A aula de francês

Imagem

Eu tinha 12 anos quanto tive a primeira aula de francês. Ate hoje lembro da textura, do  formato, do volume e do vermelho da capa do livro. O professor chamava-se Monsieur Fidelis. Era alto, magro, uns 40 anos, usava calças largas, paletó xadrez com um lenço de seda no bolso e nem sempre combinava com a gravata. Alguma coisa nele hoje me faz lembrar o personagem Zé Bonitinho que imortalizou o seu criador Jorge Lorêdo. Nunca soube se Monsieur Fidelis era francês, mas agia como fosse. Tinha um enorme prazer em ensinar àquela turma de 40 adolescentes a pronuncia correta das palavras, a conjugação dos verbos e ainda lembro-me de suas aulas. Tive outros professores, mas nenhum tão marcante. Depois veio o tempo de “ter que” falar inglês e o francês ficou nas vozes de Piaf, Aznavour, Ténant, Mathieu, Becaud …

Este verão Roseline, francesa, casada com Joshua, filho da Mikie (Pousada Corsário e La Floridita), que mora na França onde é professora de francês para estrangeiros e de português para franceses, concordou em dar aulas para um grupo pequeno. Roseline tem uma didática incrível e também a chave da minha memória, pois na primeira aula diversas palavrinhas vieram à tona. Algumas até com pronuncia!  Estou feliz com esta redescoberta, pareço adolescente. Mamãe tinha orgulho em contar que sua avó era francesa. “Pariesiense” exclamava – e se a genética ajudar ainda terei tempo para aprender a falar razoavelmente a língua de Victor Hugo… Já soube de um curso ótimo pela internet, pois Aliança Francesa nem sombra neste sul da Bahia. Um prazer prá mim, uma homenagem ao meu irmão Victor que adorava falar francês e declamar a fábula da cigarra e da formiga no original Quem sabe eu chego lá, o texto já consegui.

La cigale et la fourmi, la Fontaine

La Cigale, ayant chanté
Tout l’été,
Se trouva fort dépourvue
Quand la bise fut venue :
Pas un seul petit morceau
De mouche ou de vermisseau.
Elle alla crier famine
Chez la Fourmi sa voisine,
La priant de lui prêter
Quelque grain pour subsister
Jusqu’à la saison nouvelle.
“Je vous paierai, lui dit-elle,
Avant l’oût, foi d’animal,
Intérêt et principal. ”
La Fourmi n’est pas prêteuse :
C’est là son moindre défaut.
Que faisiez-vous au temps chaud ?
Dit-elle à cette emprunteuse.
– Nuit et jour à tout venant
Je chantais, ne vous déplaise.
– Vous chantiez ? j’en suis fort aise.
Eh bien! dansez maintenant.

Imagem

Na foto do topo, eu em Toulouse, cidade onde mora a professora, na foto acima Joshua, Roseline e o pequeno Rafael em janeiro 2012.

Confissões inesperadas

Imagem

Na noite estrelada a beira do rio, sentada com amigas num restaurante falávamos de amores encantados. A lua crescente abriu os corações e segredos passaram a ser revelados. Uma das amigas contou sobre uma relação mágica, um amor enorme, repleto de impossibilidades. Quando ele morreu, durante algumas semanas ela rezou por sua alma, até o dia em que ele deu sinais além da existência e ela concluiu que era tempo de deixar na paz.  Voltei prá casa com a história na cabeça, amores proibidos são inesquecíveis e quando sobrevivem além da morte são mais tocantes.

Algumas semanas depois, na mesma mesa, com outro grupo de amigas falávamos sobre a atração que alguns lugares exercem sobre nós. Por mais que tentemos ir embora é como se nossos pés criassem raízes e fosse uma tarefa inútil tentar move-los. Vai-se e volta-se à mesma base.  E como em todas as conversas que envolvem mulheres tem um caso de amor, uma contou seu relato de um amor também encantado que a mantinha presa a um local e que agora tentava se libertar indo para bem longe. Outro amor surgiu e estava num ritmo de descobertas. Entretanto o amor antigo se fazia presente e no desenrolar da historia percebi que o homem em questão era o mesmo da historia que ouvi dias atrás na confissão da outra amiga.

Não falei sobre a coincidência. Pedi mais um copo de vinho e entendi aquela mesa como um confessionário, depositório de declarações de afeto sobre a mesma pessoa, mas com pontos de vista diferentes. Em cada historia o sentimento de um amor único, só seu. Voltei prá casa pensando como o amor se torna especial para quem vive. É exclusivo, feito sob medida para o seu coração. Não importa do lado que esteja, o amor chacoalha, mexe, eleva, enleva, sangra e faz explodir. Ora em ódio, ora se multiplica em mais amor. E seguiram as duas neste verão com suas memórias, sem se cruzar nem na calçada do mesmo restaurante, enquanto ele descansa em paz.

Foto : Cláudia Schembri

O que se faz por um amigo

Quando Akira chegou a casa, Xico já tinha 6 anos. Ele a respeitou como filhote, ela o incentivou a sair do marasmo da sombra da varanda e correr no quintal. Algumas vezes pensei que se ele falasse diria “lá vem aquela menina me tirar da boa vida”. Mas o que percebo é que um trouxe alegria para o outro. São de raças bem diferentes. Enquanto ele, um Golden Retriever vem de uma raça desenvolvida para tornar-se um cão de caça de aves aquáticas e selvagens, ela, Pastora Canadense, nasceu de uma variante do pastor alemão capa preta, ótimo policial, bem sucedido como animal de pastoreio.

Xico foi a praia a primeira vez aos 6 meses e sua relação com o mar foi imediata. Estava no seu habitat. Akira, arisca e ainda em processo de adestramento, só este verão começou a andar na praia, e nos últimos dias vi algo maravilhoso. Apesar de não ter a menor competência para o mar, entra na água com destemor atrás do Xico. Vai por causa do amigo, quer estar junto. Vendo os dois na brincadeira de pegar um pedaço de pau jogado a distancia, pensei em quantas vezes fiz coisas que nem gostava para agradar um amigo. Aceitei o convite para programas chatíssimos, ouvi casos cansativos, ri de velhas piadas, provei temperos estranhos, assisti filmes sonolentos, tudo para estar junto. E sei que a recíproca é verdadeira. Nem sempre sou a melhor companhia, mas confesso que mesmo se eu não soubesse nadar, daria um jeito de ficar um pouco no mar para estar com um amigo. Eles é que conhecem a minha trajetória. Um brinde aos amigos nestas fotos da Akira e do Xico.

Em tempo : a Xico está tosado por conta do verão.

 

IMG_0393

IMG_0376

 

 

IMG_0377

Quando acabar

Foto : Cláudia Perroni

Foto : Cláudia Perroni

Completou 3 anos a morte da mamãe e recebi um email do meu irmão consultando sobre o que fazer com o que sobrou do seu corpo. Nossa família não tem jazigo. Papai amealhou algum dinheiro na poupança, deixou uma casa e uma aposentadoria para mamãe. Teve uma boa vida, sem grandes luxos, mas com muito conforto e queria que mamãe mantivesse o mesmo estilo até o final. Pensou no seguro saúde, mas não pensou no jazigo, pois sua compreensão do espiritismo entendia que o corpo/matéria era passageiro. Ninguém teria que ir a um cemitério rezar por sua alma. Podia fazer no meio de uma boa conversa, assistindo a um jogo de tênis ou ao sentir o aroma de um bom fumo para cachimbo. Eram coisas que ele gostava.

Somos 4 irmãos morando em cidades diferentes e conversamos sobre questões familiares por email coletivo. Mas este me tocou ao pensar nos restos mortais da mamãe decidindo se vai para uma gaveta, se compramos um jazigo ou se vai para a exumação em ossário geral sem acesso futuro. Ela também não pensou sobre isso. Ao inverso do papai temia a morte e não acreditava em qualquer coisa depois do ultimo suspiro. Diversas vezes me pediu para conversar com Deus e pedir aos Santos por sua saúde. Durante um café da manhã, na pequena mesa da cozinha, em meio a uma conversa comparou a nossa vida como a de uma formiga. Fazendo o gesto de matar uma formiga com o dedo disse: “quando morremos é assim, acaba tudo”. Ah! mamãe tão pouco crente mas cercada de tantas imagens de santos e anjos em torno de sua cama. Partiu no susto, creio que se surpreendeu.

Que pese as diferenças filosóficas, papai e mamãe foram muito unidos e felizes. Passaram para os filhos a importância do afeto, dos amigos e da familia, da justiça e respeito ao semelhante, e sobretudo do profissionalismo. Cada filho tomou estas informações da forma que quis e colocou em sua vida. Quanto a definição deste assunto, assino a opção da maioria dos irmãos. Para mim, isso não importa. Quando for a minha hora se não der para cremar e jogar as cinzas no mar de Santo André, que esqueçam meu corpo embaixo da terra no cemitério de Mogiquiçaba. Minha alma vai agradecer que estes restos da matéria se desintegrem próximo ao mar, com um vento suave varrendo a terra. Não precisa de sepultura, apenas uma pequena lápide com a inscrição: Amor e Gratidão.

Engano

Imagem

Alguém está mentindo. O espelho ou o meu olhar, um dos dois não revela a verdade. Vejo a imagem refletida não tão robusta como gritam as roupas. Os quilos surgiram vagarosamente e creio irão embora no mesmo movimento, serão longos anos de regime e provação. Menos pudim de pão e cervejinha. Uma vez alguém me disse do perigo em usar roupa larga e calça comprida com elástico na cintura. Não se percebe e quando se vê nenhum jeans fica confortável. É quase como o pé solto na havaiana que depois reage ao sapato fechado.

Mas eu sei que tudo isso tem por trás a menopausa, uma bomba na vida das mulheres. Ontem falava sobre isso com uma amiga bem mais jovem que está com os incontroláveis calores que me faziam morrer de vergonha em plena reunião de negócios ou em momentos de sedução. Isso sem contar a chegada de uma irritabilidade na TPM que me levava a cometer enormes grosserias a troco de nada, ou chorar compulsivamente ao receber o convite para uma viagem ao exterior !

Ah! Menopausa… Na verdade um grito de “menos pausa” e mais correria contra o tempo que se foi. Impossível recuperar o tamanho 42. Os hormônios são bem mais poderosos… A única vantagem é que depois de um tempo, mesmo com a roupa apertando no corpo, o coração fica largo e recebe o que vem da vida com mais alegria.     

Mais leve

Imagem

“Pede desculpa”

A frase autoritária era tão marcante quanto a “engole este choro”. Mamãe sabia dar ordens e lá ia eu pedir desculpa por ter brigado com os irmãos, respondido atravessado para alguém mais velho ou qualquer outra atitude grosseira. Não fui menina briguenta, pedir desculpa era um processo de educação, respeitar o direito dos outros, limitar espaço e por essa razão não me lembro de uma só vez ter usado esta palavrinha na infancia com sentimento de pesar. Não havia culpa. Era como um arranhão na perna depois da queda de bicicleta. Passava mercúrio cromo e no dia seguinte não tinha mais nada.

No hard feelings, aprendi na maturidade a levar a vida em fogo brando. E aprendi também o sentimento do perdão, a reconhecer o erro por palavras que saíram pela boca sem passar pelo cérebro, rompantes emocionais, atitudes impensadas. Constatar o tropeção, o mau jeito, ajuda a crescer. E quanto entendi o que era perdoar, comecei a me livrar das culpas. Faço o melhor que posso e se tomei uma atitude incorreta, era o que sabia e podia fazer naquele momento. .

Na última década descobri “Um Curso em Milagres”, um livro com quase 1300 paginas composto por 3 partes : texto, exercícios e manual do professor. É um livro cristão que envolve temas espirituais universais. Esse curso é um começo, não um fim e nas primeiras paginas assim se apresenta:

“Nada real pode ser ameaçado.

Nada irreal existe.

Nisso está a paz de Deus.”

 Com o curso aprendi a me redimir completamente das culpas. As vezes passo semanas sem folhear suas páginas, mas em diversos momentos difíceis da vida lembro que se não me perdoam eu me perdoo. E quase todas as manhã repito a frase e me aprumo para as revelações do dia.

“Eu estou aqui só para ser verdadeiramente útil.

Eu estou aqui para representar Aquele que me mandou.

Eu não tenho que me preocupar com o que dizer ou o que fazer, porque Aquele Que me enviou me dirigirá.

Eu estou contente em estar aonde quer que Ele deseje, sabendo que Ele vai comigo.

Eu serei curado na medida em que eu permitir que me ensine a curar.”

 E a vida ficou mais leve.

Bed & Breakfast

 

 Imagem

 Gosto das manhãs de verão quando preparo em silêncio o café para os meus amigos. Levo os cachorros para a casinha, coloco a água para ferver e com capricho vou arrumando a mesa na varanda. Estes dias somos em 9. Lotação esgotada !  Enquanto separo as frutas e cozinho a banana da terra, penso no prazer da casa cheia que só acontece no verão. Bem que podia ser ao longo do ano. Afinal Vila de Santo André é tão linda !

Nada em minha vida foi planejado. Aos 20 anos nem o sonho mais louco chegou próximo do cenário em que me encontro. Um dia de cada vez, a vida se apresenta e surpreende. Tudo começou na partilha da pousada. Mamãe ficou com a casa do Victor e dois chalés num terreno com muitas árvores no meio de um areal em um vilarejo no sul da Bahia, distante mais de 1000 kms do Rio de Janeiro. Quase três anos depois, com o patrimônio abandonado, vim para um semestre sabático e a missão de vender a propriedade. Comprei a casa e aqui estou há mais de 8 anos. O areal virou gramado. Plantei mais árvore, fiz um belo jardim e com a procura no verão comecei a alugar os chalés para amigos. Alguns anos depois construí mais um chalé para o meu filho e fui aprimorando o prazer de receber no mais autêntico estilo bed & breakfast. Ofereço o que sei e posso fazer mesmo sem ter auxiliar: um belo café da manhã e arrumar quartos. Mas com o jeitinho baiano da Helenita e da Geisa eu nem preciso estar em casa. Elas deram autenticidade ao breakfast com a tapioca, o bolo de fubá, sucos de graviola, cupuaçu e cajá, e recebem com a simpatia da Bahia.   

As conversas no café da manhã são deliciosas, tenho o privilégio de só receber pessoas interessantes com boas historias prá contar. Sempre aprendo e ensino alguma coisa. Ontem fizemos cinema no jardim. Esticamos uma lona branca e um lençol num varal, colocamos projetor, notebook e caixa de som na mesinha, cadeiras e espreguiçadeiras e os olhos grudados na tela grande. O perfume da noite, o pio da coruja, os cachorros dormindo no gramado e a emoção que só um bom filme provoca.  Esta é a outra vida, muito divertida e um prato cheio para uma jornalista. (Fotos : Cláudia Schembri)

Imagem

 

2013

chapeu

Dormi com o telefone ao lado e acordei esperando que tocasse. O dia passou com muitas mensagens no Facebook.  Foram tantas que quase fui bloqueada por querer responder a todos. Bom sentir o carinho dos amigos de diversas épocas. A turma do Globo, da Bloch, da Globo, do Rock, da DC Set, as meninas da assessoria de imprensa, amigos da vida. Meus irmãos e alguns amigos telefonaram com palavras rápidas, um afago.

Passei o dia com o telefone na mão esperando que mamãe chamasse. Eram assim os meus aniversários. Ela a primeira a ligar dizendo “que Deus te proteja e abençoe minha filhinha…” Também tinha bolo, parabéns à você e a primeira fatia vai para quem ?

Antes de dormir coloquei o telefone na base praticamente com a bateria esgotada. Assim como eu. Não se pode esperar quem não vai voltar nem celebrar o que se quer esquecer. E assim começa um novo ano sem expectativas.  O que vier será surpreendente, maravilhoso e recebido com os braços escancarados. Bem vinda minha nova idade!

2012

Em Cascais (Portugal), da esquerda para a direita, Fernanda, Paulinho, eu e Gilda

Em Cascais (Portugal), da esquerda para a direita, Fernanda, Paulinho, eu e Gilda

Fazendo um balanço de 2012, concluo que tive um ano bipolar.  Enormes alegrias, profundas tristezas. algumas decepções. Com a parceria de amigos, mesmo sem um tostão, consegui fazer um lindo festival de inverno em Vila de Santo André. Meu coração precisava produzir alguma coisa e foi bom prá muita gente… Terminei uma colcha de crochê projeto que vinha se arrastando há 10 anos, comecei a escrever um novo livro e um texto para teatro. Vi uma historia que escrevi na tela grande do cinema e me emocionei. Torci pela vitoria eleitoral de uma amiga, mas não chegou lá. Meu corpo não deu defeito, em compensação a casa pediu socorro, consertos estruturais. Mudança da fiação elétrica, retirada de uma enorme colmeia, refazer a horta suspensa, colocar novas telhas, matar cupins, tudo o que se espera de uma vida rural…

E de todos os novos amigos que surgiram e os que reencontrei, um em especial. Há alguns meses resolvi buscar uma amiga, achei sua filha no Facebook e consegui o telefone. Numa tarde de sábado fiz a ligação. Ela me atendeu com enorme surpresa. O tom de voz não mudou, era o mesmo desde que a conheci há mais de 40 anos. Ela foi fundamental em minha vida quando comecei a me posicionar profissionalmente. Ninguém era mais elegante do que Gilda Muller. Tinha estilo, educação, simplicidade, humor e generosidade. Diretora da TV Studio Produção, empresa que produzia os programas na TV do Flavio Cavalcanti, de quem também era grande amiga e comadre, fora casada com Maneco Muller, pioneiro no colunismo social assinando com o pseudônimo de Jacinto de Thormes desde a década de 50. Gilda e Maneco mantinham a mais equilibrada relação de ex-casal que já vi. Trabalhavam na mesma equipe, passavam férias juntos com os 3 filhos e não imaginam o quanto me serviram de referencia para todos os meus casamentos. Casamentos se acabam, amizades não.

Gilda conhecia e frequentava a fina flor da sociedade brasileira. Tratava da mesma forma todos os chics que constavam do livro “Sociedade Brasileira”, onde estava seu nome, como também o açougueiro da esquina, o rapaz da quitanda… Foi a primeira pessoa que vi vestir um tailleur (ou era um blazer ?) com estamparia azul marinho e verde bandeira! Quando eu, uma garota da Tijuca, ia pensar em tamanha ousadia?

Durante um bom tempo trabalhamos na mesma sala e fiz com Gilda minha pós-graduação em etiqueta e bons modos. Foi melhor do que qualquer intensivo no Colégio Sacre Couer… Em 72 com o sucesso de audiência do Programa Flávio Cavalcanti e o bom faturamento, ganhamos do patrão uma viagem à Europa. E lá fomos, eu gravidíssima, Paulinho (meu marido) e Gilda,  de 1ª. classe pela Tap para Lisboa, Roma, Londres e até Paris quando nos separamos. Gilda tinha uma irmã que morava por lá, mas ainda estivemos juntas almoçando na Tour Eiffel…

Um dia seguimos caminhos diferentes e creio que a ultima vez que a vi foi em 93 na noite de autógrafos do livro “Um Instante, Maestro”. Bom, todo esse relato prá contar como foi bom ter convivido com Gilda, sua importancia em minha formação e como foi deliciosa a conversa ao telefone naquele sábado. O tempo não existiu. 20 anos não se passaram. Com entusiasmo falou dos filhos, dos netos, sempre alegre, alto astral, boas gargalhadas. Prometi ir visita-la – e irei!! – da próxima vez que for ao Rio e antes de desligar o telefone ela disse uma frase de enorme significado para este ano bipolar:
– Léa, o seu telefonema foi a melhor coisa que me aconteceu este ano!

Não é incrível ter alguém que não me vê há 2 décadas e me quer tão bem ?

Gilda, por você também valeu 2012 !!!

Em transformação

Vila de Santo Andre

Antes que o mundo acabe conforme previsão do calendário Maia, começou uma revolução na minha rua. Acompanhei durante uma semana a derrubada de uma casa em frente a minha. Tiana, uma nativa com quem aprendi a conviver apesar das nossas  diferenças de estilo de vida, vendeu sua casa para a vizinha e mudou para perto do campo de futebol com seus filhos, neto, genro e agregados. É ali que a vila ferve na sua essência de região simples no sul da Bahia. Comprou uma construção de dois andares, com espaço embaixo para fazer um restaurante – seu sonho! – e morar no andar superior. Foi muito feliz e este pedaço ficou mais silencioso.

Acompanho um novo desenho de ocupação que vai se criando. Vejo casas e pousadas elegantes surgindo numa vizinhança onde até pouco tempo viviam  familias simples. Ouvi muitas historias como a de um dos primeiros homens a chegar por aqui. Se tornou dono de muitas terras, tinha quilômetros de praia e um dia foi seduzido a vender uma enorme extensão para um italiano e com o dinheiro comprou um grande barco.  Era um barco que exigia cuidados e como ele so sabia pescar, a embarcação foi se deteriorando e um dia afundou. Ele ficou sem terras sem trabalho e sem dinheiro.

Já não se tem mais tanta terra prá vender, muito menos praias. Os que chegam são chamados de “gringos” mesmo não sendo estrangeiros. São paulistas, mineiros, gaúchos, cariocas e capixabas que transformaram casinhas e terrenos sem uso em boas residências, pousadas, restaurantes. Trouxeram sua cultura num estilo cosmopolita para um local cuja natureza é pródiga mas com  infra-estrutura fragil. Uma vila com menos de 800 habitantes, sem saneamento básico, se depender do poder público a água nas torneiras é escassa, as ruas sem calçamento e haja poeira no período de seca… A maioria dos “gringos” convive com este mundo apenas nos feriados prolongados e nas férias. Espera um dia viver no paraíso “prá sempre” e se diverte com a rusticidade…

Eu vivo o dia a dia, sou praticamente nativa. Do outro lado da rua a casa desapareceu, ficou apenas um terreno. Nem um entulho para contar historia. Restou uma mangueira, uma bananeira e um pé de graviola. Espero que isto não tenha sido o aperitivo para o fim do mundo…