Outono

Tem sol e vento. Retiraram um barco que estava encalhado no fundo do rio e agora mostra seu velho casco aos poucos turistas que por aqui passam. As árvores começam a “pelar” suas folhas. As pupubas, uma árvore que não sei se é esse seu nome mas que faz parte do que restou da Mata Atlântica, no fim de semana derramou as flores e continua a cobrir o jardim com as sementes. É um bom tempo pra tirar o que esta no fundo e se despir antes que o inverno chegue.

O quadro

Depois de dois anos o apartamento foi vendido. Por desejo da minha mãe, de tudo o que lá estava cabia a mim um quadro, uma imagem de São Francisco e uma luminária de mesa. A luminária resolvi deixar uns tempos com minha irmã no Rio, pois não imagino onde colocar na minha casa tão rural. O restante a minha irmã embalou e despachou. Ontem fui à Porto Seguro buscar e trouxe  os dois grandes pacotes como se fossem presentes de Papai Noel. Abri com cuidado e mesmo assim o São Francisco quebrou o pescoço. Mas já coloquei no lugar, nem dá prá notar que foi decapitado com os solavancos da Rio-Bahia na carga do ônibus da São Geraldo. O quadro, um sanduíche de vidro, estava intacto e é nele que estou refletindo. Não me canso de ver as fotos que conheço de cor, como também lembro sabores, texturas, aromas, temperaturas e sonoridades de quase todas. Sou capaz de ouvir o click da velha câmera quando foi acionada. Esta ali um resumo da trajetória da minha família. São só sorrisos. Ah! que incrível esta memória seletiva que nos premia apenas com a lembrança dos bons momentos ! Ninguém brigou, nem discutiu, nem chorou, nem se insistiu injustiçado ou traído. Somos apenas dentes à mostra.

São fotos desde o casamento dos meus pais que reuni numa colagem, emoldurei e dei como presente num dia das mães. Jamais vi este quadro fora da sala de jantar da casa dos meus pais, e o que mexeu comigo foi constatar que prá minhas lembranças  é tudo o que restou da família. Já tem tempo que não nos reunimos prá rir e contar graças da vida. Nem nos dias do Pai nem da Mãe, nem ceia de Natal, ou lanche aos domingos. Mas enquanto o quadro permanecia naquela parede eu tinha um leve sentimento de que a qualquer momento poderíamos nos reencontrar em volta da mesa para compartilhar o cardápio tradicional dos almoços de domingo – talharim com carne assada e salada de batata com maionese – e falar dos planos para o futuro, conquistas e também os fracassos…

Não tem mais pai, nem mãe, nem apartamento. Os irmãos se espalharam no mundo com as suas famílias, são uma voz ao telefone algumas vezes por mês, enquanto o  tempo corre sem pedir licença. Constato madura e tranquila que hoje o quadro na parede é  apenas uma doce lembrança. Quem bom ter lembranças, são como um livro vivo que posso ler a qualquer momento…

Engole o choro!

Na fila do caixa eletrônico no banco, uma moça a minha frente segurava pela mão um menino que não tinha mais do que 2 anos. De repente ele se soltou e saiu andando com as pernas ainda não muito firmes em direção a uma parede de vidro, certamente atraído pelo movimento de carros na rua. O menino não percebeu que era vidro, bateu com a testa, chorou e a mãe riu. A mãe não sorriu, mas riu muito do erro do filho repetindo “bem feito, é prá aprender… menino levado não me deixa em paz”. Ela estava com muita raiva.

Fiquei constrangida com o gesto que considerei cruel. Prá aprender não é preciso bater com a cabeça nem humilhar o filho. O riso da mãe estimulou as demais pessoas que estavam na fila e menino ficou envergonhado e engoliu o choro. Ficou olhando para os adultos sem entender o que de tão errado poderia ter feito para ser tratado assim. Tive vontade de pegar no colo, fiquei com pena, principalmente do choro engolido. Meus pais usavam raramente a psicologia do chinelo, só em situações muito especiais. Mas engolir o choro era uma constante. Mamãe não precisava falar. Era um olhar e nós entendíamos. Certamente por isso me tornei uma chorona de situações inusitadas.

Quando em 2003 a Beta (Roberta Medina) me chamou para dizer que eu faria parte da primeira equipe que iria para Portugal preparar o Rock in Rio Lisboa comecei a chorar compulsivamente. Eram tantas lagrimas e soluços que a Beta, muito sem graça, dizia “tia Léa, se não quiser não precisa…!” E olha que eu queria muito ir, e fui…

Meu choro não é de dor ou mágoa, mas vem como rasgando um nó entalado na garganta, acompanhando um sentimento que pode ser até de alegria, para explodir nas lágrimas. Choro do óbvio: cinema, casamento, música, novela, até comercial na TV… Não choro em situações onde o pranto é quase coletivo, como enterros. Sou prática, como boa capricorniana. Não derramei uma só lagrima nos enterros, do meu pai, do meu irmão e da minha mãe. Mas choro de saudades deles ainda hoje.

Há muito tempo decidi que não engulo mais choro. Mas outro dia ao assistir a um filme fiquei imensamente emocionada, afinal eu escrevi o argumento da historia que rolava na tela. O filme ainda não estava finalizado, mas era tão lindo e o medo de perder algum pedacinho com as lágrimas era tal, que engoli o choro. Desta vez com justa razão.

Breno e João Miguel durante as filmagens.

Breno e João Miguel durante as filmagens.

Em tempo, o filme se chama “Beira do Caminho”, direção do Breno Silveira, produção da Conspiração Filmes, o personagem principal é interpretado pelo ator João Miguel, premiado pelos trabalhos em filmes como “Estômago” e “Cinema, Aspirina e Urubus”. Dira Paes é Rosa, ex-noiva de João que não consegue esquecê-lo. O filme conta a história do caminhoneiro João, que, após um grande trauma, resolve cruzar o Brasil e nunca mais voltar a sua cidade natal. Ao dar carona a um menino, que sonha em encontrar o pai, João embarca numa viagem ao passado que mudará o destino dos dois. O garoto Duda é interpretado por Vinicius Nascimento, que atuou nos filmes “Quincas Berro d’Água”, em “Ó, Pai Ó” e na série de mesmo nome exibida pela TV Globo. As filmagens foram realizadas no interior da Bahia, além de Paulínia, em São Paulo. “Beira do Caminho” tem coprodução e distribuição da Fox Film do Brasil.

 

Sem máscara

Ele chegou em 2005, era pleno verão. O aeroporto estava com um enorme movimento e as crianças enlouqueceram quando o viram.  Xico era uma pequena bola de pelúcia e se transformou no mais lindo cão de Vila de Santo André. Além de lindo, é um santo. Aceita remédios, obedece todos os comandos e desfila com elegância seus pelos dourados, não fosse ele um autêntico Golden Retriever… Sempre se viu assim, até que hoje, diante de um horrível fungo, por ordem expressa do veterinário foi tosado. Fiquei um bom tempo olhando a cena da tosa, os pelos dourados caindo e imaginando como é passar por uma situação tão delicada ao ponto de despir de qualquer vaidade… Mais que a vaidade, encarar a fragilidade. O animal não deve ter este sentimento, mas foi apenas o fio que faltava para puxar a linha de um assunto que está em mim desde ontem quando assisti as entrevistas no Fantástico do fotografo Palê Zuppani, e dos atores Drica Moraes e o Gianecchini, superando desafios.

A vida escorre rápida, como água na peneira. Acompanhei uma vida se desnudando e lembro particularmente de uma cena ao chegar num hospital. O médico de plantão ao fazer a ficha perguntou ao meu irmão quantos quilos ele pesava e ouviu como resposta: “já fui fortinho”. Ele estava humilhado ao constatar o seu estado físico comprometido, e é este frase que me leva sempre a pensar em quantas coisas já fomos, quantas coisas acreditamos que somos, e tudo pode acabar num estalar de dedos.

Outro dia Anna Ramalho, uma amiga querida, comentou no FB “saudades de nós”. Eu também tenho saudades de nós. Gosto muito de lembrar por onde passei e saber que posso ter outros momentos também divertidíssimos como os bons tempos de um Rio de Janeiro com Chico´s Bar que tinha ao piano Edson Frederico onde nós cantávamos desafinadamente no fim de noite. Afinal são  mais de 30 anos que estamos juntas rindo pela vida,  fazendo pouco até das nossas mazelas. Qualquer hora a cena acontece de novo, talvez com menos whisky e nenhum cigarro, mas com a mesma essência da amizade e alegria.

Creio que quando tiramos as máscaras, os cabelos, enfim, quando percebemos o quanto a vida é passageira, só ficam as doces recordações, como estas.  Elas jamais partem, ficam prá sempre na alma.

Nas fotos : em cima Xico e Akira, embaixo, ele tosado voltando prá casa com Guinho.

Nota

O paraíso da Muriel

Apagou a luz geral. Acontece algumas vezes na vida rural. A lua cheia ameniza a escuridão, sentada no jardim, com a trilha sonora de sapos, corujas e grilos, efeitos de luz de alguns vagalumes e duas velas, penso no dia que passou.

Viver em Vila de Santo André não é pra qualquer um. Tem que ter senso de humor, despreendimento, paciência, teimosia para superar o vazio da baixa estação e um certo clima de aventura. É um privilégio estar no meio de um pouco que restou da Mata Atlântica, cercada por uma vegetação exuberante. Tem algo também muito especial: as pessoas. Todos os que aqui chegam, gringos e nativos, convivem harmoniosamente e se inserem na cultura local. É obvio que tem fofoca, disse me disse, afinal somos menos de 800 habitantes e sabemos tudo de todos.
Hoje em volta da mesa da linda casa da Muriel (francesa) no alto do morro, saboreando peixe com purê de cará, feijão fradinho e muitas saladas, a Wally (alemã) saiu com esta : recomendara ao francês que antes de abrir o restaurante na vila acendesse no local muitas velas para as almas, pois consta que no passado era ali que sacrificavam os índios. Ou seja, tinha caveira de burro enterrada.
Tive um ataque de risos imaginando a elegante Wally com seu sotaque germânico ensinando uma “macumbinha” para Armand, o chef frances, que, segundo  se comenta, teria servido muito a Chirac nos bons tempos. Ele não deve ter levado em conta a sugestão pois o restaurante não aguentou nem o verão.
Este mix é que faz de Santo Andre um local apaixonante, amor ao primeiro papo. Conversar com pessoas de culturas e pontos de vista tão diferentes é enriquecedor. Não há mestrado de vida melhor que esse. Em volta da mesa éramos em 3 alemães, 1 americana, 1 argentina, 1 francesa, 1 italiana e 3 brasileiros, falando sobre coisas simples outras complexas. Confesso que aqui, por mais louco que possa parecer, me sinto plenamente inserida no mundo, apesar de não ter serviços básicos como jornal ou correio na porta, nem farmácia e banco 24hs. Mas apesar disso, ou por isso, viver em Vila de Santo André é o máximo !

Na lua cheia

Os hospedes partiram, a casa voltou ao movimento normal e o ano começou com a lua cheia. Quem mora perto do mar sabe que na lua cheia a maré atinge o seu limite máximo, na baixa e na cheia, e a paisagem muda completamente.  Hoje na aula de hidroginástica, com a maré bem baixa e ainda com o rio na vazante, fazíamos um grande esforço para não sermos carregados pelas águas. De repente num pulo ao voltar estava em um local mais fundo e perdi o pé.  Engoli um pouco d água e depois de me equilibrar fiquei pensando que a vida é assim, quando se sai do chão nunca mais se volta para o mesmo lugar. Basta muito pouco para nos transformarmos. Às vezes uma palavra, uma paisagem diferente, um sabor novo e somos outra pessoa… Um livro que abre perspectivas, uma dificuldade que exige um esforço maior, ou até mesmo a beleza da simplicidade da lua cheia nascendo no mar, nunca mais seremos os mesmos… Enquanto escrevo alguma coisa está processando dentro de mim. Refletir mesmo que seja sobre fatos do cotidiano, me fazem uma pessoa em eterno movimento…

Outro dia, num exercício na hidro, tínhamos que caminhar no fundo sem tocar os pés no chão e por alguns momentos me senti literalmente sob as águas. Uma delicia ao me imaginar com pernas enormes como um artista de circo em suas pernas de pau… Como eu gostaria de ter feito isso… Comentei com o pessoal na aula e todos me incentivaram a aprender… Mas não tenho mais tempo nesta “encadernação”, ou melhor, falta preparo físico…  Mas enquanto eu me exercito na água não só meu corpo se transforma, como a minha mente viaja e nunca mais serei como acordei esta manhã… 

A última sessão de cinema

Alguns amigos de Olímpia e Claudio na festa de despedida...

Eles chegaram de mansinho, se instalaram em uma casinha em frente ao rio, aos poucos abriram seu acervo de filmes e começaram a fazer sessões de cinema embaixo do cajueiro. Nasceu assim o Cine Cajueiro, da Olímpia e do Claudio Calmon, que vinham de Brasília para viver um novo tempo de aposentadoria à beira mar. Gostaram tanto da vila que compraram um terreno e construíram uma linda casa… Casa dos sonhos, arquitetura caprichada, cada detalhe pensado… O Cine Cajueiro, atração das crianças e jovens da vila, saiu da beira do rio e foi para o jardim da casa. Uma vez por semana a grande tela pendurada na árvore cercada por cadeiras e banquinhos. Os filmes tinham que ser dublados, pois são poucos os que conseguem ler as letrinhas corridas. Com enorme delicadeza Olímpia fazia a curadoria apresentando o que crianças/jovens queriam ver com o que ela achava que eles deveriam ver. Ao mesmo tempo, uma versão sofisticada do Cine Cajueiro ganhou espaço no Casapraia.  Uma vez por semana filmes recém lançados, temporadas “cults”, às vezes mini platéias, não mais que meia dúzia de moradores em noites frias, outras, ao ar livre, sentindo a brisa do mar, repleta de turistas encantados em ir ao cinema com luar e estrelas… Mais de 500 filmes exibidos…Cinco anos bastaram para jovens sem opção de diversão se apaixonarem pela magia da tela grande.

Claudio, além da casa, construiu um barco, o Bacana, e saía para pescar… Olímpia caminhava pelas ruas de terra, andava de bicicleta, chapeuzinho na cabeça, um dedo de prosa com um, trocava livros, conversava sobre literatura e problemas da comunidade, criou um blog http:// redefurada.blogspot.com que se transformou em referencia para a vila e visitantes … O casal era participativo nas reuniões em que a comunidade discutia os caminhos da escola, água, luz e eleições da associação local…

Mas de repente, a noticia bombástica, um final inesperado para um belo filme de amor e amizade : Olímpia e Claudio vão embora. Quando comentei com a Helenita, assessora de casa, a pergunta veio na bucha: “eles não gostam mais da gente?”…

Acho que este foi o sentimento de muitos nativos… Mas eles decidiram buscar outros caminhos, levar suas boas conversas e filmes para outras comunidades, estar mais perto da civilização. E para que a ausência fique ainda maior, hoje começa o período da baixa estação. Na intimidade, “a baixa”, falada pelos cantos como se fosse uma praga. Todo ano é assim. Os turistas partem, aqueles que têm casa de temporada também estão voltando às suas bases, e as ruas ficam vazias. As pousadas e o comércio se entristecem com este período de quase nenhum movimento onde a vila fica realmente como ela é: pequena, onde nada acontece… “A baixa” é cruel para uma vila que só tem como sobrevivência o turismo. Eu gosto deste tempo, menos agito externo, mais movimento interior… Mas confesso que hoje me sinto mais pobre com a saída de Olímpia e Claudio. Eles me davam a certeza de ter uma conversa boa bem perto… Mas a vida é feita de escolha e é bom ver amigos atrás de novos assuntos, paisagens, conhecimentos…

Ontem foi a última sessão de cinema na casa de Olímpia e Claudio em Vila de Santo André. Assistimos no jardim o filme argentino “Medianeira” uma historia que tem final feliz  e espero que a mesma alegria eles tenham na nova vida…  Que Paraty os receba com muito carinho…

Questão de tempo

Antes de começar a hidroginástica no mar, conversávamos  sobre o dia lindo e céu sem nuvens, quando chegou uma aluna queixando-se das pernas e braços flácidos pela idade, reclamando da velhice. Este assunto tem sido recorrente entre algumas amigas, pois como somos da mesma geração passamos pelo processo de forma coletiva o que reafirma o meu pensamento de que tudo tem seu tempo. Ja ouvi comentários do tipo “ah! se eu tivesse 30 anos com a cabeça que tenho hoje…” Mas discordo plenamente, acho que seria um desastre. Nada mais desconcertante do que criança prodígio e mulher ou homem mais velhos se portando como adolescentes. Soa como musica fora do compasso.
Estou com hospedes em casa que vivem um movimento de bebês. Pra eles falar de papinha, cocô mole/cocô duro e choro na madrugada é assunto constante. É uma experiência tão envolvente que acreditam que todos a sua volta também estão vivendo o assunto, mesmo que a fase seja uma vaga lembrança como fotos num antigo álbum.
Como dizia Dercy “Deus fez esta p….. muito bem feita”. Ja imaginou se com mais de 60 anos tivesse que correr atrás de um bebê que começa engatinhar ou aos 20 ter a tranqüilidade para ficar horas apreciando o movimento dos pássaros em torno de um pedaço de mamão ?
No 3o ato, como se refere Jane Fonda, as medidas e os movimentos são outros. O afeto da família que conhece a sua trajetória e os velhos amigos são essenciais. As vezes tenho preguiça de ter um amigo novo, contar por onde ja passei, o que vi e gostei do mundo. Mas logo lembro como é bom me apresentar recontando a minha historia, é uma forma de manter minhas referências bem vivas e isto me rejunesce tanto quanto brincar no mar numa aula de hidroginástica. Por isso, “colega”, não se perturbe com as nervurinhas no braço, nem no excesso do abdômen ou nas coxas mal definidas, estas são as medalhas da sua boa caminhada. Mantenha a sua mente lipoaspirada, os pensamentos em alto astral, o coração generoso, a fé no seu Deus pois o resto vai se deteriorar mesmo. É so uma questão de tempo.

Pery

Verão de 1970 – Leme, Rio de Janeiro, vou à padaria e encontro na esquina com Pery Ribeiro. Estava chegando à cidade depois de alguns anos fazendo sucesso nos Estados Unidos. Não lembro quem estava com ele, devia ser algum amigo, pois fez a apresentação. Dias depois o amigo (ou ele ??) telefonou convidando para um churrasco em Jacarepaguá na casa de Dalva de Oliveira, mãe de Pery. Que orgulho ir à casa da maravilhosa Dalva, estar na intimidade de uma família com longa historia na musica. O convite vinha com a informação para levar biquíni pois teria direito a piscina. Apesar de já ser jornalista e trabalhar na Revista Amiga, não estava indo para fazer uma reportagem. Acontece que  o papo foi ótimo, Pery contou boas historias de sua experiencia no exterior… Eu estava casada há poucos meses com Paulinho (Paulo Martins) que além de arquiteto, cineasta era também fotografo. Levou a câmera e fez umas fotos muito divertidas… Passamos um dia delicioso a beira da piscina e no final, com autorização de todos, este material acabou se transformando numa reportagem da revista Amiga  e nasceu aí uma boa amizade…

Ouvi muito Pery cantar numa época da boa boêmia carioca. Ele era um cantor excepcional, um artista respeitado no mercado internacional. Era a voz da bossa nova.  Namorei muito embalada por sua voz  afinadíssima…

Acho que este ano não quero mais abrir a caixa de fotos antigas e postar adeus aos amigos. Prá inicio de ano acho que já está de bom tamanho duas despedidas. (Foto Paulo Martins)

Jejum

Abri a geladeira e me deparei com as cervejas geladinhas e o espumante português sorrindo prá mim. Uma tentação nesse calor da Bahia ! No pequeno bar do armário antigo as garrafas de whisky  (adoro uma pequena dose eventual ao anoitecer) também estão me olhando. Mas todos podem continuar em seus lugares pois entrei na quaresma. Há alguns anos, nem sei bem porque, comecei a fazer uma espécie de jejum nestes 40 dias que vão da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo de Ramos. Faço mais longo, dou mais 7 dias e sigo assim até a Páscoa. Abro mão de coisas que gosto por este período vigio os pensamentos e procuro desacelerar.

Com a viagem à Jerusalém, tendo na mente um cenário vivo da historia do catolicismo, esta Quaresma ganhou um sabor especial. Devo ter estudado em algum tempo, mas foi na pesquisa para o livro “Um Show em Jerusalém”, que aprendi mais um pouco. A Quaresma não surgiu após a morte de Jesus, foi uma criação da Igreja mais há de 300 anos depois do seu nascimento. Neste tempo o Imperador Romano Constantino que era pagão e adorava Zeus, se converteu ao cristianismo por influencia de sua mãe Helena de Constantinopla que numa peregrinação à Terra Santa localizou em Jerusalém uma cruz que foi tida como a de Jesus e ordenou a construção no local da Igreja do Santo Sepulcro. Dentro desta Igreja existem várias capelas sendo uma delas dedicada à Santa Helena, a própria mãe do Imperador…

Fiquei encantada com sua historia, pois imaginem uma mulher com quase 80 anos chegar a Jerusalém e sair em busca da cruz de Cristo… Consta que a teria encontrado entre varias cruzes, e para identificar qual era a de Cristo, colocou doentes sobre elas… O que se curou foi testemunho do milagre… Mas toda esta historia é fascinante. Constantino era um obcecado por conquistas, como diria minha mãe, “acendia uma vela para Deus e outra para o diabo”. Ao mesmo tempo em que adorava Zeus, consta que uma noite antes de sair para uma batalha sonhou com uma cruz e nela estava inscrito em latim “In hoc signo vinces” (Sob este símbolo vencerás). De manhã, um pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo.

Constantino casou por interesse com uma menina de 7 anos, filha do inimigo, e anos depois mandou matar o sogro, mandou matar também um filho de uma relação extra conjugal, e acho que tentou garantir um lugar no Céu ao declarar a religião cristã como legal e livre, anulando o vínculo do Estado Romano com a igreja pagã. Com isso os bens imóveis e os templos foram devolvidos aos cristãos que foram perseguidos e muitos pagãos quiseram entrar para a Igreja Católica. Foi neste tempo que se estabeleceu a Semana Santa, antecedida dos 40 dias de Quaresma. Um período de longa penitencia que incentivava a realização das festas populares nos três dias que antecediam a Quarta-feira de Cinzas, ou seja, o que hoje é Carnaval. Para se chegar a esta data a conta é feita de traz prá frente. O Domingo de Páscoa acontece no primeiro domingo após a primeira lua cheia a partir do equinócio da primavera (no hemisfério norte) ou do equinócio de outono (hemisfério sul) e a Sexta-feira da Paixão antecede o Domingo de Páscoa… Com isso, a terça-feira de Carnaval é 47 dias antes…

Adoro os simbolismos e, segundo a Bíblia, o número 4 representa o universo material. Os zeros que o seguem significam o tempo de nossa vida na terra, suas provações e dificuldades. 40 foram os dias do dilúvio, foram os anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, foram os dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública… Estes 40 dias de Jesus no deserto depois de ter sido batizado por João no Rio Jordão, são muito significativos. Foram dias de reflexão, de preparação para seguir a sua missão… E que missão!!!  Sendo assim, ficar 40 dias sem álcool, chocolate e carne vermelha não é nada…