Salve Iemanjá

Fiz um barquinho de papel enfeitei com fitas e flores, escrevi com lápis de cor meus agradecimentos, acrescentei os pedidos de saude paz amor alegria prosperidade sorte. Soltei ao mar com o dia chegando ja quente. Há de se respeitar esta senhora minha vizinha, dona das ondas e do mar, que se movimenta com as mudanças da lua, que muda de cor com os raios de sol ou com a sombra das nuvens. Esta senhora as vezes barulhenta, outras silenciosa, algumas em cheia, outras em vazante, mas que nunca se repete. Se cria e se transforma na sua essência de água luz e movimento. Proteja meus caminhos por terra e por mar. Abençoe os que te amam, perdoa os que te destroem. Hoje um viva à ela, linda dona de longos cabelos.

Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Descendo o rio

Fiquei boiando no rio como se nada mais existisse. Na superfície so as pontas dos dedos dos pés, das mãos e o rosto torrando no sol. O resto do corpo entre o flutuar e o ser embalado no silêncio da água tranqüila e macia. Podia ouvir a minha respiração mesmo com os ouvidos tapados. E fui descendo rio abaixo na vazante, levada paela correnteza para o mar, com uma vontade louca de olhar para a margem e saber o quão distante estava do solo firme. E dividida entre os pensamentos de me perceber sem pé, a deriva, fui me deixando levar num misto de medo e prazer. Constato que mesmo as grandes loucuras que fiz não foram vôo cego, usei alguma bússola, tinha algum norte. E neste minutos que não sei quantos foram com as águas do Passui contornando a Barra do Peso a caminho do mar quis me deixar levar irresponsavelmente. Está raso ou está fundo ? Consigo sair nadando ou não tenho mais fôlego ? Cansada de discutir comigo mesma desço a mão e sinto a areia. Quase me afogo em pensamentos por uma bobagem. Quantas vezes fiquei de olhos fechados imaginando monstros que nunca existiram. E a areia estava ali, firme para me apoiar. Tenho mais é que confiar na vida.

Enviado do meu BlackBerry® da TIM

Reflexões na lua cheia

 

A lua cheia de hoje em Vila de Sto André da Bahia

Respirou fundo, fez um pequeno movimento com as mãos mexendo na saia longa para realçar o franzido. Ajeitou o decote da blusa assegurando que as alças do sutiã estivessem escondidas, apertou o cinto que afinava a cintura, conferiu se os brincos de pérola estavam nas duas  orelhas – quanta vezes esquecera de colocar um – , acertou no colo a medalha de N.Sa. da Conceição presa por uma fina corrente, e sem mesmo olhar para qualquer espelho percebeu que estava pronta. Postou-se no último degrau da escada para iniciar a descida triunfal. Conhecia o espaço entre os degraus, a curva quase na chegada e foi caminhando com suavidade, segurando delicadamente a saia para não tropeçar e olhando com altivez… Percebia que a sala estava repleta pelo burburinho,vozes e comentários. Todos aguardavam este momento e as expressões do espanto alheio provocavam um enorme prazer… Não tinha borboletas no estomago, estava segura. Esperara muitos anos por este encontro. Olhava para o alto, a atenção voltada para o enorme lustre de pingentes de vidro imitando cristal pendurado no meio da sala, os quadros que se intercalavam entre paisagens rupestres e natureza morta ocupando quase todas as paredes e as janelas longas da sala com um pé direito dobrado se debruçavam sobre uma varanda mostrando parte do jardim bem cuidado…

Antes de descer o último degrau e pisar na sala para encarar a multidão que suspirava com a sua chegada, levantou com cuidado a saia, olhou para os pés e estava descalça. Que vergonha! Engoliu seco, levantou os olhos e a sala vazia. Ninguém falara nem suspirara. Não era esperada. Mas onde estou ? De quem é esta casa? Com a saia levantada, desesperada saiu correndo pela sala, atravessou corredores entrou em todos os cômodos encontrou roupas e objetos que deveriam lhe pertencer. Olhava tudo abobalhada. Como ficaram abandonados por tantos anos? E se é uma casa alugada quem era o fiador ? Não cobraram os aluguéis atrasados ? Não fora despejada  ? Será que seu nome estaria no SPSC ?

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Casas e apartamentos surgem em meus sonhos há muitos anos … Um sonho que de tão familiar nem sinto como pesadelo… É uma cena recorrente, um filme com o mesmo roteiro que muda de cenário, mas me traz moradias que poderiam ser minhas … Nem sempre desço a escada com o vestido longo e um rosto que desconheço… Mas é um pensamento constante que surge mesmo acordada. Já as casas esquecidas são tão reais que chego acreditar que existiram e fico procurando em que momento de minha vida passei por elas… Algumas reconheço a textura das paredes, a luz que entra pelos vãos das janelas, o cheiro das roupas guardadas e até o sabor dos restos de comida que ficaram na geladeira. Mas jamais existiram.  De onde fugi, por que abandonei estas vidas, não sei… Sei bem da vida que levo agora.

Família

Ao assistir pela TV a tragédia no Estado do Rio, pensei nas famílias que acabaram com as chuvas e fui mais além, pensei nas famílias que se desintegram afogadas em copos de água… Sem abalo sísmico nem deslizamento de terra, se deterioram em miudezas e tolas discussões… Escrevo com uma dor profunda no coração com saudades da minha família, das implicâncias quando crianças, dos roubos de bicicleta e do maior pedaço da sobremesa, das conversas nos almoços de domingo, saber o que o outro estava fazendo, aplaudir vitórias, consolar revezes… Do serviço de informações tão bem administrado por mamãe que mesmo com cada filho em um lugar do país – às vezes até do mundo – mantinha a sua rede em dia, trazendo e levando as novidades… Hoje faz um ano que ela partiu, soltou as pontas que nos mantinha unidos e não sei onde foi parar esta grande gargalhada em família… Não sei se qual perda é pior : da família que se foi na chuva ou a que ficou esfacelada no seco… Perdas que só o tempo recupera.

Viva o Flávio !

Belinha e Flavio, inicio dos anos 80 quando mudaram-se para São Paulo.

Hoje meu amigo essencial faria 88 anos. Eu me refiro a ele deste jeito, pois durante muitos anos foi o meu norte, conselheiro generoso e disponível para qualquer situação…. Sempre penso nele, mas nos últimos meses tenho pensado mais, pois acompanhando as notícias sobre a contratação da Hebe aos 81 anos pela Rede TV!, do recém contrato de 10 anos que Roberto Carlos assinou com o Credicard, a crise financeira do Silvio Santos aos 80, Bibi Ferreira aos 88 nos palcos de todo o país, imagino que ainda estaria atuante. Ódios e amores, ele não passava despercebido. Com certeza seria referencia, ponto de discussão e estaria fazendo movimento na TV como fez desde que lá pisou pela primeira vez em 1955.

Em 1970 quando fui trabalhar com ele eu era uma repórter de 21 anos que acreditava poder mudar o mundo. Tínhamos trajetórias diferentes. Ele fazia parte do esquema que apoiara a revolução de 64. Eu já tinha levado uma “dura” da polícia, cacetadas em passeatas e alguns amigos estavam presos. Ele me ensinou sobre televisão, jornalismo e timing... Comecei na sua equipe de jornalismo e acabei como sua secretária. Em nenhum momento achei que tinha sido rebaixada de posto, pois foi com ele que aprendi a dar valor a minha profissão em qualquer posição que estivesse… A minha essência foi e sempre será de jornalista…  Ele foi exemplo de comprometimento, lealdade e caráter… Com ele entendi o que era gratidão e em sua homenagem participei durante 10 semanas de um programa de televisão – Sem Limite, TV Manchete – contando sobre sua vida e escrevi um livro com suas historias.

Só por isso, neste 15 de janeiro faço um brinde para Flávio Cavalcanti, o Senhor dos Domingos, meu amigo essencial!

 

O inesperado

Num email curto veio a noticia da morte do França. Eu tinha visto a foto na TV, mas passou tão rápida que só prestei atenção na bonita moça loura com uma criança no colo. Pensei: uma família que parte junto. E na seqüência complementei o pensamento: uma família que parte em bloco. Seguem irmãos sobrinhos mãe amigos e ficam os outros por aqui estáticos com o inesperado de uma água que desceu mais do que se podia prever… A cada dia que passa acomoda dentro de mim a consciência da minha pequenez e inoperância em prever qualquer coisa. A água do mar sobe, a água do céu desce, as terras se movem, as pedras rolam e estamos expostos a todas as intempéries. Um sinal de transito que não abriu, um freio que falhou e vamos para os ares. O engasgo com algum alimento, uma mágoa mal digerida, a respiração estanca, a vida para. É o agora, o momento em que escrevo é certo, o próximo é uma incógnita.

Não quero viver sempre alerta com a mala pronta para partir, mas saber na hora de ir que foram ótimos os tempos por aqui… Domingo passado ao chegar à missa, encontrei o padre na porta da igreja e ao me ver queimada do sol comentou que a praia devia estar ótima e se lamentou por não tomar um banho de mar desde 2009.

“Deus castiga!”, respondi ao padre que levou um susto. Se for para seguir ao pé da letra a culpa cristã acredito que “Deus castiga” quem não usufrui a vida que tem e não usa os seus dons… Se eu ganhei o presente de viver à beira mar, todos os dias dou uma olhadinha nas ondas, um mergulho, aproveito esta dádiva. Assim como presto atenção nos passarinhos que bicam a  casca do mamão depois do café da manhã, no caminho das formigas mudando de lugar no fim do dia e querendo devorar uma roseira, o céu estrelado e estalado pelo barulho das árvores no vento da noite… São essas coisinhas simples que me preenchem, alegram e me deixam pronta para o inesperado… Pois esperar mesmo, só a água ferver e passar um café para tomar deitada na rede pensando na vida…

Em tempo : na foto,em primeiro plano, Alexandre França, marido da estilista Daniela Connolly, que partiu com as águas de Itaipava. No final dos anos 90 ele era guitarrista da banda Os Anjos, formada por Bernardo (camisa clara) e que ainda contava com Marquinhos (louro) e Chimpa (as gargalhadas). A autora deste click, Adriana Pitigliani,também partiu de maneira inesperada há alguns anos… E a vida segue, aqui e agora…

 

Meu Novo Ano

 

Foto : Caio Girardi

Na verdade o meu ano novo começa amanhã. Sou capricórnio, ascendente Leão com a lua em peixes… Não entendo muito de astrologia, mas algumas pessoas disseram que estar com a lua em Peixes me acalma, me leva a reflexões, a ter um lado espiritual, místico, e também a dobrar um pouco o chifre da cabra que persiste em subir a montanha, incansável, sem direito a prazer, é só trabalho… O que não sabem é o prazer que tenho ao trabalhar…

Não faço listas de novas atitudes, nem promessas para o ano que começa… Só agradeço aos que já passaram e me permitiram chegar aqui como estou: saudável, feliz com a família e com os amigos, profissionalmente plena e certa de que sei qual a missão que tenho nesta existência…  Penso que já andei 2/3 do caminho, sou otimista em desejar mais 30 anos pela frente, mas só espero vivê-los se for neste mesmo shape... Lúcida e independente, seguindo como a cabra incansável morro acima…

Uma amiga comentou hoje no café da manhã que seu lema este ano é tolerância zero. Eu desejo ter muita paciência… Quero apagar menos incêndio, ficar atenta a mudança do vento que pode transformar a fagulha em fogo… Quero que minhas pernas reclamem menos e me deixem andar mais, mesmo faltando uma safena… Se não der no pé, andar mais de bicicleta e menos de carro… Quero que o barulho da metrópole soe aos meus ouvidos de forma tão suave quanto as folhas e pássaros no quintal, sem perturbar o meu silencio interior… Quero viver cada dia como se fosse único, tenha este dia a cara que tiver, pois vivi o suficiente para saber que nem tudo são flores e também que tudo passa…

E mesmo não fazendo listas nem promessas, que eu continue teimosa e possa até apreciar a minha incoerência quando percebo que onde nada podia em poucos minutos se torna possível…  Estas constantes mudanças é o que mais me fascina… Quebrar, cortar, picar e juntar de novo… Feliz meu novo ano !!!

Em tempo : esta foto foi feita pelo Caio Girardi num intervalo de preparação do palco para o show do Roberto Carlos em Copacabana…

 

Lembrando Chico em Copacabana

Escrevi sobre Copacabana e recebi o seguinte comentário da Constancia : Você só esqueceu de mencionar, Chico cantando em Copacabana na Galeria Menescal!!!! Bjus e Saudades!!!!

Na hora a ficha não caiu, levei alguns segundos pensando no que dizia esta mensagem quase psicografada. Chico Buarque na Galeria Menescal, será que ele fez alguma musica com esta referencia? E aí a ficha caiu. A Constancia faz parte da família Gondim de Oliveira que nos anos 60 eram os donos dos Diários Associados, a mais poderosa rede de comunicações do país: rádios, emissoras de TV, jornais e a revista O Cruzeiro.Um verão em Vila de Santo André ela comentou o fato e eu contei esta historinha… Leão Gondim de Oliveira era diretor dos Diários Associados, dona Lili (Amélia Whittaker Gondim de Oliveira) presidente da revista O Cruzeiro, e eram pais de Léo, meu colega no curso Bahiense que preparava para o vestibular. Em 1967, no seu aniversário, Léo convidou alguns amigos para jantar em sua casa. Aos 17 anos eu não tinha a menor noção da importância da sua família. Ele era um rapaz como qualquer outro no cursinho. Mas quando cheguei ao apartamento que ocupava toda a extensão da cobertura da Galeria Menescal em Copacabana fiquei boquiaberta. Obras de artes em todas as parede. Um apartamento elegante, altamente conservador e sofisticado, e ali estavam reunidos uns 10 amigos do Léo para um jantarzinho de strogonoff como mandava o cardápio da época.

Tudo mais que perfeito. Todos andando com cuidado para não esbarrar em alguma peça de arte até a grande surpresa na sobremesa: um tímido Chico Buarque sentado na sala, com o violão ao colo esperando a turma para tocar e cantar as canções que já faziam sucesso… Ele já era famoso e não sei qual a lembrança que os outros amigos guardam deste momento, mas eu fiquei encantada em ver um ídolo tão de perto. Fez um show acústico, particular e nós fizemos coro com as músicas do seu primeiro LP, lançado no ano anterior… Nos esbaldamos com Quem te viu quem te vi, A Banda, Noite dos Mascarados,  A Rita, Madalena foi pro mar, Você não ouviu, Juca, Olê olá, Meu refrão…. “Vem que passa o teu sofrer, se todo mundo sambasse seria tão fácil viver…”

Uma noite para nunca esquecer… Naquela época não se andava com maquina fotográfica na bolsa, eu não imaginava ser jornalista e o registro na memória é impecável. Anos depois encontrei Chico Buarque, fiz uma ou duas entrevistas exclusivas, não toquei neste assunto, mas jamais esqueci o privilégio de ter feito parte de uma platéia tão seleta. Dos amigos do cursinho testemunhas deste encontro ficou o Roberto Abramson, a Angela Gonzaga partiu há alguns anos. Assisti muitos dos shows do Chico, nenhum igual a este. A foto em que estou na platéia é de um show de 87 ou 88 no Canecão. Pela localização em que estava sentada devo ter sido convidada do Mario Priolli… A foto saiu em uma reportagem no Globo com os comentários sobre a estréia e consegui uma cópia… Obrigada Constancia por lembrar Chico e eu em Copacabana…Obrigada Léo, por onde estiver…

 

Vovó Mercedes

 

Foto de família em dia de Natal : no contato em preto e branco Bernardo, vovó, eu, Paulo e no último fotograma Da. Flora Nobre, mãe do Paulo, avó do Bernardo.

Saí cedo andando pela praia de Copacabana e lembrei de Da. Mercedes Martins, bisavó do meu filho que acabou se tornando também minha avó. Um personagem, Vovó Mercedes morava num apartamento no 12º andar da Av. Atlântica com a deslumbrante vista para a praia. No início da década de 70 foi feita uma enorme obra na praia para aumentar da faixa de areia e o alargamento das pistas com objetivo de passar uma tubulação (interceptor oceânico) para transportar todo o esgoto da Zona Sul até o emissário de Ipanema e evitar que as ressacas chegassem à Avenida Nossa Senhora de Copacabana e às garagens dos prédios da própria Avenida Atlântica. Com essa obra foi criado o calçadão em frente dos edifícios num belo projeto paisagístico de Burle Max.

Vovó assistia a tudo do alto, esperando a obra chegar à frente do edifício onde morava entre as ruas Santa Clara e Constante Ramos. Já haviam feito o calçamento com as pedras portuguesas fazendo lindos desenhos, mas faltava o paisagismo. Um dia ao acordar olhou prá baixo e viu que caminhões descarregavam árvores. Tomou banho, salpicou talco no pescoço, soltou os papelotes que prendiam os seus cabelos louros, rouge e baton no rosto, vestiu um elegante tubinho de seda estampada e calçando sapatinhos sob medida (tamanho 32!!) desceu  no elevador para ver o que estavam fazendo em “seu jardim”. Vovó viu que um rapaz separava as árvores por canteiros e ao perceber que na frente de seu edifício seriam amendoeiras protestou.

“Em frente da minha casa não se planta árvore vagabunda!”

O rapaz explicou que o projeto era de Burle Max, que os quarteirões seriam mesclados entre palmeiras e amendoeiras, e naquele espaço estavam determinadas aquelas espécies. Depois de muito reclamar e ver que ninguém atendia seu pedido decidiu ir ao Departamento de Parques e Jardins. Pegou sua bolsinha, chamou o taxista que sempre a atendia e foi para a Praça da República, em frente da Central do Brasil, onde ficava o tal departamento. Na recepção apresentou-se como jornalista – de fato ela era – e pediu para falar com o diretor. Deve ter causado certo impacto a presença daquela senhorinha com mais de 80 anos e não demorou a ser levada à sala do diretor Gildo Borges. Contou que imaginava ter palmeiras em frente de seu edifício e não amendoeiras que sujam as calçadas com frutos e folhas. Impressionado com a determinação da “jornalista”, o diretor comentou que as pessoas não estavam preocupadas se plantavam ou não árvores, quanto mais qual a espécie e, sem consultar Burle Max, mudou o desenho do projeto…

Quem passar pela Av. Atlântica em frente ao número 2736 pode ver que apenas ali, em todo quarteirão, foram plantadas palmeiras…E viva Da. Mercedes, onde estiver !!!

 

Impossível esquecer

Reencontrar o Rio neste fim de ano tem sido uma viagem… Eu apareço nas esquinas, nas ruas, nas praças em diversas fases (e faces) da vida… Me vejo na adolescência, juventude e maturidade… Em quase todos os lugares ficou um pedaço, alguma coisa prá contar … Posso lembrar como era sonhar que um dia iria me apaixonar e como foi chorar no fim de paixões …  Me vejo solteira, casada, grávida, descasada, feliz e infeliz… Me vejo chegando e saindo, com o dinheiro contado para o ônibus e desfilando de carro importado com motorista… Me vejo juntando pedaços e recomeçando em mais de uma dúzia de casas por onde morei…

Não posso fechar as narinas para o eterno cheiro da maresia que carrego na memória e já me fez viajar horas para sentir algo parecido em uma praia distante de Nova York… Mas posso de olhos fechados lembrar cada detalhe do percurso entre a Barra da Tijuca e o Santos Dumont apreciando a beleza da paisagem, e me deslumbrar ao ver a Lagoa na saída do Túnel Rebouças.

E eu só andei um pouquinho pela Zona Sul, não atravessei o túnel, não fui à Tijuca nem vi o Maracanã, mas foi o suficiente para constatar que não importa aonde eu vá viver, o Rio estará comigo… Mesmo que eu pense em nunca mais voltar, que seja apenas um cartão postal ou a estampa num guarda-chuva que pode um dia se esgarçar, não tenho como tirar do meu coração…