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Fátima

Fatima4

Com Juliana Braga, num retorno à Fátima, embaixo de muita chuva, dia 31 de janeiro de 2004. A foto é da Denise Chaer.

Neste 13 de maio em que se celebra 100 anos da aparição de N.Sa.de Fatima aos pastorinhos, lembrei de 2003 quando fui morar em Lisboa integrando a equipe de produção daquele que, no ano seguinte, se tornaria o maior sucesso dos festivais de música em Portugal: o Rock in Rio-Lisboa. Fiquei imensamente feliz ao ser convidada a fazer parte do grupo que iria implantar este mega evento na Europa levando know how brasileiro.  Afinal aquele seria o meu 4º Rock. Mas as primeiras semanas na “terrinha” foram difíceis. A produção luso brasileira ainda se formava. Linguagens e culturas distintas. O escritório não estava pronto e improvisadamente ocupávamos uma suíte no 5 estrelas Hotel da Lapa. O apartamento que dividiria com outras brasileiras estava em fase de montagem, sem tv nem internet. Há muitos anos não sabia o que era compartilhar uma casa e me sentia sem chão. O assunto referente ao trabalho eu conhecia profundamente mas havia algo muito estranho naquele começo, eu era um peixe fora d´água. Estava quase arrependida de ter aceito a proposta, quando duas semanas após a chegada, num fim de semana, fui convidada a visitar Fátima. Com duas brasileiras peguei o ônibus e percorri pouco mais de 120km até chegar na cidade que respira turismo religioso. Todo o comercio vive do milagre das 3 crianças que tiveram a visão da Santa. Dos hotéis aos restaurantes, é só esse o tema. Chegamos ao Santuário e na pequena capela onde consta ter acontecido o milagre procurei um lugarzinho para fazer as minhas orações. Abri meu coração e travei uma conversa franca com N.Sa. de Fátima. Mesmo sem ter grande intimidade com a Santa, a não ser pela lembrança da infância quando, na escola das freiras, fazíamos procissão e cantávamos “A treze de maio na Cova da Iria no céu aparece a Virgem Maria…”, fui sincera. Coloquei as dúvidas e incertezas sobre o rumo que havia dado à minha vida, o compromisso de morar quase um ano em Portugal, o desafio em construir um projeto tão inovador num país desconhecido, o começo confuso e perguntei “o que estou fazendo aqui, o que tenho que aprender? ”.  Foi neste momento que o telefone, que eu retirara o som, se mexeu na bolsa encostada ao corpo. Olhei na tela e a chamada era da Roberta Medina. Atendi discretamente, ela perguntava se eu estava bem… O telefonema naquele momento serviu como resposta imediata à minha pergunta. Como se uma luz tivesse acendido na minha cabeça, dissipado qualquer dúvida, eliminado todos os problemas. Eu estava ali para fazer o meu trabalho de promover e trazer a memória do festival para outras terras. A família Medina confiava em meu trabalho e, como fiel seguidora do Don “Roberto” Quixote, iria às batalhas contra os moinhos de vento. Obrigada N.Sa. de Fátima por esse telefonema que sinalizou sua milagrosa presença e mudou meus pensamentos transformando minha estada em Portugal em uma experiência inesquecível.

30 anos de rock

Capara do livro

Capa do livro

Depois de 3 anos morando em Nova York em 1984 voltei a morar no Rio e restabeleci minha relação de trabalho como freelancer no Segundo Caderno de O Globo. Naquele tempo ofereciam ao “freelancer” reportagens que a equipe fixa ou não tinha interesse ou disponibilidade para fazer. Acredito que por ter sido repórter especial na área de cultura durante 5 anos na mesma editoria, recebi a tarefa de ouvir Roberto Medina “aquele publicitário visionário” que estava anunciando um enorme festival de rock para o ano seguinte.  Na sala de reunião da Artplan na Lagoa lembro perfeitamente de ter ficado extasiada frente a ilustração do Benício mostrando como ficaria a Cidade do Rock. Foi amor à primeira vista. Conhecia Roberto há muitos anos, admirava as realizações de seu pai Abraham Medina e fiquei boquiaberta com a capacidade de projetar algo tão grandioso para um Brasil tão tímido em matéria de showbusiness. Por ter vivido nos Estados Unidos tão recentemente eu tomara conhecimento de grandes festivais e eventos, mas nada se comparava a este. Fiz a primeira reportagem, tentei convencer ao editor que merecia uma capa do Segundo Caderno, mas tudo que consegui foi uma matéria de duas colunas numa página interna. O assunto era tratado com pouco crédito, nas entrelinhas eu entendia que viam como um delírio. Depois desta reportagem fiz outra, mais outra, e acabei me tornando uma espécie de setorista de “rock in rio” dentro do Segundo Caderno, ou seja, aquela repórter que fica colhendo informações sobre o mesmo assunto. Era um tema que poucos na redação acreditavam e eu estava completamente encantada com a ousadia e dimensão. Mesmo sem bola de cristal eu conseguia ver o que representaria para país.

Quando o festival aconteceu em janeiro de 85 eu tinha uma intimidade com o evento como nenhum outro repórter do jornal. Sabia de cor quantos caminhões de terra, quilômetros de grama, milhares de metros de fios para a iluminação “bailarina” criada pelo light designer Peter Gasper  e todos os detalhes do mega evento. Poucas semanas antes do festival começar Roberto me concedeu uma entrevista exclusiva que finalmente consegui colocar na capa do Segundo Caderno do jornal O Globo no primeiro domingo do Rock in Rio. Nesta reportagem ele contava sobre sua vida, o desejo de ser poeta, a influência do pai e o desafio de fazer o festival. Uma das fotos que ilustrou a matéria mostra a família, tendo Roberta e Rodolfo, hoje principais cabeças do festival, ainda bem crianças. Como “prêmio” fiquei 10 dias trabalhando no sol e na lama, escrevendo para o jornal críticas, matérias sobre comportamento, tudo o que estivesse acontecendo, e quando o festival acabou, Medina fez o convite para que no próximo eu integrasse sua equipe. E lá estava eu. Rock in Rio Eu Acredito.