30 anos de rock

Capara do livro

Capa do livro

Depois de 3 anos morando em Nova York em 1984 voltei a morar no Rio e restabeleci minha relação de trabalho como freelancer no Segundo Caderno de O Globo. Naquele tempo ofereciam ao “freelancer” reportagens que a equipe fixa ou não tinha interesse ou disponibilidade para fazer. Acredito que por ter sido repórter especial na área de cultura durante 5 anos na mesma editoria, recebi a tarefa de ouvir Roberto Medina “aquele publicitário visionário” que estava anunciando um enorme festival de rock para o ano seguinte.  Na sala de reunião da Artplan na Lagoa lembro perfeitamente de ter ficado extasiada frente a ilustração do Benício mostrando como ficaria a Cidade do Rock. Foi amor à primeira vista. Conhecia Roberto há muitos anos, admirava as realizações de seu pai Abraham Medina e fiquei boquiaberta com a capacidade de projetar algo tão grandioso para um Brasil tão tímido em matéria de showbusiness. Por ter vivido nos Estados Unidos tão recentemente eu tomara conhecimento de grandes festivais e eventos, mas nada se comparava a este. Fiz a primeira reportagem, tentei convencer ao editor que merecia uma capa do Segundo Caderno, mas tudo que consegui foi uma matéria de duas colunas numa página interna. O assunto era tratado com pouco crédito, nas entrelinhas eu entendia que viam como um delírio. Depois desta reportagem fiz outra, mais outra, e acabei me tornando uma espécie de setorista de “rock in rio” dentro do Segundo Caderno, ou seja, aquela repórter que fica colhendo informações sobre o mesmo assunto. Era um tema que poucos na redação acreditavam e eu estava completamente encantada com a ousadia e dimensão. Mesmo sem bola de cristal eu conseguia ver o que representaria para país.

Quando o festival aconteceu em janeiro de 85 eu tinha uma intimidade com o evento como nenhum outro repórter do jornal. Sabia de cor quantos caminhões de terra, quilômetros de grama, milhares de metros de fios para a iluminação “bailarina” criada pelo light designer Peter Gasper  e todos os detalhes do mega evento. Poucas semanas antes do festival começar Roberto me concedeu uma entrevista exclusiva que finalmente consegui colocar na capa do Segundo Caderno do jornal O Globo no primeiro domingo do Rock in Rio. Nesta reportagem ele contava sobre sua vida, o desejo de ser poeta, a influência do pai e o desafio de fazer o festival. Uma das fotos que ilustrou a matéria mostra a família, tendo Roberta e Rodolfo, hoje principais cabeças do festival, ainda bem crianças. Como “prêmio” fiquei 10 dias trabalhando no sol e na lama, escrevendo para o jornal críticas, matérias sobre comportamento, tudo o que estivesse acontecendo, e quando o festival acabou, Medina fez o convite para que no próximo eu integrasse sua equipe. E lá estava eu. Rock in Rio Eu Acredito.

Trilha da vida

Prefiro dirigir conversando com meus botões, no barulho dos pensamentos… Mas esta semana voltando de Porto Seguro, deliciosos 24kms à margem do mar pela BR 367até Cabrália, de repente, num inexplicável mistério tecnológico, um solavanco, um botão que apertei errado, a aparelhagem de som do carro foi ativada e a música guardada no pen drive invadiu o espaço. E era exatamente a música que mudou a minha vida. O carro não é meu, nem a seleção musical, mas o beliscão na saudade estava ali dentro sem mesmo eu perceber. Acredito que todos têm canções que marcam início e fim de um relacionamento, algum momento magistral, uma conquista profissional… Mas não sei se alguém tem como eu uma música que fez virar a vida de cabeça pra baixo, que me mostrou ser o país pequeno demais para a busca pessoal e me atirou no mundo.

Deixei filho, casa, emprego e saí com a voz do Milton Nascimento martelando em minha cabeça “vou me encontrar longe do meu lugar eu caçador de mim…”  Mais de 30 anos se passaram e bem digo a música que conheci quando em 1981 fui entrevistar Milton Nascimento para o jornal O Globo em um hotel na orla de Copacabana. Voltei para casa com o disco embaixo do braço, coloquei na vitrola e pirei.  “Caçador de Mim”, de Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão, foi a trilha da minha vida por um bom tempo, acabou cansando e nunca mais quis ouvir. Depois de ter me encontrado “longe do meu lugar”, deixou de ser importante, se tornou apenas uma referência, uma lembrança remota…. Sem sabor, odor ou textura, sem mexer mais com as minhas emoções, foi posta fora do meu set list.

Esta semana nos reencontramos sem mágoa nem expectativa, num fim de tarde lindo. Nada como o tempo para acalmar as emoções. Apenas eu e a música percorrendo a estrada numa temperatura amena, sem pressa…. Cantei junto com Milton. Aumentei o som para liberar a energia. Abri as janelas para compartilhar com o mar, os coqueiros, a vegetação, ainda com um pouco de Mata Atlântica, a alegria do momento. Ouvindo e repetindo cada palavra, respirando, sentindo. Missão cumprida, um agradecimento para quem impulsionou uma mudança jamais pensada…. Continuo na busca, muito mais me encontrando do que me perdendo, com outras sonoridades. Hoje o barulho das ondas, o som do vento, os cantos dos pássaros me bastam.

Para lembrar https://youtu.be/Se9XYKHQi3Y

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Que bomba você está soltando ?

Entre as boas coisas de se ter uma pequena pousada é a oportunidade de estar com amigos, conhecer amigos dos amigos e fazer novos amigos que me encontram através da internet.  Não tenho uma pousada padrão, por isso pesquiso antes receber alguém que não foi recomendado e sempre me surpreendo. O grupo vai se ampliando, vou costurando novas relações, conhecendo historias, ouvindo casos, aprendendo. Foi assim no último feriado quando recebi uma engenheira paulista, em torno de 40 anos, mochila nas costas, a mesma que usou ano passado no Caminho de Santiago.  Para aceitar a sua reserva foi complicado. Sem referências nas redes sociais, tive que abrir meu coração quanto a preocupação sobre quem é o hóspede e depois de alguns e-mails acreditei que valia a pena. E valeu mesmo. Ela não tem celular, leva uma bolsinha com fichas para telefones públicos, e só utiliza o email profissional. Não quis sugestão de táxi para chegar do aeroporto à vila, preferiu o ônibus local e aceitou que fosse buscá-la de carro na balsa. Além das boas conversas e de sua alegria com tanta liberdade como viajante solitária, antes de partir deixou dois pequenos presentes: um chocolate da sua cidade e uma pequena bola de argila recheada com sementes de árvores para jogar em alguma estrada e deixar florescer.

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Desde então, tenho olhado para a pequena bomba transformadora da natureza, pensando em qual estrada irei jogar…. Puxando o fio da meada, entrando um pouco mais a fundo, reflito o que tenho espalhado por este mundo… Mais do que fazer amigos vou à luta para conservá-los. Tenho alguns desde a infância, os reencontrei nas redes sociais, o contato é virtual ou por telefone, seguimos caminhos tão diferentes que temo encontrá-los e nosso assunto ser só o passado. Mas não importa a língua que estamos falando, sabê-los por perto me faz feliz. As amizades construídas na escola, depois na vida profissional, me dão uma enorme alegria mesmo com o convívio distante. Têm sido cada vez mais raros os encontros e são estes amigos que alimentam a minha memória, fazem lembrar a trajetória… Alguns de forma mais atuante, outros passaram ao largo, mas ouviram, viram, viveram o mesmo tempo.

Às vezes penso como eu estaria hoje se tivesse permanecido casada – vale para os dois ex-maridos -, se não tivesse deixado a redação do jornal, se continuasse morando nos Estados Unidos, se não tivesse me demitido da Globo e hoje fosse autora de novelas…  Fiz escolhas, joguei muitas “bombas”, deixei marcas, sei que deixei lembranças por onde passei…. Tenho consciência que não estou à margem da vida que me foi dada… Entrei de cabeça em todos os projetos e sei que isso me valeu algumas brigas por cuidar com zelo da terra dos outros, semear com carinho, cuidar da colheita que nem sempre usufrui. Mas me orgulho até das inimizades que surgiram e, como sempre, quase que num toque de mágica, se tornam “os melhores amigos”. O que tem me irritado é ainda encontrar “pessoas solo árido” que não querem botar a mão na massa nem se comprometer com o próprio caminho. Esperam a banda passar, não vão atrás dela.

Soltei bombas em terreno novo, bem adubado, colaborando para construir grandes eventos, megaprojetos que se multiplicaram e se tornaram reconhecidos internacionalmente… Sementes jogadas com muito amor, falando sobre um mundo melhor para alguns milhares de estudantes em 25 universidades portuguesas…. Ainda me lembro dos olhares incrédulos dos jovens na plateia ao constatar que uma mulher com cabelos grisalhos estava ali para falar de rock… E no final éramos “uma só voz uma canção num céu de estrelas…”

Crio “bombas” misturando essências, credos, filosofias, pensamentos e vou soltando no caminho da praia agradecendo pela vida, meditando na balsa, repetindo todos os dias, ao abrir e fechar as tantas portas da minha casa, a pequena prece de gratidão que escrevi: “Bem-vinda a alegria, a saúde e a prosperidade. Fartura, amor, amigos e felicidade estão chegando. ”

Em tempo:

As bolas de argila, também conhecidas como bombas da paz, tem o nome original de “nengo dango”, foram projetadas e desenvolvidas pelo japonês Masanobu Fukuoka, agricultor, mestre e sábio observador do comportamento da natureza permitindo agir a partir da ciência ambiental. Comprometido em restaurar solos e vegetação criando condições para o desenvolvimento de massa de árvores novas (…) Encapsular sementes em argila tem um alto valor simbólico: o enorme poder da ecologia, simples social, a capacidade de criar vida como parte da responsabilidade de deixar aos nossos descendentes um planeta habitável contra o desafio incontornável dos tempos.http://www.movimentoterraqueimada.com/news/manual-de-fazer-bolas-de-sementes/

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Para mulheres

Foto: Cláudia Schembri

Foto: Cláudia Schembri

Foi numa fração de segundos, entre o tirar a blusa e pegar a toalha, num movimento rápido, simultâneo, que olhei no espelho e gostei do que vi. Nem sempre é assim. Estes três dias à base de sopa fizeram uma diferença (ou foi meu olhar que teve complacência com esta mulher?). Ainda não conversei abertamente com as amigas como se percebem fisicamente depois dos 60. Quando o assunto surge geralmente se reclama de alguma dor, não se fala em prazer, apreço à matéria que temos e carregamos… Tenho a impressão que no fundo ficamos torcendo para mudar o tema e entrar na zona de conforto das lembranças de como as pernas eram bonitas, os seios rígidos, bumbum no lugar, zero de barriga desfilando em minúsculos biquínis no píer de Ipanema, como se viver fosse folhear um velho álbum de fotos… É mais fácil olhar o passado, é nosso conhecido, mas se pensarmos bem vamos concluir que a boa forma que fomos e cultuamos, o sucesso de público e crítica, não durou mais do que 20 anos!

E o que fazer com tantos os outros anos que estão passando? Rejeitar, fingir que não existiram? Nada chegou da noite para o dia, fomos produzindo este nosso atual resultado.  É desagradável a constatação das varizes desenhando a perna, a gordura localizada no abdômen, a celulite, a flacidez nos braços, os pés de galinha, as rugas de tantos sorrisos e estes horrorosos pelos que desapareceram do corpo e surgiram no rosto.

O assunto é forte, mas nada disso me assustou quando, naquela fração de segundos, percebi a mulher se despindo para o banho. Talvez o corpete preto de alcinhas, usado sobre o sutiã para compor com a blusa um pouco transparente, tenha favorecido.  Ou a maquiagem que ainda estava nos olhos, talvez um pouco da lua que refletia no espelho, mas a verdade é que a imagem estava agradável. Os cabelos estão grisalhos, a expressão divertida. Tenho um bom tempo pela frente e se não tratar bem esta mulher, o caminho será árduo. Conviver com o inimigo deve ser horrível!  Todo dia tenho que me permitir ser feliz. Da forma e do jeito que for, não posso dar mole às churumelas.

Uma das mais importantes lições de vida aprendi por volta dos 30 anos, morando em Nova York. Um renomado jornalista brasileiro durante uma conversa em torno de alguns copos de whisky on the rocks me confidenciou que passara por uma grande depressão. Procurou um médico – ou psicanalista, psicólogo, não lembro o que – e no primeiro encontro, depois de ouvir suas lamúrias, o profissional pediu que ele fosse para casa e retornasse dias depois trazendo uma lista com o que considerava mais importante em sua vida. Meu amigo passou dias pensando, voltou à consulta com uma longa lista e começou a relacionar o que considerava vital:  o apoio à mãe no Brasil, a realização profissional como chefe de um grande escritório, o apartamento que comprara num bairro chic em Manhattan, as viagens à Europa nas férias, e foi desfiando o que considerava ser a mola mestra para a sua felicidade. No final o médico simplesmente disse que tudo aquilo só existia por causa dele. No momento em que ele não mais existisse, não haveria a sua mãe, nem seu emprego, seu apartamento, suas viagens…

“O mais importante em sua vida é você”.  Não sei se foi assim que o profissional falou ou meu amigo me contou, mas foi a frase que ficou em mim e já escrevi em cadernos, paredes, páginas na agenda, rabisquei em anotações durante infindáveis reuniões, relembrei na hora de tomar decisões e repito quando me vejo sem pressa frente a um espelho…. É um gesto de sobreviver com dignidade. Li em algum lugar que se não me sentir bem quando sozinha é por que estou muito mal acompanhada…. Por isso preciso ter carinho, até um pouco de piedade, atenção com esta mulher mesmo com as mazelas que o tempo fez com a matéria. Com o privilégio em ter uma natureza esplendorosa ao meu redor, aprendo ao ver a mudança nas folhas das árvores, na flor do hibisco que só dura um dia, no rio que tem sua margem alterada com vai e vem da balsa raspando no fundo, empurrando a areia, derrubando coqueiros, trazendo novo cenário…. Sigo o mesmo movimento, caindo como folha, renascendo na flor, raspando areia, mudando o rumo, em busca do meu novo cenário…

Vai mudar

Comunico a quem interessar possa que estou fora da crise que rola no país. Sem querer ser Poliana, fazer o jogo do contente ou dar uma de avestruz enfiando a cara no chão, cansei de notícia ruim.  É uma tragédia pior que a outra. Matança, escândalos, corrupção, roubalheira, desrespeito, falta de ética e muita gente lambendo o beiço com tanta desgraça. Onde já se viu um senador da república ir à tribuna para xingar um procurador! Estou sem nenhuma paciência para me deprimir ou sair do Brasil. Este desfrute eu não me dou. Sinto muito, deve ter alguma coisa boa rolando neste mundo. Vou atrás, é nisso que vou focar minha vida…

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Como disse Buda “A lei da mente é implacável. O que você pensa, você cria; O que você sente, você atrai; O que você acredita, torna-se realidade.”  E nada mais doentio do que a mente erva daninha que sai plantando qualquer porcaria. Vejo amigos diletos fazendo o jogo de quanto pior melhor. Não votei na presidente, revoltou-me a forma machista como um jornalista se referiu a ela em recente artigo na revista Época. Não falo em política, boa ou má administração, mas o fato de sermos da mesma geração. Quem sabe até tenhamos nos encontrado em alguma passeata no Rio e fugido juntas das bombas de gás lacrimogêneo ou da cavalaria da Polícia Militar.  Quero que ela seja feliz, tenha saúde, bom senso, saiba escolher seus pares e reverta este quadro triste que o país se encontra antes do final do mandato para o qual foi eleita pela maioria dos brasileiros.

Estou de olho no que é bom, de qualidade de vida à pensamentos. Desde que vim morar num povoado com menos de 800 habitantes em um município de grande extensão territorial, mas com recursos pequenos, aprendo mais sobre este país. Em 2013 a cidade aonde moro, Santa Cruz Cabrália, se inseriu num processo sensacional de educação com a chegada da Universidade Federal do Sul da Bahia. Um projeto inovador, uma universidade “anisiana”, com um olhar na Mata Atlântica, na inclusão, nas realidades locais. O reitor Naomar Almeida Filho está fazendo uma revolução na educação. Médico com muitos títulos, epidemiologista, encantado com o poder da vida acadêmica. Já tinha ouvido depoimentos de alguns professores que para cá vieram aliados a este propósito transformador e de uns jovens do meu povoado que através do Enem estão cursando o módulo básico de 18 meses ainda em uma escola na cidade, em breve haverá um colégio universitário em cada localidade.

Tudo muito inacreditavelmente atual em termos de ensino.  No campus Jorge Amado, em Itabuna, além da reitoria estão instalados os Centros de Formação em Ciências, Tecnologias e Inovação, em Comunicação e Artes e o Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC). Em Porto Seguro haverá os Centros de Formação em Ciências Humanas e Sociais, em Ciências Ambientais e o outro IHAC. No campus em Teixeira de Freitas será criado o Centro de Formação de Saúde, com o curso de Medicina, e mais um IHAC.  Espera-se que em 2020 quando chegar em sua plena implantação hajam 18 mil vagas em ensino superior distribuídas em 71 cursos.

Em maio deste ano, como Secretária de Comunicação do município, representando o Prefeito, tive o privilégio de compor a mesa na aula magna que aconteceu através de vídeo conferencia. Assisti ao entusiasmo do reitor e dos novos alunos em estarem vivendo esta oportunidade tão única, e todos ficamos boquiabertos com o show que o Professor Jorge Portugal deu sobre a língua portuguesa e sua diversidade. Tudo acontecendo através de transmissão direta de Itabuna, de onde o professor showman cantou, leu poemas, prosas e levou a todos em uma viagem nas palavras. Fiquei emocionada ao estar tão honrosamente assistindo ao crescimento de uma universidade de excelência em uma região onde se pensava apenas em turismo e agricultura.  Vai mudar este pedaço do Brasil e mesmo sabendo que o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) ainda está vergonhoso, há luz no fim do túnel, tem quem acreditar e se predispor a transformar.

A partir de hoje meu olhar está em buscar o que há de bom neste mundo. Sei que tem muita coisa acontecendo, nem sempre está nas primeiras páginas, mas o bom é o que me alimenta.

foto Cláudia Schembri

Uma carta

Final de tarde morna, céu azul lindo, voltava de Porto Seguro acompanhando meu amigo, poeta mineiro, que foi comprar uma bicicleta, quando começamos a falar sobre as obras de seus conterrâneos. Otto Lara Rezende, Fernando Sabino e caímos em Drummond. Lembrei de “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”, trecho do poema “Confidencia do Itabirano” que gosto tanto. E, de repente, assim do nada, veio uma outra foto na parede de um trecho de uma carta que Flávio Cavalcanti escreveu para seu neto Jarbas há 40 anos… Me surpreendi ao perceber que ainda lembrava de parágrafos inteiros desta carta que foi um grande desafio quando respondi sobre a vida do apresentador no programa “Sem Limite” na TV Manchete apresentado por Luiz Armando Queiróz… Fiz coisas na vida que as vezes olhando para trás nem acredito… Uma loucura que durante 10 semanas me levou a responder em cada programa 10 perguntas, sub divididas em três itens! Era muito conteúdo e foi estudando, decorando, que tive o sentimento que a memória é como um musculo, precisa de exercício para se manter firme. Durante este tempo, havia um tema que em algum momento ia surgir e sempre imaginei que seria a última pergunta, por ser uma carta longa que bem sintetizava a filosofia de vida do Flavio. Mas era difícil, eu chorava em determinados momentos. Com o tempo fui diluindo a dor, incorporando o texto e quando cheguei ao programa final estava segura. Mas como emoção é terra que não tem dono, ao repetir o texto sem errar qualquer palavra ou vírgula, fui me desmontando e aos prantos ouvi o esperado “Absolutamente certo !!” 25 anos se passaram e esta carta mais do que uma foto na parede é um registro na memória do meu coração…

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Petrópolis, 25 de outubro de 1975

Meu neto:

Pelo que você já me disse com o seu sotaque de anjo, percebo que você me… considera uma criança grandona e desajeitada, e me acha, mesmo assim, seu melhor companheiro de brinquedos.

Pena que tenhamos tão pouco tempo para brincar, tão pouco porque só sei brincar de passado, e você só sabe brincar de futuro. E ainda estarei brincando de recordação quando você começar a brincar de esperança.

Mas antes que termine o nosso recreio juntos, antes que eu me torne apenas um retrato na parede, uma referência do meu genro, ou quem sabe até uma lágrima de minha filha, quero lhe dizer meu neto, que vale a pena.

Vale a pena crescer e estudar. Vale a pena conhecer pessoas, ter namoradas, sofrer ingratidões, chorar algumas decepções. E, a despeito de tudo isso, ir renovando todos os dias a sua fé e a bondade essencial da criatura humana, e o seu deslumbramento diante da vida.

Vale a pena verificar que não há trabalho que não traga sua recompensa; que não há livro que não traga ensinamentos; que os amigos têm mais para dar que os inimigos para tirar; que se formos bons observadores, aprenderemos tanto com a obra do sábio quanto com a vida do ignorante.

Vale a pena casar e ter filhos. Filhos, que nos escravizaram com o seu amor.

Vale a pena viver nesses assombrosos tempos modernos, em que milagres acontecem ao virar de um botão; em que se pode telefonar da Terra para a Lua; lançar sondas espaciais, máquinas pensantes à fronteira de outros mundos, e descobrir na humildade que toda essa maravilha tecnológica não consegue, entretanto, atrasar ou adiantar um segundo sequer a chegada da primavera.

Vale a pena, meu neto, mesmo quando você descobrir que tudo isso que estou tentando ensinar é de pouca valia, porque a teoria não substitui a prática, e cada um tem que aprender por si mesmo que o fogo queima, que o vinagre amarga, que o espinho fere, e que o pessimismo não resolve rigorosamente nada.

Vale a pena, até mesmo, envelhecer como eu e ter um neto como você, que me devolveu a infância.

Vale a pena, ainda que eu parta cedo e a sua lembrança de mim se torne vaga. Mas, quando os outros disserem coisas boas de seus avós, quero que você diga de mim, simplesmente isso:

“Meu avô foi aquele que me disse que valia a pena. E não é que ele tinha razão?!”

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Mundinho digital

Conversando com um amigo me lembrei que tive o privilégio de, em alguns momentos, estar com pessoas especialíssimas, como num jantar na casa do Presidente Juscelino Kubitscheck em que ao servirem o café e o licor, na maior intimidade, ele tirou os sapatos e, com jeitão mineiro, como se estivesse em Diamantina, ficou só de meia cantando “Peixe Vivo” acompanhado do violão de Dilermando Reis. Ou em uma noite em Nova York na saída do Carlyle quando consegui trocar uma meia dúzia de palavras com Woody Allen e pedir um autógrafo. E o olhar encantado do Maestro Zubin Mehta ao avistar o cenário da enseada de Botafogo em dia ensolarado onde faria um concerto com a Orquestra Filarmônica de Israel. Mas lamentavelmente não tenho registro desses encontros. Era um tempo sem selfies e se fosse hoje certamente eu fotografaria as meias do presidente, o cineasta americano assinando no papel ou tocando clarinete… Até havia celular no evento do maestro indiano, mas sem câmera…

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Fotografei todos os terceiros dias de cada mês do primeiro ano de vida do meu filho. Se fosse hoje estaria com uma página no face, espaço no Instagram, mostrando cada espirro ! Fico pasma com as tantas imagens que antes eu ainda gravava em cds, dvds, e hoje estão em arquivos nas nuvens, dezenas de pastas digitais… É só dar uma “googada” em imagens de Vila de Santo André que qualquer pessoa tem à disposição dezenas de fotos que eu fiz… Ainda não sei muito bem o que fazer com tudo isso, conviver com este “mundinho digital” que me parece muito etéreo… Gosto de mexer nas caixas de fotos, folhear álbuns antigos, como fazíamos em casa nos dias de chuva. Era uma grande diversão! Hoje guardo em caixas de isopor para proteger da umidade no sul da Bahia e me espanto ao encontrar algumas fotos sem qualquer significado, mas morro de pena de jogar fora. Não tomam espaço, são poucas entre centenas e por alguma razão foram parar ali. Acho que estou em tempo de imprimir umas fotos, fazer novos álbuns, ter algo para tatear, ver com os dedos daqui uns 20 anos…

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Apesar do apego ao impresso, tenho fascínio pela tecnologia. Gosto sempre de lembrar que tive o primeiro escritório de assessoria de imprensa no Rio com computador, mailings segmentados e por isso foi notícia na página de informática no jornal O Globo. Ao mesmo tempo que adoro aplicativos inteligentes – encontrei um que emite um sinal que afasta mosquitos! – uma parte de mim quer manter o papel e o lápis, o porta retratos antigo, as colagens em quadros, a foto 3 X 4 na carteira.  Assisti outro dia a uma reportagem mostrando que em uma escola nos Estados Unidos as crianças estão sendo alfabetizadas diretamente no tablet, sem acesso a papel ou lápis. Aprendem a digitar como no passado fazíamos em aulas de datilografia. Pensei se vão saber desenhar na areia, mesmo que apenas um sol ou um coração. E nessa viagem me lembro que o homem levou algumas centenas de anos tentando deixar suas informações em desenhos nas pedras, depois escritas nos papiros, evoluindo até chegar a prensa que veio democratizar a sua história na forma de livros… E agora, em menos de meio século, a brincadeira é outra…. Nunca foi tão rápido, nem posso imaginar o que ainda vem à frente, mas estou dentro. Anotando tudo e imprimindo fotos…

A visita

Entrou pela janela, tomou conta da sala e não importa quantos anos ainda vou viver, jamais esquecerei o cheiro do fumo do cachimbo. Veio como uma baforada da memória, era Half & Half o tabaco favorito do meu pai. Fui ao jardim ver se alguém na rua fumava, mas só havia o cheiro da dama da noite que vem da casa ao lado e nas noites de lua cheia parece que perfumam ainda mais. Só pode ter vindo nos pensamentos que volta e meia tomam conta de algumas horas do meu dia quando tenho dúvidas, quando tenho alegrias, quando saboreio algo muito bom, me lembro nele.

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Meu pai era uma grande figura, um homem que valia a pena conhecer. Mesmo quando adolescente, no tempo que se tem vergonha dos pais, eu gostava de mostrá-lo às minhas amigas pois sabia da sua história, tinha orgulho da forma como conduzia a família e se importava especialmente comigo e esquecia que tinha quatro irmãos, pois quando falava comigo, falava apenas comigo, era inteiro. Dizem que as pessoas trazem consigo a alma de outras vidas. Só assim consigo entender como o garoto que cresceu à beira da estrada de ferro vendo o pai sinalizar a passagem dos trens se tornou um homem refinado. Família simples, contava que conheceu creme dental aos 10 anos, mas se sofisticou: jogava tênis, bebia whisky, saboreava pratos da gastronomia internacional (aprendi com ele a comer goulash, filet au poivre, eisbein…) e estudou marketing em uma das primeiras turmas da ESPM. Lembro ele dizendo “marketing nunca terá tradução para o português, aprenda esta palavrinha”.

Com seu modo tranquilo de falar, sem elevar o tom de voz, dizia que fumar cachimbo, entre uma baforada e outra, dava tempo para pensar o que responder em uma conversa. E quase todas as nossas conversas tinham um pouco de fumaça. Quando aos 15 anos eu não quis ser normalista, me tornar professora como toda garota da Tijuca e prestei prova para estudar Máquinas e Motores na Escola Técnica, mesmo sabendo que eu podia não aguentar a barra, ele deu a maior força. Fiz apenas o primeiro ano e seu comentário foi que eu tinha tido um importante ganho: experiência. Aos 17 me apaixonei pelo professor de português que era comunista e o tom da pele beirava o mulato. Ele fez minha irmã se calar com comentários racistas e apesar de apoiar os militares que estavam no governo, recebia o revolucionário com sorriso sem falar em política.

A sua posição mais tocante aconteceu quando me separei. Pouco mais de 20 anos, um filho com 9 meses, voltei para casa dos pais e fui recebida com carinho. Depois de um mês, bem instalada, trabalhando e voltando à vida social, uma noite ele me chamou e perguntou o que eu pensava do futuro. Eu nem sabia o que pensar, mas achava ótimo estar com eles, protegida, amparada… Foi aí que ouvi a pior frase que com o tempo se transformou no melhor ensinamento. Em tom baixo, suave, apesar da força das palavras, ele disse: “quem pariu Mateus que o embale… Você casou, teve um filho, está na hora de recomeçar… Posso ser o fiador no aluguel de um apartamento e sempre estaremos aqui para apoiar”. Agradeço esta chacoalhada, se não fosse isso teria seguido a vidinha familiar e não teria feito o meu caminho.

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Ele nunca impôs aos filhos uma religião. Era kardecista, assim como seus pais, mas ajudou os padres a conseguir recursos para construir uma igreja no bairro onde morávamos em São Paulo e cobrava a nossa presença na missa. Dizia que quando adultos podíamos escolher uma crença, enquanto isso ir à igreja era bom…. Aos 84 anos ele estava num processo de esclerose senil, com momentos de lucidez, outros viajando nos pensamentos, e uma noite me telefonou dizendo que queria reunir os filhos e pedia para convidar um certo amigo espírita. Aquele era meu pai, determinado e lúcido. No encontro fez uma oração agradecendo pela vida e em particular pediu ao amigo que cuidasse espiritualmente da família. Sabia que não ia demorar para a grande partida. E estava certo…Por esta relação tão próxima e a sutileza na forma como hoje percebo a espiritualidade, quando senti o que para uns pode ser um cheiro estranho de tabaco e para mim é como um perfume, percebo ele por perto… Ao menos no meu coração… Obrigada pela visita, meu pai!

Saberes

Na balsa, no meio da travessia do rio João de Tiba, meu filho que me visita por uma semana pergunta se tenho mesmo certeza em não querer voltar a morar no Rio ou em São Paulo. Aponto a paisagem a nossa volta. De um lado a pequena Santa Cruz Cabrália, a igreja matriz de 300 anos encarapitada no alto do morro; embaixo os barquinhos pesqueiros no rio que uma parte desagua no mar, outra sobe para as áreas rurais. Um céu azul de brigadeiro, o sol morno de inverno. Tudo isso fala mais alto do que qualquer negativa. Sei que não é simples entender que optei por uma outra vida, cultura, valores e o quanto agradeço a oportunidade de estar conhecendo tudo isso nesta “encadernação”.

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Atenta, cada dia uma novidade aparece, um saber que se revela. No momento estou fazendo uma pequena obra no meu jardim, transformando um simpático chalé em uma casinha com cozinha e varanda. Além da excitação em definir sobre a construção de alguma coisa concreta, o que não é fácil para quem atua no campo do imaterial, estou fascinada com a habilidade do pedreiro. Um trabalho cuidadoso, criativo, olhar estético. Sugestões e comentários assertivos de quem deve mal ter concluído o ensino fundamental mas sabe do seu ofício. A vida foi ensinando, a prática foi apurando o conhecimento e o resultado terei pronto na próxima semana com um acabamento primoroso.

Estes saberes conquistados fora dos padrões acadêmicos, fez parte de uma boa conversa que tive há poucos dias com um antropólogo e uma bailarina que pela primeira vez visitaram a região. Embaixo da grande tenda no jardim, depois do café da manhã, encantados eles comentavam sobre quantas artes e ofícios criativos perceberam andando ao redor. Sem a necessidade de seguir um padrão rígido, utilizando o que se tem numa relação direta com a natureza, apreciaram construções mais orgânicas e harmônicas. Se apaixonaram pela habilidade como “tecem” telhados de piaçava, transformam troncos em canoas, fazem grandes colheres e conchas de coco.

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Vejo isso por todos os cantos não como obvio. Admiro quem faz. Do simples artesão que transforma galhos em luminárias, até a amiga doutora, com vasta experiência profissional, que se dedica a pintar lindas gamelas e fotografar para o Instagram o que de belo surge à sua frente. Recentemente uma amiga construiu um grande espaço para dar aulas de yoga, uma shala em madeira com telhado de piaçava. Ela desenhou o marceneiro local construiu, e quem vê não se contêm em perguntar quem foi o arquiteto. Dá até vontade de colocar a mão na massa, e por falar nisso, sonho em ir mais longe que os mosaicos que produzo com caquinhos de azulejos coloridos vindos de São Paulo. Quero colocar a mão na argila, trabalhar no barro, nem que seja para desenferrujar os dedos, afugentar a artrite.

Caixa Postal 68

Na fila aguardando para receber uma encomenda no correio, fiquei observando a moça do outro lado do balcão. Tinha uma pilha de correspondências na mão e com exímia habilidade, as colocava em alguma ordem. Atenta, absorta em sua função, nem olhava as pessoas na fila que esperavam o atendimento. Magra, cabelos um pouco ondulados com fios dourados, ainda não chegou aos 40 anos e conduz o seu trabalho com dedicação extrema. Como se sabe de tudo em uma cidade pequena, jamais ouvi falar se era casada ou tinha filhos. A cena parecia como a de um filme que só era exibido na minha cabeça. As demais pessoas na agencia, preocupadas em despachar ou receber cartas, nem percebiam. Fiquei pensando sobre os ofícios como aquele, que para alguns poderiam parecer monótonos, tediosos, mas para ela tinha um sabor de prazer. De segunda a sexta-feira, das 8 às 17hs, entre o balcão e um depósito, lá está a moça com voz delicada e um sorriso discreto.  Talvez quem leia esta crônica não vá ao correio há muitos anos e só receba a correspondência que o porteiro joga embaixo da porta ou nas caixinhas na entrada do prédio. Onde eu moro o carteiro não passa, tenho caixa postal na única agencia de correio da cidade e algumas vezes por semana passo para ver o que me espera.

cartas

Receber cartas é fascinante. Recentemente fui surpreendida por uma, manuscrita, enviada por um pediatra gaúcho, meu hospede por alguns dias.  Nos anos 80, quando morei em Nova York, escrever e receber cartas durante um período foi uma compulsão.  A escolha de sair do país foi minha, mas alguma coisa insistia em manter os vínculos. Eu escrevia muitas cartas, alguns amigos respondiam, outros desapareceram. As que enviei não sei se ainda existem, as que recebi tenho todas guardadas… Lindas cartas datilografadas de Edna Savaget, algumas em papel rosa, uma em delicado papel de seda. Cartas tão afetuosas que me faziam sentir como se ela estivesse ao meu lado conversando, como fizemos tantas vezes. “Amiga, íssima, ississíssima…” ou “Leoca querida do meu coração”, e lá vinham confidências, reflexões sobre o país como “Resolveram (os home do governo) acabar com os últimos redutos culturais da nossa terra: fecharam as duas revistas (maravilhosas por sinal) editadas pelo MEC….” , a alta do custo do vida – “o café passou a mil e 700 o kilo e a gasolina vai à 400” –  sua atividade profissional “estou há um ano e meio fora de circulação, sem frente de trabalho, sem trincheira, entretanto, os colegas não deixam que me esqueçam! Não há uma semana que passe que eu não seja convidada a participar de um programa…”  e a família com boas notícias do Leopoldo, da Andrea e do casamento da Luciana…

Carta manuscrita e cartões postais de Edney Silvestre contando que estava sentindo que o ano de 82 seria muito bom profissionalmente; as divertidas correspondências do Flávio Cavalcanti que vinham em envelopes geralmente grandes e me davam a impressão que colocava tudo o que estava na sua mesa: cartões, recortes de jornais, fotos… Sempre otimista, posso ouvir ele afirmando “as amargas não”, repetindo a frase título do livro de memórias de Alvaro Moreyra que ele tanto admirava. Certa vez Flavio enviou um pacote com camisetas onde mandou estampar o meu nome! Uma ode ao ego.

Uma linda carta da Janete Clair onde num trecho confessava que jamais escreveria outra novela sozinha. Tinha acabado de colocar o ponto final em “Sétimo Sentido”, não podia viajar “ …pois Dias ainda está escrevendo O Bem Amado até dezembro”… E Janete contou que “ …de tudo o que aconteceu esse ano, durante esse trabalho, tirei minhas conclusões. Jamais farei outra novela, sozinha, me matando numa máquina durante tanto tempo. Já dei muito de mim para o trabalho. (….) Só farei outra novela dando ideias e uma equipe escrevendo”

Cartas dos amigos do jornal, a letrinha bem desenhada da Sonia Biondo, outras datilografas em laudas. Cartas com desenhos feitos pelo filho que me faziam debulhar em lágrimas, conselhos do papai e um foi fundamental: “minha filha, não fique como Fernão Dias acreditando que encontrou esmeraldas e depois perceber que são simples turmalinas…”. Todas faziam meu coração bater acelerado, um alimento que manteria as minhas baterias carregadas na loucura que fizera em deixar a vida profissional bem estabelecida, um filho na casa dos pais e aos 30 anos começar do zero, sendo apenas um número a mais no Social Security.

Assim como Piaf, “je ne regrette rien”, nada a me arrepender… Nem consigo pensar quem eu seria hoje sem aqueles três anos na América… Além de todos os aprendizados, a oportunidade de experimentar uma outra cultura, o “american way of life”, criei um vínculo afetivo com as correspondências, me apaixonei por selos e postais. E nos dias atuais, mesmo sabendo muito dos amigos através do telefone, e-mails, whatSaap, Skype, redes sociais, cada vez que coloco a chave para abrir a caixa postal, por alguns segundos penso que alguém pode ter me enviado uma carta. Como aquelas que recebi e ainda guardo em envelopes com listinhas verdes e amarelas para que eu sempre lembre como é bom ter amigos!