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Um Natal de outro jeito…

 

Esta é a rua principal de Vila de Santo André. É difícil Papai Noel chegar aqui. (Foto: Cláudia Schembri)

A verdade é que nós somos mais semelhantes do que imaginamos… O meu desabafo com as dificuldades pessoais neste tempo de Natal teve eco em amigos que também vivem o mesmo. Não tenho a solução, mas busco alternativas para conviver melhor com dezembro pois  é impossível pular 30 dias em um ano… Geralmente depois que falo, ou melhor, que escrevo, alguma coisa começa a mexer dentro de mim e se não me resolvo, alivio… Uma catarse singela para ver onde posso melhorar e isto nada mais é do que um processo de análise sem terapeuta… Tive alguns terapeutas, não significa que encontrei uma fórmula para resolver neuroses e superar traumas sozinha, mas vou arriscar um jeito de conviver melhor com os 16 dias que ainda tenho até o Natal.

Aprendi que o primeiro passo é encarar o problema e a conclusão é simples : tive muito mais “Noites Felizes” do que Infelizes… E em honra ao meu passado, a todas as festas na infância e as que produzi para meu filho, família e amigos, estou improvisando uma pequena árvore de Natal e um presépio. Estou fora de qualquer amigo oculto, nem quero fazer ceia, assar peru e cozinhar castanhas. Resolvi ser amiga declarada de algumas crianças em Vila de Santo André onde dificilmente Papai Noel chega.

Vai me fazer muito bem, pois já o fez em 2006 quando fiz um Natal diferente. Em meados de dezembro fui a Porto Seguro e vi a montagem do Circo Beto Carrero. Foi uma viagem no tempo. Sou fascinada por circo e nos meus sonhos infantis creio que em algum momento pensei em ir embora com alguma trupe. Por isso ao ver aquele circo à beira do mar tive vontade de pedir a Papai Noel alguns ingressos para levar umas crianças de Santo André a assistir o que me emocionou e marcou por toda vida.

Repito sempre que a única coisa que vale na vida são os amigos.  E como nunca me faltaram, lembrei de Ligia Pontes, amiga do Rio de Janeiro, na época assessora de imprensa do Beto Carrero e enviei um email pedindo 10 ingressos. Como resposta ela me oferecia quantos eu julgasse necessário para levar as criança. Tive que fazer uma pequena produção, pois para transportar todos até Porto Seguro precisava de um ônibus, e apelei para outro amigo, Ubaldino Junior, radialista super bem relacionado que conseguiu na empresa Expresso Brasileiro. Ainda tínhamos o desafio de atravessar o rio, pagar a balsa, e o meu amigo Rogério Paixão, da Pousada Ponta de Santo André, conseguiu a liberação dos bilhetes.

No dia 26 de dezembro de 2006, 140 pessoas de Vila de Santo André tiveram a oportunidade de assistir pela primeira vez um grande espetáculo circense. Não sei me emocionei mais em ver o brilho nos olhos das crianças ou o êxtase dos pais diante do show. Elefante que até então era figura de livros e imagem na TV, estava ali, de verdade, dançando no picadeiro. Camelos, cavalos, pôneis, palhaços, malabaristas, trapezistas, bailarinas, contorcionistas, atirador de faca, mágicos e o incrível final com 5 motocicletas rodando no globo da morte! Até hoje este dia é lembrado…

Como não tem circo por perto, começo amanhã a preparar o Natal para 10 crianças que moram perto da minha casa. Vou costurar sacolinhas de pano para colocar os presentinhos que serão entregue dia 27, quando voltar do trabalho no Rio. Faço a festa com bolo, pipoca, cachorro quente. Acho que as crianças vão adorar e chega de me lamentar…

Então é Natal…

Eu não chutei o balde nem abandonei o blog, mas nos últimos anos tem sido assim quando se aproxima dezembro: um mau humor infernal e a vontade que os dias passem rapidinho até o novo ano. Já gostei muito de Natal. Montei lindas árvores, reuni a familia, decorei a casa, fiz muitas festas. Ganhei tudo o que pedi e também o que não pedi à Papai Noel.  “Uma boneca preta, uma boneca branca e um carrinho de puxar bonecas”, sussurrei no ouvido do bom do velhinho sentada no seu colo na loja Mappin em São Paulo, e no dia 24 a meia noite lá estavam meus presentes na árvore. Ganhei aliança de brilhantes deixada em uma caixinha simples no meio de muitos embrulhos como se fosse algo de pouco valor, como também um carro surpresa com laço de fita e luzes piscando. Tive sim maravilhosas noites de Natal… Recebi muito amor e carinho, compartilhei na mesma medida com enorme alegria…Até que em 2001 dezembro começou a contagem regressiva de uma vida muito querida diagnosticada a não resistir a virada do ano, e assim se foi. Nestes quase 9 anos estes dias de preparativos da festa se transformam em lembranças de saudades… Terrível esta mente teimosa que insiste em se apegar nas dores e resiste em virar a página… Um lamentar profundo, doído e sem sentido. É claro e transparente  que o que foi não volta e um fato é certo : o Natal,  nascimento de Jesus, este sim é eterno…Acho que ainda tenho tempo de me resolver…

Viva Santo André

Hoje é dia de Santo André, com festa na igreja e procissão na vila onde moro. Esta imagem de Santo André que estou postando é quase a verdadeira, é o mais puro exemplo do charme da vila. Paolo Dolfini, um diretor de arte italiano que mora em Milão, tem casa na vila onde passa as férias com a mulher Maura e o filho Alfa, como todo criativo, um dia pegou a imagem de Santo André e deu um toque tropical. Retirou o livro da mão e colocou uma arara, envolveu com folhas de coqueiros, colocou uma cesta de hibiscos no chão e como cenário a nossa maravilhosa praia. Imprimiu como um santinho e conta que quando foi mostrar para o meu irmão Victor, diante da qualidade da montagem, extasiado comentou “e não é que o santo tinha uma praia igual a nossa…” .

Paolo me deu esta imagem que transformei em bandeirinhas que dou pra amigos e também são vendidas na lojinha da Monica em frente da Pizzaria Varanda, com renda para projetos sociais. Esta imagem já foi usada em  cartazes de festas anteriores, estampadas em camisetas do pessoal da Igreja e se tornou real… E isso tem mesmo cara de Santo André, um vilarejo que apesar de ser referencia em livros datados de 1600 só teve sua primeira Igreja Católica construída há 6 anos. Neste curto tempo uma briga entre o clero e a comunidade fez com que os poucos fiéis debandassem. Lamento não estar lá hoje. Vou à missa aos domingos, gosto da cerimônia e é uma forma de estar com os moradores. A distância faço a prece e deixo um pouco da historia do santo.

Santo André nasceu em Betsaida, foi discípulo de João Batista e a margem do Rio Jordão encontrou Jesus e começou a segui-lo :

O que buscam ? perguntou Jesus e André respondeu

Senhor, onde vives ? e Jesus disse-lhes

Venham e verão….

Na lista dos 12 apóstolos André está incluído entre os quatro primeiros. Era irmão de Pedro, e esteve presente no milagre da multiplicação dos pães. Evangelizou na Ásia Menor, na Capadócia e na Rússia onde é venerado. Enfrentou demônios, salvou um barco naufragado cheio de pessoas e no ano 60 d.C. durante o reinado de Nero foi capturado, julgado e condenado à morte dia 30 de novembro. André foi amarrado a uma cruz onde sobreviveu durante dois dias rezando. No momento de sua morte uma luz divina envolveu seu corpo paralisando todos os presentes. Padroeiro dos pescadores, açougueiros e mineradores, fazedores de cordas e dos casamentos, é patrono de diversos países como a Escócia, Espanha, Rússia e Grécia.

ORAÇÃO A SANTO ANDRÉ APÓSTOLO

Santo André, vos que tivestes o privilégio de caminhar com Jesus e d´Ele ver e ouvir tantas maravilhas, concedei-nos, aos apóstolos de hoje, vossa esperança, heroísmo, santidade e espiritualidade, aumentando cada vez mais em nós o espírito da verdadeira caridade. Por Cristo Nosso Senhor, Amém.

 

Post #100

Resolvi não falar ou

Rio João de Tiba, restaurante El Floridita

escrever sobre partidas e neste 100º post reflito sobre a vida, o tempo inexorável e os aprendizados. Tem sempre uma palavra, um comentário, uma cena que surge trazendo alguma novidade. É só ter um pouco de boa vontade. Não é fácil, ninguém também me disse que seria fácil… Cheguei sem manual de instrução e sem perceber anotei a cada dia um pouco na memória. Quando achei que já sabia tudo, olhei prá traz me perguntando que caminho foi esse…

Comecei a fazer um exercício para que o hoje não tenha cara de ontem e nem queira ser amanhã. Conclui recentemente quando um dia, ao me olhar no espelho, percebi que buscava a imagem de 20 anos atrás, como uma velha fotografia. Devo ter identificado aquele rosto, com menos rugas, mais magro e ainda emoldurado com cabelos louros, como meu registro definitivo. Procurava aquela imagem como se fosse possível congelar a vida num só instante e me manter para sempre como uma estátua exalando o mesmo perfume, com as mesmas informações e perspectivas de futuro… Ah! Que enorme loucura… Estes últimos 20 anos podem até se revoltar ao saber que não foram levados em conta! Li em algum lugar sobre uma terapia em que se escreve a própria historia em episódios de 7 anos… Pode ser uma boa experiência se for possível não ficar agarrada ao passado…

Lembro que quando criança a curiosidade era a minha grande companhia. Qualquer cisco, pedaço de pano, vidro vazio me levavam às mais deliciosas pesquisas… Hoje uso o outro brinquedinho que me faz navegar e a investigar centenas de possibilidades no mundo virtual. Foi assim que cheguei aqui e reencontrei amigos… Descobri que tenho leitores com quem compartilho meus pensamentos, quase que um divã com muitos analistas… Sou grata pela companhia de vocês e pela disponibilidade de me “ouvirem”. Bom sábado !!

 

The Old Fashioned Way

Um amigo colocou no Facebook um vídeo do Charles Aznavour de 1995 que me encantou. Não resisti e passei a frente a canção numa voz mais do que sedutora. Amigos repicaram comentários, podia ouvir os suspiros e rodopios mentais… Mas o comentário da Marília Barbosa foi mais contundente “meu Deus, parou o domingo, me “chapou” na cadeira, não vou mais conseguir levantar… Onde ficou esse tempo, meu Deus, morreram esses homens, acho tudo hoje tão seco e cruel…”

Ao ler procurei resposta e estou concluindo que o tempo não ficou nem os homens mudaram, nós é que deixamos de sonhar… Não sei se os homens eram românticos, mas sei que os nossos desejos em viver grandes paixões faziam com que o nosso olhar fosse amoroso para os menores gestos… Projetamos os amores que queríamos viver, e dávamos cores, matizes de acordo com nossa imaginação… E tudo acontecia como num conto mágico com pó de pirlimpimpim e vivíamos aqueles momentos de forma tão intensa que até hoje continuam escondidos na memória… E aí qualquer canção do Aznavour embalada pelo menor movimento de corpo nos leva ao delírio e uma saudade de nós mesmos….

Como escreveu Cazuza, o tempo não para… Vamos nos reinventar, ainda há tempo…

http://www.youtube.com/watch?v=cDi1sQO1MJI

 

Um amor sem tamanho

Fotos : Cláudia Schembri

Eu já pensei uma porção de vezes em escrever sobre um espetáculo paralelo que acontece nos shows do Roberto Carlos: a manifestação da platéia. Como geralmente estão todos extasiados com o que rola no palco não se permitem perder um segundo sequer olhando os seus vizinhos. Nem sempre fui atenta ao público. O encantamento de vê-lo cantar é o mesmo desde os tempos da Jovem Guarda, dos programas na extinta TV Tupi na Urca, os shows que assisti nas antigas casas de show no Rio – Canecão, Imperator  e Metropolitan – , os muitos nas celebrações dos seus 50 anos de música em todo o Brasil, até o espetáculo de ontem no Credicard Hall em São Paulo. Mas nestes últimos anos tenho a oportunidade de assistir a incrível paixão do publico quando, no silencio centesimal entre duas palavras da canção, alguém grita “Roberto eu te amo!!”. Funciona como um estopim para outras vozes fazerem coro na mesma proporção com tantas declarações de amor. Este fato se repete em todos os shows como se fosse parte do roteiro. Repete-se em todos os sotaques, com diversas pronúncias, em todos os países por onde passa, por vozes de todas as idades.

Por mais que teorizem e estudem o fenômeno do artista que em mais de 50 anos só fez aumentar a sua legião de fãs, se manter no topo do mercado do showbusiness, crescente na venda de produtos (CDs e DVDs) apesar de tanta pirataria, ingressos esgotados em todas as apresentações, o fato é simples: amor não se explica. Apenas se vive.

Tenho o privilégio de profissionalmente assistir este processo em muitos shows, ver a paixão explícita dos fãs nos dias em que passamos “al mare” no cruzeiro Emoções em Alto Mar. É comovente ver a música tocar a mais profunda emoção de pessoas de todas as idades, nacionalidades, classes sociais, opções políticas e credos. São canções que trazem pedaços da vida de cada um, seu efeito é devastador : um amor pra sempre, sem limites nem vergonha de gritar “Roberto eu te amo!”

 

Dudu

Foto: Cláudia Schembri

Estou em sp com o coração na Bahia… Ontem a caminho do aeroporto soube na balsa que a Dudu estava internada em Porto Seguro… Quem conhece Vila de Santo André deve ter ouvido falar de Dudu, Edoarda Casadei, uma italiana que lá chegou há mais de 20 anos… Até pouco tempo era minha vizinha, morava na casinha amarela voltada para o mar e conversávamos através da cerca… Mas Dudu se sentia isolada, o movimento daquele lado é mesmo pequeno, e há 2 anos se mudou para o miolo da vila, com mais gente por perto…Dudu é uma lenda e quando a conheci num restaurante italiano com meu irmão e Ugo no final dos anos 80 jamais sonhei que seríamos vizinhas… Dudu tem 84 anos e na festa de 80, à beira do rio, a Filarmônica de Belmonte tocou “Amigos para sempre” no momento em que chegava extasiada com a festa surpresa. Parecia uma criança com as homenagens.

Saí da balsa com um aperto no coração diante as lágrimas da Joyce e do Maurício. Da. Maria pediu carona até o hospital de Cabrália onde foi visitar o neto e no caminho comentamos sobre as tantas perdas este ano. Eu estava enumerando as partidas quando Da.Maria com toda a sua sabedoria disse que não era bom contar os que se foram. Caso o fizesse era bom encerrar a conta citando um animal. Acrescentei o Pulga, meu poodle que morreu em fevereiro e prometi que não faria mais listas.  Não tenho como fugir da realidade, mas sei que enumerar nada adianta. Melhor ficar com as boas lembranças como desta foto, uma cena linda de nossa praia com a Dudu e seu fiel escudeiro Pepe.

Na estrada

No caminho de Belmonte passo pelo pequeno cemitério, à beira da estrada, onde sepultei meu irmão. De longe vejo a cruz de cimento fixada na terra. Foi o que ficou. A matéria se fundiu com a terra, voltou ao pó. Não espero que ele esteja lá, ficou apenas a cena num velho filme de enterro em manhä de sol na véspera de Natal e o sentimento de que quando ele chegou, vindo do Rio de Janeiro como pediu, flutuou no ar, mergulhou no mar de Mogiquiçaba, se refrescou a sombra das árvores e seguiu para outra dimensão.
Mudou a cor da pintura do muro e do portão, as copas das árvores cresceram, a grama esta verde por conta das chuvas. Carros vão e voltam na estrada tudo ficou no tempo. Muitos nem olham ou lembram dos que ali deixaram, o tempo corre na estrada. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry

Tim Maia



Esta semana fiquei sensibilizada ao assistir no Arquivo N na Globo News um trecho em que o Tim Maia dizia “meu negocio é cantar, pois quando eu paro de cantar eu faço besteira, eu brigo com a Léa Penteado…” http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1629594-17665-303,00.html. Luciana Savaget que pesquisou e editou o programa (repete sábado 16:05 e domingo 21:00) me contou que em várias gravações que assistiu ele falava muitas vezes em mim, e em uma delas, muito doidão, disse: “sei que a Léa vai me matar, mas eu vou falar” e esculhambou a organização do show. Esses poucos segundos no ar foram importantes para o momento de reflexão que estou passando, revendo por onde andei e o que valeu a pena.

Quando comecei como repórter na revista Amiga (Bloch Editores) tinha que “cobrir” programas de TV ao vivo em busca de pauta. Em uma 4ª. feira na Discoteca do Chacrinha conheci Tim Maia  (19421998). Ele tinha voltado recentemente dos Estados Unidos e falou alguma coisa que não me recordo mas que renderia uma boa entrevista. Marcou o encontro para o dia seguinte no Solar da Fossa, onde morava. O Solar da Fossa (1964 a 1971) ficava onde hoje é o Shopping Rio Sul, em Botafogo e foi uma antiga fazenda no século 18 transformada em um  conjunto de apartamentos com aluguéis baixos onde morou uma legião de talentos como Caetano, Leminski, Gil, Paulo Diniz, Paulo Coelho (no momento que conhecia Raulzito), Ítala Nandi, Cláudio Marzo, e muitos outros… Cheguei 1 da tarde, na hora marcada, Tim abriu a porta com cara de sono, pediu desculpas pela noitada inesperada e me convidou para sentar na sala. Quando voltou de rosto lavado, antes de começarmos a conversar, bateu na porta um rapaz e entregou um pacote embrulhado em papel pardo amarrado com barbante do tamanho de meio quilo de café. Tim abriu o pacote, provou a mercadoria e me ofereceu. Revoltada dei um ataque e saí xingando. Ele veio atrás, entrei no carro de reportagem fui embora e nunca mais quis saber de Tim Maia. Isto aconteceu em 1969. A reportagem seria sobre o dueto que iria gravar com Elis Regina da sua composição “These Are The Songs” no disco da cantora. Foi por conta deste sucesso que recebeu o convite para um LP, “Tim Maia” (1970), que arrasou com “Primavera” (de Cassiano) e “Azul da Cor do Mar” (de Tim).

Em 1986 como assessora de imprensa do Canecão, os produtores da casa (Walter Lacet, Aloysio Legey e Jerson Alvim) informaram que o Tim ia fazer uma temporada de 4 dias. Apesar da fama de anunciar e não aparecer, desta vez estava tudo tão amarrado que ele não tinha como fugir. Abstraí o fato acontecido há quase 20 anos e telefonei para ele para combinar entrevistas e convidados para a estréia. Ele me tratou com o maior carinho, foi atencioso e cumpriu o acertado. Na passagem de som no dia da estréia quando gravou para o jornalismo da TV Globo, falou varias vezes o meu nome. À noite fiquei até envergonhada. Parecia que o show era dedicado à mim tantas as citações. Esta lua de mel durou 3 dias. No domingo no fim da tarde quando cheguei ao Canecão veio a bomba: o show foi cancelado. A justificativa do empresário: motivo de força maior. Entre o público que voltaria para casa desapontado estavam alguns jornalistas e na 3ª.feira era noticia nos principais jornais. Nesta tarde eu estava trabalhando quando o telefone tocou e era Tim Maia gritando os maiores impropérios. Instintivamente liguei a secretária eletrônica onde os palavrões e ameaça de morte que me fazia foram registrados. Culpava-me pela repercussão na imprensa e estava possesso com a jornalista Deborah Dumar do jornal O Globo que havia publicado “mentiras”, segundo ele, com a minha influencia. Bom, não contente em me telefonar, ligou para O Globo, repetiu o mesmo discurso e ameaças para a Deborah que levou o caso à direção do jornal que por sua vez acionou o Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Nilo Batista e a confusão estava armada. Tim Maia recebeu um aviso para ficar longe de nós, mas dois dias depois telefonou me pedindo em casamento! Ele falava sério e eu não podia crer. De tudo isso ficou a amizade e por mais incoerente que possa parecer, um enorme respeito. Nos encontramos diversas vezes, em muitos shows e seu swing era incomparável. Tim não marcou apenas a música brasileira com sua voz potente, mas a vida de muita gente, como a minha.

Fugindo

A vila onde moro tem tão poucos habitantes que nascer e morrer é assunto coletivo. Quando cheguei há pouco mais de 6 anos ouvi o comentário que demorava alguém morrer por la. Nascer era mais facil. As meninas se tornam moças e como no Xote do Gonzagão “ela só quer, só pensa em namorar”, e logo na seqüência, geralmente, vem um filho.
Mas este ano deu pra muita gente morrer em Vila de Santo Andre. A Josefina em janeiro, mais uma senhorinha em julho, depois o Gago, a mulher do Celso, “seu” Capador nosso curador e hoje a mulher do Railton. E nesse vai e vem de comentários nos velórios a declaração surpreendente do Vitório. “Vou mudar daqui pois não quero que a morte me pegue”.
Vitório tem idade indefinida. Provavelmente bem mais que 60. Negro e forte, rosto expressivo e vincado, cortava madeira na roça e vendia para fazer cercas. Mas o Ibama proibiu este tipo de poda que ingenuamente ele acreditava serem “árvores de mato” mas que eram da preservada Mata Atlantica. Com isso começou a fazer vassouras da piaçava que retira também da roça e faz uma porção de bicos. Recentemente cortou com machado a árvore que caiu no meu quintal. As vezes toma uns tragos a mais, e vem tagarelando sozinho pelas ruas e vielas.
E com esse jeitão e perfil esta se preparando para mudar de vila, fugir da morte, como se ela não estivesse na espreita estes anos todos vestida de boa vida.
Ah! Vitório, se isso fosse possível eu ate ia junto com você. Mas a morte não se escolhe, não se foge nem se espera. Ela chega na hora certa. Ate lá o melhor é pensar que somos imortais. Léa Penteado Enviado do meu Blackberry