O outro

Esperando a balsa que saiu antes da hora levando a ambulância, so me resta pensar na vida. Lembrando antigas relações constatei que só guardei os bons momentos que me proporcionaram e nunca penso no que proporcionei ao outro.
Aprendi há muito tempo que a memória é seletiva e salvadora. Mesmo o amor mais ingrato, o trabalho mais sofrido, quando chegam as lembranças restrinjo ao que foi bacana. Se aconteceram fatos ruins transformo em comédia. E se não ficou nada de bom, acho que a mente inventa pois seria cruel so ter amargas recordações. Ninguém sobrevive sem um alento no coração.
Pergunto aos meu botões se não deixei nada na vida do outro e se lembram de mim com carinho, respeito e gratidão por momentos do passados. O que ajudei a construir, ensinei, passei como exemplo. Quais desafios superamos juntos ? E constato que é impossível saber o que vai na cabeça do outro, mesmo de alguém com quem tenha vivido por longo tempo numa profunda relação. Alguém que se tenha visto chorar, dividido a intimidade de escovar os dentes, compartilhado dinheiro em tempos difíceis. O outro depois que parte é sempre um desconhecido, uma surpresa, uma revelação, tão improvável quanto a balsa que deixa o cais antes do horário por conta de uma emergencia. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Para mulheres

Na recepção da clínica de exames, apenas mulheres das mais diversas idades e classes sociais.  Louras, morenas, gordas, magras, umas bem tratadas outras que se esqueceram com o tempo, dividem seus pensamentos com a conversa de Ana Maria Braga sobre TOC na enorme TV presa a parede.  Devem estar refletindo como eu sobre o estado de suas mamas, seu útero e hormônios. Olhares se cruzam, fico estudando os pés. Uma sandália preta Crock calçada com meias de lã da mesma cor, uma sapatilha sem meias, um par de tênis para corrida, um par de botas elegantes… Ao procurar a dona das botas encontro um rosto idoso e por puro preconceito achei que ia achar um bem mais jovem. Um olho na tv outro no painel que vai dando o número da senha recebida na porta. A mulher de sandália Crock cochila ao meu lado, ressona… A magrinha que lê Mario Vargas Losa não saiu ainda da primeira página, enquanto a jovem de cabelo crespo e colete de crochê ja está indo embora.
No painel a senha 304.  É minha vez.  Carteira de identidade, cartão do plano de saúde e pedido do médico.  A recepcionista nem olha prá mim, apenas entrega um questionário de histórico de câncer de mama. Nada a declarar.  Volto para a TV e agora a Ana Maria dá uma receita de bem casado. Estou em jejum… Não demora e uma atendente me chama, como na escola, “Léa Ceres Viana Penteado”. E  fui dar a veia para tirar sangue e encher vidrinhos, despir   a parte debaixo da roupa para o papanicolau, ultrasonografia de útero e depois a parte de cima para a mamografia.
“Segura a mama direita… isso… agora fica com os pés prá frente, a orelha encosta deste lado, o rostinho aqui e o queixinho para cima. Segura bem a mama, encolhe a barriga e quando eu avisar você não respira”… Com o peito imprensado entre duas placas o “não respirar” já seria normal… A máquina gelada, a sala fria e a tensão óbvia do check up anual.
“Pronto, agora do outro lado….” e depois de frente, em vários ângulos nas posições mais ridículas… Só quem já fez sabe o que é uma mamografia… Por mais que seja doloroso e incômodo, a atendente é gentil e só fala no diminutivo. “Queixinho, pezinho, rostinho, orelhinha..” e por aí vai… Tudo no tempo certo, nem um minuto de atraso… Saio e vejo outras mulheres na recepção. Acabou a Ana Maria, agora é um programa sobre saúde, bem de acordo com o local… O resultado das mamas, hormônios e afins só na semana que vem… E você ja fez o seu exame anual ?

Aos amigos de Santo André da Bahia

Rio João de Tiba – foto: Cláudia Schembri

Um paraíso! Esta é a opinião de todos que passam por lá. Uma vila pequena, com ruas de terra, natureza exuberante, casas simples, algumas pousadas e restaurantes charmosos, um emaranhado de sotaques se misturam . Vila de Santo André da Bahia, bem do lado de Porto Seguro sobrevive longe do axé e do turismo de pacotes. Vila de Santo André da Bahia tem dois movimentos : um no verão, por pouco mais de 3 meses, quando tudo é festa com amigos, visitantes, turistas; e outros na baixa estação, por nove meses, quando o silencio prevalece, algumas pousadas e restaurantes fecham, o burburinho fica por conta das crianças indo prá escola e nos jogos de futebol aos domingos. Volta a ser a Vila de Santo André da Bahia, dos seus habitantes. Dizem que são pouco mais de 600, com poucas ofertas de trabalho esperando o verão.

E para quebrar o nada prá fazer, o espaço se abre para pensar nas manifestações culturais e as tradições. Infelizmente, na maioria das vezes fica só no pensamento por total falta de apoio da prefeitura e de patrocinadores locais que também estão “em baixa”. A baiana Silvia, dos deliciosos acarajés na praia e do restaurante Orquídea, sempre foi atuante nas festas populares e,  em parceria com o IASA (Instituto Amigos de Santo André) que faz um belíssimo trabalho com crianças e jovens da vila, está tentando este ano remontar a apresentação da quadrilha para as festas juninas dias 23 e 24 de junho. 

Uma festa em homenagem a São João que vai ser ótimo para os turistas que vão para o feriado de Corpus Christi. E caso consiga que a quadrilha se apresente, haverá o estimulo de fazer uma festa no campo de futebol, com barraquinhas para vender bebidas e quitutes, gerando  um clima social e de confraternização entre os moradores, com isso tem assunto até o verão chegar!

Por isso, venho aqui passar o chapéu para os amigos e frequentadores do verão na vila : precisamos recolher 700 reais para comprar tecidos e refazer as fantasias… A Silvia já está ensaiando o pessoal e é uma delicia a festa unir todas as gerações… Quem quiser colaborar, com qualquer valor, é só depositar na conta do INSTITUTO AMIGOS DE SANTO ANDRÉ – IASA – BANCO DO BRASIL – AG. 2574 – 7 – CC 11.509 – 6 – CNPJ 07.850.777/0001 – 94… No depósito acrescente Silvia, assim fica facil identificar. Estarei lá e as fotos estarão aqui…Obrigadíssima !!!

Domingo a noite

Tenho preguiça de ir prá cama domingo à noite. Meu corpo pede para prolongar o fim de semana, fico arrumando a casa, zapeando a TV, enrolando a chegada até o quarto, procurando algum livro, mas ontem tive um presente: Marília Gabriela entrevistando Jean Wyllys no SBT a meia noite. A entrevista no GNT o mes passado assisti no youtube, mas o encontro de ontem, talvez por ser em TV aberta, foi surpreendentemente claro e explicativo.  A história de um menino baiano que sobreviveu à miséria, à discriminação pela pobreza, ao preconceito por ser homossexual e aos apelos para se tornar “celebridade” como ganhador do BBB.

Lúcido, articulado, culto e baianamente leve, Jean Wyllys me fez acreditar que ainda tem gente boa na política. O nome Jean (sugestão de uma tia que lia fotonovela) e Wyllys (idéia do pai, pintor de carros, que adorarava Rural Wyllys) leva perceber que seria de alguém que vinha prá fazer diferença no mundo. E está fazendo. Quando responde sobre como se percebeu gay “a gente não se percebe, a gente é” e a explicação sobre o tititi que armaram para a distribuição dos kits homofóbicos é transparente.. Eu lí que a bancada evangélica para não apoiar a CPI contra o Palocci exigiu a suspensão dos tais kits… Por sinal, estes kits não seriam distribuídos aleatoriamente às escolas, apenas as que tivessem alunos em crise no 2º. grau. E para complicar ainda mais e derrubar o assunto, os contra a proposta apresentaram como kit homofóbico o preparado pelo Ministério da Saúde para atender travestis e prostitutas… Basta! É muita sujeira para o meu gosto, mas com gente como o Jean, vejo luz no fim do túnel, tenho esperança em novos tempos…Se o meu titulo de eleitor não estivesse em Santa Cruz Cabrália meu voto seria dele… E enquanto tiver “De Frente com Gabi “ à meia noite de domingo, minhas semanas fecham bem mais felizes.

Dançando

Ando com muita vontade de dançar. No último domingo assistindo ao quadro Dança dos Famosos no programa do Faustão, atenta à promoção do Credicard – cartão Emoções Roberto Carlos – saí dançando na mínima cozinha do apartamento onde moro em São Paulo. Uma cena ridícula mas confesso que muito divertida…A minha imagem refletida no vidro da porta que dá para varanda só não me levou às gargalhadas pois estava me levando muito a sério naquele momento… Não me preocupei se alguém pudesse ver da rua, mas lembrei de uma amiga, jornalista famosa que não revelo o nome por discrição, que contou fechar as cortinas da sala de casa e dançar sozinha nas noites de sábado. … Como vitalidade e juventude vem no mesmo ritmo, tenho conversado com alguns amigos de Vila de Santo André sobre um projeto de velhice coletiva…Sabemos que isso é certo e vivendo em uma vila tão pequena, poderemos sair de camisola pelas ruas, se nos perdermos qualquer um pode nos levar de volta prá casa ou seja, o vexame será preservado.  Pensei em incentivar algumas jovens à formação em enfermagem, afinal temos uma universidade em Santa Cruz Cabrália e com isso a mão de obra especializada estará garantida para atender nosso “home care” … A Jimena, bem mais jovem, pode continuar com suas aulas de alongamento, o coral de mulheres que a Claudia e a Lola estão montando pode ganhar mais reforço, a Marilia Viegas mantém a hidroginástica no rio e quem sabe até aumenta a turma de dança depois de assistir os vídeos que um amigo enviou. A sugestão é ver primeiro vídeo de 1964, Quinn aos 49 anos no inesquecível Zorba, o grego http://www.youtube.com/watch_popup?v=bXxJyIVz-98 e depois aos 84 anos numa deliciosa homenagem http://www.youtube.com/watch_popup?v=CKHlmb5xcq8   Eu vou chegar lá !!! Mas ainda faltam muitos anos, enquanto isso danço mesmo em casa.

em tempo : a foto é da Cláudia Schembri que por ser bem mais moça vai registrar tudo…

De coração pra coração

Deitada na cama de massagem aquecida com lençol elétrico, cheirinho de ervas, a terapeuta ia tocando suavemente na sola dos meus pés em movimentos ritmados. O frio da noite, a trilha de uma musica relaxante e a voz tranqüila repetindo “não pensar, inspirar e expirar, atenção na respiração”. Como não pensar em alguma coisa, algum projeto, na agenda do dia seguinte ?
“Os chineses dizem que precisamos mais expirar do que inspirar, liberar as tensões” tudo isso num tom calmo como se com isso eu pudesse simplesmente esquecer quanto tenho pra fazer na semana que inicia. Mas as costas estavam tão tensas, a cabeça mal virava de um lado para o outro, o braço encurtado pelo uso constante do mouse, enfim um estado lastimável e eu tinha que colaborar.
E não sei se o cheirinho de essência, ou a musica ambiente, que mesmo a dor do toque nos pontos mais nevrálgicos foram um presente.
Tenho enorme dificuldade em relaxar. Estou sempre atenta, ligada 24hs mas chega um ponto que é preciso deixar que alguém faça alguma coisa por mim. Raro. E deixei a profissional paulista e quase vizinha de casa em Vila de Santo Andre na Bahia me levasse a pensar apenas na nossa praia. Fiquei viajando no movimento do mar e por alguns minutos saí do frio de Sao Paulo para a morna temperatura do sul da Bahia.
Ah ! Monica Paoletti, que bem você me fez neste inicio de semana. De coração pra coração, sou grata por estar alguns quilos mais leve. Como você me disse aliviar o peso das costas Nada a carregar a não ser meus próprios sonhos, sem me preocupar com o dos outros, certo ? Vou tentar, experimentar este novo movimento. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Grãos da mesma espiga

Quando fechei a porta do elevador e vi a luz desaparecendo nos andares abaixo, voltei para o apartamento refletindo sobre irmãos.  Acabara de despedir da minha irmã que viera passar um fim de semana paulistano e nesse momento entendi um pouco mais prá que servem os irmãos. Eles são bons prá lembrar que um dia eu tive catapora, dos detalhes do casamento de outro irmão, dos nomes de toda a família, de quem casou com quem, de quem morreu e nasceu, na verdade, aonde está a minha raiz. Irmãos lembram a essência da família, a educação, ética e moral passada pelos pais. Fazem refletir por que razão nascemos desta familia, o que mais profundo existe nesta relação. Irmãos repetem a oração do “Santo Anjo do Senhor meu zeloso guardador” e remetem a um tempo que só nós vivemos juntos, que nenhum marido nem filho nem o amante nem o amigo mais próximo pode conhecer : a infância. Mesmo que não tenha mais picolé de groselha na padaria da esquina e o sorvete agora seja de iogurte, irmãos fazem lembrar o sabor daquele pedacinho de gelo avermelhado e doce espetado em um palito, que nas primeiras lambidas ficava branco e se comprava por dois tostões. Quase nada é preciso dizer aos irmãos, e por mais que se cresça eles conhecem nosso jeito até em mudar de assunto quando o que está sendo falado não deve ser revelado. Irmão tem intimidade, mas não são invasivos. Respeitam o espaço, sabem que o tempo passou, e por mais que tenhamos seguido outros caminhos estamos ligados por uma linha invisível e eterna da vida. Irmãos lembram gargalhadas infantis, pegar a bicicleta sem pedir licença, o primeiro porre, o namoro escondido, o roubo da lata de leite condensado para tomar escondido na hora de dormir, embaixo do cobertor, como uma mamadeira. Irmãos têm a cumplicidade ao dividir um bife acebolado quando a fome é muita e a comida é pouca, emprestar aquela roupa nova, o perfume favorito e jamais contar para os pais o horário que chegou na madrugada. Mesmo que os irmãos estejam afastados, brigados por alguma razão que jamais considera tola, por conhecermos seu caráter somos até complacentes com seus erros, afinal somos grãos da mesma espiga.  Os irmãos servem prá lembrar que por mais que o tempo passe quando estamos juntos somos eternas crianças.

Fafy e Dercy

 

Fafy Siqueira como Dercy Gonçalves para a mini série da vida de Dalva e Herivelto.

Esqueci algumas historias da minha vida e não foram as tristes. Vez por outra alguém comenta algum fato, como aconteceu esta semana com a Fafy Siqueira lembrando em um email um encontro que proporcionei entre ela e a Dercy Gonçalves em 1998 para uma matéria no Jornal do Brasil. E lá se vão tantos anos, mas uma boa oportunidade para lembrar esta figura inesquecível de Dercy.

Foi no finalzinho dos anos 80 que o Canecão trouxe Dercy para o palco daquela que era a maior casa de espetáculos do Rio de Janeiro, quiçá do país. Não sei se foi o Jérson (Alvim), o Legey (Aloysio) ou o Lacet (Walter), o trio que programava a casa de shows, mas um deles me telefonou para fazer contato com Dercy e acertar detalhes sobre a estréia como preparar release, entrevistas, lista de convidados, enfim, cumprir a minha função de assessora de imprensa.  Telefonei e Dercy atendeu com uma voz de poucos amigos. Aquele jeitão desconfiado e até um pouco grosseira. Fui levando com delicadeza e respeito por sua historia, lembrando que papai se vangloriava ao contar que nos tempos em que morávamos em São Paulo e ele ia a negócios ao Rio, algumas vezes assistia espetáculos de teatro de revista com ela. Depois de resmungar um pouco disse que não tinha lista de convidados “convida quem quiser, alguém quer me ver ??” , as fotos de divulgação eram velhas e eu podia escrever o que quisesse no release… Bom, foi mais pelo ineditismo do fato “Dercy aos 80 anos estreando no Canecão”  que algumas linhas saíram para a imprensa.

A temporada foi um sucesso. No Canecão Dercy teve um “upgrade” apesar de o show ser o mesmo que fazia no teatro, mas com um palco bem maior e ótima iluminação. Mais de 3 meses em cartaz e ficamos amigas. O espetáculo começava as 21hs, mas ela chegava ao Canecão as 5 da tarde e pedia a minha presença. Ficava no camarim assistindo TV e bordando com lantejoulas as sapatilhas que usava em cena sem uso de óculos. Surpreendente ! Enquanto ela bordava eu fazia tricô assistindo as novelas da Globo. Às vezes ficava calada e cada uma no seu canto com a sua função. Em outras contava historias antigas de teatro, comentava sobre a vida, dava receitas de como fazer uma carne assada com molho ferrugem que o Boni (JB de Oliveira Sobrinho, diretor da TV Globo) adorava… Sempre com seu jeito próprio, que para muitos podia parecer escrachado mas para mim era muito engraçado. Quando terminava o espetáculo ela saía rápido. Não gostava de dar autógrafos, nem de ser cumprimentada e elogiada pelos fãs, como se envergonhasse dos tantos palavrões que dizia em cena…

De tudo o que ouvi de Dercy, ficou a lembrança de uma frase que fazia parte do show e incorporei a minha filosofia de vida “ Deus fez esta p…… muito bem feita. Deu um saco de felicidades para cada um , mas tem gente que não olha para o seu saco, só do vizinho…Presta atenção no seu saco que a vida vai ser melhor.”

Fafy querida, confesso que não lembrava da matéria do JB, mas lembro sim que você fazia “stand up comedy” antes de todo mundo e a Dercy gostava de você. O seu musical sobre a vida dela vai ser um sucesso e ela vai aplaudir de onde estiver… 

Sexta-feira

Esta sexta-feira me peguei com uma vontade louca de voltar pra casa, como se fosse uma empregada doméstica que só tem folga no fim de semana. Remexendo nos pensamentos percebo que estou em crise de teto. Não sei se minha casa é em Sao Paulo onde trabalho ou na Bahia onde, como diria Zé Rodrix “plantei meus discos, meus livros, amigos” e tudo mais. Nestes tempos em que se carrega num pen drive a trilha sonora da vida, num tablet alguns livros e se fala toda hora com muitos amigos via FB e twitter, a poesia do Zé ficaria fora de jeito. Mas a questão é muito mais de sentimento do que de fato.
As vezes penso que deveria resolver que moro em SP e tenho casa de praia na Bahia, talvez aliviasse a crise de teto. Mas enquanto não me resolvo, faço como nas boas sextas quando estou paulistana: janto na casa da Cacaia. Enviado do meu BlackBerry® da TIM

As mãos

Antes de desligar o abajur coloquei o livro na mesa de cabeceira e a luz amarelada, única no quarto, deu destaque às minhas mãos revelando manchinhas e rugas. Passei alguns minutos olhando para as mãos estendidas no ar e pensando sobre elas… Lembrei do monólogo escrito por Ghiaroni imortalizado por Procópio Ferreira, repetido e aplaudido por Bibi Ferreira, que começava Para que servem as mãos?”

Não estou agora me importando prá que elas servem, mas a razão por ter dormido com este sentimento das mãos estendidas ao alto e a lembrança voltar ao ler no FB sobre um fotografo que passou 36 anos fotografando 4 irmãs para mostrar como o tempo age … Fui no site que tem as fotos  muito lindas… Um profissional sensível, o tempo passou para estas irmãs, fico aqui a imaginar as historias e os encontros para estes links e viajo num filme, num livro…  Parecem felizes e dignas com os anos passados…

Quem procura defeitos, problemas, acaba encontrando… Estou começando a desacelerar o olhar para tudo isso… Vou procurar uma outra forma de  pensar nas quantas coisas boas as minhas mãos  fizeram em minha vida e menos na forma… Vou para o conteúdo de quantas mãos apertei, quantas pessoas conheci, quanto escrevi, quantos acenos, quantos aplausos… Elas estão ágeis, é a glória ! E esta noite quando for desligar o abajur, vou dar mais uma olhada nas manchinhas e ruguinhas com enorme gratidão…Elas contam a minha trajetória…