A música em mim, parte 2.

Aos 17 anos...

Conheci Ângela Maria da Cunha Porto Carreiro de Miranda, ou simplesmente Ângela, ou Jóca, no 1º ano do curso Clássico no Instituto Coração de Jesus, uma escola que à noite chamava-se Colégio Veiga de Almeida e ficava em frente ao Colégio Militar na Tijuca. No primeiro dia de aula descobrimos que nascêramos no mesmo dia e mês, com um ano de diferença, e isto bastava para selar uma amizade para sempre. Alguns dias depois fui à sua casa e conheci um contexto de família liberal, com o pai psiquiatra, Aloísio Porto Carrero e a mãe, dona de casa e costureira maravilhosa. Em 1965 na efervescência da ditadura o sobradinho na rua Jaceguai 27 na Tijuca onde moravam, era refugio de talentosos contestadores que nos fins de semana se reuniam para tocar violão, bater papo, namorar e tomar cerveja. Era sensacional para uma adolescente descobrir aquele clima de protesto e conhecer um mundo politicamente diferente do que tinha aprendido em casa. Com Aloísio e Maria Ruth tudo era permitido. Fumar, ficar acordada até o dia amanhecer e sobretudo falar de política. Liberdade, liberdade! Aprendia-se muito ouvindo de Sinval Silva (compositor de preciosidades gravadas por Carmem Miranda) a Nelson Cavaquinho. Ali eu vi Jacó tocar o seu Bandolim, Milton Nascimento e Paulo Sérgio Valle, já despontando como compositores, e acompanhei os novos que surgiam como Gonzaguinha (namorando Ângela), Ivan Lins (namorando Lucinha), Aldir Blanc, César Costa Filho, Sílvio Silva, Rolando Farias, Paulo Emilio, mais um monte de gente de talento que veio a se firmar nos festivais universitários. Deste grupo surgiu o MAU – Movimento Artístico Universitário que ganhou o país com todos eles transformados em estrelas do programa Som Livre Exportação na Rede Globo .

Saímos da adolescência e entramos juntas na juventude. Ainda posso ouvir o violão do Aloísio e nossas vozes em pleno pulmão entoando Pixinguinha num “Carinhoso” suplicante “vem vem vem vem… vem sentir o calor dos lábios meus à procura dos seus….” Descobrimos juntas amores, dores de cotovelo e trocamos confidências… Lembro Ângela contando que havia se apaixonado por Gonzanguinha e com um jeito muito divertido dizia o quanto ele era magro, feinho e genial … Rimos muito, sempre, dessas e outras revelações íntimas que só na juventude se faz para as melhores amigas… Selamos uma amizade até 1991 quando Ângela aos 41 anos se cansou de respirar… Jamais esquecera seu grande amor, Gonzaguinha, e 6 meses depois de sua partida ela foi atrás … Em algum lugar no infinito deve estar rindo das nossas historias, quem sabe cantando com sua voz pequena e suave, como naqueles sábados na Tijuca…

No final dos anos 80 com Paulo Gracindo...

 

A música em mim

Era este disco que tinha lá em casa...

Se a infância acabou quando vi Maysa cantando na TV e constatei que havia um mundo que nem meus pais, irmãos, as freiras do colégio, os amigos da rua haviam me revelado, no mesmo instante abriu-se um novo caminho através da música. Não a música de fossa, o samba-canção pré-bossa nova que Maysa compunha e interpretava, mas a música como algo vital. Não tive formação musical acadêmica. Queria aprender piano, acordeão, mas isto não fazia parte da “cultura da família”, ou melhor, do orçamento curto. Papai tinha uma visão interessante sobre os outros assuntos que estavam fora do padrão básico de educação e saúde. Jamais falamos sobre isso, mas com o passar do tempo concluí que ele acreditava que sua responsabilidade era oferecer tudo o que podia para os 5 filhos, sem privilégios. Associou-se a um clube perto de casa onde todos podiam usufruir dos esportes. Comprou TV, vitrola, discos, livros e fez uma assinatura revista Seleções, informação para todos. Da coleção Thesouro da Juventude a obra de Monteiro Lobato, além de dicionários e livros diversos que se enfileiravam na estante do corredor. Lia-se com constância, por hábito, não por obrigação. Musicalmente o gosto era eclético. Nos domingos e feriados antes do almoço colocava para rodar na vitrola LPs e discos de 98 rotações que variavam de Noel Rosa com Aracy de Almeida à ópera Carmen de Bizet. Não sei o que regia a seleção musical que ainda podia ter Inezita Barroso, Glen Miller, Tonico e Tinoco, Waldir Calmon feito para dançar, “Continental” (orquestrado com “standards” americanos), Agostinho dos Santos e por aí seguia…Nenhum disco da Maysa, era novo demais. E foi esta falta de preconceito que estruturou minha vida muito mais do que papai podia imaginar. Qualquer som era bem vindo, só havia o bom ou o ruim, sem julgamento, apenas sentimento… Foi por isso que aos 16 anos quando fui à casa de Angela Maria da Cunha Porto Carreiro de Miranda, colega do curso Clássico (o Segundo Grau de antigamente) e vi uma roda de samba e uma porção de jovens cantando e compondo em plena ditadura, a música virou a minha vida pela segunda vez…

Infância

Aos 6 anos.

Me lembro que estava no colo de alguém e acordei na porta da escola. Esta é a mais remota lembrança que tenho. Devia ter 3 ou 4 anos, criança não ia para a escola nesta idade mas minha mãe era professora e as freiras abriram uma exceção.  O Ginásio Beatíssima Virgem Maria, no bairro do Brooklyn, São Paulo, foi a extensão da minha casa. Ainda sinto o aroma do café com leite que saía do enorme bule de metal que as freiras serviam no lanche acompanhando fatias de pão com geléia; o medo do olho de Deus onipresente e onisciente desenhado no quadro negro nas aulas de catecismo e o sabor das nêsperas e jabuticabas roubadas do pátio da escola.

Por volta dos 8 anos ganhei uma bicicleta preta com finos frisos vermelhos. Não era nova, era “herança” de minha irmã que papai mandou reformar. Pedalei muito e com amigos ia à beira de um pequeno rio tomar banho e depois ficar correndo sob o sol até secar e voltar para casa sem vestígios. Desenhei com giz plantas baixas de casas de bonecas no cimento do jardim e ali vivia entrando e saindo apenas pelas mini portas que inventava. Ninguém podia pular as paredes…

Sentei muito no muro para ficar vendo as pessoas passarem na rua. O movimento era pequeno, mas eu sentia que ali do alto tinha domínio do mundo. Montei laboratórios com vidros de remédios, fiz experiências misturando mercúrio cromo com pedrinhas de anil azul e com um pouco de goma de roupa fazia comprimidos em formas de botões.

Costurei roupas de bonecas, me escondi embaixo da escada e com alguns velhos “bobs” que mamãe enrolava os cabelos, grampos e um espelhinho fiz um salão de beleza !  Tomei Crush aos domingos, assisti na TV ao Circo do Palhaço Arrelia e o Pullman Junior,  desenhei em cartolina o Palácio da Alvorada e tirei nota 10 por saber escrever no quadro negro Juscelino Kubitschek. Fui mimada, paparicada e bebê até os 9 anos quando nasceu meu irmão Marcus.

Uma noite depois que a porta da geladeira caiu no dedão do meu pé papai achou por bem que eu ficasse acordada vendo TV, atento que estava ao machucado. Creio que foi nesse dia que a minha infância acabou. Descobri Maysa e literalmente “meu mundo caiu”. Fiquei perplexa com a figura que entrava num estúdio esfumaçado decorado com pilastras greco-romanas, cabelos curtos caídos nos olhos, trazendo na mão uma taça de bebida e cantando “Ouça”… Aquilo não era coisa prá criança ver! Eu vi e fiquei encantada. Era a mais pura vanguarda, um planeta que eu não conhecia, muito além das bonecas, bicicletas e dos bobs da mamãe…

Ali a mágica se fez e me seduzi por este mundo diferente de artistas… Conheci Maysa em 1970 como jurada do programa Flávio Cavalcanti. Contei que antes dos 10 anos havia trocado a trilha sonora de criança por suas músicas. Criamos uma relação de amizade… Em setembro de 1973 procurei Maysa para uma entrevista.  Na cobertura de seu apartamento, na Rua Almirante Pereira Guimarães, em Copacabana, conversamos uma tarde inteira e na saída ela me deu 4 folhas de papel A4 dobradas ao meio com uma pequena autobiografia manuscrita. Hoje, no dia da criança lembro a minha infância e óbvio, de Maysa…  O que ela escreveu prá mim, segue abaixo…

“Nasci no Rio, sou de gêmeos, dia 6 de junho. Nasci em Botafogo, em casa mesmo, na Rua Visconde de Silva. Hoje em dia é uma clínica, tenho imensas saudades daquela casa e sempre sonho com ela.

Tenho um irmão, Alcebíades, já casado com Dorinha e tem uma filha linda, chamada Maysa como eu. Meus pais são maravilhosos, minha mãe é linda e papai tem os olhos mais azuis que já vi. Sempre foram meus amigos e companheiros em tudo e para tudo.

Só não gostaram quando eu comecei a cantar. Deram o não. Hoje, porém são fãs incondicionais.

A música sempre foi importante prá mim, desde menina. Minha tia Lia era pianista excelente e quando ela estudava, eu ficava horas e horas sentada ao lado dela ouvindo música clássica.

Aos três anos eu já sabia tocar alguma coisa com os dois dedinhos. Aos seis ia dar meu primeiro concerto de piano mas caí doente com sarampo. Aos sete outra vez, mas tive catapora: assim nunca pude levar a serio uma carreira de pianista, hoje uma de minhas frustrações.

Já casada, esperando Jayminho, meu filho hoje com 17 anos, numa festinha em casa toquei algumas de minhas músicas que compunha desde os 13 anos.

Estava lá Roberto Corte Real que me convidou para gravar um disco logo que o “baby” nascesse. Meu pai era muito amigo de Silvio Caldas, Elizeth Cardoso, que sempre estavam lá em casa. Silvio foi a primeira pessoa que me ajudou a tocar violão. Com Elizeth aprendi muito para depois partir para cantora.

Não foi fácil conseguir ser profissional.

Para poder seguir essa profissão tive que abrir mão de muitas coisas e por fim não podendo mais, larguei até meu casamento, minha casa enfim, a minha vida de moça de sociedade para seguir a minha verdadeira estrada.

Devo ter mais ou menos uns 23 LPs. Muitos feitos no Brasil, 2 nos States, Itália, Espanha, Argentina, etc.

Compus muitas e devo ter gravado umas 50. Elas sempre refletiam meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui escrever nada alegre.

Fora do Brasil estive 7 anos.

As razões foram várias, mas a a principal foi meu segundo casamento. Meu segundo marido, Miguel Azanza, era espanhol e todos os seus negócios estavam na Espanha.

Segundo, foi querer levar Jayme para que ele tomasse contato com a vida num local onde ele fosse apenas Jayme, e não Jayme Matarazzo. Para que ele aprendesse a se valorizar pelo o que ele é e não por outras coisas que poderiam ocorrer em face de seu nome.

Com a morte de André, meu primeiro marido, levei Jayminho para a Espanha e não me arrependo.

Atualmente a minha vida chegou a um ponto onde há um equilíbrio agradável, embora eu esteja dando os meus primeiros passos para que o equilíbrio seja total.

Muitas vezes ainda me sinto perdida, só, o que é normal para quem se colocou tanto tempo nessa situação.

Carlos Alberto e eu temos muitas coisas em comum, inclusive uma vivência adquirida nos tantos erros anteriores. Fomos pessoas machucadas e machucamos. Tudo o que sou agora é uma conseqüência lógica do que passei. Só que procuro tirar de bom o que ficou e jogar fora o que não interessa.

Há anos venho em busca de um local que me permitisse uma paz quase que inacreditável. Antes era na Barra da Tijuca, há 16 anos atrás onde eu tinha uma casa e vivia em perfeita harmonia com meus bichos, o mar e uma turma da pesada.

Hoje é uma praia distante onde vivo na mais completa harmonia com Carlos, os bichos, o mar e mais ninguém a não ser essa nova expressão que está nascendo em mim já há algum tempo, que é a pintura. Levei um piano onde pretendo compor algumas coisas, levei meu cavalete, meus discos e levei a minha paz que, justamente com a de Carlos, nos faz pensar num pra sempre.

Jayminho hoje tem 17 anos, é bonito, rico, toca violão, pinta, é bacana e um ser humano maravilhoso, que muito me ajudou no encontro dessa paz que hoje em dia é a minha constante.

E se às vezes derramo o caldo, ele é quente, não mais fervente. É isso ai. Bicho!”

Maysa

setembro de 1973

Em tempo : o meu pé ainda tem a cicatriz da porta da geladeira.

 

Sabonetes

Adoro sabonetes e agora há pouco no banho enquanto me deliciava com o “soap body” Calvin Klein que a minha amiga Wilma trouxe de Berlin, a cabeça voou e fui ao tempo com o Cinta Azul, Eucalol e Lifebuoy … O Cinta Azul que não existe mais, marcou uma geração por ter patrocinado a apresentação de Bat Masterson no Rio de Janeiro em 1961. Para quem não lembra, Bat Masterson era mocinho de uma série faroeste produzida para a TV que foi ao ar pela TV Tupi de 1959 a 1961.  “O sabonete Cinta Azul, tem o prazer de apresentar, um novo filme de caubói, Bat Masterson.” No papel principal, o ator Gene Barry, que interpretava o bom moço, elegante, muito bem vestido com chapéu côco e uma bengala. A música tema, vertida para o português, foi sucesso na voz de Carlos Gonzaga – o mesmo que gravou Diana, Carol…-  e todas as crianças sabiam cantar “No velho oeste ele nasceu, E entre bravos se criou, Seu nome em lenda se tornou, Bat Masterson, Bat Masterson..”

 

 

 

 

 

 

A promoção do Cinta Azul colocava cápsulas dentro dos sabonetes e uma vez encontradas eram trocadas por bengalas promocionais. Mamãe comprou muitos sabonetes, quebrei todos e consegui uma bengala… Adorei achar no youtube um trechinho do Bat Masterson http://www.youtube.com/watch?v=uFeGrWFu7Qo… Quem quiser ouvir a música na versão em português tem uma foto montagem em http://www.youtube.com/watch?v=NCpJLUKY_rw

Com o sabonete Eucalol tenho relação de afeto. Aos 15 anos fiquei amiga de Cissa, Angela, Vera e Issa Stern, filhas dos herdeiros da Perfumaria Myrta S.A. A fábrica faliu em 1980, mas o Eucalol ficou na historia por ter revolucionado o mercado. Foi o primeiro sabonete feito à base de eucaliptos, era verde ! Além disso tinha uma forma de comunicação inusitada: em 1930 lançou uma campanha colocando estampas diferenciadas dentro das embalagens dos sabonetes para incentivar o colecionismo, e com isso aumentar as vendas e o faturamento da empresa.  

No blog Caríssimas Catrevagens do Marcos Dhotta de Recife, mais vintage impossível, tem imagens deliciosas destes cartões vendidos a peso de ouro para colecionadores…

E o Lifebuoy reencontrei outro dia nas prateleiras do supermercado em Porto Seguro. Me lembro do jingle e em como soava estranho um sabonete com esse nome numa época em que nem se falava tanto inglês. Lifebuoy é uma das mais antigas marcas de sabonete no mundo. Surgiu em 1894 na Inglaterra, mas só chegou ao Brasil em meados dos anos 30. O fabricante garantia que o produto acabava com o mau cheiro do corpo, surgindo aí o termo cecê, nos anos 50.  Isso graças ao poder anti-séptico e bactericida do produto, enfatizado nas campanhas publicitárias do produto, especialmente nos países subdesenvolvidos… E viva um banho e a viagem pela internet onde busquei as informações para ilustrar a minha memória…

Ed Wilson

Só ontem a noite num email da Marília Barbosa soube da morte de Ed Wilson. Muitos talvez não se lembrem – ou conheceram – o irmão do Renato (Renato e Seus Blue Caps). Mas eu tenho não sei se uma deformação ou excesso de informação de uma época da música brasileira que muitos ao ouvir fazem “arghs” e “irghs”, chamam de brega, e quem aceita dá um up grade dizendo que é Jovem Guarda. É por isso que lembro dele muito bem… Acho que conversamos não mais do que meia dúzia de vezes para reportagens na revista Amiga. Gente, eu era repórter da Revista Amiga !!! Nada a esconder, só me orgulhar… E Ed sempre foi gentil e manso… E esta delicadeza está na obra que deixou como “Chuva de prata”, gravada por Gal Costa, “Pede a ela”, por Tim Maia e “Agüenta coração”, por José de Augusto, tema de abertura da novela “Barriga de aluguel”, da TV Globo.

Ed fazia parte das Jovens Tardes de Domingo e partiu aos 62 anos. Não importa de quê, foi no seu tempo e eu fui buscar no youtube um pouco dele nesse link…

http://www.youtube.com/watch?v=sboMpq-OVOA

Os guardados…

Arrumando a casa no final de uma pequena obra, abri o depósito onde guardo objetos raramente usados, coisas que não consigo jogar fora, e um pedaço esquecido de mim veio à tona. Além de alguns livros e mapas de viagens, encontrei a caixa com recortes das reportagens que fiz no jornal O Globo – preciso digerir melhor prá escrever – , outra com enfeites de Natal que não uso pois perdi a graça da festa, uma pasta com contas antigas de luz e telefone, e atrás disso tudo surgiram as malas. São 13 no total, entre malas enormes, sacos de viagem e pequenas com rodinhas, todas praticamente com vida própria, CPF, RG e outras identificações… Ainda tenho o saco de viagem que trouxe parte da minha mudança dos Estados Unidos. É tão grande que quando começou a rodar na esteira do aeroporto do Galeão percebi o olhar de dois fiscais da alfândega que, no meu primeiro movimento pra retirar da esteira, gentilmente fizeram o serviço. E é claro que vasculharam tudo e só encontraram livros, agulhas de tricô novelos de lã – eu fiz muitos suéteres em Nova York! -, travesseiros, lençóis etc etc… Nem me lembrava mais da mala jumbo em que trouxe a mudança de Lisboa, revi as malas vermelhas médias para as temporadas maiores em São Paulo, e as pequenas azuis com a logo Nestlé usadas em viagens curtas.

Enquanto limpava as malas relembrando o que carregavam em suas épocas, dos figurinos tamanho 38 para o atual 46, os sapatos para os pés que eram 36 e ½ e ganharam 1 ponto depois do período americano, os quilos a mais, cabelos brancos e rugas, me espantei com a capacidade que ainda tenho de guardar coisas prá nada. Eu já me libertei de tantas tralhas, mas algumas insistem em se manter, fazer teias, juntar poeira, armazenando o nada… As malas estão vazias, eu é que carrego lembranças e dou trela à memória.

A Guta Mattos, que foi toda poderosa diretora de elenco da TV Globo nos anos 70, uma vez me disse que uma mudança representa praticamente um incêndio na vida de uma pessoa… E eu sei disso. Mudei mais de 30 vezes em 30 anos e se tivesse a certeza que nunca mais sairia daqui, faria uma fogueira de forma figurativa, exorcizando o passado, queimando grande parte das malas. Sei que nada adiantaria, as historias continuam comigo. As malas limpas e revisitadas já seguiram para o depósito, sabe lá quando voltarão à vida.

Na urna…

Há 3 anos transferi meu titulo de eleitor para Santa Cruz Cabrália, Bahia, local que escolhi prá viver. Muito diferente do que estar no olho do furacão de uma grande capital como Rio e São Paulo. Não tenho conhecimento nem relação com o passado  dos candidatos nem sei quem é melhor prá Bahia pois Cabrália parece que é um mundo à parte… Apesar do valor histórico – foi nestas terras que Cabral aportou e onde foi rezada a primeira missa – Cabrália tem menos de 30 mil habitantes, é uma cidade pobre com serviços básicos precários e não vejo uma atitude política legal com a região. Por isso só me restou pedir indicação a amigos…

Votei na escola pública de Vila de Santo André e não há urna eletrônica capaz de agilizar a votação, pois o número de analfabetos e analfabetos funcionais é enorme… Somado a isto, como o povoado tem o turismo como base de sua economia, os mais de 100 hóspedes do Resort Costa Brasilis que precisavam justificar seu voto também foram para o mesmo local, gerando uma grande zona. A fila acabou se tornando um programa social. Como todos se conhecem, até a dificuldade demonstrada na demora de apertar os botões na urna ou assinar com o polegar era assunto público e os turistas olhavam espantados a informalidade. Na verdade uma invasão de privacidade, fato mais do que normal num lugar onde todos sabem tudo de todos… Na fila ninguém brigou, nem xingou nem fez valer a sua opinião… Um jeito bom de exercer a democracia. Neste Brasil com tantas carências, meu olhar está mais voltado para o entorno de casa do que para o Planalto. O que me deixa estarrecida é a falta de médico no posto de saúde, a deficiência na educação, a onda descontrolada do crack, a pouca oportunidade para os jovens… São coisas muito simples que na Constituição constam como direito de todos mas que ainda não chegaram aqui…

Fim do dia…

Praia de Jacumã, Vila de Santo André, BahiaTenho duas vidas em uma. Às vezes sou rural, outras urbana. Como o Clark Kent se transforma em Super Homem, num click passo de 110 para 220V  ao cruzar de balsa o rio João de Tiba. Enquanto rural permaneço conectada com a cidade, mesmo que falando ao telefone andando descalça pelo quintal e vendo que as abelhas expulsaram os periquitos da casa do cupim e pensando como resolver este problema… Até agosto de 2004 eu jamais tinha morado em uma casa no campo ou na praia. Hoje tenho dois em um, uma casa na praia e em região rural, com isso tenho que estar atenta ao efeito da maresia nos aparelhos eletro eletrônicos, o cuidado com as formigas que já devoraram todos os componentes de uma impressora /copiadora /scanner /fax e a constatação que apesar da poda há pouco mais de 2 meses as árvores estão repletas de novos galhos… Enquanto escrevo passa um macaquinho num galho perto da varanda do escritório e na seqüência sei que Xico e Bella vão latir…

As luzes do jardim acenderam com a fotocélula sincronizado com as estrelas no céu. Tem um silencio que só é cortado pelas cigarras anunciando mais sol amanhã, vem o cheiro da seiva da almescla escorrendo pelo tronco da arvore que foi machucado e uma lua minguante … Contrastando com este cenário bucólico meu notebook permanece urbano e não para de receber emails buscando informações sobre a chegada do Paul McCartney, dados do show, credenciamento de imprensa, como comprar camarotes ou fazer uma entrevista em Londres…E eu não tenho o que dizer ! Só sei que o mundo ficou muito pequeno e tudo tão perto… Como hoje é sexta-feira só me resta tomar um whisky e ouvir “And I Love Her”, “Eleanor Rigby”, “Something”, “Let It Be”, “Hey Jude”, “Blackbird” e “Yesterday” …

(Foto : Cláudia Schembri – Praia de Jacumã, Vila de Santo André, Bahia)

Saudações Corinthianas !

Foto : Fábio Rubinato

Quando eu era criança meu irmão tinha um livro (ou era um caderno?) com um pequeno escudo do Corinthians na capa e uma figurinha com a imagem do goleiro Gilmar. Apesar de ser uma foto pequena, me lembro de outras imagens do Gilmar como um homem elegante, muito alto e com gestos educados. Não sei que volta deu a minha mente que fundiu a imagem do goleiro com a do meu irmão. Victor também era assim, um homem bonito, elegante e de porte altivo. E foram estas lembranças que me inspiraram a escrever um texto de amor ao clube belamente apresentado pela mestre de cerimônias Fabíola Andrade na festa de 100 anos do Corinthians na última segunda feira no Palácio do Anhembi, SP. Por um dia fui corinthiana apaixonada, mesmo sendo Flamengo até morrer, e percebi que o amor está no contexto, nas entrelinhas da vida e não nas nossas convicções… Parte do meu amor de um dia pelo Corinthians segue no texto abaixo, e não escondo que me emocionei como as 2.700 pessoas que lá estavam quando a bandeira cobriu a platéia e o hino foi executado.

“ Esta noite foi preparada especialmente para vocês, loucos de amor pelo Corinthians, em sua honra e glória. Vocês, nação alvi negra, uma massa que em uníssono entoa gritos de vitória e jura jamais abandonar o seu time…Fiéis apaixonados posso até dizer que delirantes, alucinados, se transformam no povo mais feliz quando abraçados em suas cores e cobertos por sua bandeira…Vocês que sem importar a idade, trazem no coração um sentimento tão profundo como se tivessem vivido cada minuto desses 100 anos. Vocês que fazem com que todas as cores se resumam ao preto e o branco e mesmo assim o mundo continue colorido, são a razão desta celebração.

Em tempo : a festa foi um sucesso, mesmo com a chuva. Primeira Dama Da. Marisa Letícia, Governador Goldman, Prefeito Kassab, jogadores de hoje e de ontem, dirigentes, conselheiros, torcedores anônimos e famosos… Uma noite para celebrar 100 anos de vida desta nação…

De volta à NYC

Metrô NYC, 1982

Um filme é sempre uma viagem. Não importa o gênero, do desenho animado ao triller, aventura, romântico, suspense, cada um viaja com seus pensamentos na historia dos outros e faz um filme paralelo. Ontem eu vi um filme dentro de outro filme de forma contundente. “Hannah e suas irmãs”, Woody Allen, 1986 com Mia Farrow,  Carrie Fischer, Michael Caine e Dianne West me levou de volta ao início dos anos 80 quando morei em New York. Voltei a andar pelas ruas então sujas do antigo East Village, caminhei estalando folhas secas e vermelhas de outono no Central Park, vi a neve da janela do pequeno apartamento de Larchmont, fumei nos restaurantes e ouvi Frank Sinatra cantando “Bewitched, bothered and bewildered and I, lost my heart, but wath of it ?” achando o máximo entender o significado das palavras, pois cheguei a Big Apple analfabeta em inglês. Senti o cheiro que sai dos respiradores do metrô nas calçadas e do peru na mesa do jantar de Thanksgiving; senti o vento frio das esquinas e a brisa morna das tardes de verão que pareciam ser eternas…

Andei pela minha vida passados 30 anos com sonhos e planos. Vesti um paletó de lã com xadrez miúdo, me enrolei num cachecol enorme, calcei botas de neve e usei um chapéu de lã. Sentei num café no alto da Grand Central Station de onde podia ver o movimento de milhares de pessoas no fim do dia. Fiquei ali repetindo o programa das sextas-feiras, o meu presente em forma de uma ou duas taças de vinho branco californiano enquanto beliscava  uma raclete de queijo com pedacinhos de pão. As cenas corriam e as minhas historias vinham num filme paralelo. Usei meias de nylon com sandálias no verão, fui à praia de trem, tomei sol na hora do almoço comendo um “tuna fish salad” ou um autentico cachorro quente sentada nas escadarias da igreja de Saint Patrick na 5ª. avenida.  Assisti Cats na Broadway pela nonagésima vez, revi na TV o filme que conta a historia do Neil Diamond, ouvi Willie Nelson na vitrola, entrei em lojas de departamentos para procurar alguma roupa bacana em sales e carreguei as compras do supermercado em sacos de papel pardo.

E revi a cena de fechar as 4 malas para voltar ao Brasil embrulhando entre lençóis e roupas, um aparelho de jantar coreano, uma chaleira que apitava e um telefone sem fio. As vezes perco um pouco do tempo pensando qual seria o caminho se não tivesse voltado em 1984.  Por um triz, por pouco, muito pouco não me tornei americana. Quase aprendi um dos hinos patrióticos… Não lembro quais eram meus planos para o futuro, a não ser o óbvio de ter uma vida feliz ! E o melhor foi chegar até aqui e ainda lembrar nesta vida de outra vida…