Arquivo da categoria: Jornalismo

A primeira assessoria não se esquece

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Acordo com a notícia da morte de Helio Eichbauer. Conversamos poucas vezes, e ele nunca soube o quanto é relembrado quando vejo minha trajetória. Assim escrevi no primeiro capítulo do livro “A Verdade é a Melhor Notícia”…

“1985

Um calor insuportável naquele mês de março, só quem mora no Rio de Janeiro conhece o prenúncio da chuva. Ainda eram raros os carros populares com ar condicionado e do ventilador do meu Chevette vermelho saía um bafo quente que era melhor deixar desligado. Eram quase 3 horas da tarde quando estacionei na Catedral Metropolitana e fui caminhando até o prédio do Teatro BNH, uma construção impactante. Um marco da arquitetura da década de 70, com forma piramidal e fachadas decoradas com esculturas dos artistas Carybé e Pedro Correia de Araújo.
Na entrada me recompus do suor, olhei o rosto no espelho, ajeitei o cabelo, passei batom e fui até o porteiro saber se Elda Priami havia chegado. Ele não tinha visto a companheira de redação do jornal O Globo que havia me convidado para fazer um free lance na “divulgação” de uma peça que estrearia naquele teatro. Quando Elda fez o convite sabia que meu forte não era “divulgação”. Eu tinha percorrido algumas redações como repórter, colunista, editora e diretora de revistas. Ela fora sócia da produtora Norma Thiré e nesse período, promoveram grandes espetáculos. Eu voltara recentemente dos Estados Unidos onde vivi por quase 3 anos e estava atirando para todos os lados: retomara meu trabalho no jornal O Globo como colaboradora em reportagens/críticas de shows, pesquisava e escrevia para a minissérie “Caso Verdade” da TV Globo e pela manhã era uma das redatoras do programa “Cidinha Livre”, na Rádio Tupi. Trabalho não me assustava.  Elda era contratada do jornal onde prestava serviço em horário integral escrevendo nos cadernos de moda e comportamento. Com essa agenda, seu tempo para trabalho extra era mais restrito e daí o convite.

Em uma época em que não havia celular e por perto nenhum orelhão (telefone público) disponível para saber o que acontecera, fiquei esperando no lobby do teatro admirando os belos painéis entalhados em madeira. O local estava fresco, o que era um alento. Mais de meia hora se passara até que surgiu um rapaz alto, magro, moreno que perguntou se eu procurava alguém. Falei sobre a Elda e ele se apresentou como José Alberto Muchaki, produtor da peça, e me levou ao escritório onde encontrei Renata Sorrah. Eu conhecia Renata há muito tempo, pois no início da minha vida profissional fui repórter da revista Amiga e depois, quando casada com Régis Cardoso, diretor de novelas da Globo, convivia com grande parte do elenco da emissora.

Renata falava com vibração sobre “Grande e Pequeno”, a peça que estava produzindo. Fui anotando tudo, como repórter, e saí do teatro com o compromisso de que Elda telefonaria para acertar detalhes. No entanto à noite Elda me telefonou com a mudança de planos. Constatara que estava com trabalho demais no jornal e não poderia assumir mais um compromisso. No mesmo instante telefonei para Renata agradecendo o convite e dizendo que, por falta de experiência para conduzir sozinha o trabalho, estava deixando o campo livre. Mas não esperava ouvir a resposta que mudou minha vida:

– Nós queremos você exatamente por nunca ter feito esse trabalho …

Renata Sorrah e eu estreávamos juntas. Este foi o primeiro espetáculo que Renata produziu e o primeiro que divulguei. Por não saber como começar o trabalho resolvi me aprofundar no assunto. Li a peça várias vezes, todo material sobre a montagem na Alemanha e fui conhecer quem era Botho Strauss, o autor que pela primeira era encenado no país. Não havia Google para ajudar na pesquisa e entrevistei o diretor Celso Nunes, o cenógrafo Hélio Eichbauer, o iluminador Aurélio de Simoni, a figurinista Kalma Murtinho, além dos mais de 10 atores entre eles José Abreu e Ada Chaseliov. Assisti muitos ensaios, passei noites acompanhando a montagem, e por fim escrevi um release com 14 páginas! Era tão grande que encadernei para as folhas não se perderem. Os releases que eu recebia tinham no máximo duas páginas e pouco conteúdo. Eu queria que os jornalistas percebessem que aquele era um espetáculo especial. Eu não era uma “divulgadora”, mas uma jornalista nesta função.

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Renata Sorrah e o elenco da peça Grande e Pequeno : Abrahão Farc, Ada Chaseliov, Paulo Villaça, Catalina Bonaki, Telmo Faria, Joyce de Oliveira, Selma Egrei e Roberto Lopes

O release começava com a trajetória de Lott, personagem encenada por Renata Sorrah, uma mulher atormentada que visitava casas e apartamentos. As páginas seguintes eram dedicadas ao perfil do autor, diretor, cenógrafo, iluminador, figurinista e elenco. Era um compêndio. Para a divulgação eu só conhecia Flavio Marinho, do Globo; Macksen Luiz, do Jornal do Brasil e Arnaldo Branco, do Dia, nas funções de críticos/colunistas de teatro. Valia o capricho na apresentação.

Para que esta estreia fosse estrondosa, resolvi ampliar a linha de atuação e não ficar apenas na editoria de teatro. Fui a um jornaleiro super completo no centro do Rio que vendia publicações de todo o país e comprei um exemplar de cada. Nascia ali meu primeiro mailing. Através do telefone conferi cada endereço e enviei o que era praticamente um “book” aos editores não apenas do Rio mas também de São Paulo e principais capitais. O impacto com o material de qualidade – as fotos eram lindas! – foi atraindo a mídia e fui pautando reportagens do caderno de moda à editoria de negócios onde Sorrah surgia como investidora da sua arte.”

Resultado: Renata Sorrah foi um sucesso de público e de crítica, arrebatou diversos prêmios naquele ano e continuou em sua bem-sucedida carreira de atriz e produtora…. De minha parte, o que seria um “free lancer” se transformou em meu nicho perfeito na carreira de jornalista. Obrigada Helio Eichbauer, você faz parte do meu currículo…

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Foto Ricardo Moraes – Folhapress

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A pensão

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Veio a lembrança um tempo em que fui rebelde e saí do Rio atrás de um namorado em São Paulo. Devia ter uns 19 anos e em férias na casa de uma tia me encantei por um fotografo com mais de 40. Era irresistível! Cabeça raspada, jaqueta de couro e olhos azuis, elementos que bastavam para cometer a loucura de largar o vestibular, o emprego de secretária na Editora Abril, juntar as economias e tentar a vida em sampa… Claro que tinha tudo prá não dar certo, e não deu. Coração partido, sem querer voltar, recusei o convite para ficar na casa da tia, mas aceitei as indicações para ser “diarista” em confecções. Eu vestia tamanho 40 e, naquele tempo, as confecções contratavam moças para provar as roupas antes de irem para a produção. Era um tipo de manequim com vida e eu passava o dia entre as confecções nas proximidades da rua José Paulino para no final do mês ter um salário para o sustento básico, que incluía um quarto em uma pensão nas Perdizes. Pode parecer um relato deprê, mas neste período me diverti muito, fiz amigos incríveis, frequentei o templo da bossa nova em SP, o João Sebastião Bar onde ouvi muita música boa e vi muita gente começando.

Mas o assunto não é esse, na verdade eu queria contar sobre a pensão para moças onde morei. Era digna de um filme de Almodovar. Um casarão antigo e bem conservado, com 10 quartos, distribuídos entre dois andares e o quintal. Todos os quartos tinham o básico: cama, armário, mesa e cadeira. Os que ficavam do lado de fora, tinham o luxo de uma pia. O meu era assim. A proprietária era uma senhora um pouco gorda, passando dos 70 anos, cabelos brancos com reflexos azulados sempre arrumados, rosto bonito e rosado, baton vermelho, unhas pintadas e vestia blusas (ou camisolas? quem sabe peignoir ?) bordadas com rendas e babados. Ficava recostada em travesseiros, coberta por lençóis e colchas impecáveis, só aparecia o tronco. Ela não tinha as pernas.

Daquele local privilegiado tinha o controle total do seu negócio. Da janela próxima a cama via o quintal, da porta grande a escada, o movimento da sala do café, e de uma outra porta acompanhava a cozinha. Reinava absoluta. As portas do quarto só fechavam algumas horas por dia para a sua higiene. A cada entrada ou saída das hospedes era um cumprimento, uma palavra simpática, um sorriso. Um ambiente no maior alto astral sob o comando daquela mulher cujo passado não ousei perguntar. Não lembro se tinha família, mas era cercada por funcionárias muito dedicadas.

Quando decidi voltar para o Rio, três meses depois, ao me despedir fui recebida com um largo sorriso, uma xícara de chá com uma fatia de bolo, e uma profusão de afeto em forma de frases otimistas, como a importância de buscar o melhor para o meu caminho, da maravilha de ser jovem com tanto tempo para arriscar. Ainda não se falava em auto estima e auto ajuda, mas neste dia aprendi o que era resiliência…E seu sorriso, sua imagem, sua alegria até hoje me servem de exemplo.

De outras vidas…

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Aprendi em casa a fazer e conservar amigos. Meus pais não se contentaram com os 5 filhos. Ajudaram a criar outros três, receberam muitos amigos e parentes em longas temporadas, numa época que onde 7 comiam, 10 comiam também!  Ensinaram que fazer e cuidar de amigos é um exercício, e aprendi muito bem a lição. Quando alguém desaparece vou atrás e, se não encontro, é sinal que partiu para outra dimensão… As redes sociais têm sido generosas com reencontros e, entre tantos amigos, hoje me permito reverenciar uma que, como disse sua mãe, “esta é uma amizade que veio de outras vidas”. Ela é um exemplo de determinação e generosidade.

Aos 38 anos, empresária bem-sucedida, formada em duas faculdades, pós-graduada, completando um MBA, teve um AVC. Como sequela, ficou com palidez no nervo ótico, o olho onde através da câmera via o mundo e fotografava por puro deleite. Mas superar foi fácil. Aprendeu a fotografar com o olho esquerdo, desfez a sociedade na farmácia de homeopatia em BH, e atendendo a sugestão da neurologista mudou a vida antes que a vida mudasse ainda mais o seu caminho.

Quando estava iniciando um novo ciclo, veio trabalhar comigo na Secretaria de Cultura de Cabrália e alguns meses depois descobriu que estava com esclerose múltipla. Decidiu rejeitar os tratamentos convencionais que, segundo ela, eram muito invasivos e comprometiam o paciente e, por ser de uma família que se dedica à saúde e a educação, com suporte de alguns médicos estudiosos e pesquisadores, fez um mix de tratamento envolvendo a alopatia, antroposofia, homeopatia, acrescido de espiritualidade e muita fé. Alguns médicos ainda não entendem como conseguiu superar a doença auto imunine, mas o fato é que hoje ela é fotógrafa, atua como voluntária em projetos sociais e, quando o mar está tranquilo, desliza com seu stand up paddle pelas águas de Vila de Santo André… Salve Claudia Schembri em seu aniversário… Amiga, irmã, que todo dia me mostra que a fé move montanhas e é possível começar de novo !

O sapato verde

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Quando a Tai me deu a bola pequena para um novo exercício de pilates, viajei no tempo. A pequena e pesada bola era exatamente da cor daquele sapato que jamais esqueci. Foi amor à primeira vista: olhei na vitrine e me apaixonei. Nunca tinha visto e desejado tanto um sapato verde de salto alto.  Talvez não combinasse com as roupas, mas aquele verde com um mix de tons petróleo e turquesa era especial, sedutor, chiquíssimo. A delicada pelica tinha um brilho perolado, o que deixava o sapato ainda pouco adequado a muitos trajes, mas nada importava.  Eu tinha a impressão de que a cor era uma experiência do fabricante, nenhum outro fora confeccionado, assim como o Fiat Uva que tive. Quando comprei, a concessionária avisou que apenas dois veículos vieram com esta cor inusitada, um teste da fábrica. Os dois foram emplacados juntos, mas o outro foi destruído dias depois em um acidente, e com isso os amigos sabiam por onde eu andava, afinal era a única a conduzir um Fiat Fanta Uva perolado entre o Rio e São Paulo. Fomos felizes por muitos anos, até fizemos um Rock in Rio !

Refletindo enquanto escrevo, percebo que cores e combinações pouco usuais fazem parte da minha vida. Tive o cabelo cor de cenoura, mas neste quesito me superei, foram muitas mudanças. Pintei uma parede de laranja uniforme da Comlurb por indicação do feng shui; na adolescência pedi e tive um quarto com moveis pintados de cinza com paredes e cortinas cor de rosa inspirado em algum filme de Hollywood e hoje imagino que os próximos toldos de minha casa podem ser de tecido acquablock estampado com samambaias. Sou uma pessoa de gostos estranhos, se correr solto, com o passar do tempo posso virar uma fashionista como a Iris Apfel. Mas voltando ao sapato verde perolado que veio à memória através  da bola de pilates, me lembrei também que não o vi envelhecer nem furar a sola de tanto dançar em festas, mas dei de presente à uma prima querida que também se apaixonara por ele ao ver em meus pés. Ela queria tanto quanto eu o quis e achei que merecia compartilhar. E aí me deparei com uma enorme coincidência sincrônica da vida…. Senti a ausência desta prima no facebook e, investigando, descobri que sofrera um AVC e estava internada. Ela não merecia…Tão brilhante, tão plena, tão cheia de desejos e projetos… Está em uma casa de repouso, cercada de amigos que não sabem o que fazer para amenizar a situação e eu daqui da Bahia ainda tenho sonhos em forma de sapatos coloridos e desejo muito que ela saiba que se não aguentamos mais o salto, vamos de havaianas !

Começo a pensar que as redes sociais têm me trazido mais notícias de obituários e doenças, do que casamentos e nascimentos de filhos…. Na verdade, só nascimento de netos e bisnetos de amigos.

Preciso de mais sapatos verdes, carros coloridos, alegria no coração…. Preciso acreditar que ainda há muito para se rir, celebrar, comemorar, nem que sejam as rugas e os quilos a mais…. Preciso ser menos rigorosa quando me pego falando demais, detalhando casos que podem não interessar aos outros, mas lembrar boas histórias é viver de novo…. Preciso estar atenta aos amigos, e o Facebook é um ótimo medidor de frequência mesmo que às vezes traga notícias tristes, partidas que são sempre chegadas a outro plano…. E preciso lembrar de agradecer sempre por esta vida…

As amigas

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Enquanto adiantava a costura esperando o almoço – estou fazendo 50 coelhinhos para encher de guloseimas e dar às crianças na Páscoa – abri uma “stella” e lembrei da minha mãe.  Entre as suas características, eu admirava a capacidade de fazer e manter amigos.  Ela agregava, cuidava e era enorme o caderninho onde anotava a data de aniversário de todos que passavam por sua casa.  Minha mãe tinha amigas de muitos anos que chamávamos de “tias” mesmo sem qualquer parentesco. Uma delas, tia Maria, fora casada com um primo da mamãe, morava em Curitiba. Nascida em família rica e influente, escreveram seu nome na palma da mão do Cristo Redentor quando o monumento foi construído. Era o que falavam e na minha fantasia infantil era o máximo da nobreza.  Tia Maria era mais velha, tinha cabelos brancos, era alta, porte elegante, rosto jovem e sorridente. Aquele jeito que só tem quem nasceu em berço de ouro mas sabe o que é simplicidade sem pobreza. Uma ou duas vezes por ano passava uma temporada em nossa casa em São Paulo, e a primeira providencia ao chegar era encomendar ao armazém um engradado de cerveja. Isso mesmo. Um engradado de madeira repleto de garrafas casco escuro. Tia Maria fazia no tricô maravilhosas roupinhas de bebê. Assim como ela, eram casaquinhos, mantinhas, sapatinhos delicados e de extremo bom gosto, com os frufrus suficientes para não sufocar as crianças. Ela ensinou minha mãe a tricotar com esta qualidade, e às 10 da manhã, todos os dias, eu já podia vê-las sentadas na sala, agulhas e lãs a postos, tendo ao lado um copo de cerveja estupidamente gelada. Conversavam e riam. Jamais perguntei se não erravam os pontos com a cerveja, mas eu não tinha noção do teor alcoólico e tomar cerveja não era pecado.

Lembro de minha mãe e suas amigas Maria, Ladyr, Lygia, Glicínia e sinto falta das minhas amigas de vida. Hoje tomamos cerveja via face, Skype e whatsapp… Às vezes tenho o prazer de receber em casa e tiro a barriga da miséria. É bom ter por perto quem conhece minha história, e não apenas reconhece numa foto nas redes sociais. Amigas é um bem precioso, com ou sem cerveja. Amigas ouvem as tristezas, perdoam as ausências, entendem as escolhas, elogiam até o corte tosco do cabelo. Amigas riem dos ridículos, apoiam as perdas, acolhem os erros, perdoam o excesso de peso, enchem a alma de alegria… Uma “stella” como brinde às amigas de vida e volto à costura…

O Vestido Verde

MURIEL

A tarde estava deliciosa, amigos reunidos num almoço de aniversário, à mesa delicias e conversas divertidas…. Aos nossos pés um visual maravilhoso da natureza exuberante de Santo André, mar ao fundo se perdendo no infinito, céu azul pontuado por nuvens branquinhas… Me sentia como se fosse um drone admirando a vila do alto, voando livre no novo vestido verde. Praticamente uma libélula. Como na canção infantil da Terezinha de Jesus, “de uma queda fui ao chão”… Tropecei num degrau e fui… Acudiram muitos cavalheiros e cavalheiras para estancar o sangue escorrendo do nariz. Era muito sangue. Na ridícula posição de quatro, o braço direito fortalecido pelo Pilates sustentou o corpo, os óculos voaram, o pratinho de sobremesa na mão esquerda espatifou-se na pedra São Tomé, e eu só pensava em não sujar ou rasgar o vestido de seda verde que ganhei no Natal.

Enquanto me acudiam – “traz um pano… gelo… tylenol” – eu estancava o sangue com as mãos lembrando a fatídica frase da minha mãe que se tornou lenda na família “rasgou o vestido? ” Saíamos para uma festa com nossas melhores roupas e ao descer a escada escorreguei com o sapato novo, sola em couro fino sem ranhuras, e de degrau a degrau cheguei ao chão. Ao ouvir o barulho mamãe correu para ver se tinha algum estrago no vestido de organdi com rendas e fitas. Foi assim que me senti, ainda tonta ao ser amparada por amigos e atendida por uma médica doutora de muitos títulos, mas que no passado teve experiência em pronto socorro. Deitada no sofá, com muito gelo no nariz, ri da cena ridícula. Tudo podia ser pior: quebrar o nariz ou os dentes, talvez os óculos ou o prato pudessem cortar o rosto… Mas foi apenas um pequeno talho no nariz e o joelho ralado. Nem hematomas e o melhor de tudo : o vestido está intacto. Nenhuma gota de sangue, nenhum arranhão… Como o de organdi com rendas e fitas.

Foto : Cláudia Schembri

O futuro será um espetáculo !

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Esta semana, numa conversa, alguém me lembrou que a vida é finita. Sei, mas não sei. Ou esqueço que sei. Quanto tempo de vida ativa você ainda acha que tem? Me perguntam insistindo para que eu me lembre de quanto já caminhei. Respondo que creio ter todo o tempo do mundo. Talvez um dia, um mês, um ano, uma década…  No momento estou na campanha rumo aos 70 com muita saúde. Me lembro do susto quando subi na balança ao voltar de Portugal em 2004: 75 quilos cravados. Como assim? Nos dois anos anteriores deixei de fumar e entrei na menopausa, isso me tirou dos 62 quilos. Somaram as delicias da gastronomia lusa, as viagens pela França, Espanha, começando um grande estrago! Depois vieram a vida boa na Bahia, tempos com mais stress trabalhando em SP, e quando percebi, cheguei aonde estou. Não revelo meu peso nem sob tortura, mas decidi chegar aos 70, ou próximo disso, nos 70 anos…. Vou até aonde achar que estou me sentindo bem, sem cara de doente nem corpo caidaço…

Tenho refletido sobre qual foi o momento em que deixei de me olhar por fora e foquei no interior… Deus, os mestres, os santos, os gurus, os anjos, não podem gostar de alguém que esquece o externo, a saúde, o bem estar com o corpo. Posso culpar as confortáveis calças comprida com elástico na cintura, os vestidos largos, a praia deserta onde quase ninguém me vê, a cerveja gelada no calor, o Aperol Spritz com amigos, as deliciosas massas italianas, as caipivodkas aos domingos, as barras de chocolate Talento assistindo filme, cocadas da Lelê, e por aí vai… Na realidade o que me fez engordar foi o conjunto da obra. Voltar ao corpinho do passado é querer me agarrar à fonte da juventude. Sei que hoje sou bem melhor, deve haver um meio termo. E é o equilíbrio o que mais busco nestes tempos. O mesmo sentimento quando subo na prancha do Pilates. No início parecia impossível, hoje consigo surfar em terra firme…

Há 8 dias comecei o processo do olho no entorno sem perder o conteúdo. Comprei uma balança, doei 31 latas de cerveja e dois litros de refrigerante que estavam na geladeira. Não tomo refrigerante há muito tempo, mas eu comprei para atender amigos nas férias. A lata do delicioso doce de leite de Minas está guardada para um momento especial, uma pequena colher como prêmio quando estiver próxima ao objetivo. Pilates 4 vezes por semana, caminhadas. Nada de carboidrato, só proteína, ovos, legumes e verduras… Zero açúcar e farinha branca. Vale o azeite e o ghee (manteiga clarificada) feito em casa. Água, muita água… Preces e bons pensamentos, na certeza que o futuro será um espetáculo !

…um beijo da Bahia

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Ontem pela manhã ao ler a crônica do Artur Xexéo as lágrimas salgaram o meu café com leite. Fui engolindo o choro e o pão, numa tristeza profunda com o meu Rio de Janeiro. Hoje a cena se repetiu ao ler sobre a morte do Franco Paulino.  Choro com saudades de um Rio e de pessoas que não verei mais. Choro com saudades de mim, do tempo em que descobri o mundo ao sair da Tijuca para encontrar em um anuncio de jornal um emprego de recepcionista na MPM na Av. Presidente Vargas. Foi ali que a vida se revelou. Na imensidão de informações com a qual eu era bombardeada todos os dias. Eu querida saber tudo, ver tudo, entender tudo, mesmo que o começo fosse em uma pequena mesa de recepção. Foi lá que conheci Franco Paulino que me apresentou a Capinam, o poeta compositor que também era redator de publicidade. Foi através dele que fiquei próxima de Genaro Mendes de Moraes, Luiz Duboc, Oswaldo Sargentelli Filho, os seus meninos da criação da MPM… Foi neste tempo que o Leblon ficou mais perto com os fins de semana passados na casa da Marisa e do Claudio Kuck; foi quando aprendi a admirar as fotos do Zeca Araujo; a dançar de me acabar nas noites na Estudantina e na Banda Portugal; de conhecer Anibal Machado e devorar apaixonadamente “Cadernos de João”; de assistir ao musical “Hair” e ver todo mundo nu em cena. Tudo isso era mais que uma montanha russa cheia de loopings na cabeça de uma garota de 19 anos que queria ser psicóloga e no meio do caminho descobriu a publicidade. Foi uma dose muito forte de liberdade. Choro por sentir que nada mais do que possa acontecer em minha vida chegará próximo daquele sentimento de deslumbramento frente a um mundo novo. Fui feliz e sabia… Saudades Franco, saudades Rio de Janeiro… Mando um beijo da Bahia…

Comunicação

Telefone de baquelite década de 40 - 1

Do nada ele morreu. Nada indicava que teria um fim súbito na noite de segunda-feira. Ainda esperei algumas horas, sem resultado.  Tentei colocar o chip num aparelho reserva, mas foi rejeitado. Foram quase 24 horas sem celular onde me vi em desespero, refém da tecnologia. Enquanto atravessava a balsa, rumo a Porto Seguro em busca de entendimento sobre o acontecido, fui lembrando que na minha historia nem sempre a comunicação foi fácil. Quando criança, morando em São Paulo, não tínhamos telefone. Se a notícia fosse urgente, apelava-se para recados na casa do vizinho ou no escritório do papai durante a semana. Mas nada era muito urgente, o mundo tinha mais tempo. Não lembro como, eu devia ter uns 7 anos quando papai comprou um telefone. Era um aparelho preto de baquelite que ganhou lugar de destaque. Foi instalado em uma estante embaixo da escada, ao lado de uma poltrona onde ficávamos horas esperando a telefonista completar a ligação interurbana para o Rio quando avisávamos das viagens de férias ou buscávamos notícias da vovó.

Quando mudamos para o Rio fomos para uma casa sem telefone. Era muito caro. Usávamos o do bar na esquina ou as vizinhas Maura e Da. Nanci davam recados. Morávamos na Tijuca em uma rua sem saída que no final tinha uma cascata e uma escadaria que dava acesso ao Morro da Formiga. A maioria dos moradores do morro preferia utilizar a rua paralela por onde os carros seguiam até o ponto mais alto, já os que tinham casas próximas a escada, subiam pela rua da minha casa. Assim, além dos vizinhos moradores, tínhamos os vizinhos passantes. O sapateiro, o senhor que consertava os cabos de panela, a senhora que lavava roupa, o eletricista e encanador, e neste sobe desce na rua arborizada fizemos muitos amigos. Certo dia um dos passantes parou para tomar folego na frente de casa e encontrou papai no portão. Puxou conversa e desabafou sobre o aborrecimento de ter um telefone. O seu número era o único no morro e estava cansado de chamar pessoas, anotar recados, principalmente de madrugada quando ligavam do hospital ou da delegacia. Estava arrependido de ter comprado e naquela madrugada ficou tão zangado que cortou o fio e colocou o aparelho na gaveta. Era o que faltava para papai fazer uma oferta e comprar o numero em prestações. Durante alguns meses recebemos chamados em horas improprias e tínhamos que repetir a ladainha que o telefone não estava mais no morro. Aos poucos os telefonemas para os moradores da escadaria foram rareando e o 586827, apesar de ter mudado de prefixo ao longo da vida, nos acompanhou enquanto houve papai e mamãe.

Naquele tempo não havia tanta pressa nas noticias, mas vivendo da comunicação me viciei em saber tudo o que acontece no mundo. Do tiroteio na Rocinha ao terremoto no México. Da bomba em Londres, às loucuras na Corea, aos fugitivos de Miamar, os escândalos em Brasilia tudo está na minha mira. Alguns temas mais profundamente, outros superficialmente… Conheço pessoas que estão se afastando do noticiário. Algumas já nem vêem mais os jornais na TV nem tão pouco na internet. Vivem num outro mundo, o que aqui neste povoado na Bahia se torna fácil.  Eu não conseguiria viver apenas com as noticias locais. Sou irremediavelmente viciada nas informações em grande escala. Como não saber o que rola neste planeta ?

Com isso é possível entender o meu pânico quando o smartphone sem qualquer aviso morreu. E hoje, minha alegria ao ser avisada pelo técnico que ele vai se salvar. Como viver sem ele ? Na verdade já eramos um só.

A visita

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Estava entretida costurando bandeirinhas para enfeitar o verão quando o celular avisou que tinha mensagem. Era uma amiga que não vejo há séculos, está de férias em Arraial e com dia chuvoso saiu de carro sem destino. Chegou em Cabrália, pegou a balsa e no meio da travessia mandou o whatsapp “se você estiver de bobeira passo aí para dar um beijo”. Sempre estou de bobeira para receber beijo e, enquanto enviava as informações de como chegar até minha casa e prendia os cães, lembrei do seu irmão, um grande amor que passou no meu caminho e foi embora muito cedo… Um amor que durou pouco, mas nem por isso foi raso. Um dos homens mais brilhantes que conheci, com senso de humor refinado, jeito de intelectual desprotegido, ideias aos borbotões, grande figura. Certa noite, no final de um jantar,  ele confessou estar com a vida confusa demais para entrar num relacionamento mais sério. Dei o maior vexame ao chorar na mesa do restaurante. Como eu ia perder alguém tão legal ?

Ah! o amor, “o ridículo da vida” como escreveu Herivelto Martins, fez desmoronar uma mulher que chegava aos 40 anos, com muitas experiências e ainda com sonhos de ter um bom companheiro… Ficaram as boas memórias, o  livro de fotos do Salvador Salgado que ganhei no aniversário, a trilha sonora no CD da Bethânia cantando Roberto Carlos que ouvimos muito e um par de brincos de lápis-lazuli comprados no Chile.  Não fui ao Chile com ele, mas comprei quando lá estive, pensando que iria de gostar de ver nas minhas orelhas.

Tudo isso passou na minha cabeça “como se fosse um filme”, diria o Faustão, em menos de 10 minutos, tempo de a balsa chegar em Santo André e ela tocar a campainha do portão. Entrou pelo jardim tão linda, a maturidade está lhe fazendo bem, acompanhada de um casal de amigos. Dia chuvoso, muitas árvores no jardim, sinto que a casa fica triste, mas se alegrou com as visitas. Sentamos na varanda e, como sempre, conto a minha saga de 13 anos longe da “civilização” e o quanto faço e produzo, que meus dias nunca são iguais e nem monótonos. Nas entrelinhas sempre estou dizendo “fiquem tranquilos, estou feliz nesta reencadernação“. Trocamos pensamentos de vida, fui mostrar o mar, puderam perceber como tudo pode ser mais lindo com o sol e, meia hora depois, já nas despedidas, me perguntam se não sentia solidão. Devem ter achado que o tempo cinza, temperatura mais fria, morando sozinha com dois cães pudesse bater uma vontade de ir embora.

Mas cada dia tenho mais certeza que não poderia estar em lugar melhor para ver meus cabelos embranquecerem. Encaro sem subterfúgios os prazeres e as mazelas que aparecem…. Posso ser o que quero, bem boazinha e bem mazinha, é só escolher em que sintonia vou navegar…. Tenho uma casa que me permite o privilégio de receber amigos o ano inteiro. Conversas que entram e saem, como as que virão no início de outubro, quando cinco pessoas que não se conhecem, mas circulam nas mesmas áreas, vão se tornar amigas aqui…. Tenho certeza…. Nada combinado, tudo por conta do universo que sabe o quanto eu gosto de juntar pessoas e dá uma mãozinha.  E aí rolam altos papos, um bom peixe na mesa grande do jardim e a alegria do momento. Depois os visitantes partem,  mais alguns dias ficam silenciosos, até que chegam outros amigos, novos assuntos…

Estou conectada 24 horas para atender um cliente de são paulo que pode nem precisar de mim em um dia, mas quando chama estou tão perto como se fosse na mesa ao lado no seu escritório… Nas horas de folga me entretenho com costuras, leio o que aparece no papel e jornais na tela do Ipad, sem compromisso faço clipping de assuntos que podem interessar aos amigos, invento projetos, sou cidadã aonde moro, estudo redes sociais, refaço o site de turismo da vila, me alongo no pilates, ando na praia, assisto novelas e, sinceramente, não tenho tempo para pensar em solidão. Como postou no facebook minha prima Livia Garcia-Roza “A solidão pode ser cheia de encantos para certas pessoas. Me incluo entre elas.”