasso.
Estou com hospedes em casa que vivem um movimento de bebês. Pra eles falar de papinha, cocô mole/cocô duro e choro na madrugada é assunto constante. É uma experiência tão envolvente que acreditam que todos a sua volta também estão vivendo o assunto, mesmo que a fase seja uma vaga lembrança como fotos num antigo álbum.
Como dizia Dercy “Deus fez esta p….. muito bem feita”. Ja imaginou se com mais de 60 anos tivesse que correr atrás de um bebê que começa engatinhar ou aos 20 ter a tranqüilidade para ficar horas apreciando o movimento dos pássaros em torno de um pedaço de mamão ?
No 3o ato, como se refere Jane Fonda, as medidas e os movimentos são outros. O afeto da família que conhece a sua trajetória e os velhos amigos são essenciais. As vezes tenho preguiça de ter um amigo novo, contar por onde ja passei, o que vi e gostei do mundo. Mas logo lembro como é bom me apresentar recontando a minha historia, é uma forma de manter minhas referências bem vivas e isto me rejunesce tanto quanto brincar no mar numa aula de hidroginástica. Por isso, “colega”, não se perturbe com as nervurinhas no braço, nem no excesso do abdômen ou nas coxas mal definidas, estas são as medalhas da sua boa caminhada. Mantenha a sua mente lipoaspirada, os pensamentos em alto astral, o coração generoso, a fé no seu Deus pois o resto vai se deteriorar mesmo. É so uma questão de tempo.

Pery

Verão de 1970 – Leme, Rio de Janeiro, vou à padaria e encontro na esquina com Pery Ribeiro. Estava chegando à cidade depois de alguns anos fazendo sucesso nos Estados Unidos. Não lembro quem estava com ele, devia ser algum amigo, pois fez a apresentação. Dias depois o amigo (ou ele ??) telefonou convidando para um churrasco em Jacarepaguá na casa de Dalva de Oliveira, mãe de Pery. Que orgulho ir à casa da maravilhosa Dalva, estar na intimidade de uma família com longa historia na musica. O convite vinha com a informação para levar biquíni pois teria direito a piscina. Apesar de já ser jornalista e trabalhar na Revista Amiga, não estava indo para fazer uma reportagem. Acontece que  o papo foi ótimo, Pery contou boas historias de sua experiencia no exterior… Eu estava casada há poucos meses com Paulinho (Paulo Martins) que além de arquiteto, cineasta era também fotografo. Levou a câmera e fez umas fotos muito divertidas… Passamos um dia delicioso a beira da piscina e no final, com autorização de todos, este material acabou se transformando numa reportagem da revista Amiga  e nasceu aí uma boa amizade…

Ouvi muito Pery cantar numa época da boa boêmia carioca. Ele era um cantor excepcional, um artista respeitado no mercado internacional. Era a voz da bossa nova.  Namorei muito embalada por sua voz  afinadíssima…

Acho que este ano não quero mais abrir a caixa de fotos antigas e postar adeus aos amigos. Prá inicio de ano acho que já está de bom tamanho duas despedidas. (Foto Paulo Martins)

Jejum

Abri a geladeira e me deparei com as cervejas geladinhas e o espumante português sorrindo prá mim. Uma tentação nesse calor da Bahia ! No pequeno bar do armário antigo as garrafas de whisky  (adoro uma pequena dose eventual ao anoitecer) também estão me olhando. Mas todos podem continuar em seus lugares pois entrei na quaresma. Há alguns anos, nem sei bem porque, comecei a fazer uma espécie de jejum nestes 40 dias que vão da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo de Ramos. Faço mais longo, dou mais 7 dias e sigo assim até a Páscoa. Abro mão de coisas que gosto por este período vigio os pensamentos e procuro desacelerar.

Com a viagem à Jerusalém, tendo na mente um cenário vivo da historia do catolicismo, esta Quaresma ganhou um sabor especial. Devo ter estudado em algum tempo, mas foi na pesquisa para o livro “Um Show em Jerusalém”, que aprendi mais um pouco. A Quaresma não surgiu após a morte de Jesus, foi uma criação da Igreja mais há de 300 anos depois do seu nascimento. Neste tempo o Imperador Romano Constantino que era pagão e adorava Zeus, se converteu ao cristianismo por influencia de sua mãe Helena de Constantinopla que numa peregrinação à Terra Santa localizou em Jerusalém uma cruz que foi tida como a de Jesus e ordenou a construção no local da Igreja do Santo Sepulcro. Dentro desta Igreja existem várias capelas sendo uma delas dedicada à Santa Helena, a própria mãe do Imperador…

Fiquei encantada com sua historia, pois imaginem uma mulher com quase 80 anos chegar a Jerusalém e sair em busca da cruz de Cristo… Consta que a teria encontrado entre varias cruzes, e para identificar qual era a de Cristo, colocou doentes sobre elas… O que se curou foi testemunho do milagre… Mas toda esta historia é fascinante. Constantino era um obcecado por conquistas, como diria minha mãe, “acendia uma vela para Deus e outra para o diabo”. Ao mesmo tempo em que adorava Zeus, consta que uma noite antes de sair para uma batalha sonhou com uma cruz e nela estava inscrito em latim “In hoc signo vinces” (Sob este símbolo vencerás). De manhã, um pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo.

Constantino casou por interesse com uma menina de 7 anos, filha do inimigo, e anos depois mandou matar o sogro, mandou matar também um filho de uma relação extra conjugal, e acho que tentou garantir um lugar no Céu ao declarar a religião cristã como legal e livre, anulando o vínculo do Estado Romano com a igreja pagã. Com isso os bens imóveis e os templos foram devolvidos aos cristãos que foram perseguidos e muitos pagãos quiseram entrar para a Igreja Católica. Foi neste tempo que se estabeleceu a Semana Santa, antecedida dos 40 dias de Quaresma. Um período de longa penitencia que incentivava a realização das festas populares nos três dias que antecediam a Quarta-feira de Cinzas, ou seja, o que hoje é Carnaval. Para se chegar a esta data a conta é feita de traz prá frente. O Domingo de Páscoa acontece no primeiro domingo após a primeira lua cheia a partir do equinócio da primavera (no hemisfério norte) ou do equinócio de outono (hemisfério sul) e a Sexta-feira da Paixão antecede o Domingo de Páscoa… Com isso, a terça-feira de Carnaval é 47 dias antes…

Adoro os simbolismos e, segundo a Bíblia, o número 4 representa o universo material. Os zeros que o seguem significam o tempo de nossa vida na terra, suas provações e dificuldades. 40 foram os dias do dilúvio, foram os anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, foram os dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública… Estes 40 dias de Jesus no deserto depois de ter sido batizado por João no Rio Jordão, são muito significativos. Foram dias de reflexão, de preparação para seguir a sua missão… E que missão!!!  Sendo assim, ficar 40 dias sem álcool, chocolate e carne vermelha não é nada…

A Rainha do Carnaval

Houve um tempo, na primeira metade do século passado, em que as belas moças das famílias tradicionais eram as rainhas do carnaval. Não que hoje não seja assim, mas a historia que eu conheço e lembro em todos os carnavais conta de uma moça bonita, usando um longo vestido de seda e renda francesa, que passou a noite sentada num trono de rainha num clube tradicional e elegante de Curitiba. Entre o aceno para os foliões e o cantarolar das marchinhas, notou a presença de um rapaz fantasiado de dominó, com a cabeça coberta por um capuz, que rondava o seu trono… Ela não via seu rosto, mas prestou atenção na mão e no anel em destaque. O rapaz a noite inteira só tinha olhos para a moça. De família menos abastada, não era sócio do clube, nem tinha dinheiro para comprar ingresso. A fantasia de dominó foi uma forma de entrar disfarçado. Na entrada cumprimentou alegremente o diretor do clube como se fosse um assíduo freqüentador.

Acabou o carnaval e a rainha voltou a ser professora de crianças. O rapaz não a perdeu de vista, seguiu seus caminhos e descobriu que um sobrinho estudava na escola onde a moça dava aulas. Passou a ir buscar o menino no final da aula até que um dia, finalmente, a moça olhou prá ele, ou melhor, para as mãos dele, e reconheceu o anel. Amor a primeira vista ! Casaram, tiveram 5 filhos, brincaram muitos carnavais e viveram felizes por 59 anos. Esta é a historia de Yayá e Alceu, meus pais, que relembro todos os carnavais…

Da esquerda para a direita : Déa, eu, Victor, mamãe, Marcus (na frente), papai e Alceu Filho (foto : Paulo Martins - 1970)

 

Eu larguei tudo e fui viver em Nova York

“Não quero mais”. Lembro da frase reverberando na minha cabeça por muitos dias até explodir numa sexta-feira 9 de novembro. A minha insatisfação era geral. Não se tratava apenas de um problema externo como mudar de casa, marido, emprego, amigos. Eu sentia que estava tudo errado – nos treze anos de jornalismo, no relacionamento com o filho, nos dois casamentos fracassados e em toda a minha vida. Para os que viam a situação do lado de fora não havia o que mudar. Estabilidade profissional, bom nome no mercado de trabalho, apartamento com vista para o Cristo, carro novo e filho estudando em bom colégio. Nada disso me fazia acreditar que estava tudo certo. Era necessário parar e pensar. Antes vou tentar me localizar. Sou a 4ª. de 5 filhos de uma família de classe média unida e feliz. Casei a primeira vez com 21 anos. Paixão e casamento relâmpago sem papel nem festa: ele era desquitado. Paulo é cineasta e formávamos um típico casal “hippie de boutique” dos anos 70. Nosso casamento acabou depois de três anos por causa da nossa imaturidade. Como resultado Bernardo, hoje com 11 anos, e uma grande amizade. O segundo casamento aos 28 anos aconteceu depois de dois anos de namoro. Régis (Régis Cardoso) já era diretor de novelas da Globo e não tinha nada em comum com Paulo. Era um relacionamento maduro e o casamento foi muito discutido. Casamos com juiz, testemunhas, numa grande festa. Com ele minha vida mudou. Carro com chofer, apartamento de cobertura com piscina, muitas festas. E muito amor, carinho e amizade. Todos acreditavam que formávamos um par perfeito e eu também. Depois de quatro anos o casamento acabou. As razões foram muitas entre elas a impossibilidade dele de ser monogâmico. Para disfarçar a volta por cima que estava tentando dar com o final do segundo casamento, programei com Bernardo e mamãe, férias nos Estados Unidos. No roteiro Disneyworld, Washington e Nova York. Nada mais gratificante. Mas até quando eu continuaria a tapar o sol com peneira ? Não era só o fim do casamento que me incomodava. Tinha duvidas em relação à profissão, ao futuro, ao mundo em si. Sem contar a minha total incapacidade de viver sozinha, que poderia gerar um terceiro casamento sem a menor conseqüência. Naquela segunda-feira 9 de novembro mudei meus planos. Faria a viagem, mas Bernardo e mamãe voltariam e eu continuaria em Nova York. Um amigo que morava lá ofereceu-me hospedagem por quanto tempo eu precisasse. Meus pais concordaram em ficar com meu filho. Pedi demissão do jornal onde trabalhava há cinco anos, vendi o carro e em apenas um mês leiloei 32 anos de Brasil a preço de banana. A viagem foi perfeita, mas quando embarquei Bernardo e mamãe de volta para o Brasil tive a sensação de estar sozinha no mundo. Duas malas, alguns discos e um nó na garganta eram toda a minha bagagem. Chorei o suficiente para transbordar o Hudson e o East, os rios que envolvem esta louca e linda ilha de Manhattan. A minha cabeça era um caos e o meu inglês era de índio. Para resolver este problema fui morar numa escola em Staten Island, uma ilha que está para Manhattan como Niterói está para o Rio. Dividia o quarto com uma coreana e meus novos amigos eram árabes, gregos, japoneses, africanos, hindus e sul americanos, que se misturavam como numa torre de Babel. A superalimentação de um college americano somada a total carência afetiva me fez engordar muito. Eu me sentia horrorosa e, como um urso, me hibernei no primeiro inverno. Entrei num processo de respirar notícias do Brasil. Escrevia dezenas de cartas e quando recebia resposta era como uma baforada de oxigênio para continuar sobrevivendo. Mas havia também o ombro amigo do Zé Luis de Oliveira, na casa de quem vivi por nove meses. Pacientemente ele ouviu todos os problemas e foi um analista full time. Eu era a pessoa mais chata do mundo: um poço de mágoas e mau humor. Não queria ver ninguém e nem ia a lugar algum. O curso de inglês terminou no início da primavera e para praticar o idioma fui morar por quatro semanas com uma família americana em Larchmont, subúrbio de Nova York. Carol Greenwald e seus dois filhos me adotaram. Com eles aprendi a cozinhar, a economizar nas compras, usar a agenda para tudo e, a saber, como é uma típica família americana. Com Carol também aprendi que não é fácil ser uma mulher divorciada neste país. Single, em inglês, significa “um só, único” e designa também as pessoas solteiras ou divorciadas. Atrás dessa palavrinha existe uma grande indústria oferecendo viagens, festas, acompanhantes para ópera, e por vídeo-teipe pode-se até conseguir um namorado. Tudo mecânico e organizado para diminuir a solidão. Uma noite Carol me levou a um single party (festa para solteiros). Paguei 6 dólares na entrada com direito a vinho, café, biscoitos e colocaram na minha blusa uma etiqueta com meu nome. O salão decorado com flores de papel estava repleto de pessoas cuja idade variava de 40 a 70 anos. Eu era a caçula. Ao fundo um conjunto tocava baladas dos anos 50. A cena seria triste se eu não tivesse um ataque de riso quando o conjunto atacou um rock n´roll e todos invadiram a pista como se fossem adolescentes. Como disse Carol, eles pagaram para se divertir. Era bem melhor estar ali do que passar uma noite sozinhos em frente da televisão. Passei a entender o desespero da solidão dos singles. Eles aprendem muito cedo a viver longe da família e, quando ficam adultos, os laços familiares não existem mais. Não é como no Brasil em que a gente casa, descasa e continua sempre junto com pais e irmãos. Aqui é cada um por si. Terminei a temporada com os Greenwald e voltei prá Manhattan. Uma noite conversando com Zé Luis sobre a vontade e necessidade de trabalhar, ele teve a idéia de fazer uma revista brasileira nos Estados Unidos. Com a ajuda de outra brasileira, Dudu Continentino, pusemos mãos à obra. Acreditando na viabilidade do projeto, achei que era hora de trazer meu filho. Nessa época, Zé, Dudu e eu alugamos uma casa em Nova Jersey, um Estado vizinho de Nova York, e fomos viver em comunidade. Éramos uma “família” diferente na pacata cidadezinha de Maplewood, mas nem por isso fomos alijados. O sonho da casa com tomateiro no quintal, sótão, porão e lareira durou pouco. As divergências pessoas transformaram o que seria um paraíso em inferno. Ao mesmo tempo, nossas provisões destinadas a levar avante a revista chegaram ao vermelho. Ficamos com lindas idéias e bolsos vazios. Dudu resolveu voltar para o Brasil. Por que não voltar também ? Era a pergunta dos meus pais e do meu filho. Mas eu sentia que a batalha comigo mesmo estava penas começando. Estava tomando consciência de quantas vezes abri mão da minha opinião e objetivos só para agradar terceiros. Por que esta necessidade de ser eficiente, gentil, cordata ? Por que não me mostrar exatamente como sou : teimosa, frágil, carente, tímida, romântica ? Que medo de não ser amada ! Estava descobrindo dados que desconhecia. Sempre acreditei que era extrovertida e sou tímida. Não sou tão auto-suficiente nem tão forte para dar tantas voltas por cima. Ainda continuava sendo a adolescente tijucana que sonhou casar, ter filhos, uma casa com cadeira de balanço para fazer tricô, um gato preguiçoso e um canário cantador. Mas a vida andou por tantos caminhos que não dava para voltar atrás. Como voltar para o Brasil agora, sem saber ainda quem eu era e que queria dessa vida ? Resolvi continuar. Precisava trabalhar, o dinheiro estava acabando. Estava disposta até a ser doméstica quando um empresário paulista me telefonou. Estava abrindo uma agencia de turismo e precisava de uma secretária. Não o deixei terminar a frase “Sou a melhor secretária do mundo”, concluí. No final de setembro começava a minha vida 9 to 5 na Eron Travel, em plena Fifth Avenue, endereço chic e coração do mundo. Troquei o jeans por saia, blusa e meias de nylon, típicos das secretárias americanas. De setembro a dezembro foram meses duros, Morando em Nova Jersey para chegar a Manhattan eu pegava três trens e caminhava 20 minutos. Quase duas horas de viagem. Saía com o dia amanhecendo e voltava de noite. Bernardo aprendeu a ser independente, a preparar o breakfast, ir sozinho para a escola, ficar sozinho enquanto eu não chegava, Fiquei magra, com ruga e vi meus primeiros cabelos brancos. Aprendia lavar, passar, arrumar, cuidar das unha e cortar os cabelos. Cada dia minha cabeça mudava. Os valores materiais antes tão importantes, foram dando espaço a valores espirituais cada dia mais ricos e fortes. Percebi isso no dia em que vendi minhas jóias para comprar agasalhos para meu filho e uma árvore de Natal. Foram os anéis, ficaram os dedos e uma paz de espírito enorme. Cansada da viagem diária, da solidão do Bernardo, do alto custo de manutenção da casa, resolvi deixar Maplewood. Aluguei um pequeno apartamento em Larchmont, subúrbio onde morava Carol Greenwald e me separei de Zé Luiz, depois de um ano em que dividimos sonhos e problemas. Eu e Bernardo passamos o Natal sozinhos mas estávamos felizes na nova casa. No fim de semana brincávamos, lavávamos e cozinhávamos juntos. Pela primeira vez eu era mãe integral sem babá sem ninguém. Era uma relação bonita e profunda mãe e filho. Por outro lado a vida da Léa mulher era nenhuma. Quando as 9 da noite Bernardo apagava a luz do quarto eu ficava olhando as paredes da sala pensando o que tinha feito da minha vida. Algumas vezes telefonava para o Brasil apenas para conversar com um adulto, pois Bernardo não podia entender por que nossa vida havia mudado tanto. Em março comecei a pensar em voltar para o Brasil. Conversando com Bernardo ele achou que seria bom ficar com os avós por uns tempos. Ele iria primeiro e assim que eu resolvesse que rumo tomar com o trabalho e o apartamento iria também. Em abril iniciei a verdadeira experiência de viver sozinha. Sem Zé Luiz, sem Bernardo, era eu comigo mesma. Algumas vezes eu parava de falar na sexta-feira ao sair do escritório e só voltava a conversar na segunda. Hoje não vivo o drama do correio. Fiz novos amigos brasileiros que me trazem um pouco do Brasil nas conversas. Mas não vivo em gueto. A maior parte do tempo estou com americanos, sou a única brasileira na agencia. Todas s manhãs, pontualmente, às 8h02m pego o trem para Manhattan. Trem confortável, com ar condicionado no verão e calefação no inverno. Todos os dias encontro com as mesmas pessoas que não se olham nem dizem bom dia. Sentam nos mesmos lugares, abrem livros ou jornais, e viajam 35 minutos em silencio. Tenho a sensação que quando saem de casa vestem invisíveis bolhas de plástico para não terem contato com o mundo. É o que se chama de liberdade. Se conversam eu respondo, se não, tenho os meus botões para falar. Apesar disso não creio que perdi a minha sensibilidade ou espírito carioca. Apenas aprendi que para viver aqui tenho que me adaptar ao jeito deles. Por exemplo: tive um namorado americano que uma noite me convidou para jantar em sua casa. Na sala, uma mesa linda com flores e velas, e na cozinha ele preparava o jantar. Jantamos romanticamente e, ao perceber que ele ia lavar os pratos, me ofereci para fazê-lo .Cozinha limpa, ele me deu um longo beijo e me mostrou o caminho da sala. Sentei no sofá e acendi um cigarro e fiquei esperando por ele. Os minutos passaram, o cigarro acabou, e nada. Ouvi um barulho na cozinha e fui ver o que estava acontecendo: ele estava lavando o fogão. Diante do meu espantou comentou: “você esqueceu”. Agora me diga: qual brasileiro se preocuparia em lavar um fogão numa hora dessas? Em julho voltei ao Brasil para rever Bernardo, meus pais, irmãos e alguns amigos. No reencontro com os amigos uma sensação estranha : eles falavam, perguntavam e eu não conseguia responder. Era um bombardeio de amor e festa e já não sei mais como é isso. Algumas pessoas me acharam triste. Sei que não sou mais uma grande gargalhada, mas o sorriso é sereno e constante. Pais e amigos continuam a perguntar até quando continuarei aqui, levando esta vida. É difícil responder. Gosto da minha vida tranqüila, sem badalações, doméstica e interiormente profunda. Nasci de novo aos 34 anos de idade, Sei que perdi muita coisa. Não falo do plano material, isso não importa mais. Tenho consciência que meu filho passou por momentos difíceis. Talvez ele ainda não possa compreender mas um dia vai perceber que ganhou uma mãe muito melhor. Deixei a profissão de que tanto gostava e não sei se vou poder recuperá-la, mas por outro lado ganhei uma nova. Turismo já não é apenas um meio de sobrevivência, faz parte de mim e gosto muito do que faço. Sei que aqui sou apenas um numero a mais no Social Security. Mas não tenho que provar mais nada para ninguém, nem para mim mesma. Posso ser tímida, carente, apaixonada, teimosa, em qualquer idioma, pois descobri que sou uma boa companhia. Aprendi a viver comigo mesma e minha fé é tão grande que sei que amanhã será melhor, em qualquer parte do mundo em que eu estiver. Até mesmo no Brasil. Afinal eu quero e mereço ser feliz.

Nova York, setembro de 1983

Fogo e Paixão

Janeiro 1987 – Wando fazia temporada de muito sucesso no Canecão. Ainda não jogavam calcinhas no palco, mas se prenunciava a sedução entre o artista e a platéia. Creio que foi para preparar o release da temporada que fui à sua casa, um belo apartamento na Barra, mega hiper super cobertura… Ele simples, simpático e disponível, do mesmo jeito que vi receber os fãs no camarim… No meio dessa temporada aconteceu o meu aniversário e ele chegou para cantar parabéns. Com seu mesmo jeitinho mineiro, agradável, amoroso e feliz.

No final da década de 70 algumas de suas músicas faziam parte do repertório dos crooners das  noites no 706, um bar muito simpático (ou uma boate ??) que havia na Ataúlfo de Paiva no Leblon… Os “crooners” eram, entre outros, Djavan e Emílio Santiago e “..eu quero me enrolar nos teus cabelos…” se tornou trilha sonora dos namoros de uma geração que experimentava os motéis… A música era envolvente e quase imoral.Muito na surdina, um cochicho  no pé do ouvido, uma velada declaração de desejo.

Não tinham paparazzis nas saídas da boates e acompanhei amores célebres no escurinho do 706… E essas memórias me fazem ter a certeza de que os quase quatro anos que atendi ao Canecão como assessora de imprensa serviram como uma pós graduação em show business. Não apenas pela variedade de espetáculos que assisti, épocas em que tínhamos 4 atrações por dia, sabores tão diferentes assim como a diversidade do público. O sucesso não se media nos ingressos esgotados, mas no consumo das mesas… A cozinha sabia muito bem que em shows do Wando, Guilherme Arantes e Roupa Nova, os salgadinhos esgotavam. Já nos shows do Caetano ou  de roqueiros, o consumo era muito menor…

Ainda hoje Wando, Guilherme e Roupa Nova permanecem na trilha da minha vida. Hoje tenho um gemido saudoso de “meu iaiá meu ioiô…”  com uma prece para descansar em paz !

A viagem ao som do oboé

Escuto canções no oboé que meu hospede, um belo músico das Minas Gerais, executa no jardim. Deitada na rede olho as copas das árvores e ao som deste instrumento tão sofisticado me delicio com um repertório do Chico Buarque que é um luxo. No suave movimento dos galhos das árvores em contraste com o azul do céu, as vezes sou banhada por réstias de sol, os cachorros dormem aos pés da rede, uma folha cai no colo e agradeço uma vez mais estes simples prazeres da vida. Sim, tenho uma vida muito simples, talvez por isso tão rica em imagens, sons, pensamentos e percepções.

Faz alguns anos que li (ou vi?) algo sobre uma terapia que usa o recontar a vida como ferramenta para superar traumas. Recontar no sentido de escrever, contar de novo prá si mesmo, reconstruir a própria biografia. Creio que são profissionais na linha da antroposofia que desenvolvem este sistema, e venho escrevendo a minha historia sem nenhuma base científica, apenas como forma de autoconhecimento.
Por isso gostei tanto do vídeo que circula pela internet e assisti esta semana. A atriz Jane Fonda, num speach de pouco mais de 10 minutos numa conferencia produzida pela empresa de seu marido Ted Turner, se mostra lúcida, reflexiva e conclui a existência do que chama de “3º ato”, uma fase nova para os que passam dos 60, pois comprovadamente viveremos 34 anos a mais do que as nossas bisavós. Do seu ponto de vista, Jane que vem de uma família declaradamente depressiva, rever a trajetória e perdoar os erros são elementos para reformatar as células, um processo neurológico que em uma análise rudimentar comparo a liberar espaço no hard disk.
Gosto muito desta linha de raciocínio de liberação de culpa, não foi a toa que me identifiquei tanto com os estudos de Um Curso em Milagres. Já tem muitos anos, talvez mais de 20, que ouvi o Dr.Lair Ribeiro num curso dizer para algumas pessoas que reclamavam sobre os maus tratos no passado: “não importa o que seus pais fizeram com você. Eles fizeram o que melhor sabiam. Importa o que você fez do que eles lhe fizeram.”

Apesar de ter passado alguns anos em divãs e poltronas de analista, o tempo tem me ensinado que, vistos a distancia, problemas, medos e desafios se tornam pequenos. Acredito que todos os dramas antigos se percebidos com mais complacência e doçura, podem ser motivos para grandes gargalhadas, ou senão um risinho de confiança de quem superou uma etapa. Perceber que estou no 3º ato, sem queixas do passado, nem culpas ou arrependimentos, com esta qualidade de vida só posso me manter no caminho de buscar ser uma pessoa cada vez melhor. Não para os outros, mas prá mim mesma…

 

 

Aposentadoria ?

A aposentadoria da Rita Lee dos palcos está nos meus pensamentos desde ontem… Não só a dela, mas também a da Vanusa que, antes de tirar um tempo para se cuidar, me confidenciou que ia se aposentar. Não queria mais cantar. Fora todos os problemas gerados pela fatídica interpretação transtornada do Hino Nacional, ela estava cansada de aeroportos, aviões, solidão em quartos de hotel, abrir e fechar malas… Rita e Vanusa têm a mesma idade, mas acreditei que como sempre viveram bem com sua arte, passaram por muitos desafios, foram vitoriosas, permanecer no palco seria a melhor aposentadoria.

A verdade é que ninguém sabe o que se passa no coração do outro… Dores a parte, sempre acreditei que artista precisasse de palco “ad eternun” . Recentemente assisti no site do Sidney Rezende a um vídeo com uma gravação da Carminha Mascarenhas cantando a capela. Afinadíssima, mirava uma câmera que revelava a sua casinha no Retiro dos Artistas. O seu olhar era tão elegante, sua cabeça altiva, que imaginei pudesse naquele momento estar lembrando de qualquer um dos mais belos palcos por onde cantou…

Se Rita e Vanusa se aposentarem, seus shows farão falta. Não só para os que acompanham a trajetória de mais de 40 anos, mas também aos mais jovens que às vezes vão com a mãe ou a avó e acabam se encantando. Cada uma com seu jeito, loura ou ruiva, ambas foram radicais, esticaram a corda da vida no limite máximo e saíram para o aplauso. Um grande artista jamais deixa de ter platéia e este Brasil é tão grande que haja palco.

Este não é o caso do jornalista onde os espaços vão reduzindo. Mas eu não consigo me imaginar sem escrever, inventar, projetar, nem que seja colocar uma mesa no jardim e ali instalar um escritório de verão. Hoje pensei que amaria ter novamente uma barulhenta maquina de escrever Lexington, daquelas bem pesadas, e ver as letras saindo impressas no papel… Posso voltar a escrever em cadernos, fazer pequenos textos, talvez até tentar a poesia, caminho por onde jamais passei… Quem sabe a dramaturgia, escrever para teatro…Tentei uma vez, até para a propria Vanusa, podia fazer de novo mais ficcional…

As letras e os pensamentos me levam a um mundo mágico, como um mergulho no que a princípio é estranho, mas no final me surpreendo quando surge algo tão conhecido e íntimo… Por isso acredito que quando eu deixar de escrever, de pensar em projetos, de abandonar o sonho em construir uma casa de cultura, de fazer um novo livro, enfim, quando eu deixar de criar eu morro. Este é o meu pequeno palco…

Quando nada acontece

Algumas mudanças anunciadas nos últimos dias na pequena vila onde moro me levam à reflexão. Os queridos Olímpia e Claudio Calmon, cinéfilos e amigos deliciosos, anunciaram  mudança para Paraty. Querem ficar mais perto de uma civilização. Pablo y Amadeo argentinos já quase nativos, estão passando o ponto do Casapraia, uma referencia como restaurante, locais para encontros, festas e atividades culturais… Tudo isso surgiu num momento em que pensava que nada acontecia, trazendo-me a realidade do movimento das chegadas e partidas…

Na quietude do amanhecer deste domingo, dentro desta reflexão, uma simples folha que caiu da árvore impulsionou meu pensamento de como tudo está em movimento, mesmo que eu sinta certo marasmo. Pode ser que as expectativas sejam outras, mas dentro da minha máxima em viver sem ir contra a correnteza, fico feliz com o que está a minha volta.

Escrevi em   https://leapenteado.com/2010/07/18/periquitos-e-cupins/sobre umas maritacas (periquitos) que se instalaram na casa de cupins de uma árvore no quintal o que me deixou imensamente feliz com os novos vizinhos. O que não contei é que na seqüência um enxame de abelhas Europa, expulsas de algum lugar, colocaram as maritacas para correr e lá  ficaram… Nestes quase dois anos as abelhas transformaram a casa de cupins numa enorme colméia. Triplicaram o tamanho e começaram a amedrontar com a possibilidade da colméia cair com o peso do mel e as abelhas atacarem. Dois matutos – matutos mesmo, destes que vivem na roça – foram indicados para a missão de retirar a colméia. Chegaram ao final do dia, colocaram a escada dupla na árvore e usando uma tocha feita de piaçava na ponta de um bambu, espantaram as abelhas, mataram outras tantas e retiraram a enorme colméia. Encheram 2 grandes latas com o favo que depois espremeram delicadamente extraindo o mais saboroso mel que já saboreei. Os matutos levaram a cera retirada para consertar seus barcos, excelente para vedar pequenos buracos, e fiquei com o favo e o mel. Confesso que duvidei um pouco desta ação, mas na manhã seguinte poucas abelhas rondavam o local, creio que a Rainha foi brutalmente atingida e nada mais restou as servidoras a não ser procurar outro espaço…

Sou imensamente feliz por ter sempre muita coisa acontecendo em minha volta… Não espero o irreal, so tenho olhos prá ver o que a vida oferece… Isto não é uma questão de acomodação, mas de saber que a felicidade esta sempre perto, é só ter boa vontade com a vida…

Um pouco do favo...