“Só sei que nada sei”

Passam pessoas fantásticas em minha vida. Um privilégio. Pode ser em Nova York, Rio, Lisboa, São Paulo, ou até mesmo nesta pequena vila a vida me surpreende. No momento acontece na Ponta de Santo André um curso de Ashtanga Yoga com uma professora que mora em Londres e atrás dela vieram alunos de diversas partes do Brasil e também do exterior. Não faço, pois não é a minha praia ainda. Quem sabe um dia… Além disso, acontece no mesmo espaço um Ciclo de Meditação em 8 encontros com prática plena voltada para a totalidade da experiência humana pessoal. Este assunto já fala comigo.

Tem algum tempo que procuro no silencio uma boa conversa com meus botões. Em 91 quando acabou o Rock in Rio eu estava no auge do stress. Desliguei a tomada de 220V onde me sentia pulsando num curso de meditação transcendental com o Klebér Tani. Aquele espaço no centro de Ipanema foi um bálsamo. Uma gratidão eterna. Com insistência e prática encontrei meu eixo, mas com o tempo fui relaxando… 10 anos depois voltei à meditação desta vez com o Reiki e de forma mais constante. Neste inverno baiano Lucia Ehlers é um presente. Sim, eu adoro pessoas mais vividas, mais lidas, mais experientes. Nada como o tempo para aquisição de conhecimento. E ela dá um show numa prosa simples e profunda. A cada encontro saímos com um “dever de casa” por 48hs. Tivemos o exercício do “não julgamento” – como é difícil ! – , da “paciência” – parece que tudo acontece para nos tirar do sério -, e hoje trouxe para conviver até 6ª. feira a proposta da “mente de principiante”… Olhar a minha volta como se fosse uma criança descobrindo o sentido das coisas, os sons e movimentos. Comecei prestando atenção às árvores na noite iluminada apenas pelas estrelas em tempo de lua nova. São apenas formas sem detalhes dos galhos e folhas. Um perfume que vem do jardim onde não consigo identificar a flor. Talvez seja a casa do vizinho ou o vôo rasante de um anjo. Vou continuar praticando e observando… Mais dois dias assim e se eu não pirar completamente, continuo escrevendo. Por enquanto oooommmmmm…. Namaste.

Crédito ao título : Sócrates.

Fora pândaros…

As noticias que escuto sobre a seca no sudoeste baiano gritam aos meus ouvidos em contraste com a profusão de verde no jardim. Estamos num Estado com enorme diversidade ambiental. Enquanto rios, lagoas e poços secam por lá, saio com o facão e o serrote conduzindo o Guinho na poda das árvores. Revendo fotos de quando aqui cheguei, constato que uma “pequena” floresta cresceu em minha volta. E são nestes tempos de inverno em que o sol precisa fazer força para chegar que vou pedindo licença e abrindo caminho entre a vegetação.

Tenho aprendido muito sobre árvores e plantas da região, traço um paralelo destes ensinamentos com a vida. Em um momento em que precisei pensar na privacidade, plantei pândaros. Nada se assemelha ao personagem da mitologia grega, mas aqui denominam uma vegetação com grandes folhas espinhosas que vai crescendo e se sustentando por raízes externas. Fica bem alto, não dá flor nem fruto e nem os passarinhos fazem ninho em suas folhas. Só serve mesmo para deixar o terreno menos exposto. Assim como o pândaro, hoje não quero mais ter por perto pessoas que só querem ocupar espaço. Amizade é mão dupla. Acredito que deixei as árvores fecharem o jardim como um desejo interior de silencio, quietude e reflexão sobre a vida… Um semestre que está acabando, enterro as decepções… Está sendo difícil virar a página… Corto as árvores, fora pândaros, quero um novo tempo com sol e luz…

Reflexões de domingo

Acordei  com o pensamento no apartamento da Praia do Flamengo onde morei tantos anos . Nem sei há quanto tempo não sentia saudades do Rio, ou mais especificamente, dos meus domingos naquele apartamento. Gostava de tomar café cercada de jornais e revistas, comendo panquecas com mel e de vez em quando esticando o olho pela janela para ver o movimento das pessoas andando no parque… Foi um período rico em descobertas, uma fase de transformação. Ali tive grandes perdas e enormes ganhos.  Chorei ausências sentidas ainda hoje e ganhei um tesouro que não se guarda em cofres, mas se carrega no coração.

Não sei se sinto saudades do lugar ou de mim naquele tempo. Mas sei que apesar do céu azul, do banho de mar e do almoço gostoso com amigos à beira do rio, a Praia do Flamengo andou comigo pelas ruas de terra de Vila de Santo André… Difícil me imaginar de volta ao Rio, seria como tentar ser criança novamente no Brooklin, jovem na Tijuca e amadurecer em Nova York. A vida não anda para trás…

Em tempo :  graças ao Google Map a Praia do Flamengo veio para a tela do meu computador.

Julio Iglesias na Globo

Não aguento mais ouvir Julio Iglesias. Jamais pensei que fosse chegar a esta situação. Tenho a coleção completa dos seus CDs, não adquiri, mas ganhei por razões profissionais. Trabalhei com ele algumas vezes, a primeira em pleno Plano Collor, quando a DC Set organizou uma super turnê no Brasil e o conheci como um profissional que sabia tudo na relação com público e imprensa. Viajamos em seu jatinho para Recife levando 3 jornalistas completamente extasiados com a proximidade com o artista e a sofisticação do avião. Ao entrar no jatinho, uma linda cesta de couro recebia os sapatos. Dentro da aeronave só andávamos de meias. Os detalhes cromados (cinzeiros, maçanetas, etc e tal) eram banhados a ouro. Mantas de cashmira para nos proteger do frio do ar condicionado, só para ter uma ideia do luxo ! Seguimos primeiro para Recife. Como Julio era Embaixador da Unicef, organizamos um encontro com Dom Helder Câmara, no alto da Sé de Olinda. O dia estava deslumbrante. A cena dos dois, artista e religioso, caminhando com o belo cenário da cidade histórica e a conversa sobre as diferenças do mundo foi ao ar no Jornal Nacional. O show em Recife foi uma loucura. Os jornalistas voltaram para o Rio e nós seguimos para Aracaju onde vi uma plateia diferente. Num calor incrível, beirando aos 40 graus, o público chegou com traje de gala. As mulheres de vestido longo, com muitos bordados, cabelos cheios de spray. Os homens de paletó e gravata. Tudo isso contrastava com o local, uma casa de espetáculos comum. Julio entrou no palco, cantou a primeira, a segunda música e a plateia não se mexia. Nenhum aplauso. Ele parou o show e num “portunhol” disse que achava que as pessoas não estavam gostando de suas canções. Que sairia do palco e quando voltasse queria todos cantando e dançando com ele… E foi o que aconteceu… A plateia foi ao delírio! Na saída perguntei à algumas mulheres por que ficaram em silencio e as respostas foram muito parecidas : não sabiam como se portar no show de um artista internacional, temiam atrapalhar a apresentação…

Bom, assim como esta, tenho outras tantas boas historias com ele, mas no momento estou tomando um “chá” de Julio Iglesias. A Som Livre está me levando a loucura com a quantidade de comerciais do Box “Minha Historia” com 3 CDs e 1 DVD que dispara em quase todos os intervalos da programação da Globo. Só quem tem TV com antena parabólica sabe do que estou falando. Há alguns anos, nos intervalos dos programas da Globo não entravam os comerciais das repetidoras regionais, só os nacionais, ou seja, dos patrocinadores dos programas. Quando não tínhamos esses comerciais ficávamos sem nenhuma imagem, só a tela preta com um chiado… Mas a Globo espertamente criou uma forma de ocupar este espaço que varia entre a venda de produtos da Som Livre a da Globo Marcas, e pequenos programetes feitos pelas emissoras afiliadas mostrando as belezas do Brasil. No início de cada mês chegam as novidades da Som Livre e sei que durante 30 dias ficarei ouvindo nos intervalos da novela e do Jornal Nacional os lançamentos de compilações reunindo “o melhor de Odair José, Benito di Paula, Wando e Fernando Mendes”; muita música gospel e duplas sertanejas que jamais ouvi falar, André Rieu com sua orquestra, Eduardo Lages ao piano, e por aí vai… Normalmente estes “pacotes” duram um mês, mas Julio Iglesias superou todas as expectativas. Há dois meses o Box Minha Historia é campeão de exibição. Não aguento mais ouvir “Bambolêo…. bambolêaaaaa….” Não sei se esta insistência significa grande aceitação ao produto ou uma forma de liberar o encalhe… Prá mim, por um bom tempo, Julio Iglesias está de castigo. Fora da pick up, do cd player e do Ipod, sobrevive apenas nas velhas lembranças…

Kassu

Perco e ganho todos os dias. Quando o dia nasce perco a noite, e tantas outras chegadas e partidas se repetem no cotidiano. Mas têm perdas muito mais dolorosas, vêm do inesperado, um susto num telefonema e os pés saem do chão. Estou assim voando desde ontem, revendo cenas felizes que aconteceram em minha vida num percurso de 43 anos… Tudo começou quando eu tinha 20 anos, era repórter iniciante e conheci Ivone Kassu. Ela chegava ao Rio vinda de São Paulo onde trabalhava para Benil Santos, um grande empresário artístico. Era ”divulgadora”, assim chamavam os hoje assessores de imprensa, do Chico Anysio e do Simonal. Foi em seu apartamento no Leme, onde recebia sempre muitos amigos, no dia 10 de outubro de 69, que conheci Paulo Martins, um arquiteto que trabalhava com fotografia e cinema, com quem fui viver 13 (!!!) dias depois para escândalo da família. Fomos morar no Leme, bem próximo à Kassu, e a nossa amizade foi se consolidando. Muitas noites em bares de Copacabana e Ipanema, muitas risadas e festas. Um tempo feliz do Rio de Janeiro. Um dia nos encontramos grávidas nos bastidores da TV Tupi, eu trabalhando com Flavio Cavalcanti e ela acompanhando algum artista importante. Empurramos juntas carrinho de bebê nos fins de semana na pracinha do Bairro Peixoto, em Copacabana. Nossos filhos estudaram na mesma escola por um bom período. Trocamos confidencias, duvidas e ansiedades. Nestes 43 anos a vida nos aproximou e nos afastou várias vezes. E jamais pensei que ela fosse embora assim. Ainda esperava conversar na idade mais madura, lembrar de tantas historias que vimos, ouvimos e das quais ríamos muito. Fica a saudade, a certeza de uma trajetória linda. Abriu caminho para muitos, revelou talentos. Foi mãe exemplar de André, teve milhões de amigos!   Guardo deliciosas lembranças. Como esta foto, a  ultima que fizemos…

…if I can make it there, I’m gonna make it anywhere

Comentei algumas vezes sobre a experiencia de viver em Nova York durante quase 3 anos. Um depoimento que escrevi para a revista Nova e encontrei nos guardados, também postei com o título “Eu larguei tudo e fui viver em Nova York”. Foi por este texto descoberto em uma pesquisa genérica na internet que uma paulistana, em vias de tomar uma decisão parecida, me enviou um email. Sem jeito para consultório sentimental respondi com a carta abaixo… Nova York foi transformador, mas também poderia ser Cingapura ou Tegucigalpa, qualquer lugar que eu fosse iria mudar meu rumo pois era exatamente isso que eu procurava… Poeticamente, a frase final da canção que se tornou hino da cidade cantada por Sinatra, tornou-se meu lema até hoje “…if I can make it there, I’m gonna make it anywhere” (se eu consegui lá, conseguirei em qualquer lugar)E a vida segue, ou como preferem alguns, a fila anda. Segue a carta para Helena.

Cara Helena

 gosto imensamente do seu nome. Quando esperava meu filho, num tempo em que não havia ultrassonografia, este era um dos meus favoritos caso fosse menina…
Bom Helena, quanto a chutar o balde e começar tudo em outro lugar quem sou eu para não recomendar pois fiz isso diversas vezes… Para vc ter uma ideia, quando meu filho tinha 23 anos – hoje ele está com quase 40 – fizemos uma conta de quantas casas tivemos desde o seu nascimento e chegamos ao número de 27 ! E pensar que tivemos casas onde moramos por mais de 2 anos…
Perdi a conta de quantas coisas materiais deixei no caminho, comprei tantas vezes geladeira e escorredor de prato, montei quase uma dezena de casas, mas nunca abri mão de carregar em todas as mudanças meus discos e livros, como na canção do Zé Rodrix gravada pela Elis Regina que falava em uma casa no campo. E levei comigo  também os amigos e as experiencias que todos estes lugares me trouxeram…Em um tempo sem AIDs não havia medo de se entregar a uma paixão e sair em busca de um novo amor ! Havia também as deliciosas irresponsabilidades da juventude e ao mesmo tempo uma total responsabilidade pois o que mais se queria era viver fora da casa dos pais…
Entre tudo o que vi na vida, confesso que o melhor foram os exemplos de generosidade de muitos amigos que me acolheram quando não tive emprego, dinheiro, nem teto e nem esperança… E talvez daí veio a minha escolha de ter São Francisco  sempre por perto com a certeza de que é dando que se recebe… E o dar muitas vezes basta apenas um sorriso, uma palavra, pois isso é que faz girar o mundo, trabalhar sinergicamente a vida…
Helena querida, por onde for vá inteira. Leve a sua verdade, seus melhores desejos e pensamentos que a vida irá escancarar portas para seus sonhos…
Acredite em você que o mundo responderá positivamente…
Um beijo carinhoso e me deixe saber dos seus caminhos…

Clap clap clap

Por conta da chuva que me deixou presa em casa frente a uma mesa finalizando um mosaico, esta semana assisti algumas vezes ao programa da Fátima Bernardes. O que mais me deixa indignada é ler comentários e críticas na internet torcendo para que o programa não dê certo.  Ora, seria muita ousadia uma jornalista com uma bela carreira profissional, de repórter à ancora do JN, bem casada com o bonitão do Bonner, mãe de trigêmeos ainda dar audiência em um programa que estreia um novo formato! Acredito que tem gente que pensa assim, senão seriam muito mais generosos apontando as qualidades do programa, como o desembaraço com que a nova apresentadora está frente às câmeras – não é fácil fazer programa ao vivo! – a criatividade de algumas pautas e aquela mistura de gente na plateia… Sempre há o que se acertar, eu mesma tenho algumas considerações, mas não vem ao caso. Como no futebol, todo mundo é técnico e crítico, mas há de se ter um mínimo de boa vontade.  Foi uma grande mudança tirar a Fátima da bancada do JN e colocar à frente de um programa diário. É o máximo a Globo estar saindo da mesmice de sua “grade” e fazendo crescer a turma da casa. Falam na audiência caindo, mas o que é novo é assim mesmo, é preciso de tempo para formar público… E tem sempre aquele chato que vem com o sorrisinho de escárnio dizendo “querem copiar a Ophra, vão se ferrar…”. Ora bolas, existem tendencias e esta é uma delas…

Não sou uma santa em comentários sobre TV. Adoro a telinha, faz parte da minha historia e da minha vida, mas não sou derrotista. A verdade é que o programa da Fátima Bernardes foi apenas uma desculpa para eu destilar o mau humor com as pessoas que torcem para que os outros se ferrem, como se fazer sucesso fosse crime… Tom Jobim falou sobre isso, o brasileiro não perdoa. Não sei de onde vem este espírito destruidor, de inveja, baixa estima, e isto me cansa profundamente. Com meu olhar positivo coloco óculos com lentes cor de rosa e quero mais que todos sejam muito felizes… E isso não acontece apenas na Rede Globo, mas em qualquer lugar. Muitos olham prá grama do vizinho e não veem o trabalho que ele teve para manter verdinha, só apontam as ervas daninha.  Cansei, quero aplauso – clap clap clap – pra todo mundo.

Onde está o paraíso…

 

Vila de Santo André da Bahia

Estava tomando café com meu mais novo amigo Christophe Jean, um francês que mora em Itacaré, falávamos sobre a opção de morar em um lugar paradisíaco e muitas vezes o erro na escolha.  Ambos conhecemos muitos casos, além das nossas próprias histórias, de pessoas que deixam as grandes cidades em busca do sonho de uma casinha na praia, um local tranquilo, como a foto em um postal. E quando se constrói um sonho acredita-se que nada há mais a nossa volta, só mesmo os nossos desejos de ouvir o barulho das ondas do mar, o canto dos passarinhos, ver o por do sol, apreciar a natureza exuberante e é tudo paz…  Não imaginam que ao redor possam ter vizinhos ouvindo “arroxa” no mais alto volume, um eco chato reclamando da árvore cheia de cupim que você teve que cortar, que uma área próxima pode ser vendida para um grande empreendimento e isso não contando ter que aprender a conhecer e conviver com as dezenas de espécies de insetos que invadem a sua casa em diferentes épocas do ano.

Sonho só, nem mesmo no fim do mundo. Impossível estar completamente isolado vivendo apenas aquela poesia de quadro de Monet, pois se não é o homem, é a natureza a gritar e interferir no seu movimento. Definitivamente ninguém está sozinho. Os pensamentos falam alto, mesmo que não tenhamos com quem conversar.  E diante disso muitos que vem em busca do paraíso, se dão conta do erro e retornam à civilização. Poucos percebem que o paraíso é muito mais uma questão interna, é a nossa própria essência.

Mas o ser humano é tão interessante que muitos sem perceber que o paraíso é interior, depois de um tempo em busca da paz em meio à natureza num local semi virgem, descobrem que o “dolce far niente” cansa e começam a se ocupar com um pequeno negócio como um restaurante, uma pousada… Para o negócio/sonho dar certo, precisa ter um mínimo de movimento. Começam a promover a localidade, os visitantes vão chegando e o que consideram paraíso se transforma em destino turístico. Vira moda num verão, surgem outras pousadas, restaurantes, comércio e com isso os problemas de infraestrutura… Quando se dão conta já estão neuróticos com a instabilidade do mercado, contas a pagar e convivendo com a baixa estação.

Enquanto o paraíso e a paz estiverem fora de nós, a vida vai ser uma constante busca em redemoinhos…

Em tempo : o meu amigo Christophe está em Itacaré há 16 anos, é webmaster do melhor site de praias do nordeste e para França vai somente visitar a família.

 

Fim do dia

Ainda me lembro do primeiro impacto do pé batendo no chão. Depois o desequilíbrio ao ficar trocando de um pé para o outro, e finalmente a alegria de encontrar o ritmo pulando com os dois pés sincopadamente. Os braços estendidos com as mãos segurando a pequena  base de plástico  embrulhada nos dedos, passavam sobre a cabeça, voltavam até os pés e finalmente me redescobri pulando corda na cozinha. Uma bobagem num fim de dia de chuva. O pátio estava molhado e resolvi ver se ainda sabia usar com agilidade. No 3º pulo, olhando para o espelho do antigo armário, me senti dona da situação. Ao mesmo tempo que ridícula. Foi como se em todos estes anos jamais tivesse deixado de pular corda um dia sequer, e a vontade foi sair pelo jardim, pela rua, como se voando com passos largos e asas de braços abertos. Não sabia se ria ou se continuava concentrada prá ver até onde o corpo aguentava. Esqueci  do tempo, esqueci da idade. Continuei pulando com os pés juntos e contando 11, 12, 13…E pulava comigo a menina de tranças amarradas com fita, vestido rodado e avental da escola. Pulei a infância e as lembranças mais delicadas que tenho desta minha menina.

O coração bateu mais forte e vi refletida no espelho a minha imagem com o rosto vermelho. As pernas estavam bambas, a testa pingando de suor.  Eu estava tão feliz que esse excesso de exercício não poderia me causar qualquer mal. Foi tão grande o impacto, físico e emocional , que fui me acalmar embaixo do chuveiro. Hoje as omoplatas e os joelhos estão doloridos. Mais do que pensar no que vai acontecer com a Carminha, Nina e Tufão da novela das 9, mais do que acompanhar a CPI do Mensalão, eu penso em quando posso voltar à pular corda. Talvez fosse importante continuar, mesmo que poucos pulos, só prá não perder o ritmo. Mas enquanto isso vou pulando as teclas me imaginando estar nas cordas. Amanhã eu volto.

Coisa do passado

Foto : Paulo Martins, fev 1970

Eles estavam em crise. Ele parara de fumar, ela não. Mas isto fora apenas o estopim, pois na verdade ele chegara a casa com a camisa manchada de batom. Ela ja estava dormindo no escritório há alguns dias, aproveitaram o feriado para mandar o filho com os avós para a casa de campo, dispensar a empregada e ficar sozinhos para discutir a relação. Combinaram jantar num restaurante desconhecido para não correr o risco de encontrar amigos. Na hora marcada cada um saiu do seu closet perfumado e bem vestido e se encontraram na sala  vestindo-se com a mesma cor.

No jantar perceberam que ainda havia um clima. Nem tudo estava perdido. Voltaram para casa antes da meia noite. Ele a deixou na portaria justificando o encontro marcado anteriormente com um amigo num bar, mas não demoraria. Pediu que o esperasse no quarto deles.  Ela chegou ao apartamento saltitante. Era apaixonada. Retirou com cuidado a maquiagem usando os produtos que ele trouxera da uma última viagem a trabalho em Paris. Colocou uma camisola nova, foi fumar na cobertura do apartamento para que a casa não cheirasse a nicotina. Escovou os dentes, gargarejou diversas vezes para retirar qualquer vestígio do cigarro. Tirou a colcha da cama, deitou no espaço que até então era o “seu lado”, começou a ler e adormeceu. Acordou com o sol forte de verão carioca entrando pela janela e queimando seu pé. Eram 5h30 da manhã e ele não chegara. Levantou e começou a andar pela casa em desespero. Pensava na insegurança da cidade, no perigo de andar com carro conversível e até na corrente de ouro com a medalha do signo que ela lhe dera como presente e nunca mais tirara do pescoço.

Por pouco, muito pouco, tiram a vida de alguém, pensou ao se lembrar da corrente que mais parecia joia de bicheiro. Telefonou para o bar que ele indicara, disseram que já havia saído há algumas horas. Foi prá cozinha, passou café e ficou andando no terraço fumando e procurando coordenar as ideias. O que podia ter acontecido?  Esperou às 6 horas da manhã para telefonar para uma amiga que trabalhava em uma rádio. Contou a historia e a amiga pauteira acionou os repórteres para uma varredura nos hospitais e delegacias da região. Nenhuma notícia sobre ele. A esta altura, 8 horas da manhã, ela estava certa de que ele estava no motel com alguma vadia. Retirou a mala grande do deposito, colocou todas as roupas dele e deixou na porta. Pediu ao porteiro que avisasse quando de sua chegada. A cabeça viajava. Agora nada mais segura este casamento, repetia. Ele me enganou mais uma vez, canalha…

Andava pela casa separando mentalmente o que era dela e o que era dele. Passava das 9hs quando o porteiro interfonou. Ela pegou a grande mala e colocou do lado de fora da porta. Ele insistiu na campainha. Ela não abriu. Ele foi para a entrada de serviço e conseguiu abrir a porta, só estava presa por uma pequena corrente. Meteu os pés e entrou. Foi direto para o quarto. Cara lavada de sono, cabelo molhado. Fechou a janela do quarto, tirou a roupa e deitou. Ela abriu a janela e começou a falar feito uma matraca. Ele levantou e fechou a janela. Ela agora não so falava como tocava uma flautinha do filho em seu ouvido para não deixar dormir. Volta prá dormir aonde estava, repetia ela. E o abre e fecha da janela e a gritaria chegaram a um ponto em que ele olhou prá ela com tanto ódio que ela percebeu que não ia terminar bem esta historia. Saiu do quarto aos prantos, telefonou para o contador, o advogado, a empresa de mudança e quando ele acordou no meio da tarde o casamento tinha acabado. Ela naquele dia entendeu por que mulheres matam os maridos. Lembrou-se de uma conhecida que dera um tiro no marido por ter sido chamada de velha, humilhada. Existe um ponto tênue e  vital que quando tocado faz qualquer pessoa se transformar em monstro. Ela não quis alimentar este monstro, fechou a porta e nunca mais voltou. Ele passou o resto dos dias dizendo que ela era o amor de sua vida. Ela guardou ele como coisa do passado.