Paco de Lucia

paco de luciaDa mesma forma como converso com amigos, tenho contado para as teclas do computador histórias que vivi trabalhando em assessoria de imprensa… Alguns casos são longos, outros apenas referências de uma época, são bem curtinhos, apenas costuram outros tantos cases e foi assim que lembrei de Paco de Lucia que partiu nesta madrugada aos 66 anos.

 “Era muito bom ver a casa (Canecão) lotada com artistas que vendiam muitos discos e faziam sucesso… Mas era melhor colocar a mão na massa e mostrar algo pouco conhecido do grande público como foi em outubro de 86 com o guitarrista flamenco Paco de Lucia.

Um público elitizado sabia sobre o artista que o empresário Manoel Poladian trazia para uma turnê no país com direito a curta temporada no Rio, mas havia dúvida quanto à ocupação da casa (Canecão) com quase 2 mil lugares. Conhecido por seu jeito sedutor, estava sempre bem na foto, livre e desimpedido. Por saber disso, no convite para a coletiva no Copacabana Palace, priorizei e insisti na presença de jornalistas do sexo feminino. Sabia que este apoio seria fundamental na hora de conseguirem com o editor um espaço mais destacado para a matéria. Além de ser o guitarrista de maior prestígio dentro e fora da Espanha, o talento era parte de sua cultura e raízes musicais, e falava sobre isso deixando cair o cabelo liso pela testa quase em estilo Ronnie Von – Pequeno Príncipe (*8). Fazia improvisações surpreendentes com sua guitarra e no final dos anos 70 realizou trabalhos com os guitarristas John McLaughlin, Al Di Meola e Larry Coryell que lhe deram ainda mais prestígio. Mas isso não significava ingressos vendidos. Insistir  com “as” jornalistas nas entrevistas tinha sido uma boa estratégia. As páginas dos jornais foram pródigas e na estreia com seu sexteto num palco iluminado com precisão destacando os músicos e ao fundo pequenas palmeiras plantadas em grandes vasos comprados numa floricultura próxima da casa de shows, levou o público ao delírio. No esquema “boca a boca” mesmo antes das elogiosas críticas serem publicadas, Paco de Lucia se transformou em grande sucesso com mais 3 shows na semana seguinte.”

Ficou a lembrança de sua elegância e genialidade em tantas gravações. R.I.P

Salute!

trip217-especial-praia-095Quase toda semana leio a notícia da morte de alguém que conheço… Posso até não ter muita intimidade, mas vou perdendo pessoas que foram referência na minha vida… Alguns mais próximos, outros mais distantes, mas é como se eu fosse carimbando um álbum de figurinhas… Hoje foi o Arduíno Colasanti, mais um mito do que um amigo… Creio ter falado com ele uma ou duas vezes, mas estivemos juntos em algumas enormes mesas em bares em  Ipanema, onde se ria, se bebia, se fumava e se fala muito de cinema novo… Lembro muito bem o que ele significou para as mulheres da minha geração… Como era gostoso o meu francês! Repetíamos com a boca cheia ao ver aquela belezura de homem que fez o primeiro nu frontal no cinema (1971) … Era um jeito meio sacana de olhar um homem objeto… Podia não ser uma Brastemp,  mas era um sucesso, desafiador, pioneiro e apaixonante como tudo que é novo…. E Arduíno ainda era mais… Tinha um jeito displicente em deixar o cabelo louro cair no rosto, uma timidez no tamanho perfeito e uma educação requintada…

Passei a tarde viajando nas lembranças destes tempos… Olhos repletos de imagens, sabores de Ipanema nos anos 70 vejo na TV o Arduíno dos últimos tempos… Algumas entrevistas falando sobre o surfe (foi o introdutor no país), outras revendo a vida e é incontestável como o tempo é cruel… Cruel para qualquer um… Não salvou nem mesmo o lindo e desejado Arduíno que manteve os serenos olhos azuis … Não sei se ele foi feliz, mas as cenas que assisti mostram o que o tempo fez com ele e faz comigo e com todos nós… Não adianta chorar pitangas, amasso bem algumas que me restam no congelador e faço uma caipirinha… Salute Arduíno !

Sexo em alto mar

Foto: Cláudia Schembri

Foto: Cláudia Schembri

“Eu amo o meu marido, ontem fizemos 38 anos de casados e ele me deu esta viagem como presente. Ele não veio por que tem problemas de saúde, é diabético e isso afeta nossa vida sexual… Eu não tenho prazer com ele… Ele se excita com filmes pornô, se masturba e eu não gosto…Eu não tenho desejo por ele…”

Pode não ter sido com esta pontuação ou cada palavrinha exata, mas foi este o conteúdo de um desabafo profundo e corajoso de uma mulher frente a quase 2 mil pessoas num auditório com todas as luzes acessas durante a palestra da sexóloga Laura Muller à bordo do navio MSC Precioza. Sexo oral e anal, prevenção, impotência, traição, masturbação, lubrificação com géis de sabores nem sempre saborosos, tamanho padrão do pênis brasileiro, piercing na genitália, tipos de orgasmo, relações com pessoas do mesmo sexo, esperma e a beleza da pele, tudo isso e muito mais estava em pauta. E ainda na plateia, bem sentadinho na 2ª. fila, o cantor Roberto Carlos que também aproveitou para tirar suas dúvidas… Afinal em se tratando deste assunto ninguém sabe tudo…

Sexo não é só um pênis entrando numa vagina” pontuou Laura com perfeito domínio sobre o público exercitado semanalmente em palestras e na participação no programa “Altas Horas” do Serginho Groiman nas noites de sábado na Globo… A simpática psicóloga abriu seu consultório sentimental, deu aula de sexo e sexualidade, ouviu e respondeu as perguntas tanto as depositadas em uma urna para ajudar os mais tímidos, como as feitas em público… Até as do próprio Rei…Foram muitas questões, alguns depoimentos sinceros, outros costurados por risadinhas… Mas no meio disso tudo, em plena tarde de uma segunda-feira, o que me chamou a atenção foi a simplicidade como a conversa rolou… Tudo o que você gostaria de saber sobre sexo, poderia ser o sub título do encontro, e o clima era tão à vontade que me senti como em família na sala de casa com pessoas muito queridas que podiam ouvir angústias e dúvidas, ou num papo entre amigas adolescentes trancadas no quarto… Informação de boa qualidade de maneira simples e leve, leitura de revista feminina sem pudor…

Em tudo isso o que me encanta é a capacidade da mente humana em criar tanta intimidade em tão pouco tempo… Não mais do que cinco dias à bordo e todos os quase 4 mil passageiros se tornam amigos de infância… Na minha tosca filosofia isso acontece por não ser um cruzeiro qualquer, é o cruzeiro do Roberto Carlos… Só viaja quem gosta de suas músicas, admira sua vida e este é o primeiro movimento para quebrar o gelo em qualquer apresentação… “Eu sei que você está aqui por causa dele” a frase está explícita em qualquer sorriso e gentileza do cotidiano à bordo como segurar a porta do elevador, deixar uma pessoa passar a frente, em uma conversa na piscina ou na mesa da refeição…

E por existir este clima preestabelecido de confiança e respeito, o papo que rolou no teatro não causou espanto ao público… Nem mesmo a uma mulher de 82 anos que me confessou o quanto estava torcendo para a sua pergunta colocada na urna fosse respondida:

É normal aos 82 anos ter um tesão muito doido, namorar muito um rapaz de 56 anos que pensa que eu tenho menos de 70 ?

São mesmo muitas emoções…

Do fundo do meu coração…

webIMG_0194Bato o pé no fundo, tomo impulso e volto. Repito várias vezes o movimento. Fecho os olhos, respiro profundamente. Meu corpo está exausto. A mente também. Não estou no mar, nem na piscina, muito menos num poço ou num rio. Tenho batido o pé no fundo de mim, indo e voltando, buscando entender nas profundezas do meu coração estes novos tempos. Conhecer quem é aquela que me olha no espelho e vejo nas fotos deste verão. Ela fisicamente não me representa. Realmente envelhecer é um horror !
Comento sobre este sentimento com um amiga da mesma idade que me fez dar boas gargalhadas ao lembrar o dia em que a tia, aos 85 anos, revelou que estava preocupada pois começava a se sentir velha… Ok. Ela deve ter passado batida pela faixa dos 60 e quiçá dos 70, o que não é o meu caso… O meu sentimento é profundo… Percebo uma dicotomia de quem apareço ser e quem eu sinto ser.
A semana passada participei de um workshop sobre ações na Costa do Descobrimento para atender as exigências da Fifa quanto as seleções alemã e suíça que terão seus centros de treinamento na região. Eu estava no grupo de Comunicação e Marketing quando surgiu uma dúvida quanto ao credenciamento da imprensa. A preocupação tinha fundamento. Qualquer blog ou fanpage no Facebook considera-se mídia com direito a credenciamento e o grupo com pouco mais de 20 pessoas, a maioria jovens, alguns com experiência na área, estava sem saber o que propor. Sugeri a ação que utilizei no credenciamento do Rock in Rio de 1991 e enquanto explicava o procedimento ia me dando conta de que algumas das pessoas que estavam naquela sala talvez não tivessem nascido quando isso aconteceu ou no máximo engatinhado ao som da guitarra do Santana. O fato é que nestes 23 anos aconteceu uma revolução nas telecomunicações mas a solução podia ser resolvida com uma receita antiga. Confesso que me senti a velha jornalista tirando historinhas e soluções básicas do bolso, como a velha bruxa que conhece de cor a poção de canela com pétalas de rosa para usar na lua cheia e conquistar o amado.
Conhecimento não tem prazo de validade. Pode ser usado com moderação Ad eternum, afirmo no meu confuso latim… Mas sabem o que é Latim ?
Entretanto, mesmo tirando as soluções da cartola e tendo uma enorme clareza profissional, pessoalmente existe o sentimento de que alguma coisa está fora da ordem… Amigos atiram para várias sugestões… Quem sabe uma cirurgia plástica. Longe de mim… Esconder as rugas pode dar um refresh, atenuar a crise, mas não resolve o que está no meu coração… A verdade é que passei dos 60…
Hoje caminhando na praia antes das da 7 da manhã, como não encontrei uma viva alma, simplesmente aderi ao velho e bom topless… Andei liberta por um longo trecho, mergulhei, me exibi para o céu azul, passarinhos, restinga, sol e areia, sem me preocupar com a estética à mostra. Afinal posso me dar a este desfrute… E enquanto isso continuo mergulhando fundo para ver se consigo colocar no mesmo quadro as imagens de quem eu sou e quem imagino ser…

Fábula

IMG_20140116_074136Bom prá começar o ano…

Uma amiga contou a seguinte fábula: era uma vez um Rei muito poderoso que tinha um filho bonitão que fazia sucesso com as princesas e fadas de todo o reino. O Rei e a Rainha preocupados com o filho namorador, deram uma chamada e exigiram que o rapaz se posicionasse. Afinal eram anos de dinastia e estava na hora do rapaz escolher uma noiva, desde que não fosse a fada com quem estava saindo pois esta não se adequava a moral e aos bons costumes  da corte. Não querendo perder a posição de herdeiro do trono, despachou a fada, escolheu uma linda princesa de um país vizinho e casou. Teve sorte, um casamento feliz e tempos depois nasceu uma linda menina. Coberta de mimos e cuidados, em grande festa foi apresentada à sociedade. A nobreza trouxe presentes deslumbrantes, o clero abençoou e as fadas formaram uma grande fila ao lado do berço para profetizar um futuro de glória para a pequena. Foi neste clima que surgiu no salão a fada abandonada. O cerimonial pensou em chamar a segurança real para retirar a figura que não era bem vinda. Mas a fada preterida vinha em missão de paz, pedia apenas o direito de assim com as outras fadas, fazer boas profecias à princesinha. Colocou-se em último lugar na fila e depois de ter ouvido todas as amigas declararem que a menina seria de todos os reinos a mais bela, a mais inteligente, a mais culta, a mais simpática, a mais divertida, a mais corajosa, a mais sensata e um rosário de qualidades, mandou o seu recado:  terás todos estes dons mas jamais saberá que os tem.

Desde então estou confabulando com a fabula, pensando em quantas pessoas esquecem os dons que tem… As vezes nós mesmos fazemos o papel de fada despeitada deixando de lado o que temos de melhor… É lembrar sempre que todos temos qualidades únicas e especiais, somos os melhores do “nosso reino” e não há fada que vai nos fazer esquecer quem somos…

…e lá se foram 40 anos

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Quando no penúltimo bloco do programa começaram as imagens numa retrospectiva dos 39 anos de especiais do Roberto na Globo, como diz o Faustão, “um filme passou na minha cabeça” … Onde eu estava em todas aquelas noites de Natal ?

Quem passou dos 60 tem a sua história entremeada como alguma música do Roberto. Quem tem menos de 60 também. Suas músicas são a trilha de algumas gerações. Mesmo quem não se apaixonou, curtiu uma dor de cotovelo, cantou para o pai, a mãe ou amigo, ninou o filho, de alguma maneira a música está em sua vida. É tão forte quanto o Hino Nacional antes dos jogos da seleção brasileira de futebol.  Sem pensar em fazer tese sobre o assunto, reflito sobre os meus natais ao som das suas canções. Mesmo que fosse um filme mudo, as imagens da flor na lapela larga do paletó, o terno de veludo, as ombreiras gigantes, a calça desbotada “ou coisa assim”, os cabelos longos encaracolados, a camisa com babado, os encontros com artistas de todos os estilos, gritaram na minha memória… Vieram junto as minhas ombreiras, flores no blazer, cabelos, babados, com sabores de peru e champagne, rabanada e guaraná, a conta do banco no vermelho, a aliança com brilhantes em baixo da árvore, o carro zero com laço de fita no portão, as joias empenhadas para comprar o presente do filho…

Altos e baixos “são tantas emoções” … E percebi o olhar do artista encantado ao ver a sua história projetada na grande tela para uma plateia de notáveis e nós, anônimos, acompanhando tudo no sofá da sala… Foi assim mesmo? E foi tão rápido, talvez o artista tenha pensado… E quais os dramas, as alegrias e as dúvidas que correram nos bastidores destas gravações? E os tantos diretores, deve ter se lembrado com certeza do Vanucci (Augusto Cesar) … Mas está lá tudo na memória. Na memória do artista e na nossa, como se prensados iguais as suas gravações em milhões de discos, do 78 rotações aos LPs, cds, dvds, bluerays, Eps, iTunes e o que mais a tecnologia trouxer…

Li em algum lugar que as pessoas mais velhas tem resistência em gostar de músicas atuais. Preferem ouvir e cantar os sucessos de sua juventude, pois com os sons vem o sentimento, o perfume, o comportamento e o frescor daquela época… E neste pensamento, por mais que o tempo passe, assistindo Roberto somos sempre os jovens das tardes de domingo…

Natal

Natal 1988

Natal 1988

O primeiro pagamento que recebi por um trabalho profissional foi aos 16 anos ao fazer uma árvore de Natal para a IBM. Sem chegar aos pés do Abel Gomes que constrói as mais lindas árvores para a cidade do Rio de Janeiro, nem me considerar com um olho incrível para a decoração, como em tudo na minha vida isso também caiu do céu. Eu tinha uma tia que era secretária da IBM e me viu fazendo uma árvore com galhos e folhas secas pintadas de prateado com laços vermelhos. Achou linda. Como tinha que resolver a questão natalina para a sala da diretoria e dezembro já estava chegando, encomendou uma igualzinha. E lá fui eu de ônibus carregando sacolas com galhos, folhas douradas, fita, cola e tesoura para montar a árvore no prédio na Av.  Presidente Vargas. Ficou uma maravilha! Parecia coisa de gente grande…

Lembrando este fato, concluo que a minha vida profissional estava fadada para os shows e eventos… Ganhar dinheiro era muito divertido! As árvores de Natal, enormes e coloridas, enfeitaram todas as minhas casas e fazer a festa para os outros virou meu trabalho. Era um prazer enorme a cada ano no início de dezembro montar a árvore na sala, acrescentar algum detalhe, uma luz diferente, um enfeite especial, refazer os laços de fita…

Assim foi até voltar pra casa depois do funeral do meu irmão num dia 23 de dezembro e descobrir que não havia mais clima para colorir o ambiente… Fui empurrando com a barriga os festejos natalinos e este ano nem mesmo o presépio saiu da caixa… Sem tristeza nem choro, apenas o sentimento de que a celebração do Natal é maior do que os enfeites das árvores e uma profusão de presentes que se tem que distribuir…

A minha vida continua nos grandes eventos, fazendo a festa para os outros… Quanto ao Natal, desejo sinceramente que cada amigo construa em seu coração uma árvore de alegria e amor, com muita saúde, paz e harmonia… Feliz Natal!

 

Em casa…

pqDSC_6256Bom ter o filho de volta à casa. Chega com o cansaço do ano que passou, com histórias dos projetos que deram certo, as mudanças profissionais e a vontade de comer acarajé, dar um mergulho no mar e simplesmente degustar a natureza generosa.

Bom ter o filho de volta à casa. Estirado no sofá, cochila com a chuva lá fora. Corto as unhas do seu pé enquanto lembro de que após a cesariana ao acordar da anestesia e ver aquele “embrulhadinho” do meu lado despi sua roupinha para ver se estava tudo certinho… Conferi cada dedinho, contorno das orelhas, detalhes dos joelhos, ombros e bracinhos, dobrinhas do pescoço… E hoje não mais bebê olho com o mesmo cuidado com o que o tempo e a distância fizeram com ele…

Bom ter o filho de volta à casa. Mesmo que por apenas 5 semanas…

E agora …

Vila de Santo AndreUma sensação de abandono, nada acontece.  Rua deserta, restaurantes e algumas pousadas fechadas, de vez em quando um turista desavisado faz poeira com seu carro na estrada de terra e segue viagem para outro povoado.

Dias de chuva, muita chuva. Crianças passam a caminho da escola. Homens e mulheres que trabalham na ponta da praia passam com seus carrinhos de mão levando bebidas e gelo no isopor para atender aos turistas que descem das chalanas/escunas e por pouco mais de 1 hora se banham nas águas onde se encontram rio e mar. Este movimento se repete 6 dias na semana, num lindo local que como toda a vila sobrevive há anos do descaso das autoridades públicas.

“A vila está à venda?”, pergunta o jornalista ao bater na minha porta. A convite do grande resort, em má hora ele veio para fazer uma reportagem do “pouco conhecido paraíso no sul da Bahia”. Assim a mídia quase sempre se refere à vila. Conto boas histórias ao jornalista, justifico que esta é uma semana atípica e para não partir sem matéria, peço ao Rogério que o coloque em um passeio no veleiro do Carlindo.  E lá vai o jornalista embora feliz com o que viu e a vila do ponto de vista do mar até que é bem linda e merece ser visitada. Menos mal.

E quase desanimada de tanto falar com um e com outro o que fazer para a vila ter uma vida normal como qualquer destino turístico, num dia de setembro chega a notícia que aos 45 minutos do segundo tempo o resort vizinho à minha casa entrou no Book da FIFA. Foi aí que aprendi que o book é um tipo de bíblia em que a entidade organizadora da Copa do Mundo distribui entre as seleções para que escolham aonde querem ficar concentradas. O controle de qualidade aprovou o Mabu Costa Brasilis, só faltava o local para o centro de treinamento, um campo de futebol com características bem específicas, mas isto seria mais fácil com tantas áreas preservadas nas proximidades… E foi assim que surgiu a lenda “os alemães estão chegando”.

Um condomínio numa área de mais de 12 mil m2 que caminhava em passos de cágado, entrou em velocidade máxima e ganhou a placa CAMPO BAHIA no portão pintado de verde.  “Os alemães estão chegando” corria de boca em boca na pequena vila com menos de 800 habitantes…Caminhões com material de construção em profusão quase causam engarrafamento na pequena rua de terra. “São os alemães chegando”… E lá vem pela rua de terra outro caminhão jogando barro e a máquina barulhenta tentando nivelar o que não dá prá ser nivelado. Os poucos limpadores de rua retiram o lixo, jogam prá debaixo do “tapete” a sujeira, tudo ‘prá alemão ver’… E em um dia em setembro com a presença das autoridades da prefeitura que esqueceram desta vila durante tantos anos, cercados por segurança e imprensa local, chega a comitiva alemã.  Examinam a obra do condomínio onde pode ser a concentração dos jogadores, as instalações do resort para hospedar dirigentes, familiares e afins, visitam alguns lugares para construir o centro de treinamento e partem no mesmo dia deixando no ar a pergunta “os alemães vêm?”

E assim se passaram 2 meses. A bolsa de apostas estava aberta. Grupos contra, outros a favor e uma tarde me peguei no portão de casa vendo o movimento dos caminhões levantando poeira, refletindo que se os alemães escolhessem mesmo Santo André para concentração seria como que uma produção de um Rock in Rio com duração de 45 dias. E eles escolheram Santo André. Ainda bem que já vivi isso e sei que como tudo na vida, isto também passará.

Olha o andor…

andorApesar de ter uma réplica da Santa Ceia na sala de jantar, não posso afirmar que a minha casa fosse católica. Papai era espírita, assim como seus pais, mamãe nunca soube qual era a sua devoção. Não tenho lembrança de minha mãe rezando ou indo à missa. Ela frequentava a Igreja apenas nas festas da Escola Meninópolis dirigida por padres e onde era professora. Estudei em colégio de freiras, menos por princípio religioso e mais pelo fato de mamãe ter conseguido uma bolsa de estudos. Fui às aulas de catecismo e fiz a primeira comunhão. Saí vestida de anjo em muitas procissões, cantava todos os hinos e sabia rezar a Ave Maria e o Pai Nosso em francês e latim.

O tempo passou e junto com ele percorri outras igrejas, busquei a fé em terreiros, pais de santo, entrei nos estudos místicos, discuti a minha fé, esqueci do francês e do latim, vim morar num pequeno povoado. Pequeno e diferente de todos os outros que surgem em torno de uma praça com uma igreja. Ele surgiu à beira do rio e só teve a sua igreja católica há pouco mais de 8 anos.  Por necessidade de entender o que havia me feito deixar grandes centros e optar por uma vida jamais planejada, além de meditar em casa ou na praia, passei a ir à missa aos domingos. Um jeito também de estar próxima da comunidade, de ouvir as leituras do evangelho, estar perto do Deus que creio ser um só …  Nestes anos acompanhei o grande movimento dos fiéis, o abandono da Igreja com muitos domingos sem missa e a recuperação que vem sendo buscada nos últimos anos… Mas como diz a minha fiel escudeira que é evangélica “ninguém quer saber de Deus até a desgraça bater na porta…”

E como ontem era o dia do santo padroeiro da vila, saí de casa como em todos os outros anos para acompanhar a procissão… O andor estava pronto, um trabalho bonito da Gilma e da Yeda que cobriram com flores e filó, a imagem do santo presa no alto… Alguns fiéis se reuniam na porta de igreja e definiram o  roteiro: entrar a primeira esquerda na rua do João Capador, passaríamos pelo campo de futebol, na esquina do Mercado Pombal viraríamos a direita, no ponto de açaí  do Pinguim mais uma vez à direita, seguiríamos na rua principal, passando na frente do atelier do Betinho, do bar do acarajé, da  mercearia do Maciel, seguindo até o cajueiro onde viraríamos à direita retornando à Igreja.

Tudo pronto e nada da procissão sair. O padre estava aflito. Em mais meia hora o dia já teria acabado e seria temerário andar nas ruas escuras com buracos e poças que restaram da chuva impiedosa durante a semana.

E por que a procissão, não sai ? pergunto ao padre…

Está faltando um homem para carregar o andor

E só homem pode carregar o andor?

Não Dona Léa, mas qualquer um que aguente…

Peguei o andor, o peso dava para segurar, e a procissão saiu…