Olhar

A flor do hibisco dura apenas um dia e nem por isso é menos feliz.

Acordei, estiquei o braço e abri a janela sob a cabeceira da cama para ver a cara do dia.  Nublado de novo, talvez nem haja um raio de sol neste domingo.  Fiz todos os movimentos com muita calma, afinal um domingo sem perspectivas. Mesmo que tivesse um tempo melhor ja teria perdido o horário da maré baixa pra caminhar na praia.  Dormi demais, passou das 8 hs.
Abri as portas e janelas do andar debaixo, coloquei a água para o café e o tempo continuava sombrio. Pensei em temas obscuros, desanimadores, pessimistas,  que as vezes rondam a minha mente como um anjinho do mau dizendo “nada vai dar certo”. Eles surgem independente da forma do dia e me assusto com a força dos pensamentos. Eles são para o bem e para o mal, são fortes, poderosos, dizem que podem até se incorporar na célula molecular. Lembrei do aviso : cuidado com o que você pensa, pode se tornar realidade !
Para espantar a nuvem negra que eu mesma criei decido sair para pedalar e pegar um vento no rosto. Encontro pessoas simples que não devem se preocupar com suposições. A vida pode ser simples. Saio me equilibrando nas duas rodas pelas ruas de terra constatando a facilidade que tenho de sair de uma manhã nublada para um dia de sol bastando um bom pensamento.
Um querido amigo que se foi dizia que o que falta para a felicidade é slow motion e trilha sonora.  Vou me sentindo numa cena assim com uma bela trilha atrás de mim, os Noturnos de Chopin aumentam a energia para pedalar. Estou quase voando ao saltar os buracos. O piano do Nelson Freire toca dentro da minha cabeça e vou cantarolando embaixo da chuva fina. Quase não enxergo com os óculos embaçados. Tenho que rir com o ridículo da situação. A blusa começa a colar no corpo e não tem mais ninguém na rua. Ao chegar em casa, como num passe de magica,  a chuva passou e o sol se abriu. As vezes surgem dias que tem tudo para serem horríveis, mas com um bom pensamento ficam maravilhosos. Esta é a graça da vida ! Ver o mundo com outros olhos…

Costumes

Na pequena vila onde moro quando alguém morre é praticamente feriado. Sem rádio nem alto-falante a noticia corre rápido, de porta em porta, na boca das crianças, no grito dos jovens, na velocidade das bicicletas. As mulheres deixam seus afazeres, abandonam as panelas no fogão, pegam as crianças e vão em bando para a casa do falecido avisando com quem encontram no caminho. É uma comoção!

Sabemos exatamente quanto somos, talvez pouco mais de 600, e a partida de seja lá quem for é sentida. Na última quinta-feira Helenita estava preparando o almoço aqui em casa quando o telefone tocou. Ouvi o seu grito, corri para acudir. Em prantos, com a perna bamba sentou na cadeira da varanda e contou que Da. Santinha, sua ex-sogra, tinha morrido. Dei-lhe um copo d água com açúcar e mandei ir para o velório.

Hoje ela voltou contando detalhes do acontecido. Da. Santinha tinha um sopro no coração, acordou fraquinha, tomou banho e se aquietou. O neto foi ver, o coração tinha parado. Mas o corpo continuava quente. Alguns diziam que ela ainda estava respirando, chamaram o médico do posto de saúde que atestou  a morte. Mas ninguém queria acreditar. Limparam um espelho e colocaram embaixo de suas narinas para provar que estava respirando, chegavam a ver o suor refletido. Outros sentiam as têmporas pulsando e chegaram a afirmar que ela tinha piscado os olhos. Resolveram então levar para o hospital. Colocaram a moribunda no carro, atravessaram na balsa, a família chorando num pré velório. No hospital o médico foi taxativo: nada mais o que fazer. Voltou o corpo atravessando o rio João de Tiba agora já num caixão e com um pouco de formol. O velório rolou a noite inteira na Assembléia de Deus. Muito choro, desmaios e surpresas com a chegada dos parentes que vieram de Eunápolis, Vitória e arredores. E entre as muitas preces alguém pediu que Jesus viesse à Terra e repetisse o milagre que ressuscitou Lázaro no 3º dia. Mas  o Mestre devia estar muito ocupado.  Na sexta-feira pela manhã um cortejo de carros levou Da. Santinha com 81 anos até a morada final no cemitério de Santo Antonio, no povoado vizinho.  Neste dia também ninguém trabalhou, afinal é preciso se recuperar de tanta dor. Hoje, no 3º dia, ela não ressuscitou mas depois de uma semana com chuva o sol apareceu. A vida continua, como se nada tivesse acontecido, até um próximo velório.

Feliz aniversário!

No parque de Maplewood, New Jersey, USA 1983

O dia parecia com o de hoje, chuvoso e frio. Havíamos superado o 2 de novembro quando fiz um acordo, do fundo do meu coração, que você esperaria mais um dia para chegar. E o dia 3, como eu marcara na agenda no primeiro encontro com o Dr. Carlos Montenegro, você viria. Nas últimas semanas eu já não dormia bem. Ouvira tantas histórias de correrias na madrugada que todas as noites eu me preparava com esmero. Banhos longos, cabelos lavados, unhas limpas e cortadas, creme no corpo e nenhum prenúncio da sua presença. A sexta-feira veio com expectativa e foi passando com um pequeno mal estar. Já não tinha mais posição para a barriga. No final da tarde uma cólica enjoada, a noite deixamos o jantar na mesa quando as contrações aumentaram.  Saímos de casa com chuva, seu pai muito chic ajeitava um lenço no pescoço, e entramos no fusquinha branco rumo a Maternidade Escola na rua das Laranjeiras. Dr. Montenegro examinou e foi taxativo : “ainda vai demorar, sem dilatação não vai nascer, se fosse minha mulher fazia uma cesariana”.

E fomos para a Clínica São Marcelo no Leblon aguardar a equipe para a cirurgia. Em algum momento avisamos por telefone mamãe, papai e Victor que foram ao nosso encontro. A Bisa Mercedes e a Vó Flora ficaram nervosas no apartamento da Atlântica. Fui levada numa maca com seu pai ao lado carregando a máquina fotográfica. Ia registrar cada momento da sua chegada. Eram mais de 10 horas da noite e você não demorou a dar o ar de sua graça às 23h15. Seu pai e Victor celebraram a noite toda no Alvaro´s, bem na esquina da rua Cupertino Durão. Quando acordei no dia seguinte trouxeram você embrulhado como um pacotinho: é um menino !!! Um presente dos céus. Eu e seu pai tiramos sua roupinha, examinamos de todos os lados, contamos os dedos das mãos e dos pés e atestamos que era perfeito. Santa ingenuidade, como se fosse possível identificar qualquer seqüela de forma tão simples. Mas sabíamos que você era saudável e seria muito feliz.

Aqui da Bahia hoje quando o dia nasceu chuvoso lembrei esses momentos. 39 anos se passaram, mas para mim é como se fosse ontem. Relembro com amor de você em todas as fases. O primeiro dia na escola e você nem chorou, os cabelos cacheados que depois ficou liso, na praia com a sunga laranja com nome escrito em azul marinho no bumbum, criação da vovó Yayá para você não se perder. Com pouco mais de seis anos quando aprendeu a ler se sentava ao meu lado com um livrinho enquanto eu lia os jornais. Depois os tempos nos Estados Unidos, jogando futebol no Central Park, o cinema onde assistimos ET e depois na casa em New Jersey jogando Pacman e ajudando a varrer as folhas do jardim antes do café da manhã nos fins de semana. Adolescente com aparelho nos dentes, você cresceu tão rápido que quase todo mês aumentava o tamanho do seu pé. Ao meu lado nos shows do Canecão, usando a gravata que o Ivan Lins deu e nem sei aonde foi parar. O seu encantamento com a música, bodyboard no mar da Barra, o tempo em que não quis mais ir para o colégio até entrar na faculdade com a conclusão rápida em 7 períodos para ir estudar música em Los Angeles. Os tempos dos Anjos, com duvidas, sonhos e incertezas profissionais, até o lançamento do CD, vídeo clip da Karla Sabah, música na Malhação e show no Rock in Rio. Uau ! Quanta coisa aconteceu, mas confesso que gosto muito deste belo adulto que você se tornou. Adoro apresentar você aos meus amigos. Um profissional dedicado, sensato, amoroso, culto, inteligente, criativo, crítico muito bem humorado, fiel às suas raízes e amigos. Profundo na busca pessoal, filósofo sensível. Meu parceiro em todos os processos de crescimento pessoal e com você aprendo todos os dias. Estamos amadurecendo juntos e sou muito grata por ter você como filho. Feliz aniversário, Bernardo ! Eu te amo.

As bruxas

Na noite do haloween éramos cinco mulheres em volta de uma mesa: uma psicanalista, uma artista plástica, uma dona de casa, uma jornalista e fechando com chave de ouro uma argentina misto de taróloga, numeróloga e outras adivinhações. Bebíamos vinho, comíamos pizza e falávamos sobre os elementos que compõe o mundo mágico das bruxas quando nos detivemos na figura da aranha que com paciência e determinação constrói a sua teia.

Quem ensinou a aranha a tecer com arte fios de seda tão finos?

Adoro compor pedaços, juntar caquinhos, emendar tecidos, misturar linhas e cores no crochê, e me encantei pela teia que transita por este mesmo pensamento. Tenho algo em comum com a aranha, teço para a sobrevivência. A aranha retira seus fios de glândulas que estão na sua barriga e até nisso nos parecemos: somos viscerais. Ela constrói mínimos espaços soltos no ar entre um fio e outro sem métrica. Tece em silencio, sem platéia e palpite de vizinhos. Faço o mesmo enquanto trabalho manualmente e meu pensamento voa.

Ela tece sua trama em locais de pouco movimento e quando a obra esta pronta, mesmo se algum fio for rompido o entorno se mantém firme deixando em perfeito equilíbrio o que foi tecido. Nada desestrutura a quase escultura delicada. Olhando a teia sem o medo do veneno da aranha ou o sentimento do cenário de um local abandonado, vejo como rendas preciosas. Sutis como as relações humanas que precisam de cuidado para os fios não se romperem. Pensei sobre tudo isso antes de dormir lembrando a mensagem postada no Facebook por um amigo que não vejo há muitos anos e que por razões que já não importam mais deixei de falar.

“Acordei pensando que a nossa vida á tão curta que devemos curtir todos que estão em nosso caminho. Quantas pessoas que víamos e conversávamos todos os dias e que hoje nem mais nos falamos? Quantos amigos e amigas que nem mais sabemos onde andam e o que fazem? Esta manhã senti falta de tanta gente. De alguns nem lembro mais o motivo pelo qual deixamos de nos falar. Só doeu foi a falta que essas pessoas me fazem. E quanto tempo ainda estaremos por aqui? Depois vamos embora e aí sim jamais as veremos de novo. Pelo menos não neste Plano. As vezes uma tolice nos separa e isso não é correto. Proponho uma grande trégua. Um armistício eterno. Se com alguém eu fui injusto, se a alguém eu insultei, peço que me perdoe. Só tenha uma certeza. Sinto sua falta e sua boa conversa.”

Vivi mais do que tenho a viver e estou aprendendo que quando a borda da teia é tecida com firmeza as amizades que por ali passaram jamais se perderão. Mesmo que o tempo passe, mesmo que haja a distância geográfica, o sentimento dos bons momentos ficará junto com as velhas fotos.

Vizinhos

Era fim de tarde, hora em que as maritacas voltam prá suas casas anunciando  que a noite vai chegar, que interrompi um texto ao ouvir um grito. Antes de me dar conta de onde vinha, o silêncio foi novamente invadido por mais gritos de prazer, em uma altura tal que parecia terem colocado microfones no quarto reproduzindo para toda a vizinhança os gemidos de amor

A minha primeira preocupação foi com os cães que costumam latir com qualquer barulho diferente e poderiam interromper o colóquio. Mas diante da pouca importância deles ao fato, fiquei calculando em qual apartamento o casal estaria hospedado na pousada ao lado da minha casa. O que menos importava é se estavam no apartamento de cima ou no de baixo, e o que me chamava atenção era a volúpia do som inusitado. Não que as pessoas não se amem em férias à beira mar – e como se amam! – , mas jamais ouvi sexo estereofônico na vizinhança.

Hoje na praia fiquei tentando identificar qual  dos dois casais hospedados na pousada seria responsável pela festa no fim de tarde. Um casal é mais comportado, na faixa dos 30 e tantos anos, ela loura com pernas brancas e finas, maiô inteiro, com um livrinho de sudoku nas mãos sentada na sombra; ele com uma sunga cor de vinho, cabelos curtos e escuros, uma suave barriguinha, jeito de gerente de banco. O segundo casal tem perfil mais jovem, ela usa um biquíni reduzido, longos cabelos escuros, o rapaz é moreno com sunga moderninha, e jogam frescobol. Fiquei olhando o comportamento de ambos e na incapacidade de identificar quem se derreteu de paixão no dia anterior, fico torcendo para que os sussurros e gemidos tenham sido de libertação da comportada trintona com cara de professora de inglês.  Aí sim teriam valido estes dias na praia e quem sabe o ano que vem não a encontro de biquíni.

A 1a. impressão

Não há uma 2ª. chance para se deixar uma 1ª boa impressão. Lembrei disso andando pela praia ao ver o mar cor de coca-cola. Este não é o meu mar, mas também pode ser algumas vezes depois de muitos dias de chuva. O Rogério Paixão, da Pousada Ponta de Santo André, foi pescador por muitos anos e explicou que como nessa região tem uma grande plataforma continental  sem muita profundidade, com alguns rios desaguando no mar, quando entra um vento nordeste para afastar o vento sul o mar se remexe. Com isso uma espécie de lodo que há no fundo, perfeito para a criação de camarão, sobe para a superfície e somado as águas que descem das cabeceiras do rio, o mar fica com esse tom, que não é normal.

Quando Ricardo Freire www.viajenaviagem.com  esteve aqui pela primeira vez encontrou o mar assim e ficou desapontado. Nos comentários que fez em um de seus livros sobre Vila de Santo André disse que a vila era linda, mas o mar… E hoje pensei exatamente sobre isso, na impressão que os turistas que passam por aqui pela primeira vez irão levar e sobre a impressão que as pessoas podem ter de mim ao me conhecer num rompante de “rodar a baiana”.  Já não sou mais ventania, sou um vento suave, mas ainda posso fazer barulho. Tenho a impressão que tenho uma cara que acredito ser a minha, e esta ainda não passou dos 35 anos. Outra cara como as pessoas me vêem, e ainda uma terceira que é a real e no momento tenho duvidas se ela existe. Mas de todos esses jeitos sou na essência dias de mar azul, outros verdes e quando mexem muito no fundo, sou cor de coca-cola.

Procuro

Em Larchmont, NYC, maio 82

Procuro um amigo bem humorado, afetuoso, sensível à arte, sempre com muitas histórias prá contar… Ele tem paladar sofisticado, sabe silenciar na hora certa, é capaz de esquecer o tempo passar olhando alguma paisagem pela janela, encaracolando os cabelos e refletindo sobre a vida. Um sonhador. Apaixonado por novos projetos, repleto de idéias que expressa com um brilho nos olhos como se tivesse descoberto o caminho para as Índias.

Este amigo querido abriu a sua casa em New York para me receber “pelo tempo que quiser”. Foi ele quem me ensinou a andar pelas ruas de Manhattan, os caminhos do metrô, me levou aos lugares mais charmosos, aos museus, me apresentou aos subúrbios e foi a primeira pessoa a me mostrar nos anos 80 um computador na vitrine de uma loja na 6ª. Avenida.

No tempo do Beco das Garrafas ele era iluminador dos shows nas pequenas boates. Dizem que o termo “bicão” foi inspirado nele que colocava “um bico de luz” para dar mais brilho ao artista no palco. Não havia produtor, mas ele era um faz tudo, ficava em volta ajudando os artistas. Foi assim que conheceu pessoas incríveis e entre essas, Elis Regina, de quem se tornou grande amigo. Em janeiro de 82 eu estava em sua casa e no café da manhã ele contou que sonhara com “a baixinha”, como a chamava. A noite quando voltou do trabalho comentou que havia telefonado para o Brasil, mas so conseguira falar com Rogério, irmão da cantora. No dia seguinte acordei com o telefone tocando, era um amigo avisando sobre a morte de Elis.

O meu amigo aprendeu inglês lendo revistas e capas dos antigos LPs com um dicionário ao lado. Selecionava meia dúzia de palavras por dia e ficava decorando. Desde o final dos anos 70 vivia na ponta aérea com os Estados Unidos.  Foi ele quem levou Leny Andrade para cantar pela primeira vez no Blue Note em Nova York, o que gerou uma crítica deslumbrante no The New York Times… Lembro que ficamos uma madrugada andando por Manhattan, passando de bar em bar, esperando a hora de ir para a porta do jornal comprar o primeiro exemplar e nos deliciar com os comentários elogiosos à diva Leny que hoje tem lugar garantido em todos os palcos do mundo…

Com ele compartilhei muitas gargalhadas, choramos de tanto rir… Com ele  me debulhei em lágrimas de tristeza e saudades de amores mal sucedidos. Ai Zé, por onde você anda ? Quem tiver notícias de José Luiz de Oliveira, ou simplesmente Zé Luiz, sou grata…Dos amigos não abro mão…

Fiz esta foto saindo do Blue Note : Zé ao lado da Lali Jurowsky, bem atrás de Leny Andrade com seus músicos.

O ciclo

Em maio do ano passado uma amiga veio passar o fim de semana em minha casa e trouxe de presente um vasinho com orquídeas. Durante alguns meses as flores alegraram a minha varanda até saírem voando, pétala a pétala, e restar apenas a folhas verdes bem vivas que transportei para um xaxim e pendurei numa árvore de murtinho. Com um pouco de sol e otima vizinhança de samambaias, quando voltei para casa em setembro deste ano reencontrei o xaxim em flor. As orquídeas voltaram tão ou mais bonitas que as do  passado. Elas me olham e sorriem enquanto estou na rede ou quando ando pelo jardim. Hoje, no entanto, percebi uma pétala no chão. Não sei se orquídea tem pétala, mas uma de suas flores estava em fase de desmanche. Percebi que as que ficaram ja não sorriem do mesmo jeito. Estão ficando opacas, perdendo o vigor.  Tanto em flor como em gente o processo é igual. Não se brilha para sempre, mas se renasce com mais beleza.

Reflexões no café

Na falta de jornal para ler, tomo café da manhã olhando os passarinhos que ciscam as sobras do meu mamão colocado em uma das “praças de alimentação” do jardim. Hoje, no vai e vem dos passarinhos, percebi que um deixou a fruta e estava com outra coisa no bico. A princípio parecia uma folha, mas se passarinho comesse folhas as arvores do jardim seriam apenas galhos secos. Fixei mais os olhos e percebi que estava devorando uma mariposa, cheguei a ver uma asinha se soltar e ser levada pelo vento. Não imaginei que a lei da sobrevivência dos pássaros chegasse ao ponto de atacar uma “voadorazinha” como ele… Longe de ser um ato antropofágico era descaradamente a lei do mais forte sob o mais fraco.

Esta semana Amale, uma amiga que mora em Santo Antonio, um povoado aqui do lado,  contou que uma galinha do seu quintal estava chocando os ovos e um belo dia surgiu um pintinho. Sairam mamãe e filho pelo terreno, esquecendo que ainda tinham outros ovos a serem chocados. Preocupada com o abandono, Amale pegou outra galinha e colocou na função de chocadeira. Todo o dia ela passava pelo galinheiro e a galinha convidada ali estava sentada nos ovinhos. Mas já era tempo dos pintinhos terem nascido, quando minha amiga foi saber a razão viu que a galinha substituta estava comendo os ovos que fingia chocar…

Essa é a lei da nossa pequena selva. A competição, a inveja, a disputa acontece em todos os níveis. E em tempo que voador come voador e galinha de aluguel come os ovinhos, creio que nada mais me espanta. Utilizo estas cenas simples do cotidiano, um olhar atento para o que está a minha volta, para concluir que considero possível qualquer gesto humano.Não é o final dos tempos, é o início dos tempos de acreditar que cada um dá apenas o que tem.

Vento sul

Quando entra o vento sul, quem mora perto do mar sabe o que significa. O vento sul chega para mim como a imagem de um batalhão de cavaleiros, vestindo bombachas, facão na bota e chicote na mão cavalgando em alta velocidade derrubando os galhos das árvores e trazendo não a poeira da estrada, mas a chuva fina… Vão passando e deixando galhos secos no chão, árvores caídas, folhas trituradas e barcos se batendo no porto…

Quando entra o vento sul significa ficar em casa, fechar portas e janelas, ouvir o sino dos ventos na varanda tocar insistentemente novas composições, procurar o que fazer para ocupar o tempo. Arrumar gavetas, fazer cortinas, voltar a ler o livro que sobrou da última viagem, retomar os quadradinhos para uma colcha de crochê, colocar ordem no desktop do notebook que parece porta de loja de R$1,99 com tanta informação. Ler os posts de todos os amigos no FB, e isto inclui ver todos os vídeos, assistir filmes na TV.

Quando entra o vento sul o telefone fica mudo, a praia deserta e o mar revolto  traz o lixo e derrama na areia…É tempo para examinar os resíduos, sejam os do mar sejam os dos meus pensamentos em dias onde quase não se tem com quem falar. Converso com meus botões, organizo os projetos de vida, coloco ordem e prioridade: os que dependem apenas do meu empenho, os que precisam de um esforço maior e os muito difíceis – não impossíveis – quem sabe com um belo empurrão de Deus aconteçam…

Adoro quando entra o vento sul, é tempo de repensar…