Foto: Cláudia Schembri
Acredito em milagres. Acredito na bondade do ser humano e, acredito que recebemos o que doamos…. Escolhi viver em um pequeno vilarejo no sul da Bahia onde todos se cumprimentam nas ruas, onde tudo se sabe e onde a solidariedade existe. Nem tudo são flores, mas são muito mais do que espinhos…. As vezes as pessoas se estranham, mas conviver é assim. Na madrugada da última sexta-feira entraram na casa da Cláudia Schembri. Sabiam que ela estava viajando, arrombaram uma porta e levaram equipamentos essenciais para seu trabalho como fotógrafa. Foi uma tristeza para ela, uma comoção na vila. O comentário geral era “como fizeram isso com a Cláudia que dá aula para as crianças, fotografa as festas na escolinha e os eventos da comunidade, ajudou a conseguir a doação dos móveis da escola municipal via Andréa Pitta, sempre disponível com receitinhas homeopáticas, escreve projetos que trazem recursos para ONGs…”, enfim, uma moradora muito querida. Coloquei a boca no trombone, de forma delicada…. Fiz os procedimentos normais como BO na delegacia, avisei a Policia Militar caso fosse encontrado algum equipamento e em todos os grupos locais de WhatsApp… O que mais doía era a perda dos HDs externos, pois quem é profissional da área sabe o que eles representam…
Mas milagres existem, o mundo ainda tem jeito e continuo acreditando que se pode tocar no coração do homem… Na madrugada de ontem os equipamentos foram devolvidos. Soube através da Adriana que foi arrumar a casa e percebeu pacotes estranhos na cerca dos fundos da casa…. Deu o aviso e fui encontrar tudo muito bem embalado para proteger da chuva e acompanhado de uma carta com letrinha bem desenhada, carinho e capricho: “Sra Léa Penteado desculpe por este desentendimento. Perdão, o ocorrido está sendo resolvido por pessoas que estão por dentro de tais problemas que sempre que estiver em nosso alcance vamos fazer justiça contra esses elementos que de tal ocorrimento não haverá outros tipos de desentendimento como este. Queremos a paz para o nosso vilarejo. Desculpe. Não somos ladrão.” Comovente. Chorei. Com Adriana fui abrindo os pacotes e surgindo a TV, o monitor, a mesa de edição de fotos, os 5 HDs externos, a caixa de som… tudo intacto…. Em tempos de tanta violência no país invadindo o noticiário na TV, vivenciar um fato como este é um privilégio. Posso dizer até que é uma bênção. É a certeza de que escolhi o lugar certo para viver, que somos um recorte de uma sociedade com seus códigos de ética e moral fortes, e todo o esforço que fizer para ajudar este povoado é ainda muito pouco. Amo Vila de Santo André, aqui ainda posso acreditar que há um belo mundo pela frente…

Então é Natal… Não vou cantar a música da Simone nem lembrar que desisti de festejar há 15 anos… Este ano tudo está diferente. Em julho quando vi o meu braço esquerdo imobilizado devido uma queda, tive tempo para refletir sobre a importância dele… Sou destra, mas a parceria é dos dois… Pra escrever, pra me banhar, pra dirigir, pra comer, pra tanta coisa, inclusive costurar… E aí me deu uma vontade enorme de fazer bonecas, mas como ? Então para estimular o braço a ficar bom, prometi a mim mesma que faria muitas bonecas para distribuir às crianças da escola infantil de Santo André… 22 meninos e 19 meninas… E assim, depois de 1 mês de gesso, dois meses de fisioterapia, fui recuperar os movimentos brincando de fazer bonecas de pano, com enorme carinho e amor, imaginando cada criança que iria receber. Detalhes de laços de fita, babados, bordado inglês na saia, arremate feito a mão nas camisetas dos meninos, cabelos de lã … Estes meses se passaram e com a ajuda da Lelê na “”costura reta” completei minha missão… Ainda fiz sacos para embalar e coloquei o papelzinho com o nome da criança para Papai Noel não se confundir… A festa aconteceu a semana passada e não assisti. Acho que iria me debulhar em lágrimas e tinha a desculpa da chegada de um amigo… Agradeço à Claudia Schembri que fez as fotos, a Sara Amorim que gentilmente trouxe de sp tecido marrom que não encontrei por aqui e Patricia Farina, diretora do Centro Educacional Maria Marta, que me permitiu fazer este sonho. O meu Natal já rolou… Não vi Papai Noel, mas não importa…











