Um amor sem tamanho

Fotos : Cláudia Schembri

Eu já pensei uma porção de vezes em escrever sobre um espetáculo paralelo que acontece nos shows do Roberto Carlos: a manifestação da platéia. Como geralmente estão todos extasiados com o que rola no palco não se permitem perder um segundo sequer olhando os seus vizinhos. Nem sempre fui atenta ao público. O encantamento de vê-lo cantar é o mesmo desde os tempos da Jovem Guarda, dos programas na extinta TV Tupi na Urca, os shows que assisti nas antigas casas de show no Rio – Canecão, Imperator  e Metropolitan – , os muitos nas celebrações dos seus 50 anos de música em todo o Brasil, até o espetáculo de ontem no Credicard Hall em São Paulo. Mas nestes últimos anos tenho a oportunidade de assistir a incrível paixão do publico quando, no silencio centesimal entre duas palavras da canção, alguém grita “Roberto eu te amo!!”. Funciona como um estopim para outras vozes fazerem coro na mesma proporção com tantas declarações de amor. Este fato se repete em todos os shows como se fosse parte do roteiro. Repete-se em todos os sotaques, com diversas pronúncias, em todos os países por onde passa, por vozes de todas as idades.

Por mais que teorizem e estudem o fenômeno do artista que em mais de 50 anos só fez aumentar a sua legião de fãs, se manter no topo do mercado do showbusiness, crescente na venda de produtos (CDs e DVDs) apesar de tanta pirataria, ingressos esgotados em todas as apresentações, o fato é simples: amor não se explica. Apenas se vive.

Tenho o privilégio de profissionalmente assistir este processo em muitos shows, ver a paixão explícita dos fãs nos dias em que passamos “al mare” no cruzeiro Emoções em Alto Mar. É comovente ver a música tocar a mais profunda emoção de pessoas de todas as idades, nacionalidades, classes sociais, opções políticas e credos. São canções que trazem pedaços da vida de cada um, seu efeito é devastador : um amor pra sempre, sem limites nem vergonha de gritar “Roberto eu te amo!”

 

Dudu

Foto: Cláudia Schembri

Estou em sp com o coração na Bahia… Ontem a caminho do aeroporto soube na balsa que a Dudu estava internada em Porto Seguro… Quem conhece Vila de Santo André deve ter ouvido falar de Dudu, Edoarda Casadei, uma italiana que lá chegou há mais de 20 anos… Até pouco tempo era minha vizinha, morava na casinha amarela voltada para o mar e conversávamos através da cerca… Mas Dudu se sentia isolada, o movimento daquele lado é mesmo pequeno, e há 2 anos se mudou para o miolo da vila, com mais gente por perto…Dudu é uma lenda e quando a conheci num restaurante italiano com meu irmão e Ugo no final dos anos 80 jamais sonhei que seríamos vizinhas… Dudu tem 84 anos e na festa de 80, à beira do rio, a Filarmônica de Belmonte tocou “Amigos para sempre” no momento em que chegava extasiada com a festa surpresa. Parecia uma criança com as homenagens.

Saí da balsa com um aperto no coração diante as lágrimas da Joyce e do Maurício. Da. Maria pediu carona até o hospital de Cabrália onde foi visitar o neto e no caminho comentamos sobre as tantas perdas este ano. Eu estava enumerando as partidas quando Da.Maria com toda a sua sabedoria disse que não era bom contar os que se foram. Caso o fizesse era bom encerrar a conta citando um animal. Acrescentei o Pulga, meu poodle que morreu em fevereiro e prometi que não faria mais listas.  Não tenho como fugir da realidade, mas sei que enumerar nada adianta. Melhor ficar com as boas lembranças como desta foto, uma cena linda de nossa praia com a Dudu e seu fiel escudeiro Pepe.

Na estrada

No caminho de Belmonte passo pelo pequeno cemitério, à beira da estrada, onde sepultei meu irmão. De longe vejo a cruz de cimento fixada na terra. Foi o que ficou. A matéria se fundiu com a terra, voltou ao pó. Não espero que ele esteja lá, ficou apenas a cena num velho filme de enterro em manhä de sol na véspera de Natal e o sentimento de que quando ele chegou, vindo do Rio de Janeiro como pediu, flutuou no ar, mergulhou no mar de Mogiquiçaba, se refrescou a sombra das árvores e seguiu para outra dimensão.
Mudou a cor da pintura do muro e do portão, as copas das árvores cresceram, a grama esta verde por conta das chuvas. Carros vão e voltam na estrada tudo ficou no tempo. Muitos nem olham ou lembram dos que ali deixaram, o tempo corre na estrada. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Tim Maia



Esta semana fiquei sensibilizada ao assistir no Arquivo N na Globo News um trecho em que o Tim Maia dizia “meu negocio é cantar, pois quando eu paro de cantar eu faço besteira, eu brigo com a Léa Penteado…” http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1629594-17665-303,00.html. Luciana Savaget que pesquisou e editou o programa (repete sábado 16:05 e domingo 21:00) me contou que em várias gravações que assistiu ele falava muitas vezes em mim, e em uma delas, muito doidão, disse: “sei que a Léa vai me matar, mas eu vou falar” e esculhambou a organização do show. Esses poucos segundos no ar foram importantes para o momento de reflexão que estou passando, revendo por onde andei e o que valeu a pena.

Quando comecei como repórter na revista Amiga (Bloch Editores) tinha que “cobrir” programas de TV ao vivo em busca de pauta. Em uma 4ª. feira na Discoteca do Chacrinha conheci Tim Maia  (19421998). Ele tinha voltado recentemente dos Estados Unidos e falou alguma coisa que não me recordo mas que renderia uma boa entrevista. Marcou o encontro para o dia seguinte no Solar da Fossa, onde morava. O Solar da Fossa (1964 a 1971) ficava onde hoje é o Shopping Rio Sul, em Botafogo e foi uma antiga fazenda no século 18 transformada em um  conjunto de apartamentos com aluguéis baixos onde morou uma legião de talentos como Caetano, Leminski, Gil, Paulo Diniz, Paulo Coelho (no momento que conhecia Raulzito), Ítala Nandi, Cláudio Marzo, e muitos outros… Cheguei 1 da tarde, na hora marcada, Tim abriu a porta com cara de sono, pediu desculpas pela noitada inesperada e me convidou para sentar na sala. Quando voltou de rosto lavado, antes de começarmos a conversar, bateu na porta um rapaz e entregou um pacote embrulhado em papel pardo amarrado com barbante do tamanho de meio quilo de café. Tim abriu o pacote, provou a mercadoria e me ofereceu. Revoltada dei um ataque e saí xingando. Ele veio atrás, entrei no carro de reportagem fui embora e nunca mais quis saber de Tim Maia. Isto aconteceu em 1969. A reportagem seria sobre o dueto que iria gravar com Elis Regina da sua composição “These Are The Songs” no disco da cantora. Foi por conta deste sucesso que recebeu o convite para um LP, “Tim Maia” (1970), que arrasou com “Primavera” (de Cassiano) e “Azul da Cor do Mar” (de Tim).

Em 1986 como assessora de imprensa do Canecão, os produtores da casa (Walter Lacet, Aloysio Legey e Jerson Alvim) informaram que o Tim ia fazer uma temporada de 4 dias. Apesar da fama de anunciar e não aparecer, desta vez estava tudo tão amarrado que ele não tinha como fugir. Abstraí o fato acontecido há quase 20 anos e telefonei para ele para combinar entrevistas e convidados para a estréia. Ele me tratou com o maior carinho, foi atencioso e cumpriu o acertado. Na passagem de som no dia da estréia quando gravou para o jornalismo da TV Globo, falou varias vezes o meu nome. À noite fiquei até envergonhada. Parecia que o show era dedicado à mim tantas as citações. Esta lua de mel durou 3 dias. No domingo no fim da tarde quando cheguei ao Canecão veio a bomba: o show foi cancelado. A justificativa do empresário: motivo de força maior. Entre o público que voltaria para casa desapontado estavam alguns jornalistas e na 3ª.feira era noticia nos principais jornais. Nesta tarde eu estava trabalhando quando o telefone tocou e era Tim Maia gritando os maiores impropérios. Instintivamente liguei a secretária eletrônica onde os palavrões e ameaça de morte que me fazia foram registrados. Culpava-me pela repercussão na imprensa e estava possesso com a jornalista Deborah Dumar do jornal O Globo que havia publicado “mentiras”, segundo ele, com a minha influencia. Bom, não contente em me telefonar, ligou para O Globo, repetiu o mesmo discurso e ameaças para a Deborah que levou o caso à direção do jornal que por sua vez acionou o Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Nilo Batista e a confusão estava armada. Tim Maia recebeu um aviso para ficar longe de nós, mas dois dias depois telefonou me pedindo em casamento! Ele falava sério e eu não podia crer. De tudo isso ficou a amizade e por mais incoerente que possa parecer, um enorme respeito. Nos encontramos diversas vezes, em muitos shows e seu swing era incomparável. Tim não marcou apenas a música brasileira com sua voz potente, mas a vida de muita gente, como a minha.

Fugindo

A vila onde moro tem tão poucos habitantes que nascer e morrer é assunto coletivo. Quando cheguei há pouco mais de 6 anos ouvi o comentário que demorava alguém morrer por la. Nascer era mais facil. As meninas se tornam moças e como no Xote do Gonzagão “ela só quer, só pensa em namorar”, e logo na seqüência, geralmente, vem um filho.
Mas este ano deu pra muita gente morrer em Vila de Santo Andre. A Josefina em janeiro, mais uma senhorinha em julho, depois o Gago, a mulher do Celso, “seu” Capador nosso curador e hoje a mulher do Railton. E nesse vai e vem de comentários nos velórios a declaração surpreendente do Vitório. “Vou mudar daqui pois não quero que a morte me pegue”.
Vitório tem idade indefinida. Provavelmente bem mais que 60. Negro e forte, rosto expressivo e vincado, cortava madeira na roça e vendia para fazer cercas. Mas o Ibama proibiu este tipo de poda que ingenuamente ele acreditava serem “árvores de mato” mas que eram da preservada Mata Atlantica. Com isso começou a fazer vassouras da piaçava que retira também da roça e faz uma porção de bicos. Recentemente cortou com machado a árvore que caiu no meu quintal. As vezes toma uns tragos a mais, e vem tagarelando sozinho pelas ruas e vielas.
E com esse jeitão e perfil esta se preparando para mudar de vila, fugir da morte, como se ela não estivesse na espreita estes anos todos vestida de boa vida.
Ah! Vitório, se isso fosse possível eu ate ia junto com você. Mas a morte não se escolhe, não se foge nem se espera. Ela chega na hora certa. Ate lá o melhor é pensar que somos imortais. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Domingo

Quando deixo algum tempo de escrever é por que a cabeça ferve. Silencio as letras no papel e uma velha maquina batuca frases/pensamentos alucinantes construindo textos sem sentido. Ou com todo sentido. Estou em momento de Saturno passando pelo meu mapa astral. Caiu uma árvore no quintal, estourou o motor da geladeira, queimou o ar condicionado e dois ventiladores de teto, quebrei copos e apareceu goteira no quarto recém construído. Dizem que com Saturno é assim, mexe com tudo, desestrutura , põe pra fora o que não vale, sai do lugar para voltar de outro modo. De novo ? Desafios, assim é a vida.
Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Cabeça vazia

Tempo morno, barulho do mar e das folhas dos coqueiros, um assobio do vento, faço o exercício de esvaziar a cabeça. Om om om….
Tento varrer a poeira dos menores pensamentos, calar a mente e sempre volta um cisco. Tenho pensado nisso nestes últimos tempos.
A mente não se cala, os pensamentos correm de um lado para o outro como se fossem peças soltas numa enorme caixa levada em cima de um carro de boi chacoalhando pela estrada. Roda pião bambeia pião…
Nada para nem com o vento nem com o bater do mar nem com meus pensamentos.

Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Às vezes me estranho

Foto: Cláudia Schembri

No meio da faxina a Lugo comentou: “Da. Léa, a senhora “esmagreceu”… Esmagreci sim, Lugo, nas últimas 2 semanas entrei em uma academia preparando o “corpitcho” para o verão. Tenho andado muito, não na esteira, mas numa nova modalidade de caminhadas com peso, pois molhar todo o jardim puxando 50 metros de mangueira não é fácil. O alongamento está em plena forma, colocando e tirando roupas do varal, travando portas e janelas. Também tenho feito um pouco de musculação em situações diversas, como levantar as pesadas janelas guilhotina em madeira e varrer o pátio. O agachamento está ótimo, tanto para retirar as tiriricas que nascem na grama, como ao catar “pérolas” que Xico e Bella espalham pelo quintal. Pequenas corridas para abrir o portão pois o automático ainda não foi instalado, também estão no programa, e o step, subo e desço a escada dezenas de vezes até o escritório para escrever, montar álbuns, responder emails … Muito me salva o Blackberry pendurado no pescoço para conferir o que acontece no mundo entre o corte de uma folha seca no jardim e limpar a horta… E no meio da novela quando exausta, quase desmaiando na cama passo o creme nas mãos para reduzir os calos penso nas quantas vidas executo no mesmo dia… Tudo continua no outro dia ao acordar com o sol. Não me queixo, agradeço, mas as vezes me estranho … A minha outra vida ficou nas fotos, nas memórias e nos amigos… O meu conteúdo foi acrescido de um ouvido e de um olhar mais aguçado para os pássaros, o vento, o mar e o silencio que em milionésimo de segundos pode acontecer nos intervalos do movimento dos galhos das árvores…Tudo pára nesta pequena fração de tempo, tempo de respirar e sentir o mundo… Tempo de reflexão, ouvir o coração, sentir o que vai na alma.. Nem tudo está perdido no planeta…

Longa noite

Nos últimos anos o dia 21 ganhou um destaque no meu calendário. Na data  que papai e Victor partiram bate sempre um momento lembrança. Hoje foi diferente. Lembrei com gosto de comemoração: 2 anos da Pizzaria Varanda, da Joyce Hermeto, a melhor pizza do espaço sideral  como consta no seu cartão…

Relembrando: eu vivo numa vila com menos de 350 moradores. Isto é real. Sempre falei que éramos perto de 800, mas o censo passou por aqui e na entrevista na casa da Olímpia e do Claudio os pesquisadores foram bombardeados por perguntas e com isso a revelação. E se somos tão poucos, uma festa é a oportunidade de encontrar uma dúzia de amigos. Mas no final do dia com o telefonema avisando da morte do Sr. João Capador fiquei pensando na ironia de um lugarejo que tem tão pouco movimento e bem nesta noite uma festa e um velório na mesma rua !

Sr. Capador é referencia para os que moram ou veraneiam aqui.  Aos 88 anos foi um dos primeiros moradores, receitava chás de ervas que buscava na roça, usando um chapéu de couro rezava quem o procurasse, tinha um pequeno bar/mercadinho onde ficava a maior parte do tempo sentado em um banquinho jogando dominó. Tinha sempre parceiros para jogo e historias… Por isto a noite em Santo André vai ser longa. Fiquei na porta do velório, ao lado do seu mercadinho, acompanhando a chegada dos moradores. É uma incrível cerimônia de despedida. As cadeiras de plástico foram colocadas na rua. Uma romaria de adultos, jovens, crianças vai saindo das ruelas e becos, se aproximando, todos com roupa de festa. Muitos trazem garrafa térmica, cobertores e até um colchonete !

Passei uma noite assim, é para nunca esquecer. Fiquei sentada à beira do rio recebendo cumprimentos de mãos calejadas, morenas, desconhecidas e já se passaram quase 9 anos …. Aprendi muito com a simplicidade dessas pessoas que entendem que chegar e partir é momento de celebração.   21/10/2010

Estúpido Cupido

João (Ricardo Blat), Carneirinho (Tião D´Avila), Caniço (João Carlos Barroso) e Mederiquis (Ney Latorraca)

Querido Tião,

Adorei sua mensagem no FB, saber que a sua filhota Carolina lhe deu dois netos e que você continua em pleno exercício do seu oficio de ator na novela “Ribeirão do Tempo”, na Record. Mas o que mais gostei foi a frase, quase um suspiro: “PASSOU UM LONGA PELA CABEÇA DESDE ESTÚPIDO CUPIDO”.

Não se intimide em lembrar do passado, pois este mesmo filme também passou na minha cabeça.  Saudades a parte, a verdade é que a novela de estréia do Mario Prata tinha uma história simples, sedutora e deliciosa. Ele misturou com perfeição nos costumes dos anos 60, humor amor e aventura, e o nosso velho e bom Regis (Cardoso) soube reger com leveza e elegância tramas e personagens. Acredito que a maioria dos atores/atrizes guardou este como um trabalho de referencia, pois tudo era muito bom. Do texto aos figurinos, trilha sonora, coreografias e cenários tudo muito cuidado. Voltamos a dançar rock n´roll, a andar de lambreta e a torcer nos concursos de Miss. Eram os anos 60 encantados! As “garotas” (que fim levou Heloisa Millet?), a turma do Mederiquis, as freiras, o Cabo Fidelis (inesquecível Tony Ferreira), as fofoqueiras, as familias, todos vivendo na fictícia cidade de Albuquerque … Um ótimo momento da TV brasileira fechando com louvor a fase das novelas em preto & branco…

Esta conversa me levou a pesquisar na internet, fui ao youtube onde revi o talento de vocês (links abaixo) e no Wikipedia onde constatei que eram apenas 27 atores! Fazia-se novelas com elenco enxuto e não se discutia tanto a audiência… Vocês deram conta deste recado e de todos os outros que a vida ofereceu… Parabéns Tião, como é bom ter historias para contar (e mostrar) para os netos…  Um beijo carinhoso desta repórter amiga..

Primeiro capítulo

Chamada de estréia 1

Chamada de estréia 2