
Fafy Siqueira como Dercy Gonçalves para a mini série da vida de Dalva e Herivelto.
Esqueci algumas historias da minha vida e não foram as tristes. Vez por outra alguém comenta algum fato, como aconteceu esta semana com a Fafy Siqueira lembrando em um email um encontro que proporcionei entre ela e a Dercy Gonçalves em 1998 para uma matéria no Jornal do Brasil. E lá se vão tantos anos, mas uma boa oportunidade para lembrar esta figura inesquecível de Dercy.
Foi no finalzinho dos anos 80 que o Canecão trouxe Dercy para o palco daquela que era a maior casa de espetáculos do Rio de Janeiro, quiçá do país. Não sei se foi o Jérson (Alvim), o Legey (Aloysio) ou o Lacet (Walter), o trio que programava a casa de shows, mas um deles me telefonou para fazer contato com Dercy e acertar detalhes sobre a estréia como preparar release, entrevistas, lista de convidados, enfim, cumprir a minha função de assessora de imprensa. Telefonei e Dercy atendeu com uma voz de poucos amigos. Aquele jeitão desconfiado e até um pouco grosseira. Fui levando com delicadeza e respeito por sua historia, lembrando que papai se vangloriava ao contar que nos tempos em que morávamos em São Paulo e ele ia a negócios ao Rio, algumas vezes assistia espetáculos de teatro de revista com ela. Depois de resmungar um pouco disse que não tinha lista de convidados “convida quem quiser, alguém quer me ver ??” , as fotos de divulgação eram velhas e eu podia escrever o que quisesse no release… Bom, foi mais pelo ineditismo do fato “Dercy aos 80 anos estreando no Canecão” que algumas linhas saíram para a imprensa.
A temporada foi um sucesso. No Canecão Dercy teve um “upgrade” apesar de o show ser o mesmo que fazia no teatro, mas com um palco bem maior e ótima iluminação. Mais de 3 meses em cartaz e ficamos amigas. O espetáculo começava as 21hs, mas ela chegava ao Canecão as 5 da tarde e pedia a minha presença. Ficava no camarim assistindo TV e bordando com lantejoulas as sapatilhas que usava em cena sem uso de óculos. Surpreendente ! Enquanto ela bordava eu fazia tricô assistindo as novelas da Globo. Às vezes ficava calada e cada uma no seu canto com a sua função. Em outras contava historias antigas de teatro, comentava sobre a vida, dava receitas de como fazer uma carne assada com molho ferrugem que o Boni (JB de Oliveira Sobrinho, diretor da TV Globo) adorava… Sempre com seu jeito próprio, que para muitos podia parecer escrachado mas para mim era muito engraçado. Quando terminava o espetáculo ela saía rápido. Não gostava de dar autógrafos, nem de ser cumprimentada e elogiada pelos fãs, como se envergonhasse dos tantos palavrões que dizia em cena…
De tudo o que ouvi de Dercy, ficou a lembrança de uma frase que fazia parte do show e incorporei a minha filosofia de vida “ Deus fez esta p…… muito bem feita. Deu um saco de felicidades para cada um , mas tem gente que não olha para o seu saco, só do vizinho…Presta atenção no seu saco que a vida vai ser melhor.”
Fafy querida, confesso que não lembrava da matéria do JB, mas lembro sim que você fazia “stand up comedy” antes de todo mundo e a Dercy gostava de você. O seu musical sobre a vida dela vai ser um sucesso e ela vai aplaudir de onde estiver…