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A saúde está morrendo

Da. Peninha na missa do dia 30 de novembro

A Helenita chegou hoje cedo contando do velório/enterro da filha de Da. Peninha. Carmelita tinha pouco mais de 30 anos, morreu ao dar à luz o 4º filho no Hospital Luiz Eduardo Magalhães em Porto Seguro. Consta que a criança era grande, ela fez muita força para o bebê sair e “aí foi arrebentando tudo: útero, ovário e deu uma hemorragia…” Assim Helenita descreveu o fato como contavam no velório. E o mais cruel: os médicos quebraram a clavícula do bebê ao tirarem de dentro da mãe !

Não bastasse isso, abro o Facebook e leio o comentário do Jeronymo Machado, produtor e empresário, sobre o atropelamento de sua mãe em Copacabana. Aos 80 anos, lúcida e ativa, Da.Elza ficou caída no chão, foi atendida pelos Bombeiros que chegaram rapidamente, mas na seqüência passou pelo horror dos corredores do Hospital Miguel Couto, um hospital público em área super nobre do Rio de Janeiro, até conseguir ser transferida para um hospital particular também com atendimento duvidoso.

De Porto Seguro ao Leblon não há diferença no atendimento médico. Público ou particular, a saúde no Brasil morre. Não entendo aonde foi parar a dignidade dos médicos. Tanto faz Carmelita, a mãe simples que morava em Ponto Central, uma pequena vila de Santa Cruz Cabrália e deixou 4 filhos, como Da. Elza, a mãe da zona sul do Rio de Janeiro, todos passam pelas mãos de algozes. Alguns mais sofisticados, como os que atenderam Da. Elza que está bem e se recupera em casa, como os incompetentes que andam pelo Sul da Bahia.

Da. Peninha vai ficar mais triste e encolhidinha no banco da missa. O Jeronymo mais revoltado com a sociedade em que vive. Até o dia em que todos juntos teremos coragem de dar um basta e exigir que ao menos educação e saúde sejam tratados com respeito neste país. Livrai-nos Senhor da saúde pública ! Amém.

Fim de tarde

Passa das 6 da tarde e a última restia de luz do dia ilumina o jardim. Relembro o telefonema que fiz a poucas horas para uma amiga que declarou não querer mais trabalhar. Esta deprimida. Tudo o que era bom na sua vida se tornou massacrante, cansativo. Ela so quer ficar quieta, mesmo sem saber como se manter se não trabalhar.
Tenho acompanhado algumas amigas que estão chegando ou recém passando dos 60 com dificuldades de encarar as mudanças. Sou rápida nas contas das idades dos que estão a minha volta e as vezes me surpreendo quando vejo tantos conhecidos setentões em atividade. Também deve ter sido difícil pra eles passar por esta mudança que ainda não me abalou. Claro que tudo esta alterado, mas sobrevivo. A “maturecência”, assim podíamos chamar a “adolescência da maturidade”, é delicada. Os seios não surgem, murcham. Os pelos somem, o corpo ganha um contorno mais pesado independente dos quilos, e ainda tem as rugas, os cabelos brancos e tudo que mais se conhece.
Acredito que a grande vitoria neste processo é conseguir tirar o foco do próprio umbigo, não se vitimar. Nem sempre o tempo traz soluções, mas nos dá um conhecimento, uma certa tranquilidade de olhar ate mesmo o envelhecimento externo com carinho, ja que o coração é eternamente jovem.
Mas é preciso vigiar o pensamento, ele pode ser traiçoeiro, levar para uma viagem de tristeza e envelhecer vai ser um peso insuportável de superar. E aí nem a luz do fim do dia se vê no jardim.

De onde vem os amigos…

Beira do Rio João de Tiba, foto Cláudia Schembri.

Estávamos sentados frente ao rio olhando a noite estrelada e conversando sobre assuntos tão delicadamente pessoais, quando percebi que a minha volta estavam meus mais novos velhos amigos… Excetuando a amiga que herdei do meu irmão, as outras relações foram construídas há menos de 7 anos. Falávamos sobre planos e também das nossas mazelas, algumas dores, desafios e superações, tudo isso embaixo de uma noite azul com uma brisa deliciosa. Voltei prá casa pensando de onde vêm os amigos.

Quando morei em Nova York, eu me senti muito orgulhosa por ter conquistado amigos que além de não falarem a minha língua, sabiam do meu país como algo distante no terceiro mundo. Eu vinha de uma vida de muitos amigos, de alguma repercussão como pessoa pública e conquistar americanos que mal sabiam pronunciar o meu sobrenome foi uma enorme vitória… Matei ali 10 anos de análise… Mas todos esses amigos vieram como os demais através da sala de aula, da vizinhança, do trabalho ou de algum local de diversão.

E foi da vizinhança nesta vila tão pequena aonde vivo que fiz os amigos com quem vi estrelas ontem a noite. Aqui não é preciso muito. É só chegar que de boca em boca as informações do novo morador é passada, e quando você encontra com alguém, abre um sorriso num cumprimento, já sabem quem você é e de onde veio… Uma forma gentil de abrir a rede e receber “estrangeiros”.

Mas nestes últimos dias com o lançamento do livro em São Paulo fui surpreendida com uma nova forma de fazer amigos.  Encontrei pessoas que me abraçaram com um enorme carinho, como se fossemos velhos amigos e me conheceram pela internet. Sabem detalhes da minha vida pelas coisas que escrevo, sonham um dia conhecer Vila de Santo André e foram buscar um autógrafo no livro. Fiquei profundamente tocada e descobri que alem do amor, existe a amizade incondicional!  Sou  querida por quem nunca tinha me visto pessoalmente!!! Não conhecem meus defeitos, o perfume que uso ou o tom da minha voz. Ainda não me viram atacada brigando com o mundo e gostam de mim mesmo assim… Escolheram esta amizade por que em algum momento escrevi uma palavrinha que tocou seu coração e gerou uma empatia. Adoro as possibilidades da tecnologia que nos faz tão perto e intima de tantos… Acredito que na vida só valem os amigos… E não importa de onde vieram…

Media luz

visão do jardim enquanto me balançava na rede


Um estouro no poste da rua e toda casa ficou a “media luz” como se os aparelhos pudessem usar apenas metade da sua potência. Desliguei o computador preocupada com os picos de energia. Ainda não escureceu, mas sala esta um pouco escura para ler ou fazer fuxico. Estico a rede na varanda e fico literalmente usando metade da minha energia para estar adequada à situação. Meio olho aberto, meia perna no ar, meio braço esticado, meio pensamento, tento respirar só por uma narina, brinco de ser metade. Missão impossível.

Uma das coisas que tenho percebido com o passar dos anos é que amadurecer faz consolidar a verdade de cada um. Ouvi muita gente dizer que os defeitos ficam mais aparentes, prefiro pensar nas qualidades. Não tenho como ser outra pessoa, mudar o caráter ou criar uma nova personalidade. Sou o que sempre fui talvez com um tom mais tênue. O que está na minha essência jamais se perdeu. Estou às portas do lançamento de um livro que me fez reviver o período em que fui repórter nas revistas da Bloch Editores e Editora Abril, e no jornal O Globo. Escrevi uma grande reportagem sobre o Projeto Emoções em Jerusalém, o incrível show realizado na Terra Santa com Roberto Carlos. Uma produção de se tirar o chapéu, repleta de desafios. Eu ainda não sei como escrever um livro, mas lembro como se faz uma boa reportagem. Em lugar de 10 páginas datilografadas, digitei 100, e o resultado chega esta semana às livrarias. Ali eu estou inteira, com os meus melhores sentimentos contando como uma equipe fez um sonho se tornar realidade. Pela metade, só mesmo a “media luz” deste fim de tarde curtindo o embalo da rede..


							

Olhar

A flor do hibisco dura apenas um dia e nem por isso é menos feliz.

Acordei, estiquei o braço e abri a janela sob a cabeceira da cama para ver a cara do dia.  Nublado de novo, talvez nem haja um raio de sol neste domingo.  Fiz todos os movimentos com muita calma, afinal um domingo sem perspectivas. Mesmo que tivesse um tempo melhor ja teria perdido o horário da maré baixa pra caminhar na praia.  Dormi demais, passou das 8 hs.
Abri as portas e janelas do andar debaixo, coloquei a água para o café e o tempo continuava sombrio. Pensei em temas obscuros, desanimadores, pessimistas,  que as vezes rondam a minha mente como um anjinho do mau dizendo “nada vai dar certo”. Eles surgem independente da forma do dia e me assusto com a força dos pensamentos. Eles são para o bem e para o mal, são fortes, poderosos, dizem que podem até se incorporar na célula molecular. Lembrei do aviso : cuidado com o que você pensa, pode se tornar realidade !
Para espantar a nuvem negra que eu mesma criei decido sair para pedalar e pegar um vento no rosto. Encontro pessoas simples que não devem se preocupar com suposições. A vida pode ser simples. Saio me equilibrando nas duas rodas pelas ruas de terra constatando a facilidade que tenho de sair de uma manhã nublada para um dia de sol bastando um bom pensamento.
Um querido amigo que se foi dizia que o que falta para a felicidade é slow motion e trilha sonora.  Vou me sentindo numa cena assim com uma bela trilha atrás de mim, os Noturnos de Chopin aumentam a energia para pedalar. Estou quase voando ao saltar os buracos. O piano do Nelson Freire toca dentro da minha cabeça e vou cantarolando embaixo da chuva fina. Quase não enxergo com os óculos embaçados. Tenho que rir com o ridículo da situação. A blusa começa a colar no corpo e não tem mais ninguém na rua. Ao chegar em casa, como num passe de magica,  a chuva passou e o sol se abriu. As vezes surgem dias que tem tudo para serem horríveis, mas com um bom pensamento ficam maravilhosos. Esta é a graça da vida ! Ver o mundo com outros olhos…

Costumes

Na pequena vila onde moro quando alguém morre é praticamente feriado. Sem rádio nem alto-falante a noticia corre rápido, de porta em porta, na boca das crianças, no grito dos jovens, na velocidade das bicicletas. As mulheres deixam seus afazeres, abandonam as panelas no fogão, pegam as crianças e vão em bando para a casa do falecido avisando com quem encontram no caminho. É uma comoção!

Sabemos exatamente quanto somos, talvez pouco mais de 600, e a partida de seja lá quem for é sentida. Na última quinta-feira Helenita estava preparando o almoço aqui em casa quando o telefone tocou. Ouvi o seu grito, corri para acudir. Em prantos, com a perna bamba sentou na cadeira da varanda e contou que Da. Santinha, sua ex-sogra, tinha morrido. Dei-lhe um copo d água com açúcar e mandei ir para o velório.

Hoje ela voltou contando detalhes do acontecido. Da. Santinha tinha um sopro no coração, acordou fraquinha, tomou banho e se aquietou. O neto foi ver, o coração tinha parado. Mas o corpo continuava quente. Alguns diziam que ela ainda estava respirando, chamaram o médico do posto de saúde que atestou  a morte. Mas ninguém queria acreditar. Limparam um espelho e colocaram embaixo de suas narinas para provar que estava respirando, chegavam a ver o suor refletido. Outros sentiam as têmporas pulsando e chegaram a afirmar que ela tinha piscado os olhos. Resolveram então levar para o hospital. Colocaram a moribunda no carro, atravessaram na balsa, a família chorando num pré velório. No hospital o médico foi taxativo: nada mais o que fazer. Voltou o corpo atravessando o rio João de Tiba agora já num caixão e com um pouco de formol. O velório rolou a noite inteira na Assembléia de Deus. Muito choro, desmaios e surpresas com a chegada dos parentes que vieram de Eunápolis, Vitória e arredores. E entre as muitas preces alguém pediu que Jesus viesse à Terra e repetisse o milagre que ressuscitou Lázaro no 3º dia. Mas  o Mestre devia estar muito ocupado.  Na sexta-feira pela manhã um cortejo de carros levou Da. Santinha com 81 anos até a morada final no cemitério de Santo Antonio, no povoado vizinho.  Neste dia também ninguém trabalhou, afinal é preciso se recuperar de tanta dor. Hoje, no 3º dia, ela não ressuscitou mas depois de uma semana com chuva o sol apareceu. A vida continua, como se nada tivesse acontecido, até um próximo velório.

Feliz aniversário!

No parque de Maplewood, New Jersey, USA 1983

O dia parecia com o de hoje, chuvoso e frio. Havíamos superado o 2 de novembro quando fiz um acordo, do fundo do meu coração, que você esperaria mais um dia para chegar. E o dia 3, como eu marcara na agenda no primeiro encontro com o Dr. Carlos Montenegro, você viria. Nas últimas semanas eu já não dormia bem. Ouvira tantas histórias de correrias na madrugada que todas as noites eu me preparava com esmero. Banhos longos, cabelos lavados, unhas limpas e cortadas, creme no corpo e nenhum prenúncio da sua presença. A sexta-feira veio com expectativa e foi passando com um pequeno mal estar. Já não tinha mais posição para a barriga. No final da tarde uma cólica enjoada, a noite deixamos o jantar na mesa quando as contrações aumentaram.  Saímos de casa com chuva, seu pai muito chic ajeitava um lenço no pescoço, e entramos no fusquinha branco rumo a Maternidade Escola na rua das Laranjeiras. Dr. Montenegro examinou e foi taxativo : “ainda vai demorar, sem dilatação não vai nascer, se fosse minha mulher fazia uma cesariana”.

E fomos para a Clínica São Marcelo no Leblon aguardar a equipe para a cirurgia. Em algum momento avisamos por telefone mamãe, papai e Victor que foram ao nosso encontro. A Bisa Mercedes e a Vó Flora ficaram nervosas no apartamento da Atlântica. Fui levada numa maca com seu pai ao lado carregando a máquina fotográfica. Ia registrar cada momento da sua chegada. Eram mais de 10 horas da noite e você não demorou a dar o ar de sua graça às 23h15. Seu pai e Victor celebraram a noite toda no Alvaro´s, bem na esquina da rua Cupertino Durão. Quando acordei no dia seguinte trouxeram você embrulhado como um pacotinho: é um menino !!! Um presente dos céus. Eu e seu pai tiramos sua roupinha, examinamos de todos os lados, contamos os dedos das mãos e dos pés e atestamos que era perfeito. Santa ingenuidade, como se fosse possível identificar qualquer seqüela de forma tão simples. Mas sabíamos que você era saudável e seria muito feliz.

Aqui da Bahia hoje quando o dia nasceu chuvoso lembrei esses momentos. 39 anos se passaram, mas para mim é como se fosse ontem. Relembro com amor de você em todas as fases. O primeiro dia na escola e você nem chorou, os cabelos cacheados que depois ficou liso, na praia com a sunga laranja com nome escrito em azul marinho no bumbum, criação da vovó Yayá para você não se perder. Com pouco mais de seis anos quando aprendeu a ler se sentava ao meu lado com um livrinho enquanto eu lia os jornais. Depois os tempos nos Estados Unidos, jogando futebol no Central Park, o cinema onde assistimos ET e depois na casa em New Jersey jogando Pacman e ajudando a varrer as folhas do jardim antes do café da manhã nos fins de semana. Adolescente com aparelho nos dentes, você cresceu tão rápido que quase todo mês aumentava o tamanho do seu pé. Ao meu lado nos shows do Canecão, usando a gravata que o Ivan Lins deu e nem sei aonde foi parar. O seu encantamento com a música, bodyboard no mar da Barra, o tempo em que não quis mais ir para o colégio até entrar na faculdade com a conclusão rápida em 7 períodos para ir estudar música em Los Angeles. Os tempos dos Anjos, com duvidas, sonhos e incertezas profissionais, até o lançamento do CD, vídeo clip da Karla Sabah, música na Malhação e show no Rock in Rio. Uau ! Quanta coisa aconteceu, mas confesso que gosto muito deste belo adulto que você se tornou. Adoro apresentar você aos meus amigos. Um profissional dedicado, sensato, amoroso, culto, inteligente, criativo, crítico muito bem humorado, fiel às suas raízes e amigos. Profundo na busca pessoal, filósofo sensível. Meu parceiro em todos os processos de crescimento pessoal e com você aprendo todos os dias. Estamos amadurecendo juntos e sou muito grata por ter você como filho. Feliz aniversário, Bernardo ! Eu te amo.

As bruxas

Na noite do haloween éramos cinco mulheres em volta de uma mesa: uma psicanalista, uma artista plástica, uma dona de casa, uma jornalista e fechando com chave de ouro uma argentina misto de taróloga, numeróloga e outras adivinhações. Bebíamos vinho, comíamos pizza e falávamos sobre os elementos que compõe o mundo mágico das bruxas quando nos detivemos na figura da aranha que com paciência e determinação constrói a sua teia.

Quem ensinou a aranha a tecer com arte fios de seda tão finos?

Adoro compor pedaços, juntar caquinhos, emendar tecidos, misturar linhas e cores no crochê, e me encantei pela teia que transita por este mesmo pensamento. Tenho algo em comum com a aranha, teço para a sobrevivência. A aranha retira seus fios de glândulas que estão na sua barriga e até nisso nos parecemos: somos viscerais. Ela constrói mínimos espaços soltos no ar entre um fio e outro sem métrica. Tece em silencio, sem platéia e palpite de vizinhos. Faço o mesmo enquanto trabalho manualmente e meu pensamento voa.

Ela tece sua trama em locais de pouco movimento e quando a obra esta pronta, mesmo se algum fio for rompido o entorno se mantém firme deixando em perfeito equilíbrio o que foi tecido. Nada desestrutura a quase escultura delicada. Olhando a teia sem o medo do veneno da aranha ou o sentimento do cenário de um local abandonado, vejo como rendas preciosas. Sutis como as relações humanas que precisam de cuidado para os fios não se romperem. Pensei sobre tudo isso antes de dormir lembrando a mensagem postada no Facebook por um amigo que não vejo há muitos anos e que por razões que já não importam mais deixei de falar.

“Acordei pensando que a nossa vida á tão curta que devemos curtir todos que estão em nosso caminho. Quantas pessoas que víamos e conversávamos todos os dias e que hoje nem mais nos falamos? Quantos amigos e amigas que nem mais sabemos onde andam e o que fazem? Esta manhã senti falta de tanta gente. De alguns nem lembro mais o motivo pelo qual deixamos de nos falar. Só doeu foi a falta que essas pessoas me fazem. E quanto tempo ainda estaremos por aqui? Depois vamos embora e aí sim jamais as veremos de novo. Pelo menos não neste Plano. As vezes uma tolice nos separa e isso não é correto. Proponho uma grande trégua. Um armistício eterno. Se com alguém eu fui injusto, se a alguém eu insultei, peço que me perdoe. Só tenha uma certeza. Sinto sua falta e sua boa conversa.”

Vivi mais do que tenho a viver e estou aprendendo que quando a borda da teia é tecida com firmeza as amizades que por ali passaram jamais se perderão. Mesmo que o tempo passe, mesmo que haja a distância geográfica, o sentimento dos bons momentos ficará junto com as velhas fotos.

Vizinhos

Era fim de tarde, hora em que as maritacas voltam prá suas casas anunciando  que a noite vai chegar, que interrompi um texto ao ouvir um grito. Antes de me dar conta de onde vinha, o silêncio foi novamente invadido por mais gritos de prazer, em uma altura tal que parecia terem colocado microfones no quarto reproduzindo para toda a vizinhança os gemidos de amor

A minha primeira preocupação foi com os cães que costumam latir com qualquer barulho diferente e poderiam interromper o colóquio. Mas diante da pouca importância deles ao fato, fiquei calculando em qual apartamento o casal estaria hospedado na pousada ao lado da minha casa. O que menos importava é se estavam no apartamento de cima ou no de baixo, e o que me chamava atenção era a volúpia do som inusitado. Não que as pessoas não se amem em férias à beira mar – e como se amam! – , mas jamais ouvi sexo estereofônico na vizinhança.

Hoje na praia fiquei tentando identificar qual  dos dois casais hospedados na pousada seria responsável pela festa no fim de tarde. Um casal é mais comportado, na faixa dos 30 e tantos anos, ela loura com pernas brancas e finas, maiô inteiro, com um livrinho de sudoku nas mãos sentada na sombra; ele com uma sunga cor de vinho, cabelos curtos e escuros, uma suave barriguinha, jeito de gerente de banco. O segundo casal tem perfil mais jovem, ela usa um biquíni reduzido, longos cabelos escuros, o rapaz é moreno com sunga moderninha, e jogam frescobol. Fiquei olhando o comportamento de ambos e na incapacidade de identificar quem se derreteu de paixão no dia anterior, fico torcendo para que os sussurros e gemidos tenham sido de libertação da comportada trintona com cara de professora de inglês.  Aí sim teriam valido estes dias na praia e quem sabe o ano que vem não a encontro de biquíni.

A 1a. impressão

Não há uma 2ª. chance para se deixar uma 1ª boa impressão. Lembrei disso andando pela praia ao ver o mar cor de coca-cola. Este não é o meu mar, mas também pode ser algumas vezes depois de muitos dias de chuva. O Rogério Paixão, da Pousada Ponta de Santo André, foi pescador por muitos anos e explicou que como nessa região tem uma grande plataforma continental  sem muita profundidade, com alguns rios desaguando no mar, quando entra um vento nordeste para afastar o vento sul o mar se remexe. Com isso uma espécie de lodo que há no fundo, perfeito para a criação de camarão, sobe para a superfície e somado as águas que descem das cabeceiras do rio, o mar fica com esse tom, que não é normal.

Quando Ricardo Freire www.viajenaviagem.com  esteve aqui pela primeira vez encontrou o mar assim e ficou desapontado. Nos comentários que fez em um de seus livros sobre Vila de Santo André disse que a vila era linda, mas o mar… E hoje pensei exatamente sobre isso, na impressão que os turistas que passam por aqui pela primeira vez irão levar e sobre a impressão que as pessoas podem ter de mim ao me conhecer num rompante de “rodar a baiana”.  Já não sou mais ventania, sou um vento suave, mas ainda posso fazer barulho. Tenho a impressão que tenho uma cara que acredito ser a minha, e esta ainda não passou dos 35 anos. Outra cara como as pessoas me vêem, e ainda uma terceira que é a real e no momento tenho duvidas se ela existe. Mas de todos esses jeitos sou na essência dias de mar azul, outros verdes e quando mexem muito no fundo, sou cor de coca-cola.