Fim do dia

Ainda me lembro do primeiro impacto do pé batendo no chão. Depois o desequilíbrio ao ficar trocando de um pé para o outro, e finalmente a alegria de encontrar o ritmo pulando com os dois pés sincopadamente. Os braços estendidos com as mãos segurando a pequena  base de plástico  embrulhada nos dedos, passavam sobre a cabeça, voltavam até os pés e finalmente me redescobri pulando corda na cozinha. Uma bobagem num fim de dia de chuva. O pátio estava molhado e resolvi ver se ainda sabia usar com agilidade. No 3º pulo, olhando para o espelho do antigo armário, me senti dona da situação. Ao mesmo tempo que ridícula. Foi como se em todos estes anos jamais tivesse deixado de pular corda um dia sequer, e a vontade foi sair pelo jardim, pela rua, como se voando com passos largos e asas de braços abertos. Não sabia se ria ou se continuava concentrada prá ver até onde o corpo aguentava. Esqueci  do tempo, esqueci da idade. Continuei pulando com os pés juntos e contando 11, 12, 13…E pulava comigo a menina de tranças amarradas com fita, vestido rodado e avental da escola. Pulei a infância e as lembranças mais delicadas que tenho desta minha menina.

O coração bateu mais forte e vi refletida no espelho a minha imagem com o rosto vermelho. As pernas estavam bambas, a testa pingando de suor.  Eu estava tão feliz que esse excesso de exercício não poderia me causar qualquer mal. Foi tão grande o impacto, físico e emocional , que fui me acalmar embaixo do chuveiro. Hoje as omoplatas e os joelhos estão doloridos. Mais do que pensar no que vai acontecer com a Carminha, Nina e Tufão da novela das 9, mais do que acompanhar a CPI do Mensalão, eu penso em quando posso voltar à pular corda. Talvez fosse importante continuar, mesmo que poucos pulos, só prá não perder o ritmo. Mas enquanto isso vou pulando as teclas me imaginando estar nas cordas. Amanhã eu volto.

Coisa do passado

Foto : Paulo Martins, fev 1970

Eles estavam em crise. Ele parara de fumar, ela não. Mas isto fora apenas o estopim, pois na verdade ele chegara a casa com a camisa manchada de batom. Ela ja estava dormindo no escritório há alguns dias, aproveitaram o feriado para mandar o filho com os avós para a casa de campo, dispensar a empregada e ficar sozinhos para discutir a relação. Combinaram jantar num restaurante desconhecido para não correr o risco de encontrar amigos. Na hora marcada cada um saiu do seu closet perfumado e bem vestido e se encontraram na sala  vestindo-se com a mesma cor.

No jantar perceberam que ainda havia um clima. Nem tudo estava perdido. Voltaram para casa antes da meia noite. Ele a deixou na portaria justificando o encontro marcado anteriormente com um amigo num bar, mas não demoraria. Pediu que o esperasse no quarto deles.  Ela chegou ao apartamento saltitante. Era apaixonada. Retirou com cuidado a maquiagem usando os produtos que ele trouxera da uma última viagem a trabalho em Paris. Colocou uma camisola nova, foi fumar na cobertura do apartamento para que a casa não cheirasse a nicotina. Escovou os dentes, gargarejou diversas vezes para retirar qualquer vestígio do cigarro. Tirou a colcha da cama, deitou no espaço que até então era o “seu lado”, começou a ler e adormeceu. Acordou com o sol forte de verão carioca entrando pela janela e queimando seu pé. Eram 5h30 da manhã e ele não chegara. Levantou e começou a andar pela casa em desespero. Pensava na insegurança da cidade, no perigo de andar com carro conversível e até na corrente de ouro com a medalha do signo que ela lhe dera como presente e nunca mais tirara do pescoço.

Por pouco, muito pouco, tiram a vida de alguém, pensou ao se lembrar da corrente que mais parecia joia de bicheiro. Telefonou para o bar que ele indicara, disseram que já havia saído há algumas horas. Foi prá cozinha, passou café e ficou andando no terraço fumando e procurando coordenar as ideias. O que podia ter acontecido?  Esperou às 6 horas da manhã para telefonar para uma amiga que trabalhava em uma rádio. Contou a historia e a amiga pauteira acionou os repórteres para uma varredura nos hospitais e delegacias da região. Nenhuma notícia sobre ele. A esta altura, 8 horas da manhã, ela estava certa de que ele estava no motel com alguma vadia. Retirou a mala grande do deposito, colocou todas as roupas dele e deixou na porta. Pediu ao porteiro que avisasse quando de sua chegada. A cabeça viajava. Agora nada mais segura este casamento, repetia. Ele me enganou mais uma vez, canalha…

Andava pela casa separando mentalmente o que era dela e o que era dele. Passava das 9hs quando o porteiro interfonou. Ela pegou a grande mala e colocou do lado de fora da porta. Ele insistiu na campainha. Ela não abriu. Ele foi para a entrada de serviço e conseguiu abrir a porta, só estava presa por uma pequena corrente. Meteu os pés e entrou. Foi direto para o quarto. Cara lavada de sono, cabelo molhado. Fechou a janela do quarto, tirou a roupa e deitou. Ela abriu a janela e começou a falar feito uma matraca. Ele levantou e fechou a janela. Ela agora não so falava como tocava uma flautinha do filho em seu ouvido para não deixar dormir. Volta prá dormir aonde estava, repetia ela. E o abre e fecha da janela e a gritaria chegaram a um ponto em que ele olhou prá ela com tanto ódio que ela percebeu que não ia terminar bem esta historia. Saiu do quarto aos prantos, telefonou para o contador, o advogado, a empresa de mudança e quando ele acordou no meio da tarde o casamento tinha acabado. Ela naquele dia entendeu por que mulheres matam os maridos. Lembrou-se de uma conhecida que dera um tiro no marido por ter sido chamada de velha, humilhada. Existe um ponto tênue e  vital que quando tocado faz qualquer pessoa se transformar em monstro. Ela não quis alimentar este monstro, fechou a porta e nunca mais voltou. Ele passou o resto dos dias dizendo que ela era o amor de sua vida. Ela guardou ele como coisa do passado.

Amigos

Pelo telefone pergunto à minha irmã  sobre sua amiga que recentemente passou por um longo processo de saúde. “Brigamos”, responde laconicamente. Como a esta altura da vida ainda se briga com amigos? “Lelé, você ainda não aprendeu  que amigos chegam para cumprir um tempo em sua vida e depois vão embora?”. Fiquei pensando sobre isso nos últimos dias e concluí que não tenho este desapego e jamais quero aprender esta lição. Mesmo se tiver brigado, mesmo não querendo estar junto, acredito que amigos são para sempre. Faço tudo para não perder, busco nas redes sociais, pergunto para outros amigos, pois eles são testemunhas da minha trajetória. A minha vida não se conta sozinha, mas sim com todos os outros que estiveram dialogando, rindo, chorando, aprendendo, crescendo junto.

Há alguns anos quando vim morar em Vila de Santo André, um novo conhecido ao me ouvir sempre contar algum fato interessante que vivi, perguntou ironicamente: “quantas vidas você já teve?” Respondi que algumas dúzias. E foram muitas e adoro os amigos de todos os tempos e “encadernações”. Os com que dividi cachorro quente e com quem tomei  champagne. Sinto saudades de alguns que perdi, se afastaram como pássaros que vão voar em outras paragens… Estão às vezes perto, mas incrivelmente distantes, e não sabem a falta que me fazem, pois há conversas que só posso ter com eles… Rir e lembrar de bobagens como as roupas ridículas que usávamos, amores que achávamos eternos e não renderam mais que algumas semanas, dores que pareciam insuperáveis e a vida se incumbiu de mostrar que eram apenas simples ranhuras…

Em tempo de rede social, amigos surgem em profusão. Como moro em local de turismo, tem sempre alguém passando e aumenta a lista de emails. Recebo todos com enorme carinho, mas não abro mão daqueles cujo endereço tenho escrito no caderninho velho e rabiscado, do tempo em que ainda anotávamos o endereço de suas casas, que enviávamos cartão de Natal pelo correio, quando os telefones tinham apenas 5 dígitos, não havia celular, nem email quanto mais skype.  Estes seguem comigo, mesmo que não tão próximos como gostaria, mas na memória…

Invencionice

Quando criança eu desenhava com giz  no cimento do quintal casas imaginárias. Como em planta baixa de um projeto arquitetônico, minhas casas tinham portas por onde eu podia passar e janelas de onde eu via a paisagem que era a mesma, mas as transformava com imaginação. Os arbustos de cipreste eram montanhas, o pequeno quadrado de grama planícies, a bacia com roupa pra quarar era o lago e a água que pingava da torneira, os rios. Criava histórias fantásticas que ficavam apenas na minha imaginação.  Jamais ousei contar para alguém. Mamãe poderia dizer que era “invencionice”. Papai com certeza aprovaria e meus irmãos ririam das minhas bobagens…
Quando me tornei jornalista escrevi as histórias dos outros. Depois  escrevi alguns roteiros para o programa “Caso Verdade” na Globo, uma novelinha em 5 capítulos baseada em fatos verídicos. Escrevi projetos, estratégias de marketing, dezenas de releases, criei eventos, escrevi uma peça biográfica e 2 livros documentários.
Com o passar do tempo, esqueci que “inventava histórias” até uns 4 anos atrás acordar com uma idéia. Geralmente tenho insights antes ao sair da cama. Idéias básicas, práticas e criativas, mas nunca uma historia. Mas aquela manhã foi diferente.  Acendeu a luz verde da “invencionice” e escrevi o que veio a ser o argumento para o filme  “À Beira do Caminho”.
Uma historia para dizer que as pessoas podem se transformar, que às vezes um gesto simples pode tocar o coração e mudar uma vida.  Hoje em São Paulo assisti ao filme numa sessão para convidados em uma sala de cinema. E o filme é exatamente o que escrevi. Uma historia singela que com uma direção madura do Breno Silveira chega à grande tela de forma emocionante. O roteiro da Patricia Andrade colocou com precisão as palavras na boca dos personagens.  Poucas palavras, cinema é imagem, mas muito profundas. Lindo de se ver e se permitir emocionar. Chorei bastante, mas consegui segurar o pranto que queria vir em desespero.  Chorei pelo resgate da menina que inventava histórias. Obrigada Breno Carvalho, Lula Buarque, Léo Monteiro de Barros, Patricia Andrade, Luciana Brasil, João Miguel, Dira Paes, Vinicius Nascimentos e todos que fizeram e ajudaram para este filme acontecer. Vou voltar a desenhar com giz no quintal.
Em tempo : Estréia em agosto em todo o país.

Viver ou Durar

Foto : Cláudia Schembri

No avião, duas mulheres sentadas à minha frente conversavam. Conheceram-se poucos minutos antes e com meia hora de vôo era como se fossem velhas amigas. Uma contava que era solteira e viajara muito a trabalho, a outra era professora, tinha algumas filhas, perdi a parte em que falou sobre o estado civil, mas vivia sozinha. O que me chamou atenção foi a frase da professora em tom de saudades: “eu tive uma vida bem feliz”.
Teve e não tem mais, talvez fosse conveniente perguntar se ela queria continuar vivendo ou durando. Pois tem muita gente que apenas dura. Espera o tempo passar, como aquela fruta que ninguém colhe da árvore, nem mesmo o passarinho bica, fica no alto até se espatifar no chão e virar adubo. Gente que desiste e fica com um olhar perdido no passado, se lamuriando com o que deixou de fazer. Remexe nas lembranças e morre um pouco a cada dia. Não enxerga o caminho, não percebe que a vida espera por uma oportunidade de ainda continuar a ser feliz.
Tem gente que diz que gostaria de ter tido aos 20 e poucos anos a experiência que hoje tem na maturidade. Recuso-me a este pensamento, pois não faria a metade das bobagens que fiz e hoje me fazem ter este “savoir vivre”… Não teria como contar o dia em que dormi na praia num sol de 40graus e acordei com uma bolha no rosto… Sem filtro solar, é claro ! As tantas vezes que cheguei do trabalho às 8 da noite, dormi por 2 horas, tomei um banho, mudei de roupa, passei um batom e fui dançar até o dia nascer, tendo que trabalhar às 10 da manhã… Eu me equilibrava em cima de saltos de 12cm, muitas vezes esquecia de tirar os cílios postiços prá dormir, comia uma fatia de pizza com suco de maracujá no almoço… Num tempo em que Betty Friedan já tinha liberado as mulheres, sutiãs queimados, sem o temor de Aids, precisa falar mais ?
Sem saudosismo, recuso-me a durar, quero é viver com intensidade e alegria o que vier…
PS:Este texto é dedicado à Vitoria que me fez refletir sobre este assunto.

Dias de chuva

Foto: Cláudia Schembri

Foto: Cláudia Schembri

Andando no centro de Santa Cruz Cabrália nestes dias de chuva as pessoas me parecem mais simples e carentes do que nos dias de sol. São raros os dias nublados e chuvosos, geralmente são tão iluminados e quentes que passo rápido a caminho da balsa, querendo chegar logo em casa, sem prestar atenção nos moradores da mesma cidade. Conheço os nativos da minha vila que fica do outro lado do rio, e por mais que tenhamos crescido em mundos diferentes, eles me são próximos. Mas neste dia, parada em frente ao mercado no conforto do carro, por alguns minutos fiquei olhando as pessoas que andavam apressadas fugindo da chuva. Pessoas muito simples, moradoras de um município bonito, mas pobre. E não resisti a perguntar aos meus botões de onde viemos para estarmos juntos nesta mesma cidade.

Isto é conversa para quem acredita em reencarnação. Quais vidas estas pessoas tiveram para estarem aqui e não no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo? O que de melhor fizeram as bem vestidas, formadas em boas escolas e com todos os dentes para comer mignon enquanto os daqui não têm nem para a carne de segunda? Quem determinou quem fica aonde? Não temos a mesma formação de massa, ossos, órgãos? O sangue não é igual? É questão de sorte ou destino?

A cada dia presto mais atenção na construção, trajetória e desafios da vida. Eliminei qualquer culpa ou ameaça do julgamento divino, penso no que ainda tenho que aprender nesta encarnação. Não quero ser boazinha para ganhar os prazeres do shopping Classe A, este já tive e posso ter. Mas quero apenas tornar melhor meu caminho. Será que é isso que chamam de maturidade? Se for, estou achando ótimo. Tudo o que li, da filosofia judaica ao Curso em Milagres, do Evangelho Segundo Kardec à Bíblia, dos ensinamentos do Reiki ao Sai Baba, dos Mestres da Fraternidade Branca à Sidartha Gautama, o Buda, todos falam na transformação através do amor, com a aceitação e compreensão do próximo. É um exercício árduo olhar para os pobres, feios, desdentados, mal cheirosos e aceitar como um dos meus.

Quando estava fazendo a formação no Reiki, ainda morando no Rio de Janeiro, uma manhã fria estava sentada na praia da Barra da Tijuca meditando quando um homem mal vestido, cabelo desarrumado, barbudo, sujo, veio andando em minha direção. Ajoelhou-se na minha frente e perguntou: “Moça, o que é isso?”.

À primeira vista ele era um completamente sem teto, mas não parecia violento nem drogado, seus olhos eram tristes e calmos. Expliquei que era a energia do amor universal através das mãos, e ele perguntou se eu poderia fazer isso nele. Sentou-se à minha frente e ficou por um longo tempo. Eu aplicando o Reiki, ele recebendo em silencio. No final, quando agradeci, ele me deu um longo abraço e partiu. Quando o vi já distante tive uma crise de choro. Era como se uma voz em mim dissesse: “Você não quer ser mestre?? Então esteja disponível para quem aparecer e precisar… “

Foi uma experiência transformadora. Muitos anos se passaram e quando lembro esse fato sempre me emociono. Hoje percebo que a maturidade está chegando. Por mais incoerente possa parecer, as vezes acho que é tão avassaladora como uma revolta dos neurônios, hormônios e o que mais tiver dentro de mim pulsando… Esta revolução não faz estrago, chega como um bom amaciante deixando mais soft meus sentimentos, quebrando o dedo em riste, implantando uma lente mais serena ao meu olhar e me permitindo buscar a cada dia ser uma pessoa melhor. Ainda faço e falo muita bobagem, mas juro que tento…

Varal

Aprendo a cada dia que felicidade é uma coisa muito simples. Depois de quase uma semana com muita chuva, apareceu o sol. Estiquei uma cordinha entre as árvores para colocar as roupas para secar. Cada réstia de luz que entra pelas muitas árvores neste jardim faz uma festa para os meus olhos… Preciso podar as árvores, o “inverno” está chegando, tempo de chuvas e tenho que estar preparada para os poucos momentos de sol… A vida é assim, estarmos preparados para dias cinza e outros ensolarados. Para marés altas e baixas, lua cheia e minguante, momentos que virão e mesmo parecendo que não acabam, são passageiros… Como acordar hoje e ver o sol… Nada é prá sempre, nem mesmo este “solinho” que seca minhas roupas neste simples varal que dá um ar diferente ao meu jardim… Nem tudo é sempre do mesmo jeito… Mudar a paisagem faz bem aos olhos, abre perspectivas de novos pensamentos…

Imagino o pijama vermelho vendo-se fora de um corpo e admirando o gramado verde… O camisolão azul xadrez que nunca sai de dentro de casa admirando os sabiás, bem te vis e beija flor que desfilam a sua frente… E o suéter marinho com tanta claridade ! Estou me sentindo meio roupa no varal, olhando a vida como se fosse um novo cenário !!!

Last dance

Da esquerda para a direita Simon Fuller, produtor, Donna Summer e Dody Sirena, promotor.

No início dos anos 90, sem redes sociais, a telefonia celular engatinhando e raros computadores, fazer assessoria de imprensa era um trabalho manual. A DC Set Promoções, leia-se Dody Sirena/Cicão Chies, traziam para o Brasil praticamente todos os grandes shows internacionais. Eles já estavam no showbusiness há muitos anos. Começaram nos anos 70 em Porto Alegre, no auge das discotecas, fazendo “bailinhos” em clubes, mas tinham alcançado uma posição onde podiam escolher quem contratar para turnês nacionais. Donna Summer junto com John Travolta era uma boa lembranças do início da carreira. Fizeram festas e dançaram muito ao som de sua música. Por isso, quando um agente americano comunicou que ela estava voltando aos palcos depois de um período de relativo ostracismo por conta de uma briga entre gravadoras, eles resolveram contratá-la.

Em 1992 vivíamos anos de rockn´roll. O Rock in Rio no ano anterior ainda estava fresco na memória e a produção também, realizada pela empresa gaúcha. Com tudo isso, nadando na maré contrária, caberia ao marketing da empresa colocar na mídia Donna Summer, a artista quase esquecida. Seu último disco fora lançado em 1983, estava fora das paradas, mas era a eterna diva da disco music. E foi exatamente este o gancho que utilizamos para recolocar a moça nas páginas dos jornais e revistas, em execução nas rádios, com grande estardalhaço. Eu tinha o propósito de emplacar uma grande matéria e consegui uma bela capa no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo. A matéria não podia ser mais favorável. Além de fotos, vinha ilustrada com elementos ícones da disco music como a enorme bola de espelhos dos salões das discotecas e uma viagem ao tempo no figurino Dancing Days. Esta reportagem foi o estopim para colocar Donna Summer no seu posto de estrela. Alicerçada por uma grande campanha em anúncios de página inteira nos principais jornais e mídia nas rádios, os ingressos esgotaram para todos os espetáculos. Lembro bem dos seus olhos com lentes de contato azuladas gravando uma entrevista exclusiva para o Fantástico no Hotel Sheraton no Rio, e sua energia no palco com o vestido preto com bustier bordado e saia rodada com pedrinhas de strass. E é claro que lembro o sucesso dos shows no Olympia em São Paulo, no Metropolitan no Rio e no Gigantinho lotado em Porto Alegre. Um dos elementos do espetáculo que servia como cenário era uma cortina de veludo azul escuro com pequenas luzes que piscavam dando a impressão de noite estrelada . O material era tão sofisticado e o resultado tão deslumbrante que a DC Set comprou esta cortina e anos depois foi cenário de shows de um grande artista nacional. Donna seguiu com suas estrelas no céu… Last dance…

A estrada

Estrada Porto Seguro – Eunápolis

Quando viajo de carro e vejo uma casinha à beira da estrada, sem vizinhos, solitária, fico imaginando o que faz uma pessoa viver assim. Não sei se é uma escolha ou uma determinação do destino, mas sempre invento historia, crio personagens e isto faz com que as viagens sejam mais divertidas. De onde eu moro para uma “meia civilização” são alguns quilômetros de estrada. E hoje, indo para Eunápolis levar o Xico ao veterinário, lembrei que há alguns anos quando estavam construindo a Veracel, uma enorme fabrica de celulose aqui no sul da Bahia, para se tornar viável o escoamento do material produzido teriam que construir uma estrada unindo a indústria ao seu terminal marítimo. A estrada passaria nas imediações do distrito de Barrolândia, uma localidade pobre e pequena, e para definir o local exato realizaram uma audiência publica. Presentes os representantes da fábrica, autoridades municipais e os moradores. A fábrica sugeria um traçado sem comprometer o povoado, passando por fora, minimizando ao máximo os efeitos dos grandes caminhões e também do trânsito que seria gerado. Já os moradores exigiram que a estrada cortasse bem ao meio da localidade, com isso ganhariam ares de cidade grande. Um amigo envolvido neste processo, comentou que ouviu a seguinte justificativa de uma moradora ainda jovem : “quem sabe assim alguém passa por aqui e me leva embora.”

Os moradores ganharam, a linda estrada lá está. Quantos sonhos à beira de uma estrada! Não sei se a jovem saiu de Barrolândia, talvez os caminhoneiros apressados não parem nem para visitar o “brega”, mas o desejo de aventurar para outros lugares faz parte da busca do ser humano. As aventuras motivam, atenuam dias tristes, alimentam a alma. Eu continuo encantada com as estradas, vendo as casinhas à beira, fantasiando sobre a paisagem. Foi isso que me inspirou a escrever o argumento do filme “À Beira do Caminho” que Breno Silveira dirigiu e estreia em agosto.  É só esperar para conhecer a alma de um caminhoneiro.

Guardanapo

Estou preparando um almoço para amanhã. Vou reunir amigos aqui da vila que, que assim como eu, não tem mãe nem filho por perto. Três mesas irão para debaixo das árvores, serão unidas por toalhas coloridas e assim teremos um grande mesão. Ali serão colocadas as comidas, bebidas e sobremesas que os amigos vão trazer. Um belo almoço comunitário. Desde o inicio da semana pedi à Helenita lavar e passar os guardanapos, pois quero usar neste almoço. Pode parecer um fato banal, mas guardanapo de pano faz uma grande diferença na minha vida. Lembra a casa dos meus pais onde cada filho, mesmo depois de adulto, de ter saído de casa, acertado e errado, casado e descasado, continuava tendo um porta guardanapo com suas iniciais bordadas na tampa. Era como um envelope de tecido que mamãe fazia com capricho, ali colocava o guardanapo de pano e deixava ao lado dos pratos marcando o lugar. Não importava o que era servido, mesmo nos tempos de vacas magras tinha na mesa o sino de prata para chamar a empregada e todos com seu guardanapo de pano no colo.

Meus pais recebiam hóspedes por longo período. Como a prima Tita, de Curitiba, que foi fazer um curso de restauração de quadros na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e morou um ano conosco. Neste caso, como que simbolicamente efetivando seu lugar na família, tinha um porta guardanapos personalizado. Tínhamos também envelopinhos de pano com bordado neutro para visitas com menor duração.

Eu gostava de chegar para almoçar em um dia qualquer e ver o meu lugar marcado na mesa. Mesmo tendo rodado tantos lugares, sentado em mesas de países e paladares diversos, toalhas de linho, talheres de prata, copos de cristal, aquela mesa era especial, pois sempre era minha casa. Amanhã na grande mesa sob o chão de terra, embaixo das árvores de almescla, cupuba, araçá e do ingazeiro, em homenagem à mamãe, ao lado de cada prato haverá um guardanapo de pano.