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É quase Natal

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Por mais que tenha me esforçado não consegui entrar no clima natalino nos últimos 11 anos… Dezembro chega cansado, prenúncio de pesar, não pelo ano que acaba, mas pela perda que inevitavelmente é lembrada na antevéspera de Natal. Nas tentativas de querer rever o quanto eu era feliz neste período, passei este ano planejando colocar algumas luzes no jardim. Se não consigo me alegrar por dentro, quem sabe uma festa por fora…

Comprei algumas luzes, um brilho discreto. Escolhi a árvore e fiquei acompanhando o esmero com que o Guinho, rapaz que me ajuda no jardim, distribuindo a pequena cascata branca pelos galhos do flamboyant que eu salvei de uma obra, replantei e este ano floriu pela primeira vez. Agora meu flamboyant tem flores vermelhas e luzes brancas. Mal começou a escurecer acendi. Ficou muito lindo. Pedi a Claudia para fotografar. Vou comprar mais lâmpadas e iluminar outras árvores. Ao menos no meu jardim é natal.

Foto : Cláudia Schembri

Sonhos

Saí da cama correndo com o telefone tocando. Me atirei pela escada e o dia começou num susto. A ligação caiu, quem seria àquela hora? Não tive tempo de fazer preguiça na cama, lavar o rosto, trocar a roupa, meditar… E já que estava em pé, ainda de camisola abri as 9 portas e janelas da casa,  dei comida para os cachorros e fiquei olhando o céu azul enquanto esperava a chaleira apitar avisando que a água estava quente para passar o café. E a manhã foi correndo. O pão chegou  quentinho da padaria, os passarinhos comeram a casca do mamão, o céu acinzentou e quando voltei ao quarto muita coisa ja tinha acontecido…Ao abrir a porta percebi que ainda havia um cheiro de noite no ar, como se os sonhos ainda estivessem adormecidos nos travesseiros. Escancarei a janela e sacudi bem os travesseiros para que os sonhos voassem antes da chuva, quem sabe pegariam carona nas asas de algum passarinho, ou o embalo numa rajada de vento e fossem prá bem longe, naquele local do infinito onde se transformam em boas realidades. Espero um milagre.

 

Racismo

Lendo comentários e reportagens sobre o Dia da Consciência Negra, lembrei-me do George Goodman. O conheci nos anos 80 quando morei em Nova York. Ele é negro, jornalista e tinha vindo uma vez ao Rio no carnaval a convite do editor Alfredo Machado, num grupo de estrangeiros formadores de opinião. Uma das coisas que o chamou atenção foi que os brasileiros negros que conheceu eram jogadores de futebol ou cantores… Comentou se não haviam juízes, médicos, artistas plásticos, atores, bailarinos e outros tantos profissionais negros como os seus amigos.

Ele morava quase na entrada do Harlem, num apartamento de frente ao Central Park e de onde saíamos para vernissages, encontros literários, estreias de teatro e dança, jantares em restaurantes sempre divertidos e diferenciados. Comidas de todos os lugares do mundo, amigos inteligentes, otimos papos, eram quase todos negros e ninguém questionou – ou comentou – a minha brancura. Talvez por que o meu inglês até hoje tem um acento um pouco latino.

Nesta amizade tão próxima, estava eu indo ao Rio passar 15 dias quando perguntei se não queria ir comigo e contrapôs com a questão : “o que vão dizer ao verem você chegar com um negro ?”

Respondi que a principio alguém diria “a Léa enlouqueceu”. Mas quando comentassem que era americano amenizaria a conversa com um  “até que é simpático” e quando soubessem que era jornalista do The New York Times diriam que era louro de olhos azuis.

E até hoje quando falam em racismo lembro este fato. Acho que este é o tamanho do preconceito no país.

Fim do domingo

Creio que fui uma das primeiras a entrevistar Marcos Paulo chegando ao Rio de Janeiro para estrear como ator na novela “Pigmalião 70”, escrita por  Vicente Sesso e dirigida por Régis Cardoso… Era um tempo de poucas revistas sobre celebridades, raros espaço nos jornais para falar sobre a TV que ainda era considerada um sub produto… Eu não imaginava aonde a TV ia chegar, creio que nem ele vislumbrava mais de 40 anos na mesma emissora, mas uma coisa tínhamos em comum : acreditávamos que aquilo era um bom começo para ambos. Eu tinha muito pouca experiência e Marcos Paulo talvez soubesse mais de atuação do que eu de jornalismo… Apesar de bem garoto, moreno bonito, cabelos cacheados, ele já tinha conhecimento profissional na relação com a família.  Sesso era seu pai adotivo e convivia com o teatro em casa… Chegava como uma revelação num tempo em que toda a TV Globo se resumia ao prédio na Rua Von Martius onde ficavam os estúdios de gravação, jornalismo, auditório e havia um terraço com uma esplendorosa vista para o verde das matas que cobriam o bairro do Jardim Botânico, onde se podia fazer entrevistas com os artistas e foi ali que conversamos longamente. Lembro de seu jeito muito tímido, fala mansa e muito educado… Esta novela marcou sua estreia e também do autor Vicente Sesso, trazendo para o horário das 7 o humor, charme e leveza que acabou se tornando uma marca. Muito triste encerrar um domingo com gosto de perda de alguém que foi referencia em sua vida…Ele podia não saber, mas eu nunca esqueci que começamos juntos…

 

 

Devaneio

Ela acordou tomada por uma gripe horrorosa. Foi à farmácia pediu uma injeção, comprou os últimos lançamentos em antigripais, pastilhas para a garganta e se guardou.  Passaram os dias e a gripe foi se incorporando como um ser com vida própria que saía das entranhas banhada de uma tristeza profunda. Tossia forte, doía o corpo. Suava cansaço. Um vizinho veio visitar e trouxe folhas tenras de pitanga, dizia que a infusão com limão e gengibre fazia um chá milagroso. A empregada fez uma beberagem com folhas de qui ioiô canela, pitanga, transagem, manga, laranja cravo, manjericão, maria preta e colônia, e a casa perfumou-se como um defumador.  Uma amiga fez escalda pé com óleos delicados, mas nada diminuía a tosse e o mal estar. Às vezes tossia seco, outras molhado, mas era um ronco de desapontamento no peito.

Tal qual a dama das camélias, os dias foram passando e, entre um chá, um banho e um sol nas costas, foi seu corpo se amoldando ao conforto da poltrona. Não falava mais, só tossia. Esqueceu as palavras mesmo ficando horas a frente da TV assistindo dezenas de vezes cada detalhe da tempestade Sandy destruindo Nova York. Tremia de frio, como se as águas do Atlântico que banharam Manhattan saíssem pela tela da Tv e chegassem aos pés da poltrona… E com tanta umidade, o pulmão enfraquecia… Era tristeza, era saudade do que foi, era a constatação de que pouco valia o que estava lá fora. Até mesmo a sua Nova York estava sendo destruída, sinal dos tempos, como a velha premonição que lera em algum lugar de que o mar cobriria a cidade.  Tentou se animar com a vitoria de Obama, mas veio a nevasca e o frio interno aumentou. Pela TV via o mundo e não se via.

Foi cada vez tossindo mais e respirando menos. De tempos em tempos alguém chegava trazendo alguma fórmula mágica. Trouxeram medicamentos do exterior, espécies raras de cascas de árvores que diziam curar todos os males, mas ela foi se deixando levar pela tristeza. Um dia amanheceu e viu que tinha sol. Fechou a janela e pediu um milagre: voar prá bem longe. Um vendaval tomou conta do seu quarto, as telhas abriram para o céu e algo a impulsionou pra fora… Entrou num redemoinho, viu do alto a casa, as árvores, as montanhas, as pessoas acenando desesperadamente para ela que não tossia, não respirava e não suava mais… Apenas voava, transcendia e ria de tudo o que ficara…

Grávida

Aos 6 meses de gravidez nos jardins de Versailles, França – Foto: Paulo Martins

Acordei grávida, como há 40 anos, neste mesmo dia, em que não conseguia nem virar na cama. No dia anterior fechei as pernas. Pedi a Deus que meu filho não nascesse no dia que lembramos dos que partiram. Choveu e passamos o tempo, eu e Paulinho, jogando buraco e ouvindo musica. Antes de dormir fiz o ritual que se repetiu todas as noites do ultimo mês: tomei banho, escovei as unhas, conferi a depilação, lavei o cabelo e estava pronta para ir à maternidade a qualquer momento com a mala me esperando ao lado do berço.

Acordei grávida há 40 anos e continuava a chover. Comecei a sentir cólicas. Telefonei para o medico,  Dr. Carlos Montenegro, que pediu para marcar o tempo entre as contrações. Ainda eram esparsas. Conferi se nada faltava na mala. Olhei na agenda e li a anotação feita quando fui à primeira consulta: o bebê está pra chegar. Avisei a família e continuamos a jogar buraco e ouvir música. Almoçamos arroz salada bife e aipim… À tarde as contrações aumentaram e no início da noite o ginecologista pediu para irmos à Maternidade Escola em Laranjeiras. Lá estava o único aparelho de ultrassom do Rio de Janeiro. Avisei a família. Chovia, já estávamos saindo de casa quando Paulinho resolveu voltar para colocar um lenço de seda no pescoço.  Relembrando o fato não sei se ele queria estar bonito para receber o filho ou proteger a garganta do frio. Saímos da Urca com Paulinho dirigindo o seu fusquinha verde militar, limpador de para-brisa sem dar vazão à chuva e na maternidade o medico diagnostica: não tem dilatação. O friozinho do gel no mouse passando pela minha enorme barriga, vejo meu filho na tela e com carinho Montenegro sugere “se fosse minha mulher faria uma cesariana”. E fomos debaixo de chuva para Clinica São Marcelo no Leblon onde mamãe, papai e Victor já nos esperavam. Comigo seguia algo mais importante que o enxoval:  numa caixinha de isopor que fora conservada na geladeira a vacina caso meu filho nascesse com sangue RH positivo, já que o meu é negativo. E Bernardo nasceu quase no final do dia 3 também RH negativo. Nada vi, anestesiada completamente. Papai e Mamãe foram dormir felizes com mais um neto, Paulinho e Victor celebraram durante a madrugada no Alvaro´s do Leblon.

Acordei grávida e 40 anos se passaram.  Coincidentemente chove. Fiquei na cama virando de um lado para o outro lembrando este momento único na vida de uma mulher. Continuo mais grávida do que nunca, aguardando o que está pra vir. Outro dia meu filho ficou perplexo ao saber que não crio expectativas . Estou aberta para o que aparecer, vou com o pé no chão, quero ver, ouvir e fazer… Mas nada espero do outro, prefiro que me surpreenda do que me decepcione… Por outro lado, hoje gostaria muito de ir à algum lugar mágico onde tivesse um aparelho ultrassom para passar dentro de mim e diagnosticar que estou em tempo de uma cesariana e colocar pra fora novos rumos…  Sei que estou a caminho de gerar algo muito bom, mas jamais tão grande e precioso quanto meu filho há 40 anos.

Agradecimentos especiais a esta gravidez 40 anos passados :

Paulo Martins, parceiro na criação e amigo de sempre; Flávio Cavalcanti, o melhor patrão do mundo; papai com sua sabedoria, mamãe que tricotou os mais lindos lindos casaquinhos e sapatinhos,; tio Feliciano Alves, historiador que me ajudou na escolha do nome; Dr. Carlos Montenegro, obstetra e ginecologista; Victor, irmão companheiro ate nesta hora; Dr. Antonio M. de A. Barata, meu psicanalista neste período; Déa e Humberto Machado, irmã e cunhado que conseguiu a vacina super hiper caríssima e especial que doei à Maternidade escola; bisa Mercedes Martins e vovó Flora Nobre pela torcida na chegada de um Sousa Martins; Moreira e Maria Dulce, padrinhos; Selma, a empregada de casa com as refeições rápidas, aos amigos da TV Estúdio (Flavio Cavalcanti Jr, Gilda Muller, Ghiaroni, Mandarino, Antonio Bello, Solange Boecke, Liana Rocha, Eduardo Sidney…) pelo suporte em toda a gestação  e a todo o país que aplaudiu quando Flávio Cavalcanti entrou fumando charuto em seu programa na TV Tupi dois dias depois dando a noticia da chegada do Bernardo.

Querida Nanan

Com Ângela Gonzaga tínhamos 16/17 anos e ríamos da vida…

Fiquei feliz com o seu aviso no Facebook de uma foto em que eu estaria com sua mãe, Ângela, e outros amigos. Fui direto à fonte e não encontrei. No lugar estava uma foto linda da sua mãe enxugando você e o Daniel, um gostoso jeito de cuidadora, e apesar dos olhinhos assustados de vocês, talvez pela nudez frente à câmera, havia confiança. Com essa foto amanheceu o meu dia, mais de uma hora se passou e continuo com a esta imagem na retina. E pensei que talvez você gostasse de saber um pouco da minha amizade com sua mãe.

Conheci sua mãe no 1º ano do curso colegial do Instituto Coração de Jesus. Engraçado pois a escola de manhã tinha este nome e a noite chamava-se Veiga de Almeida, que depois se transformou em universidade. Tenho a impressão que Ângela não foi ao primeiro dia de aula, quando chegou a turma já se conhecia um pouco e lembro que a convidei para dividir a carteira comigo. Naquele tempo as carteiras escolares não eram individuais com apenas uma prancheta para colocar o caderno. Eram como escrivaninhas com um banco corrido aproximando os alunos.  E ficamos amigas de cara, talvez por no princípio da conversa termos descoberto que nascêramos no mesmo 3 de janeiro !

A amizade solidificou quando algumas semanas depois fui estudar na casa da sua mãe na rua Jaceguai 27. Ali começou uma nova vida, um presente que me acompanha até hoje. A consciência dos amigos, da construção coletiva, do pensamento conversado, discutido e alinhado, da liberdade e nenhum preconceito às diferenças. Lá podia se tudo, até fumar na frente dos pais. Era muita vanguarda para uma garota como eu que vinha de uma família “linha dura”. Uma casa de musica e acolhida, de boas palavras e sentimentos. A grandeza dos seus avós, Maria Ruth e Aloísio Porto Carrero de Miranda, a relação fraterna entre Ângela e sua irmã Regina, permeiam meus pensamentos… Generosamente compartilhavam filosofias, projetos, sonhos… Tudo isso na segunda parte dos anos 60 onde fervilhava a ditadura no país que vivia com um medo no ar… Muito se escreveu sobre isso, mas esta casa de número 27 foi meu ponto de partida para descobrir a literatura, o respeito, a política e também o amor, a paixão enlouquecedora na juventude, aquela que dá vontade de sair gritando e quando não dá certo chega a se pensar em cortar os pulsos. Não só eu descobri, como também vi sua mãe descobrir esta paixão. Lembro com detalhes, até com perfume e cores, o dia que sua mãe me confessou que estava apaixonada por seu pai. Ainda era segredo e fui privilegiada ao ouvir esta primeira declaração feita bem longe da casa dos seus avós, talvez para as paredes não ouvirem, mas no quarto da minha casa numa tarde de sábado.

São muitas historias… Você quer amizade mais plena do que aos 17/18 anos duas jovens terem juntas o prazer de ouvir Chico Buarque cantando numa reunião para pouco mais de 20 pessoas ? Aconteceu conosco, Roberto Abramson é testemunha… Sua mãe sempre muito afinada, eu sempre muito desafinada, e muitas vezes na saída do curso pré vestibular na cidade íamos pelas ruas  cantando “Quem te viu, quem te vê”…. Seu avô fez uma música, talvez você conheça, que sua mãe e sua tia cantavam em dueto nos “saraus” da Jaceguai…Se a memória não me falha, a letra é assim

“Se a noite se perdeu, e o céu se fez manhã, por que você não vem, se de tudo que era seu, você fez coisa vã, assim como a manhã, a manhã do amor…

Não, não deixe que o amanhã, se faça tarde e eu sem você chegar, se depois do por sol, você meu sol virá, na manhã do adeus, nos dois…”

Depois já casada com seu pai no apartamento na Tijuca cujos moveis tinham sido desenhados por ele, a chegada de vocês e um dia acabamos trabalhando juntas. Mas na verdade, desde que vi a foto no Facebook, queria lembrar à você do humor de sua mãe… Ela era sutil, inteligente, delicada e as vezes fazia piada com um olhar… Nós tínhamos piadinhas e termos só nossos, nos divertíamos muito, ríamos dos outros… E de nós mesmas !! Como você pode ver nesta foto…

E depois ela partiu e deixou que ficássemos pensando na sua alegria e tentando ser Ângela na vida… Generosa, tranquila, apaixonada ao ponto de não resistir a partida do seu pai e foi continuar a viver seu amor em outra esfera…21 anos é muito tempo, menos do que convivemos juntas, mas a lembrança é muito maior… Um beijo com carinho e por favor, mate a a minha curiosidade e coloque a foto no Facebook…

Memória Rock in Rio – Eleição 2000

Em 2004, no Rock in Rio Lisboa, com Roberto Medina e parte da equipe.

Procurando o titulo de eleitor e no clima de expectativa da eleição, a memória me levou a exatamente um dia igual a este, na cidade do Rio de Janeiro, há 12 anos. Eu fazia parte da equipe que preparava a volta do Rock in Rio em 2001, um mega e esperado evento. A cidade tinha como prefeito Luiz Paulo Conde, arquiteto e urbanista premiado, apoiador do festival tendo inclusive participado da coletiva de lançamento. A Artplan, empresa organizadora, era completamente PFL, partido do Conde e também do Rubem Medina, deputado federal e irmão do criador do festival, Roberto Medina. Conde se preparava para reeleição, mas tinha que enfrentar Cesar Maia. Importante voltar um pouco mais no tempo : Conde entrou na política em 1993 pelas mãos de Cesar ao ser nomeado Secretário de Urbanismo e o conheci nesta época. Eu também fazia parte da equipe, era Assessora de Eventos, cargo com estrutura de Secretaria.  Cesar admirava tanto Conde que em 1996 o elegeu seu substituto, pois visava o Governo do Estado na eleição de 98. Pouco depois Conde rompeu com Cesar e às vésperas da eleição de 2000 eram inimigos ferrenhos, cada um puxando para o seu lado.

Roberto Medina e todo o PFL davam como favas contadas a reeleição de Conde. Mas por questões de respeito e boas relações políticas, quando aconteceu o lançamento do festival, Medina pediu que eu levasse o projeto ao conhecimento de Cesar. E assim o fiz num encontro como sempre simpático, em seu escritório na Rua Voluntários da Pátria em Botafogo. Cesar ouviu atentamente, elogiou a ousadia, a determinação do empresário e se despediu  com a seguinte frase.

“Diga ao Medina para tratar você muito bem, pois dia 1º de janeiro eu serei prefeito desta cidade e você será de novo autoridade”.

Claro que não repeti a frase com a mesma ênfase. Faltando uns 15 dias para a eleição, almoçando com Medina, ouvi suas explicações de que não havia possibilidade de Cesar se eleger tal o número de intenções de votos que as pesquisas apontavam para Conde. Contestei, mas os números que ele apresentava eram quase que incontestáveis. Ele sabia muito bem do lado que eu estava e a forma discreta como conduzia esse assunto. Não coloquei adesivo no carro, não vesti camiseta, tudo para não criar constrangimento com a equipe da qual eu fazia parte e era totalmente Conde. No dia da eleição, estava em casa quando a televisão mostrou os primeiros resultados da vitória de Cesar e o rádio Nextel chamou. Do outro lado a frase lacônica de Medina acompanhada de boas risadas “não falo mais com você… você é uma bruxa…”

Claro que voltamos a nos falar e me coube ser a intermediária das conversas entre equipes Rock in Rio e da nova administração. Para fazer um festival daquele tamanho nos primeiros dias do ano seguinte era preciso uma relação muito firme com o gestor da cidade. O festival foi um sucesso. Optei por não voltar à política, aceitei a proposta de Medina em fazer parte da sua empresa de eventos, a Dream Factory, que nasceu após o Rock in Rio 2001. Boas lembranças, já posso ir votar.

Marta

Morando em Santa Cruz Cabrália há mais de 8 anos, esta é a primeira vez que acompanho uma campanha eleitoral municipal… Mesmo sendo eleitora nesta cidade, em 2204 e 2008 eu estava envolvida com projetos em São Paulo e só cheguei em cima da hora do voto. Desta vez acompanhei as definições dos candidatos, conversei com alguns e tive a certeza de que a minha escolha era a melhor para a cidade onde moro. Não escondo o motivo pelo qual voto na Marta, cheguei até a subir em palanque para falar sobre isso. Conheci Marta dia 21 de janeiro de 2005, não esqueço a data, era aniversário de uma amiga e estava indo ao aeroporto buscar outra amiga, quando vi a seguinte cena: a balsa em clima de verão com muitos carros e um grupo de mulheres conversando e entre elas, uma muito bem vestida, em cima de um salto bem alto. Em dado momento, outra mulher se aproxima e ouvi a bem vestida dizer:

“Não posso perdoar as mentiras que você falou sobre o meu marido na campanha, mas se você precisar de mim como Primeira Dama e Secretária de Ação Social, as portas do meu gabinete estão abertas como para qualquer outro cidadão”.

A bem vestida era a mulher do Prefeito recém-empossado. E era determinada. Antes de sair da balsa cheguei até ela, me apresentei e agradeci o lixo que voltara a ser retirado depois de um fim de ano sombrio quando o antigo gestor esquecera Vila de Santo André. E ali começou uma relação de respeito. Acompanhei seus projetos sociais, colaborei no que foi possível, tive uma passagem rápida como Secretária de Cultura, pois São Paulo me chamava para outros projetos, mas a amizade permaneceu.

Quando o marido saiu da prefeitura e ela deixou de ser autoridade e voltou a ser apenas mais uma moradora desta cidade, a nossa amizade se consolidou. Passaram alguns anos e um dia ouvi uma conversa de que ela seria candidata à Prefeita. Fui à sua casa tomar um café com bolo, como fazia vez por outra e ouvi a confirmação de que havia um desejo de entrar na disputa. Posso até dizer que Marta não se candidatou, mas foi levada a esta posição por milhares de pessoas que se sentiram abandonadas nesta última gestão. Não foi fácil dizer ao seu marido, um dos políticos mais experientes do sul da Bahia, que “namorava” a candidatura. E ele recebeu com respeito, apoiou e deixou-a livre para ir atrás do seu sonho.

Faltam poucos dias para a eleição e acredito que Marta é o melhor para Santa Cruz Cabrália. Nestes últimos dias os candidatos, incomodados com o seu sucesso, chegaram até a soltar um boato de que ela estava desistindo da candidatura. E desde quando esta mulher é de desistir de alguma coisa?

Já ouvi muitas vezes dizerem que para se conhecer uma pessoa é preciso lhe dar poder. Eu já a vi com poder, implantando projetos de melhoria, tratando às pessoas mais simples com dignidade, oferecendo oportunidades e com um olho voltado para o social.   Torço por Marta e por melhores dias para Cabrália …

Mulheres que enlouquecem

Desde que li no colegial a historia de Agripina, mãe de Nero, que foi amante do irmão Calígula, depois envenenou seu marido Gaius Crispus para ficar milionária e seduzir seu tio Claudio, Imperador de Roma, garantindo um futuro brilhante para seu filho, penso o que leva uma mulher a agir enlouquecidamente…

Quando é que o amor se torna tão insuportável que vira ódio?

Há muitos anos frequentava um grupo de pessoas de televisão e publicidade, onde havia uma atriz. Nos divertíamos muito, mesmo não sendo amigas próximas, eu a admirava. Uma manhã em casa a atriz discutiu com o marido, um rapaz mais jovem. A conversa chegou a um estágio em que ela pegou o revolver e o matou.

O que ela deve ter ouvido para retribuir com este gesto?

Estas e outras lembranças me voltaram hoje ao assistir uma cena patética em um vídeo que roda no sul da Bahia. Uma mulher ainda jovem, bem bonita, se coloca num palanque político para defender uma candidatura à prefeitura. Não fala apenas sobre as vantagens da candidatura que apoia, mas ataca seu ex-marido também envolvido em política, mas de outro partido. Chama-o de “protituto”, destila ódio. Não ataca apenas o pai de seus dois filhos, mas o primo com quem convive desde que nasceu, com quem casou à revelia da família hoje estilhaçada como pedra na vidraça.

Fico pensando se ao chegar a casa, como vai olhar os filhos. Vai ter coragem de repetir o que disse para a plateia que a aplaudia?

Fiquei revendo o vídeo com estas perguntas e pensando que a política assim como o amor é visceral. Ela não matou o marido como a atriz. O golpe foi com palavras, mas foi tão forte como um tiro que quer aniquilar moralmente. Sai o ódio da boca de quem fala, ensanguenta de mágoa os ouvidos da família.

Faço há alguns meses o difícil exercício de não julgar, apenas refletir e constatar. Tenho pena desta família e de todas as mulheres que enlouquecem. Lastimo a disputa de egos por um cargo político que dura apenas 4 anos.  Triste ver que vende-se até o respeito.