Na balsa

Transporte democrático, a balsa une vila de Sto Andre, onde moro, à civilização, Sta Cruz Cabralia, Bahia. Os turistas comuns e sofisticados, políticos, nativos, comerciantes, o Bispo que vai para a festa de Santo Antonio, enfim, todos só tem esse caminho para chegar do outro lado do rio João de Tiba e conhecer o paraíso.
Voltando pra casa depois de passar a manhã em downtown para compras e ir ao correio ver o que me esperava na caixa postal – o correio não chega na minha casa! – encontro 8 garotas que fazem parte do Projeto Filhos da Terra que o Resort Costa Brasilis lançou no início de junho. Fui ao lançamento e me emocionei… Quem vive por aqui sabe como são raras as oportunidades para os jovens… É um projeto inédito em hotelaria. Foram selecionados 20 estudantes do último ano do segundo grau da unica escola de rede pública de Cabrália que atende o ensino fundamental, para estudarem hotelaria durante 1 ano. O Costa Brasilis, ou melhor, o grupo GJP, é hoje a escola destes jovens de segunda a sexta-feira, das 13 às 18hs. Estão na primeira fase com aulas teóricas, depois passarão por todos os setores do hotel. Pela primeira vez está sendo formada mão de obra tão necessaria para uma localidade cuja opção de futuro é o turismo. O mercado de trabalho no sul da Bahia é escasso e o apelo à prostituição e às drogas é enorme… E estes estão tendo uma chance de terem formação profissional ainda recebendo tratamento médico e odontológico, almoço e lanche, vale transporte, uniforme e R$ 300,00 como ajuda de custo. Não é maravilhoso ?

Eu acredito no crescimento da minha vila assim, onde todos fazem um pouco. Estou me oferecendo para ser voluntária e ensinar aos jovens a criar seu próprio blog. Na foto com as meninas está o Clodoaldo, um dos professores.

Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

O canto na noite

Foto : Cláudia SchembriComecei a fechar as 9 janelas e portas da parte debaixo da casa numa cerimônia que se repete a cada noite antes de ir domir, quando ouvi o canto de uma cigarra. Continuei a fazer o movimento e com alguma criatividade procuro uma forma que não se torne automático. Cada vez quero deixar a vida rolando sem repetir os mesmos gestos. Às vezes escolho primeiro as portas que dão para o jardim e a varanda, deixando por ultimo as janelas do escritório; outras inicio nas pequenas janelas do banheiro e do corredor e depois venho fechando as demais. Não importa qual a ordem, vou fazendo um revezamento descontrolado, enquanto faço uma pequena prece de agradecimento pelo dia que está terminando. Sei que pode parecer maluquice, mas as janelas e portas de minha casa, assim como as da minha alma, passam o dia abertas para um jardim lindo, cercado de tantas árvores que algumas pessoas já disseram que do portão nem conseguem ver a casa… A minha alma também é assim. Faço tanto estardalhaço, falo mais que a boca e muitas vezes não revelo a minha essência.
No ritual silencioso de fechar portas e janelas agradeço a delicia de viver junto à natureza, mas esta noite, especialmente, a concentração estava dificil. A todo instante era interrompida pela cigarra que a princípio pensei estar em algum lugar do jardim próximo a casa, mas com tudo fechado constatei que estava dentro de casa. Tentei encontrar, mas desisti. Fui dormir deixando a cigarra provavelmente na sala, no vão da escada…
Gritou, ou como alguns preferem dizer de forma poética, cantou a noite toda… Fechei a porta, coloquei o travesseiro na cabeça para abafar o som e só consegui dormir ao lembrar que o seu cantar significava sol no dia seguinte e há alguns dias chovia. Acordei afastando os móveis até me deparar com a cigarra morta. Explodiu com seu canto. É o que acontece com esses insetos…
Vendo aquela cena não resisti a criar um paralelo com a vida das cantoras líricas e imaginei Maria Callas no final de uma récita implodindo no palco do Scala de Milão… Primeiro a garganta se dilataria e estourariam os fios que uniam as sofisticadas pérolas japonesas de um colar parecido com o que Marilyn Monroe ganhou de seu marido Joe di Maggio. Uma a uma as legítimas pérolas cultivadas saiam rolando pelo chão, caindo palco abaixo como um pequeno filete de água, ganhando o tapete fino da platéia e caindo no fosso dos músicos, para incredulidade do maestro… Depois, o pulmão cada vez mais inchado, fazia explodir o sutiã, começando aí a desestruturação do vestido de seda grená. O tecido ia esgarçando até rasgar, ao mesmo tempo que rompia a carne entre os seios de onde pulava o coração exausto de cantar… A platéia de pé aplaudia a cena inusitada e pedia um bis impossível…Uma cena tragicômica, mas era o que passava em minha cabeça enquanto olhava a cigarra morta embaixo do sofá…
Gritar até morrer, tem muita gente que faz isso. Acho que tentei algumas vezes, sem resultado. Chorei tanto, gritei tanto, mas só fiquei muito rouca e no desespero como num estalo fez-se a lucidez. Acabei preferindo o silencio, a reflexão, e na serenidade sou levada à viagens inesquecíveis dentro de mim. Viajo mesmo, mais longe do que qualquer psicotropico ou ácido sonham chegar. Já me senti voando, o corpo expandindo, braços e pernas crescendo como se fosse aquele personagem João Pé de Feijão que numa corrida atravessa as nuvens e chega ao céu… Eu também subo montanhas, atravesso rios, cruzo mares e do alto vejo tudo tão pequeno e peço : Senhor, livre me de qualquer sentimento de medo e abra as janelas de minha alma e do meu coração para que eu possa sentir a verdade da vida nos minúsculos seres, como as pequena cigarras. (Foto : Cláudia Schembri)

Querida Edna

Bem que os mapas feitos pela Graça Medeiros e por minha irmã avisavam que este seria um bom tempo para reflexões, inspirações e escrita… Nem precisavam olhar o trânsito planetário, bastavam sugerir que abrisse a caixa de cartas e certamente eu entraria neste movimento … 28 anos depois releio as 13 cartas que você me escreveu nos mais de 2 anos que morei em Nova York e isso provoca um turbilhão de saudades junto com a revisão da minha trajetória… Creio que nenhum psicanalista ou qualquer outro terapeuta teria a capacidade de tocar tão fundo na minha essência como estas cartas. Posso rever uma parte da minha vida através dos seus comentários, do que eu representava para você e como as minhas atitudes eram percebidas pelos amigos… E quem falava de mim era você, Edna Savaget, a pessoa que eu queria ser igualzinha quando fosse grande…
Você falava da minha coragem em “largar tudo e ir morar em Nova York sem falar inglês e com um filho embaixo do braço”, mas nunca me senti assim… Hoje acredito que o que me impulsionava era um desapego do que se chama de matéria e querer mesmo ser feliz na base do custe o que custar… Começar de novo, dar a volta por cima, todas estas frases entram como luva na minha história… Usei as armas que tinha, e sempre que fugi acabei me encontrando…
A sua amorosidade em me chamar de Leóca (só você me chamava assim !!) e seu louvor ao meu destemor, hoje me tocam profundamente… Nas folhas de papel cor de rosa (algumas de seda…) datilografadas em espaço 1 trazem também suas reflexões. Sou grata por ter partilhado comigo os momentos profundos e delicados da sua vida… Você também me trazia o que era o Brasil no início dos anos 80, com sua clara posição política, injuriada com os maus tratos que davam à cultura e vamos combinar que pouco mudou… Sou grata também por todas as noticias que enviava dos meios “artísticos lítero sociais”, seu humor e verve sempre foram implacáveis… E entre os agradecimentos,não tenho como retribuir todas as velas que você acendeu por mim junto a Escrava Anastácia na Igreja de São Benedito pedindo para tudo dar certo… E não é que deu? …
Não consigo lembrar a sua partida em 1988, sumiu da minha memória este detalhe… Talvez por você sempre estar perto com as cartas que me acompanham há tantos anos guardadas com o maior amor…Agradeço a sua amizade e a oportunidade de você ter estado em minha vida. Já sou grande, mas ainda não sou uma Edna Savaget…
Um beijo grande desta sua amiga
Leóca
Em tempo :ainda não encontrei a sua foto, mas fica a da capa do seu livro…

Bethânia e Erasmo

Bem que eu tentei, mas passava da meia noite e meus olhos insistiam em fechar… Um imenso mau humor se apossa de mim quando tenho sono, às vezes também quando tenho fome, e por mais que eu quisesse assistir a homenagem do Sérgio Groisman ao Erasmo no programa Altas Horas, tombei exausta… Conheci Erasmo antes que o Roberto. Eu devia ter uns 13 ou 14 anos quando numa noite ele apareceu em minha casa na Rua da Cascata 42 na Tijuca, acompanhado do Ary Tell (alguém se lembra dele, o grande dançarino do programa Hoje é Dia de Rock ???) . Claro, não passou por lá para me levar “prá night” , mas Erasmo e Ary foram dar uma “namorada” na minha irmã e em uma amiga dela que era do Recife. Papai jamais admitiria deixar as duas donzelas sozinhas na sala acompanhadas de 2 rapazes desconhecidos, cabeludos, jaqueta de couro e botinhas…Fui alçada à condição de guardiã da virgindade alheia, mas fiquei recostada num sofazinho onde acabei dormindo e nada vi prá contar no dia seguinte. Melhor assim, mas durante anos fiquei lembrando daquele rapaz, que logo depois ficou famoso, até um dia reencontrá-lo nos bastidores do programa Roberto Carlos na TV Tupi. Com um jeito amigo e carinhoso ele abriu a porta do camarim do Rei propiciando o meu ensaio de uma primeira entrevista. Naquele dia nasceu a repórter que em menos de um ano depois escreveria na revista Sétimo Céu até se tornar a pioneira na revista Amiga. E nesta seqüência tive o privilégio de fazer a reportagem onde Erasmo apresentava Narinha aos fãs, com fotos do Nilton Ricardo, inclusive uma delas está no livro “Minha fama de mau” lançado o ano passado. Em todos estes anos estivemos juntos dezenas de vezes, em jantares informais, shows e por aí vai…
E se não fosse por nada mais, só pela parceria do Erasmo com o Roberto eu não queria perder este programa. Não assisti na madrugada, revejo graças ao democrático Youtube http://www.youtube.com/watch?v=xEtsDOE60VQ o emocionante encontro dos dois em “As canções que você fez prá mim” , e na maravilhosa interpretação de “Sentado a beira do Caminho” http://www.youtube.com/watch?v=oFO6-mWMVFY&feature=related. Por sinal esta última música é meu trevo de quatro folhas, minhas borboletas no estômago, meu xodó, pois é parte do titulo do filme cujo argumento eu escrevi, “Beira do Caminho”, com direção do Breno Silveira que será lançado em 2011… E enquanto o youtube foi abaixando as imagens neste clima de ver o programa que merecia reexibição em horário nobre, abrindo o meu baú encontro esta foto deliciosa que foi feita em 1985 no camarim do Canecão, na estréia do show que Bethania fez comemorando 20 anos de carreira. Esta foto está comigo há 25 anos e confesso que não sei por que não passei para a imprensa, pois esta era uma das minhas funções… Será que há 25 anos causaria um grande escândalo este beijo ? Acho que não, apenas uma tolice, um esquecimento, uma oportunidade para ter assunto tantos anos depois…

Bethânia e Erasmo há 25 anos

Vila de Santo Andre da Bahia

Domingo feliz !! Obrigado Senhor, gracias pela vida …
Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Não fui às touradas

Minha querida Anna Ramalho – http://www.annaramalho.com –  lembra o Rock in Rio em Madri nos comentários sobre uma entrevista do Roberto Medina ao canal E (TV espanhola). Fico vendo e ouvindo de longe, sem entrar nas minucias pois a vida um dia nos leva para outros caminhos e aquilo que por muitos anos foi nossa vida se torna uma lembrança. E uma lembrança tão boa, que nem quero ver para não dar uma saudade que de tão insuportavel pode doer.
Mas ouço com o coraçao feliz a possibilidade do Rock in Rio retornar ao Brasil, ou melhor, ao Rio de Janeiro, seu ninho. As conversas estão adiantadas e creio que irá fazer um bem enorme à cidade e aos brasileiros. Torço de coração, mesmo que se torne para mim apenas uma imagem transmitida pela TV e que possa ver na boa sombra da minha casa na Bahia. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Ó Minas Gerais

No pátio da Igreja de São Francisco-Ouro Preto, Minas Gerais

Cada vez que volto a Minas Gerais, intuitivamente procuro minhas raízes. Nasci mineira por acaso. Mas acredito que o acaso não existe e saio em busca de referencias, algo que me faça lembrar um primeiro ano de vida. Quem sabe um perfume ou um tempero saindo de uma panela fumegante num fogão de lenha me levem ao passado e me tragam alguma revelação… De todas estas viagens, ontem encontrei algo mais próximo. Não nas lembranças de infância, mas no que ouvi na maturidade. Visitando Ouro Preto, em dia de céu azul e um vento frio, em frente ao pátio da Igreja de São Francisco, olhando as casinhas nas ruas estreitas cobertas por paralelepípedos subindo e descendo ladeiras, por alguns momentos imaginei como seria alcançar aquele lugar há mais de 300 anos.
Era algum dia entre 1693 e 1698 quando um bandeirante de uma expedição comandada por Duarte Lopes lá chegou, encontrou uma pepita de ouro e tudo começou… Como desde criança gosto de aventuras, o assunto entradas, bandeiras e moções foram meus temas favoritos nas aulas de historia. Tantos séculos depois ao ver tanta historia naquela cidade, lembrei da busca dos sonhos destes homens e particularmente de um sonho meu. Quando eu morava em Nova York houve um tempo em que estava na duvida se lá ficaria prá sempre ou se retornaria ao Brasil, foi quando recebi uma carta do meu pai que foi definitiva. Papai escrevia muito bem. Fazia analogias, buscava citações de bons autores, e nesta carta lembrava Fernão Dias Paes Leme e o sonho de encontrar esmeraldas. De forma poética e delicada contava a saga do bandeirante que acabou morrendo no meio da mata com um lote de pedras verdes acreditando ter achado esmeraldas, mas eram simples turmalinas. E foi por não me perder nos sonhos que voltei para o Brasil e descobri que as minhas esmeraldas estavam bem mais perto… Andando por Ouro Preto, visitando o Museu da Inconfidência – que museu lindo e tão bem montado !– ,subindo e descendo ladeiras, vou costurando a minha memória de mineira, pelos caminhos que surgirem, com as lembranças que vierem e me sentindo um pouco bandeirante…

Ouro Preto, Minas Gerais

Mais suave

A cada dia consolido mais o pensamento de que pouco esforço é que faz a grande mudança. Não falo em vagabundagem, mas em deixar correr um pouco solto, dominar menos a vida e dar chance ao acaso. Entra as coisas que aprendi morando no sul da Bahia, todas relevantes, como a pílula para matar formigas, as luas e as marés, a praga do pardal e do “escargot”, o fogo rápido da resina da Almescla, a chegada do vento sudoeste, a saúva que explode a bundinha, a preferida no momento é sobre a profusão de moscas na Quaresma… A “lenda” faz sentido, pois neste período se come mais peixe e, por conseqüência, estes horríveis seres voadores fazem a festa… Com a raquete que eletrocuta insetos saí armada para afastar esta peste da mesa de refeições. Comecei fazendo um trabalho hercúleo, parecia a Maria Esther Bueno em sua fase áurea… Para melhor compreensão, correlacionando com os novos tempos, quase que uma Martina Navratilova. Movimentos firmes e audazes, suor brotando na testa, um mau humor solene e nenhuma mosca fritando na minha rede. Diante do ridículo, resolvi acreditar na lei do pouco esforço e grande carga na intenção. Calada, quase flutuando com a raquetinha na mão, assim me aproximava das moscas que não resistiam ao meu estado zen e fui incinerando uma a uma. Algumas pipocavam e explodiam no chão, outras tostavam nas garras… Parece loucura, mas este é o exemplo real de uma nova forma de encarar a vida. O que os monges tibetanos, budistas e todos os que estudam no silencio da mente falam, é exatamente por aí. Um exercício diário de menos controle, mais leveza para quem foi um trator a vida inteira….É obvio que quando necessário saio atropelando, tenho uma agenda a cumprir, pagar as contas no dia certo e trabalhos a entregar com prazo. Se disser que busco o equilíbrio seria usar o chavão impróprio para quem conviveu controlando tudo nos últimos 40 anos. Mas quando se consegue matar moscas na paz, ver a lua crescente se transformando em cheia, ouvir um sabiá cantando sozinho num galho, identificar um cardume de tainhas dançando na subida do rio, é um passo para deixar a vida mais suave…

O que você vai ser quando crescer

Nos últimos dias uma pergunta dá cambalhotas, piruetas e se debate na minha mente nos momentos mais inesperados… Invasiva como a música que um dia a gente acorda e não consegue se livrar, a pergunta que se debate em mim é infantil e fora do meu contexto. Ora bolas, a esta altura da vida uma pergunta assim não tem propósito: “O que você vai ser quando crescer?” A voz insiste na resposta que eu nunca soube dar, talvez seja esta a razão que ainda em tom infantil, tolamente batuca em mim como se viesse pedir satisfação do meu caminho… Não me lembro de quando criança ter algum plano sobre o futuro, nem mesmo ao chegar na adolescência .. Mas tinha que se ter respostas para perguntas de adultos, e esta era uma recorrente. Sem muita convicção, até certa idade eu dizia que queria ser médica. Depois aeromoça para voar – óbvio!! – e houve um tempo que quis ser mecânica. Cheguei até a entrar na escola técnica para estudar máquinas e motores (imagine!!!), mas isso durou apenas 1 ano…. Ficaram as fotos e um velho recorte de matéria publicada no Jornal do Brasil da “bela moça mecânica” . Papai era uma figura especial… Tinha radar fino para as tendências e interesses dos filhos… e nos encaminhava na medida de seus conhecimentos. Por ser curiosa, falante, perguntadora e sonhar com viagens, papai achou que o turismo poderia ser uma boa saída e um dia me levou ao coquetel de inauguração de uma agência de viagens… Olhei os cartazes de cidades com castelos, pistas de esqui, praias e jardins floridos, mas não me convenceram a aceitar o emprego de recepcionista naquele cenário. Dentro desse jeito sensível em detectar aptidões, papai sugeriu que, além do cursinho de preparação para psicologia que eu fazia à noite, eu fizesse um curso básico de publicidade na ABP – Associação Brasileira de Propaganda, em plena Av.Rio Branco, centro do Rio, dois dias na semana às 8 da manhã . E ali eu comecei a gostar da conversa, bem mais do que a do cursinho de vestibular, exceto pelas aulas de português/literatura do Prof. Abel, depois reconhecido como poeta e compositor Abel Silva. Gostei da idéia de fazer alguma coisa no centro da cidade e em poucos dias já estava com um jornal nas mãos procurando um emprego de recepcionista em algum escritório quando, pimba! Lá estava o anúncio “procura-se recepcionista para agência de publicidade…”. Uma longa fila, mais de 30 candidatas e fui escolhida por estar estudando publicidade. Papai tinha razão… A MPM Propaganda era uma agência com escritórios em Porto Alegre e São Paulo e seu nome veio da inicial dos sócios Mafuz, Petrônio e Macedo. Foi considerada a maior agencia nos anos 70, primeiro lugar no ranking por uma década e meia, ou seja, eu começava em lugar nobre… Nem tanto, pois das 9 às 18hs eu ficava sentada num cubículo com uma janelinha gradeada que dava para o hall dos elevadores de onde eu controlava a entrada das pessoas com autonomia de apertar um botão e abrir a porta. Nos intervalos, com uma máquina de escrever emprestada e um livro “aprenda datilografia”, com a mão esquerda corria nas teclas a s d f g enquanto a esquerda buscava ç l k j h …. Seis meses maravilhada com a vida de gente grande. O salário aparecia no final do mês na conta bancária e os objetos de pequenos desejos eram saciados. Na função de abre e fecha porta, “bom dia e boa tarde senhores”, conhecendo a agencia de baixo prá cima e quase profissional na datilografia, fui surpreendida com o convite para ser secretária do gerente de publicidade das revistas técnicas da Editora Abril… O trabalho na agencia me dera um upgrade moral, mas confesso que não tinha experiência para ser secretária como manda o figurino… E foi esta a primeira de muitas vezes em que resolvi dizer SIM ao desconhecido… Em novembro de 1968, um mês antes da assinatura do AI 5 (13 de dezembro) passei a ser secretária de publicidade em uma editora, e daí para descobrir a redação foi um pulo. A psicologia ficou para anos depois no divã do analista… Creio que foi aí que comecei a perceber o que seria quando crescesse, e mesmo assim a revelação profissional veio aos pedacinhos… Nada nunca é muito certo ou definitivo. Até hoje penso que algo pode surgir e me levar para outros caminhos, como a mudança de um vento em meio de um temporal no mar – ou numa calmaria – e assim como Cabral que chegou por estas terras por acaso, ainda me seja revelada alguma coisa a mais para eu ser quando crescer….

Parece mas não é

Quanta coisa parece mas não é, como esta foto com um sol refletindo no rio que a primeira vista pode se ver como uma lua cheia. A vida ensina que nem sempre as pessoas são o que aparentam e quando constato isso ainda me decepciono. Personas somos o que aparentamos. Pessoas somos o que somos. E é de aceitar o mundo assim com sol parecendo ser lua. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry