
Foto: Cláudia Schembri
Andando no centro de Santa Cruz Cabrália nestes dias de chuva as pessoas me parecem mais simples e carentes do que nos dias de sol. São raros os dias nublados e chuvosos, geralmente são tão iluminados e quentes que passo rápido a caminho da balsa, querendo chegar logo em casa, sem prestar atenção nos moradores da mesma cidade. Conheço os nativos da minha vila que fica do outro lado do rio, e por mais que tenhamos crescido em mundos diferentes, eles me são próximos. Mas neste dia, parada em frente ao mercado no conforto do carro, por alguns minutos fiquei olhando as pessoas que andavam apressadas fugindo da chuva. Pessoas muito simples, moradoras de um município bonito, mas pobre. E não resisti a perguntar aos meus botões de onde viemos para estarmos juntos nesta mesma cidade.
Isto é conversa para quem acredita em reencarnação. Quais vidas estas pessoas tiveram para estarem aqui e não no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo? O que de melhor fizeram as bem vestidas, formadas em boas escolas e com todos os dentes para comer mignon enquanto os daqui não têm nem para a carne de segunda? Quem determinou quem fica aonde? Não temos a mesma formação de massa, ossos, órgãos? O sangue não é igual? É questão de sorte ou destino?
A cada dia presto mais atenção na construção, trajetória e desafios da vida. Eliminei qualquer culpa ou ameaça do julgamento divino, penso no que ainda tenho que aprender nesta encarnação. Não quero ser boazinha para ganhar os prazeres do shopping Classe A, este já tive e posso ter. Mas quero apenas tornar melhor meu caminho. Será que é isso que chamam de maturidade? Se for, estou achando ótimo. Tudo o que li, da filosofia judaica ao Curso em Milagres, do Evangelho Segundo Kardec à Bíblia, dos ensinamentos do Reiki ao Sai Baba, dos Mestres da Fraternidade Branca à Sidartha Gautama, o Buda, todos falam na transformação através do amor, com a aceitação e compreensão do próximo. É um exercício árduo olhar para os pobres, feios, desdentados, mal cheirosos e aceitar como um dos meus.
Quando estava fazendo a formação no Reiki, ainda morando no Rio de Janeiro, uma manhã fria estava sentada na praia da Barra da Tijuca meditando quando um homem mal vestido, cabelo desarrumado, barbudo, sujo, veio andando em minha direção. Ajoelhou-se na minha frente e perguntou: “Moça, o que é isso?”.
À primeira vista ele era um completamente sem teto, mas não parecia violento nem drogado, seus olhos eram tristes e calmos. Expliquei que era a energia do amor universal através das mãos, e ele perguntou se eu poderia fazer isso nele. Sentou-se à minha frente e ficou por um longo tempo. Eu aplicando o Reiki, ele recebendo em silencio. No final, quando agradeci, ele me deu um longo abraço e partiu. Quando o vi já distante tive uma crise de choro. Era como se uma voz em mim dissesse: “Você não quer ser mestre?? Então esteja disponível para quem aparecer e precisar… “
Foi uma experiência transformadora. Muitos anos se passaram e quando lembro esse fato sempre me emociono. Hoje percebo que a maturidade está chegando. Por mais incoerente possa parecer, as vezes acho que é tão avassaladora como uma revolta dos neurônios, hormônios e o que mais tiver dentro de mim pulsando… Esta revolução não faz estrago, chega como um bom amaciante deixando mais soft meus sentimentos, quebrando o dedo em riste, implantando uma lente mais serena ao meu olhar e me permitindo buscar a cada dia ser uma pessoa melhor. Ainda faço e falo muita bobagem, mas juro que tento…