Noite mágica

dante

Acabou a luz.  Estava almoçando, passava das 13hs quando um sinal, quase um apito, soou na caixa que distribui energia elétrica de casa avisando. A geladeira que faz um barulho quase imperceptível se calou e o silencio dos elétricos eletrônicos se fez. Isto tem acontecido com certa frequência. Vida rural, repito sempre. Fiz o procedimento padrão destes momentos: troquei o telefone sem fio por um convencional. Telefonei para a Coelba, empresa de energia elétrica da Bahia, registrando a ocorrência e fiquei esperando voltar a vida normal a qualquer momento, como avisou a atendente. Pensei em costurar mas faltava a máquina; bordar, mas a luz era pouca; ler, mas o vazio do dia me tirou a atenção. Desliguei o celular para economizar a bateria, fui varrer o pátio e admirar a bela luz da tarde nas plantas do jardim…. Preparei as velas e lanternas, o dia acabou e a vila virou um breu.

A programação, como em todas as noites em que isso acontece, seria ouvir o silencio da noite contando estrelas, pensar na vida e dormir cedo. Ocorreria se não tivesse como hóspede Dante, um menino de 4 anos, esperto, inteligente e com criança tudo pode virar brincadeira. Foi assim que a grande atração a luz de velas foi a minha coleção de caixas de música. Há quanto tempo eu não as ouvia! Como fazem bem à minha alma. E foram saindo, uma a uma, do pequeno armário de vidro e postas na mesa de centro da sala. Não contei a ele que quando criança quis muito ter uma caixinha de música. Pedi ao Papai Noel, depois aos namorados, aos maridos, mas creio que meus pedidos não foram tão relevantes pois jamais ganhei. Até que ao chegar na casa dos 40, participando de um grupo de estudos de neolinguística, quase uma terapia em conjunto, surgiu o assunto de desejos simples não realizados e alguém perguntou: onde ficou a sua criança?

Bem, encontrei a minha no dia seguinte ao passar por uma loja num shopping e avistar na vitrine uma caixinha de música. Estava eu ali, cabelos claros e encaracolados, as mãos segurando o vestido, sapatos de pulseirinha, bem colocada em cima de um coração cor de rosa. Comprei, pedi para embrulhar para presente e ao chegar em casa abrir e pus a tocar e a menina a dançar como eu fazia quando criança ao som de Hi-Lilly, Hi-Lilly, Hi-lo  do filme “Lilli” com Leslie Caron, Mel Ferrer e Jean Pierre Aumont, paixão da minha infância.

Depois dessas surgiram outras… Presentes de amigos, lembranças de viagem. “Pour Elise” na caixinha que trouxe de Geneve, “I Left my Heart in San Francisco” tocado num bondinho da cidade na Califórnia, a engrenagem antiga exposta em uma caixinha de acrílico com uma canção medieval que encontrei no Mosteiro de Montserrat na Espanha . Também tem “Lago dos Cisnes”, “Hino ao Amor”, cantigas folclóricas, “Let it be”, “New York, New York”, enfim um repertório diverso que enche meus olhos e meu coração.

E assim ficamos, eu e Dante, colocando todas as caixas para tocar ao mesmo tempo, levantando tampas e deixando a bailarina dançar, os patinhos rodar num lago de espelhos, o piano a disparar Bethoven ! Uma noite mágica para mim e para ele. Nunca foi tão boa a falta de luz…

Foto : Cláudia Schembri

Vale tudo

Eu não sei qual a música tocava quando nasci, mas cresci com uma profusão de sons, estilos e tendências diversas.  Tenho o sentimento que a minha infância acabou quando vi Maysa cantando na TV. Por conta de um acidente doméstico naquela noite fiquei acordada até mais tarde e para me distrair papai deixou a TV ligada. Num estúdio enfumaçado, com pilastras greco romanas, Maysa caminhava em direção à câmera segurando uma taça que continha algum líquido, o cabelo caindo no rosto, um vestido drapeado no ombro e cantava “Meu mundo caiu”.  Naquele momento o meu mundo também caiu.  Constatei que havia uma outra essência de arte que nem meus pais, irmãos, as freiras do colégio, os amigos da rua haviam me revelado. Abria-se um novo caminho em minha vida através da música. Não a música de fossa, o samba-canção pré-bossa nova que Maysa compunha e interpretava, mas a música como algo vital.

maysa

Não tive formação musical acadêmica. Quis aprender piano, acordeão, mas estava fora da “cultura da família” e do orçamento. Papai tinha uma visão interessante sobre os outros assuntos que estavam fora do padrão básico de educação e saúde. Jamais falamos sobre isso, mas com o passar do tempo concluí que ele acreditava que sua responsabilidade era oferecer aos 5 filhos, sem privilégios, tudo o que podia. Associou-se a um clube perto de casa onde todos podiam usufruir dos esportes. Comprou TV, vitrola, discos, livros e fez uma assinatura da revista Seleções. Informação para todos. Da coleção Tesouro da Juventude à obra de Monteiro Lobato, além de dicionários e livros diversos que se enfileiravam na estante do corredor. Lia-se com constância, por hábito, não por obrigação.

Musicalmente o seu gosto era eclético. Nos domingos e feriados, antes do almoço, ele colocava para rodar na vitrola LPs e discos de 98 rotações que variavam de Noel Rosa cantando com Aracy de Almeida à ópera Carmen. Não sei o que regia a seleção musical que ainda tinha Inezita Barroso, Glenn Miller, Tonico e Tinoco, Waldir Calmon feito para dançar, “Continental” (orquestrado com “standards” americanos), Agostinho dos Santos e por aí seguia… nenhum disco da Maysa, era um estilo novo demais. E foi esta falta de preconceito que estruturou minha vida muito mais do que papai podia imaginar. Qualquer som era bem-vindo, só havia o bom ou o ruim, sem julgamento, apenas sentimento….

tinoco

O rádio da Rosalina foi outro elemento importante. Ela era a empregada da família, viera do Paraná. Pequena e magra, tinha como relíquia um pequeno rádio que a acompanhava por toda a casa. Era uma caixa de madeira laqueada em tom marfim com uma telinha de tecido na frente por onde saía o som, próximo ao dial de plástico com os números das estações em AM. Na cozinha o rádio tinha lugar de destaque, quase um oratório sob a pia, de onde ela ouvia programas de auditório, novelas e muita música caipira. Não sei quantas vezes fiquei sentada num banquinho vendo a Rosalina fazer o melhor feijão com arroz e bife acebolado que comi na minha vida, ouvindo rádio…

Por isso aos 16 anos quando na casa da Ângela (naquele tempo era “da Cunha Porto Carreiro de Miranda” e depois casada com Gonzaguinha passou a assinar Ângela Gonzaga) vi uma roda de samba com uma porção de jovens cantando e compondo em pleno período de repressão política, a música pela segunda vez mudou a minha vida…  E assim o jornalismo e a música caminharam paralelo ao longo de mais de 40 anos.

Percebo e recebo qualquer estilo musical sem preconceito. Posso dizer não gosto, não quero ouvir em casa, mas respeito a forma de expressão sem gerar qualquer sentimento de raiva, revolta, ódio ou inveja…. Apenas um virar de página, mudar de canal. Esta reflexão vem por conta dos muitos comentários que li nos últimos dias com relação a morte do cantor e compositor Cristiano Araujo. Como dizia Tom Jobim, “no Brasil, sucesso é ofensa pessoal”, ainda mais quando vem de alguém que parecia ser desconhecido para um número enorme de formadores de opinião. Não ouvi “Bará bará bará berê berê berê” a composição que lançou o rapaz de Goiás, mas também não causaria qualquer dano à minha integridade intelectual. Porque como se dizia quando eu era criança, “entrou por um ouvido e saiu pelo outro”. Vale sim pensar que “O Brasil não conhece o Brasil”, como tão bem escreveu Aldir Blanc.

Imperial

Um painel com fotos que quase se perdeu no tempo, foi recuperado e enfeita a varanda da minha casa. Para quem não me conhece é um cartão de visitas. Um currículo resumido, um pedaço da minha história e dos amigos, tão marcante que usei para a capa do meu livro “A Verdade é a Melhor Notícia”. Entre tantas fotos, uma sempre atrai olhares. Talvez por estar no alto, por ter sido feita por um bom profissional que nem recordo o nome, mas com referências importantes da cultura nacional. Esta foi a tônica da conversa de hoje no café da manhã com meu hóspede poeta mineiro, sobre quantas historias apenas em uma imagem. Acontece que quando vejo este retrato a memória se aviva de tal forma que sou capaz de sentir a temperatura daquela noite de verão de 1974.

Da esq para a direita: Chico Anysio, Milton Moraes, Jorge Doria, Paulo Pontes, Plínio Marcos e Juca de Oliveira. Embaixo Tetê Nahaz, Fernanda Montenegro, Terezinha Sodré, eu, Cidinha Campos e Eva Wilma.

Da esq para a direita: Chico Anysio, Milton Moraes, Jorge Doria, Paulo Pontes, Plínio Marcos e Juca de Oliveira. Embaixo Tetê Nahaz, Fernanda Montenegro, Terezinha Sodré, eu, Cidinha Campos e Eva Wilma.

Eu tinha 25 anos, um filho com pouco mais de 1 ano e uma separação recente. Muitas responsabilidades e a vontade de viver todas as irresponsabilidades, pesando na mesma balança. O vestido vermelho era novo, comprado para a festa de aniversário algumas semanas antes. Na verdade, uma festa onde eu e minha prima C produzimos para celebrar um novo ano e um futuro que nem sabíamos por onde ia andar. Tínhamos filhos para criar e todos os desejos de jovens mulheres abandonadas pós maternidade.  Queríamos muito nos festejar e resolvemos comemorar nosso aniversário com uma festa na véspera do ano novo.  Compramos vestidos iguais, o meu vermelho o dela roxo, e sandálias com saltos altíssimos em prata e dourado. Não existia cartão de crédito, pagamos em prestações em uma loja super chic pois nosso cacife era pequeno. Apesar da falta de prática em produção, os moveis do meu apartamento recém alugado na Voluntários da Pátria foram desmontados e guardados no quarto de empregada.  Sala e dois quartos para os muitos convidados que podiam se espalhar em almofadas enormes e alguns estrados com colchão substituindo o que seria um sofá.  Publicitários, jornalistas, poetas, empresários, enfim, um grupo de peso. Whisky a rodo, um espaguete na madrugada, e antes de me recolher anunciei: o último que sair fecha a porta e joga a chave por baixo. Surpresa ao amanhecer e encontrar dois casais que por lá dormiram e civilizadamente conversavam no preparo do café da manhã como se tudo fosse muito normal, apesar de sabermos que tinham chegado à festa com outros pares. Os tempos eram assim…

E foi neste clima do meu primeiro verão como mãe e sem marido, me reinventando para um futuro que não tinha ideia como seria, que Carlos Imperial telefonou convidando para a grande noite do “Plá do Imperial”. Um parêntese sobre o Imperial:  eu o conheci na TV Continental onde era secretária do Eli Halfoun, assessor de imprensa da emissora que estava com nova direção. Havia um programa de entrevistas no fim da noite apresentado por Fernando Lobo e Haroldo Costa, e eu adorava ficar até tarde ajudando na produção, e Imperial foi um dos entrevistados. Da Continental convidada por Moyses Fuks, fui trabalhar na Bloch Editores onde preparavam equipe para uma revista sobre TV, celebridades e ainda tinha fotonovela! Antes da revista Amiga existir eu já estava lá acompanhando a criação do projeto editorialmente novo inspirada em uma publicação italiana. Até o nome era igual.  A revista foi para as bancas e com alguns meses na estrada, creio que foi o Moyses Weltman, diretor da revista, ou foi o Fuks , que convidou o Imperial para assinar uma coluna. Produtor, compositor, criativo, mas vamos combinar que não era jornalista… E me lembro perfeitamente das primeiras colunas onde muitos palpitavam, incluindo eu…. Passávamos noites deliciosas rindo com as loucuras do Imperial.

E aí a coluna fez um grande sucesso… Provocador, debochado, engraçado foi conquistando admiradores e claro que criando também inimizades. Sem meias-palavras, colocando apelidos em muitos artistas e muito bem informado, para pontuar ainda mais seu espaço na mídia, criou um prêmio: o “Plá do Imperial”. Um medalhão dourado que anualmente entregava às pessoas que considerava terem bom humor para conduzir a vida e a arte. Assim como ele….

Não tinha como perder a festa que prometia ser a mais animada daquele verão e ainda por cima acontecendo no bar e restaurante Berro D´Agua, um dos visuais mais lindos da cidade, apesar de instalado nas obras inacabadas do Panorama Palace Hotel, entre os morros do Cantagalo e Pavão. Com o capricho do cabelo e maquiagem, vestido vermelho, fui sem imaginar que seria homenageada. Fui pela noite que prometia ser divertida, convites disputados aos tapas e a presença da fina flor do mundo artístico. E, surpreendentemente, quando Imperial anunciou os premiados lá estava eu…. Não sei se fiz algo tão importante naquele ano para merecer o prêmio, mas ele sabia dos meus desafios e resolveu levantar a minha moral.  E cada vez que vejo esta foto e os que me cercam, tenho orgulho de ter participado desta geração com Chico Anisio, Milton Moraes, Jorge Doria, Paulo Pontes, Plínio Marcos, Juca de Oliveira, Tetê Nahaz, Fernanda Montenegro, Terezinha Sodré e Cidinha Campos a caminhada não tem sido em vão. Valeu Imperial….

Na foto abaixo, boas memorias do meu gordo amigo, cercada por Ana Maria Farias, Ewaldo Lemos, Leda Nagle, Jalusa Barcelos e Tetê Nahaz.

Esq p dir AnaMariaFaria_EvaldoLemos_LedaNagle_CarlosImperial_JalusaBarcelos_TetêNahaz

Tempero bom

Conheci a Aroeira quando vim morar na Bahia. Uma árvore frágil com galhos finos que se quebram com o vento mais forte. Dizem que sua casca tem poderes curativos (*) mas o que me encanta é o seu fruto, uma pequena e delicada pimenta vermelhinha, conhecida no exterior e vendida a preço bem salgado como pimenta rosa. Uma vez ao ano as aroeiras dão frutos. O jardim da minha casa e as ruas da vila são tomados pelo perfume delicado da pimenta, é quando retiro os galhos e começo um exercício de paciência, uma terapia tão boa como juntar tecidos em colchas de retalhos ou caquinhos de cerâmica em mosaicos.

Este é o processo da melhor terapia de outono. Neste período, nos momentos livres, me acomodo no sofá em frente à mesa ocupada com potes e bacias. Uma bacia com os cachos de pimenta, um prato para os pequenos galhos e outro onde vou colocando cada bolinha vermelha retirada com a tesourinha. Meus pensamentos voam. Manhã tarde noite, chuva ou sol, às vezes em silencio, outras com música, assistindo tv, faço render estes momentos de reflexão. Assisti ao longo da tarde e vi entrar a noite o julgamento no STF sobre as biografias. “Cala boca já morreu quem manda na minha boca sou eu” na voz da Ministra Carmem Lúcia ficou ecoando nos meus pensamentos lembrando o jeito malcriado de responder às brincadeiras. Falar assim em casa nem pensar. E quem me fez calar? Enquanto os ministros do STF apresentavam seus votos eu dividia meus pensamentos entre o julgamento e a censura interior. Até que ponto me censurei, me calei, me submeti… A reflexão continuou até a madrugada.

Num fim de semana revisitei a Europa em pensamentos na companhia de Gilda Muller. Seu humor sofisticado e elegância estavam no cenário da minha primeira viagem por Lisboa, Roma, Londres e Paris. Inesquecível. Eu e as pimentas, uma enorme intimidade e cumplicidade. Uma noite quase furei o dedo com a imagem do “derrière” do belo Rodrigo Lombardi. Belo Lombardi ou belo derrière? Não importa, mas sim as elucubrações do que pode ou não na TV numa falsa moral.

Nestes últimos tempos descobri no Youtube umas aulas/palestras do historiador Leandro Karnal. Gaúcho, professor da Unicamp, é uma estrela de encontros literários e acadêmicos, palestra na Casa do Saber e no Café Filosófico da CPFL. Cortando pimentinhas tenho me deliciado com seu conhecimento mesclado com muito humor em temas como “Hamlet de Shakeaspeare tendo o mundo como palco”, “A inveja e a tristeza sobre a felicidade alheia”, “O ódio no Brasil”, “O orgulho nosso de cada dia” e uma série de temas interessantíssimos. E confesso que jamais imaginei, nem nos sonhos mais tresloucados, que um dia iria debulhar pimenta filosofando… Que fantástico estes novos tempos onde apesar de tão longe, numa tarefa rural, estou tão perto do que se discute de forma inteligente neste mundo…

* Um pouco sobre Aroeira

Aroeira é uma planta medicinal, também conhecida como aroeira vermelha, aroeira-da-praia, aroeira mansa ou corneíba, que pode ser utilizada como remédio caseiro para tratar doenças sexualmente transmissíveis.

O seu nome científico é Schinus terebinthifolius Raddie pode ser comprada em algumas lojas de produtos naturais e em farmácias de manipulação.

Para que serve a Aroeira

A aroeira serve para tratar febre, reumatismo, sífilis, úlceras, azia, gastrite, tosse, bronquite, íngua, diarreia, cistite, dor de dente, artrite, distensão dos tendões e infecções da região íntima.

Propriedades da Aroeira

As propriedades da aroeira incluem sua ação adstringente, balsâmica, diurética, anti-inflamatória, antifúngica, antibactericida, tônica e cicatrizante ginecológico.

Modo de uso da Aroeira

Para fins terapêuticos são utilizadas as cascas, especialmente para fazer chá, e as outras partes da planta, para preparar banhos.

Infusão de aroeira para problemas de estômago: Adicionar 100 gramas do pó da casca de Aroeira em 1 litro de água fervente. Tomar 3 colheres de sopa ao dia.

Banhos de aroeira para reumatismo e problemas de pele: Colocar 20 g de cascas de aroeira em 1 litro de água e deixar ferver por 5 minutos. Coar e tomar banho com a infusão morna.

Efeitos colaterais da Aroeira

Os efeitos colaterais da aroeira incluem reações alérgicas na pele e mucosas.

Contraindicações da Aroeira

A aroeira está contraindicada para indivíduos com pele muito sensível.

Referencia : http://www.tuasaude.com

As Marcas

Uma amiga postou numa rede social uma foto da tatuagem que está alterando no pulso. O símbolo do infinito com as iniciais dela e do marido, uma prova do amor eterno, está desaparecendo… A letra inicial do nome dele foi apagada, assim como a relação que quase chegou aos 40 anos. Fiquei pensando que quando o amor acaba ficam marcas muito mais profundas que não tem laser ou tinta que remova. Como no poema de Drummond “de tudo fica um pouco”. Lembro de cheiros, roupas, sabores que ficaram no fim de relações. Manias, palavras, músicas, apelidos, algumas lembranças me acompanham até hoje.

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Qualquer um é capaz de fazer uma lista com detalhes, como diria Roberto “tão pequenos de nós dois”, de um amor que ficou no passado… Ou mesmo um amor que tenha sido curto mas muito intenso, pois o amor não tem tempo nem hora, tem fôlego… Vivi paixões profundamente, loucamente, algumas erradamente, mas sem qualquer julgamento, deixando seguir apenas o sentimento respirado, palpitado, suspirado… Mas nenhum desses amores senti vontade de tatuar o nome, uma inicial, um símbolo, uma lembrança… Era sair muito da casinha e, por mais loucuras que tenha feito, meu sentimento interior é bem comportado. Não era medo da pele envelhecer e a borboleta perder a cor, mas a incerteza de carregar no corpo, para sempre, alguma coisa que perdera o significado. Mas confesso que muitas vezes quis “ficar em seu corpo feito tatuagem” como Chico escreveu, e uma noite, no velho e bom bar do restaurante Flag, em Copacabana, fui cantada literalmente com esta canção. E é claro que “virei tatuagem” por uma noite! Memórias divertidas…
Há alguns verões, enquanto conversava na praia com a psicanalista Ana Veronica Mautner, passaram em nossa frente duas moças muito tatuadas. Nos entreolhamos e ela comentou que isso era falta de cueiro. Cueiro ? Talvez muitos não saibam o que é cueiro, aquele pano que embrulhava bebês deixando-os amarradinhos só com os bracinhos pra fora… Isto é coisa de mais de 40 anos…Segundo Ana, que pertence à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, autora de livros e que escreve na Folha e em algumas revistas, a pele, nosso maior órgão dos sentidos, é para sentir, é ali que reside o tato. O desenvolvimento começa no nascimento com o contato com a mãe, o sentir da fralda, da roupa, do travesseiro e, segundo ela, “a partir dessas imagens que formulamos nossas primeiras vontades – de alcançar, de conseguir, de empurrar, de ter força”. Como os bebês destes novos tempos são vestidos com roupas largas ou até nenhuma, nada impede o seu movimento, com isso seu tato através do corpo é muito pouco estimulado….
E assim, lá na frente, a tatuagem vem cobrir seu corpo, uma relação de tato que ficou esquecida, comprometendo o fluxo de tomada de decisões pela vida afora e acaba sendo um elemento de interface entre o ser e o mundo. Faz sentido esta conversa, se pensar que os bebes já nascem tão livres, praticamente com um controle remoto na mão, completamente independentes e donos de suas vontades. Mas apesar de admirar tatoos de amigos, alguns com verdadeiras obras de arte no corpo, não me inspiro a fazer qualquer desenho. Nem uma borboletinha na perna, um coração no pulso, uma flor de lótus nas costas, um pássaro no braço, uma estrelinha no bumbum, um símbolo do OM no seio…. As marcas da minha vida estão todas na memória, e que Deus as conserve para sempre…

Falta luz. Às vezes isto acontece e não é apenas um problema da vida semi rural. Agradeço por não ter que subir 10 andares de escada, não ficar presa num elevador ou num escritório onde as janelas não abrem. Sinto o silencio, ouço o canto mais claro dos pássaros, o barulho do mar batendo na praia, o movimento dos galhos nas árvores e ao longe as motos que passam em velocidade. Quando falta luz a noite o clima é de magia. Acendo velas pela casa, deito no banco do pátio e observo as estrelas. De vez em quando passa um vagalume, despenca uma estrela, o silencio é diferente. Até os pássaros tem um canto mais contundente.

Foto: Cláudia Schembri

Ainda tem bateria no notebook, posso escrever antes que escureça. Não nasci contemplando, aprendo com o tempo. Certa vez assisti a um filme de animação encenando a chegada dos portugueses no Brasil. Os índios olhavam para o mar e não viam as caravelas que estavam bem próximas a praia. Eles nunca tinham visto caravelas, como reconhecer uma? Em muitas das leituras de física quântica que às vezes me arrisco, Um Curso em Milagres por Skype, estudos sobre espiritualidade, reflexões sobre os poderes da mente, tem uma costura fina em comum: tudo o que vemos está de alguma forma espelhando o que há dentro de nós.  Do amor ao ódio, do bom ao mau, do certo ao errado. São informações/imagens/conceitos pré-concebidos que recebemos/vimos/vivenciamos e a partir daí fazemos o nosso julgamento.

Mudar o tom da conversa, do olhar, faz uma grande diferença. Uma vez fui convidada para ser “ombudswoman” de um prefeito no Rio de Janeiro. Ficaria cada semana em um bairro ouvindo as reclamações, pedindo soluções aos secretários, dando retorno às comunidades. Não respondi de imediato ao convite que me dava status de secretária, fui ouvir às bases e concluí que em menos de seis meses estaria estressada, deprimida, ouvindo tantas dificuldades sem poder resolver. Agradeci e saí de fininho sem queimar a relação com o amigo gestor.

Como não convivo com tanta violência urbana, posso pedalar pelas ruas sem medo e andar com as janelas do carro abertas. Outro dia assisti a uma cena engraçada: um carro com turistas percorria em baixa velocidade a rua principal de Cabrália como se procurasse a localização de algum destino a visitar, quando um informante de turismo saiu correndo atrás do veículo para entregar um mapa. Imediatamente o motorista assustado fechou a janela, acelerou e na certa pensou que era um assalto.  Ainda não vivemos assim. Nas últimas semanas aconteceu a seleção para profissionais ocuparem   diversas áreas no quadro de funcionários da prefeitura. Salários menores do que as grandes cidades, mas uma qualidade de vida incomparável… Chegaram inscrições de todo o sul da Bahia, além de Minas, Goiás, Espírito Santo…. Não sei se é o desemprego ou o desapego, mas sei que há uma busca para o melhor.

No fim de semana no restaurante à beira do rio, paisagem divina, fui apresentada a dois homens, um na faixa dos 60, outro pouco mais de 30, que estão viajando desde Abrolhos buscando um lugar para morar onde haja paz. Podem trabalhar à distância e ficaram encantados ao saber que além da beleza e facilidades para os atendimentos e necessidades básicos, nesta vila também tem um grupo de pessoas interessantes o que nos faz sentir menos sozinhos.  Seguiram para Canavieiras, depois Itacaré, Barra Grande, Maraú, Taipu de Fora e sei que foram levando a vila em suas retinas e procurando uma nova forma de construir seus sonhos.

Foto: Cláudia Schembri

Assistindo um noticiário na TV contando sobre a 10ª vítima de alguma faca, meu olhar se desviou da tela e pousou no porta-retratos onde meu irmão me sorri. Mais uma vez agradeci por esta oportunidade de fazer diferente os meus dias. Cada um sabe onde dói seu calo, diria meu pai. Posso perceber nas curtidas ou comentários das fotos que publico nas redes sociais quantos suspiros e ais. Sei que nem todos têm disponibilidade e coragem para recomeçar de outro jeito, e também muitos preferem o asfalto, as grandes edificações, o burburinho da cidade grande. Monóxido de carbono também vicia. Não digo que é fácil…. Conheço uma meia dúzia de pessoas que vieram e não deram conta desta placidez. Um casal que veraneava há anos por aqui aposentou-se em São Paulo comprou um belo terreno na praia, construiu uma casa linda e veio com tudo. Não se aguentaram um ano. Casamento desfeito, casa vendida. Uma mulher na faixa dos 50, filhos criados, chegou e ficou tão fascinada. Ligou para o ex-marido, um homem muito influente na República e pediu uma casa. Ele comprou, ela foi ao Rio buscar a mudança e sumiu. Caiu na real que para entrar numa busca interior tem que ter uma boa dose de domínio exterior. Não me admira a impetuosidade, mas a inconsequência… Eu quero porque quero sem medida e com pressa. Ninguém disse que seria fácil, poucos encaram uma noite no escuro, como esta que vem chegando e percebo por só ter a me iluminar a tela do computador.   Vou acender umas velas, deitar no pátio e ver se as estrelas já chegaram.

Fora da Caixa

No pequeno e belo trajeto de balsa na travessia do rio João Tiba não se gasta no percurso nem 15 minutos, mas se ganha muito na conversa. Outro dia éramos seis, diversas faixas etárias, vindo de vários pontos do país, havia um colombiano, e falávamos sobre mudanças, grandes passos que se dá na vida. Alta filosofia para um curto tempo. Formas e movimentos peculiares, mas um fato era unânime: todos tinham se arriscado sempre. Há de se pensar que optar por morar num local distante e com um mínimo de infraestrutura já é um risco. Mas o assunto caminhava também através dos medos, o sentimento de estar se jogando no espaço sem rede, acreditando que é possível até nascerem asas para voar.

Foto: Cláudia Schembri

A balsa chegou ao seu destino, nos despedimos no cais de Cabrália, cada um seguiu seu rumo, e passei o dia pensando nos medos que não tenho. Na verdade não tenho tempo para eles. Lembro de um período quando tinha pouco mais de 24 anos, filho pequeno, fiquei sem trabalho e isso nem me fez cosquinhas. Rápido fui fazendo contatos, abrindo caminho e no final daquele mês tinha o dinheiro para as contas, nos meses seguintes também e nunca esse processo parou. Até hoje caminho nesta corda bamba vestida de bailarina, segurando uma sombrinha numa das mãos, braços esticados, buscando equilíbrio. Sempre penso que Deus tem um lugar cativo na minha carteira de dinheiro onde tenho a presença garantida de um santinho que a Mariangela Sedrez enviou por correio. Mas o meu bom pensar me faz crer que Ele está ali contando as notinhas, vendo o extrato bancário e quando o dinheiro fica curto acontece um milagre.

Os tempos não tem sido fáceis. A conta de luz subiu à altura do sol do meio dia. Está a pino queimando todos nós. Qualquer compra no mercado chega aos 3 dígitos. O tomate quase R$7,00 o quilo me deu um susto e comecei a reativar a horta. Abóbora, abobrinha, berinjela, tomate, couve, rúcula, alface, salsa, cebolinha em se plantando tudo dá, já ouvi alguém falar isso nestas terras. O plantar mais do que o resultado do alimento vem como um jeito de mudar o passo da dança, fazer diferente. Vou trocar os 16 pontos de luz no jardim, investindo em lâmpadas mais caras, com vida mais longa e menor consumo. Apertar o cinto de forma ecologicamente correta.

Mas as dificuldades não estão só no vil metal. Cruel a imagem multiplicada nas redes sociais do cardiologista assassinado num dos pontos mais lindos do Rio. Mexe com o meu coração as cenas dos milhares de imigrantes africanos navegando em busca de terra firme, jogados de um país para outro, sem rumo…. Podia ser eu…. Que mundo mau onde adolescentes atacam com facadas, que bate a porta na cara de quem precisa, que se digladia em nome de suas religiões e verdades absolutas. Vivemos uma crise de confiança em todos os pontos vista. Em quem acreditar, confiar, pedir ajuda. Assisto a tudo isso indignada. Não mundo o canal da tv, nem enfio a cara no chão como avestruz. Lamento estar vivendo nestes tempos e procuro fazer mais simples meus dias. Para uma capricorniana com ascendente leão, deixar de ser a dona da razão é um árduo exercício. Ainda atropelo com as palavras, disparo frases rápidas, não escondo uma grande vibração quando desenvolvo algum pensamento e fico feliz como criança frente ao brinquedo novo quando me deparo com uma nova ideia. Mas já tenho a consciência de que preciso respirar entre as frases, abaixar o tom e desacelerar.

Foto: Cláudia Schembri

É preciso força, coragem e fé para passar por este turbilhão que nos tira do prumo. Além do mais, quaisquer sequências de dias com chuva, em qualquer época do ano, aqui na Bahia chamam de inverno. A minha casa com tantas árvores ao redor fica úmida. Como disse certa vez um pedreiro “Dona Léa, quando chove a sua casa fica uma humildade enorme…”. Pode ser assim.  Baixa uma certa humildade, um ar reflexivo e como muito bem ensina Lucia Ehlers “não tem como fazer download para a iluminação divina”. É um dia de cada vez, suportar as más notícias, as intempéries e procurar algo de bom, nem que seja numa lasquinha de chocolate. Retomar o exercício da meditação, das preces ao acordar e ao dormir, ativar o Timo, os bons pensamentos, encarar a vida sem temor. Viver simplesmente o agora. A situação está difícil? Mas é o que temos para hoje, vamos pensar fora da caixa, fazer diferente, quem sabe amanhã vai ser melhor

Duas histórias de amor

Eu moro numa vila que tem mais história do que qualquer outro condomínio, bairro ou cidade por onde passei. Às vezes me sinto em Macondo, outras em Sucupira. Viajo de Garcia Marques à Dias Gomes num piscar de olhos. Por ser tão pequena tudo se sabe, tudo se ouve, tudo se fala. Não precisa de rádio ou jornal, as conversas surgem na balsa, na porta do mercadinho, no caminho de casa pedalando nas ruas. Já ouvi contar que em um velório o grande amigo da falecida deitou embaixo da mesa onde repousava o caixão e ali passou a noite velando o sono eterno.  Mas as histórias que mais gosto são as de amor.

Foto : Cláudia Schembri

Conheci uma moça cujo casamento estava em crise. Morava numa capital, era psicóloga, tinha um consultório com muito movimento, mas em vias de separação resolveu pedir um tempo e veio passar uns dias na Bahia. Baixa estação ruas vazias, silencio, perfeito para reflexão. Alugou quarto em uma pousada, caminhava na praia, comia prato feito nos restaurantes simples, via lua nascer, sol se pôr, ouvia as conversas nos bares e foi assim que conheceu um nativo. Artesão, rapaz jovem, corpo malhado, pele com aquele tom que mistura índio e negro, conversa sedutora, não demorou muito para a carência e o tesão se encontrarem e rolarem na areia.  Sem preocupação andavam pelas ruas abraçados, juras de amor eterno e 15 dias passaram muito rápido. Ela voltou para casa certa que queria outra vida, quem sabe até num povoado assim, algo mais apaixonante, orgânico, visceral. Pediu o divórcio, voltou a morar com a mãe e durante 4 meses o namoro a distância pegou fogo em intermináveis conversas ao telefone. A mãe não entendia como tinham tanto assunto apesar da enorme diferença social. A moça tinha mestrado, viajado o mundo, casado com um engenheiro de família tradicional, mas se encantara com o nativo e contava os dias para reencontrar. Programou um verão inteiro com ele. Alugou uma casinha no centro da vila, bem no meio do buchicho, em frente ao campo de futebol, onde nos fins de semana a música de gosto duvidoso corre solta em alto volume.  Mais ´[e no chão impossível. Se preparou como noiva.  Fez enxoval com camisolas sensuais, vestidos de alcinhas, biquínis e cangas, embarcou no voo da paixão e ele a esperava na balsa. Foram para a casinha que ela só conhecia nas fotos do face. Era bem rustica. Sem forro, telhas à mostra, um calor infernal, mas ela teve o cuidado em fechar a janela para se amarem sem medida. Quando o dia clareou ele correu no mercadinho trouxe o pão e pó para o café. A primeira refeição juntos em nova vida. E assim que acabou ela foi arrumar as roupas no pequeno armário e deu a ele um papel e lápis para anotar as compras que precisavam fazer. “Macarrão, sabão, açúcar, bombril… “ ia ditando enquanto pendurava um vestidinho mas percebeu que ele não anotava. Sentado no banquinho, apoiado na mesa, olhava a folha em branco.  “Anota aí senão a gente esquece”, brincou com o rapaz que envergonhado confessou “não sei…”

Ela pirou. Como assim?

A encontrei neste dia andando na praia sem rumo e ouvi a história. Ela disse que superaria a diferença social, a cor e a cultura. Viveria numa casa com telhado sem forro, ouviria o som dos vizinhos, mas analfabeto não. O amor não tinha tempo, ela tinha pressa para ser feliz. Deixou a casinha, mudou para o único hotel da vila, a mãe veio busca-la e partiu antes do ano novo. Nunca mais apareceu.  Ele hoje frequenta o EJA (Escola para Jovens e Adultos) quem sabe quando chegar um outro amor ao menos saiba fazer a lista de compras.

Foto: Cláudia Schembri

Esta outra historinha ouvi aqui, mas começou em meados do século passado. Como em qualquer lugar do planeta, um casal se conheceu, namorou, casou, teve filhos e separou. Ninguém sabe o que aconteceu, a realidade é que ele não quis mais saber dela. Abandonou com os filhos e foi embora dizendo a quem quisesse ouvir que daquela mulher não queria nem guardar a voz. Os filhos perderam o contato com o pai, de vez em quando alguém chegava com a notícia que ele tinha sido visto em outra cidade. Não casara nem tinha família, apenas empurrava a vida com a barriga. Filhos cresceram, seguiram outros caminhos e, como acontece em muitas famílias, uma filha ficou cuidando da mãe e veio morar bem perto da minha vila. Um dia recebeu o recado que o pai estava praticamente mendigando em uma localidade não muito distante. Botou o carro na estrada e foi a procura do velho. Mais do que o receio com a saúde do pai tinha a questão do que fazer com ele, como trazer para viver com aquela a quem tanto odiava.  Encontrou o pai doente e cego. Se não enxergava, menos mal. Não avisou a mãe e chegou com o pai em casa. A mãe olhou, olhou e não precisou muito para reconhecer o antigo amor agora bem-acabado. Os demais filhos se emocionaram, ela ficou num canto só olhando e, quando todos já estavam rindo, se aproximou se apresentando ou com outro nome. Ninguém riu, contestou ou questionou. Aceitaram a persona que a partir daquele momento passou a se dedicar ao ex-marido. Cuidava, dava comida, remédios, conversavam sentados na varanda. O que aconteceu entre os dois no passado nunca os filhos souberam, mas o que viram foi a mãe cuidando do pai nos últimos anos de vida.  Ele repetia sempre que ela era uma boa mulher, muito diferente daquela com que havia casado. Ela ouvia e não retrucava. Amor não se explica.

Querida mãezinha,

Ontem me lembrei de você. Comercialmente foi seu dia, mas prefiro pensar que foi simplesmente um dia como todos os outros 22.279 em que você esteve em minha vida. Lembrei das nossas conversas, em especial uma que considero a grande lição. Mais importante do que quando falávamos sobre a fé que você tinha dificuldade em admitir apesar de tantos santos e anjos na estante do seu quarto, bem mais do que o bordado em ponto de cruz que você me ensinou fazer ou a nossa árvore genealógica. Foi uma conversa nos primeiros dias de dezembro de 2009. Eu saía de São Paulo para passar o fim de ano em casa na Bahia e resolvi parar no Rio apenas para lhe dar um beijo. Uma parada de amor e a encontrei sentada em sua cadeira na sala de televisão. Do seu lado esquerdo a cesta com linhas do tricô, do outro a mesinha coberta por uma toalha de crochê feita pela vovó onde você sempre deixava uma tesourinha, agulhas, um lencinho, um bloco com caneta…Tirei os sapatos, me estiquei no sofá, começamos a falar sobre as festas do fim do ano quando você desabou…

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Sim, literalmente você desabou e despejou sobre mim a tristeza com o Natal que chegava. Você não queria nem mesmo montar a árvore com bolas azuis e o presépio. Você estava cansada para preparar a ceia, tirar a louça do armário, abrir o faqueiro e receber filhos, netos e bisnetos. A bem da verdade esta festa foi esvaziada em nossa família com a partida do papai que sempre puxava um animado e desafinado coro de Noite Feliz, e 21 meses depois quando o Victor foi se encontrar com ele na antevéspera desta data. Mas você estava em uma saia justa. O seu filho “meu tudo”, como você mesmo o denominava, queria reunir filhos e netos. Como ele morava com você a festa seria em sua casa. Sugeri que deixasse ele encarregado da festa, demoraria no máximo umas 4 horas e você poderia ficar no quarto com a Chica assistindo TV… Mas isto era impossível para você sempre uma cuidadosa anfitriã. E foi nas possibilidades que eu apresentava para minimizar o desespero que veio a frase fatal:

– Mas não faz mal, eu vou morrer antes e o Natal não vai acontecer. 

Pulei do sofá, puxei o banquinho, sentei na sua frente, segurei suas mãos, e por mais duro que tenha sido falei com carinho.

– Não seja tão prepotente mamãe… você pode até morrer, mas o Natal vai acontecer de qualquer jeito… Com ou sem você…Ele existe há mais de dois mil anos…

Ela parou, pensou e retrucou:

– Então vou morrer em janeiro.

Continuei o diálogo como se conversássemos sobre o cardápio da ceia.

– Não mamãe, você não vai morrer em janeiro pois estarei na Bahia e vou fazer 60 anos. Por favor não estrague a minha festa…. Em janeiro as passagens são difíceis, mais caras, estarei com hóspedes e não terei como vir ao seu enterro…

Respirei fundo, não acreditava que isto estava acontecendo, e ela não se deu por vencida…

– Então eu morro em fevereiro!

– Fevereiro nem pensar – contestei – Vou estar trabalhando para o Dody no navio do Roberto, já imaginou que confusão o navio ter que parar apenas para eu descer e vir ao seu enterro… Vamos combinar o seguinte: você fica quietinha até maio no seu aniversário de 90 anos. Depois disso voltamos a conversar sobre a morte.

E você aceitou minhas ponderações. Tomamos um café, conversamos banalidades e peguei meu voo para a Bahia. Na noite de Natal quando telefonei você estava bem animadinha com a festa. Passou meu aniversário e como sempre fazia você colocou um dinheirinho na minha conta “para comprar uma blusinha”.  Vieram fevereiro, março, abril e começamos a planejar sua festa de 90 anos dia 5 de maio aproveitando o feriado do dia 1º quando filhos e netos distantes poderiam ir ao seu encontro num almoço em família. Tudo pronto, família chegando de São Paulo e do Paraná, o feijão de molho esperando ir para a panela quando o dia raiasse, você acordou na madrugada para ir ao banheiro e levou um tombo. Um tombo bobo mas fraturou o colo do fêmur e foi parar no hospital. Almoço cancelado e, como nós havíamos combinado meses atrás, era hora de voltar a falar sobre a morte.

Fui vê-la no hospital e sem qualquer fé você percebeu a força da palavra e do pensamento. A cirurgia foi um sucesso, mas você não quis fazer fisioterapia e escolheu ficar na cadeira de rodas vendo cada dia nascer e aguardando a partida, uma despedida em longos nove meses, uma gestação.  Você ficou zangada, realmente de mal com a vida. Impaciente, melancólica e nenhum dos tantos santos e anjos no seu altar podiam lhe dar algum alento, pois você não acreditava. Você tinha medo de morrer, enfrentar o desconhecido e para quem sempre foi muito materialista foram dias muito tormentosos. Tempos em casa, outros no hospital. Pouco antes do Natal saí da Bahia e fui ao Rio só para vê-la na UTI. Uma despedida. Você não falava, mas percebeu que eu ali estava… Fiz uma prece, agradeci pela minha vida e entreguei você à Deus. Voltei para casa achando que era o final… Mas você resistiu mais um mês, de novo fui ao seu encontro e então você conseguiu ver seus quatro filhos reunidos ao redor do seu leito. Não falou, mas deixou uma lágrima correr. Apenas uma. Era a derradeira. No dia seguinte levamos seu corpo à morada final.

Estou contando tudo isso mãezinha, para confessar que quando me lembro de você, aumenta ainda mais a minha certeza na força das palavras e dos pensamentos. “Nós somos o que pensamos”, disse Buda, e todo dia penso em como sou feliz, saudável e grata aos meus antepassados. A sua pouca fé permitiu que nascesse uma fé enorme dentro de mim e sou imensamente agradecida…Mais do que a vida, você, através de um jeito truncado, me fez entender a morte… Fique bem, aonde você estiver… Um beijo da sua filha Léa

Vida rural

Foto Claudia Perroni

Quando eu ainda era apenas turista em Vila de Santo André hospedada na casa do meu irmão, ficava impressionada com a quantidade de insetos que surgiam nas noites de verão. Era difícil entender como meu irmão, um homem urbano, nascido e criado em grandes cidades, convivia com tanta rusticidade. Lagartixas apareciam ao escurecer correndo pelas paredes em busca de alimento. Aonde ficavam durante o dia, escondidas nos dutos de eletricidade? Ah! se morasse aqui iria fechar todos os buraquinhos, pensava na santa ignorância de que um dia a vida me pregaria uma peça e este seria o meu cenário.

Viver neste mundo é reaprender e nada mais me assusta. Se as lagartixas aparecem de noite, os calangos correm na grama e na areia durante o dia se escondendo entre as folhas.  Voam insetos de todos os tipos e cores que ficam fora do meu quarto com as janelas protegidas por telas…. As vezes tenho que apagar todas as luzes da casa para os cupins voadores ficarem de fora. Aprendi o nome de muitos passarinhos que comem a casca do meu mamão. A falta de experiência logo que aqui cheguei me fez acreditar que deveria comprar semente para os pássaros… Fiquei frustrada ao perceber que um determinado tipo alpiste só atraía pássaros pretos. Os sanhaços azuis e verdes, o sangue de boi, os sabiás da praia preferiam as frutas, assim tirei do meu orçamento este gasto.

As vezes surgem pequenos micos que saíram da mata pois lá não encontram o que comer. A vida está difícil até para eles…Tenho receio que invadam a minha casa pois são bem abusados e evito dar banana na mão como alguns vizinhos fazem. Outro dia surgiu um pequeno esquilo e as vezes boto para correr um saruê (espécie de gambá) ou um jupati (marsupial) que por aqui ousam chegar por descuido dos cães… A semana passada, sol a pino, adentrou a sala, pela primeira vez, um guaiamum. Patinava no piso de cimento queimado e foi caçado por Lelê minha fiel escudeira, nascida e criada na Bahia, que muito me ensina. Devolvemos ao quintal o guaiamum que também chamam de Maria Farinha para que encontrasse seu caminho de volta à praia.

Há alguns anos uma casa de cupim que cresceu em uma árvore no jardim foi tomada por maritacas. Acompanhei o trabalho dos pássaros de plumagem verde transformando em moradia. Um ficava como zelador na porta, o outro entrava e limpava. Não sei se quem trabalhava era o macho ou a fêmea, mas isso pouco importava. Fiquei feliz com os novos moradores do meu latifúndio, mas a alegria durou pouco. Abelhas vieram, tomaram a residência e transformaram em uma enorme colmeia que anos depois para retirar me deu muito trabalho.

esperança

As esperanças me surpreendem. Acredito que trazem sorte, boas novas, abundancia, saúde, prosperidade… Mas de todas estas experiências uma me fez viajar. Certa noite comecei a fechar as 9 janelas e portas do térreo da minha casa numa cerimônia de agradecimento ao dia quando ouvi o canto de uma cigarra. Não conseguia me concentrar nas preces tanto que gritava.  Pensei estar em algum lugar do jardim próximo a casa, mas com tudo fechado constatei que estava do lado de dentro. Afastei o sofá, a poltrona e nada. Fui dormir deixando a cigarra recolhida. Gritou, ou como alguns preferem dizer de forma poética, cantou, a noite toda… Fechei a porta do quarto, coloquei o travesseiro na cabeça para abafar o som e só consegui dormir ao lembrar que o seu cantar significava sol no dia seguinte e há alguns dias chovia. Ao acordar me deparei com a dita cuja morta no meio da sala. Explodiu com seu canto. É o que acontece com esse tipo de inseto.

Vendo aquela cena não resisti em criar um paralelo com a vida das cantoras líricas. Imaginei Maria Callas no final de uma récita implodindo no palco do Scala de Milão… Primeiro a garganta se dilataria estourando os fios de pérolas japonesas de um colar parecido com o que Marilyn Monroe ganhou de Joe di Maggio. Uma a uma as legítimas pérolas cultivadas saiam rolando pelo chão, caindo palco abaixo como um pequeno filete de água, ganhando o tapete elegante da plateia e depois o fosso dos músicos para incredulidade do maestro… Com o pulmão cada vez mais inchado, seria a vez de explodir o sutiã, começando a desestruturação do vestido de seda grená. O tecido ia esgarçando até rasgar, ao mesmo tempo que rompia a carne entre os seios de onde pulava o coração exausto de cantar… A plateia aplaudiria de pé diante da cena inusitada gritando por um bis impossível…Um espetáculo tragicômico, mas era o que passava em minha cabeça enquanto recolhia os restos mortais da cigarra…

Gritar até morrer, acho que tentei algumas vezes sem resultado. Chorei tanto, gritei tanto, mas só fiquei muito rouca e no desespero como num estalo fez-se a lucidez. Acabei preferindo o silencio, a reflexão, e na serenidade sou levada à viagens inesquecíveis dentro de mim. Viajo mesmo, mais longe do que qualquer psicotrópico ou ácido sonham chegar. Já me senti voando, o corpo expandindo, braços e pernas crescendo como se fosse aquele personagem João Pé de Feijão que numa corrida atravessa as nuvens e chega ao céu… Eu também subo montanhas, atravesso rios, cruzo mares e do alto vejo tudo tão pequeno e peço: Senhor, livre me de qualquer sentimento de medo e abra as janelas de minha alma e do meu coração para que eu possa sentir a verdade da vida nos minúsculos seres, como as pequenas cigarras.