Grávida

Aos 6 meses de gravidez nos jardins de Versailles, França – Foto: Paulo Martins

Acordei grávida, como há 40 anos, neste mesmo dia, em que não conseguia nem virar na cama. No dia anterior fechei as pernas. Pedi a Deus que meu filho não nascesse no dia que lembramos dos que partiram. Choveu e passamos o tempo, eu e Paulinho, jogando buraco e ouvindo musica. Antes de dormir fiz o ritual que se repetiu todas as noites do ultimo mês: tomei banho, escovei as unhas, conferi a depilação, lavei o cabelo e estava pronta para ir à maternidade a qualquer momento com a mala me esperando ao lado do berço.

Acordei grávida há 40 anos e continuava a chover. Comecei a sentir cólicas. Telefonei para o medico,  Dr. Carlos Montenegro, que pediu para marcar o tempo entre as contrações. Ainda eram esparsas. Conferi se nada faltava na mala. Olhei na agenda e li a anotação feita quando fui à primeira consulta: o bebê está pra chegar. Avisei a família e continuamos a jogar buraco e ouvir música. Almoçamos arroz salada bife e aipim… À tarde as contrações aumentaram e no início da noite o ginecologista pediu para irmos à Maternidade Escola em Laranjeiras. Lá estava o único aparelho de ultrassom do Rio de Janeiro. Avisei a família. Chovia, já estávamos saindo de casa quando Paulinho resolveu voltar para colocar um lenço de seda no pescoço.  Relembrando o fato não sei se ele queria estar bonito para receber o filho ou proteger a garganta do frio. Saímos da Urca com Paulinho dirigindo o seu fusquinha verde militar, limpador de para-brisa sem dar vazão à chuva e na maternidade o medico diagnostica: não tem dilatação. O friozinho do gel no mouse passando pela minha enorme barriga, vejo meu filho na tela e com carinho Montenegro sugere “se fosse minha mulher faria uma cesariana”. E fomos debaixo de chuva para Clinica São Marcelo no Leblon onde mamãe, papai e Victor já nos esperavam. Comigo seguia algo mais importante que o enxoval:  numa caixinha de isopor que fora conservada na geladeira a vacina caso meu filho nascesse com sangue RH positivo, já que o meu é negativo. E Bernardo nasceu quase no final do dia 3 também RH negativo. Nada vi, anestesiada completamente. Papai e Mamãe foram dormir felizes com mais um neto, Paulinho e Victor celebraram durante a madrugada no Alvaro´s do Leblon.

Acordei grávida e 40 anos se passaram.  Coincidentemente chove. Fiquei na cama virando de um lado para o outro lembrando este momento único na vida de uma mulher. Continuo mais grávida do que nunca, aguardando o que está pra vir. Outro dia meu filho ficou perplexo ao saber que não crio expectativas . Estou aberta para o que aparecer, vou com o pé no chão, quero ver, ouvir e fazer… Mas nada espero do outro, prefiro que me surpreenda do que me decepcione… Por outro lado, hoje gostaria muito de ir à algum lugar mágico onde tivesse um aparelho ultrassom para passar dentro de mim e diagnosticar que estou em tempo de uma cesariana e colocar pra fora novos rumos…  Sei que estou a caminho de gerar algo muito bom, mas jamais tão grande e precioso quanto meu filho há 40 anos.

Agradecimentos especiais a esta gravidez 40 anos passados :

Paulo Martins, parceiro na criação e amigo de sempre; Flávio Cavalcanti, o melhor patrão do mundo; papai com sua sabedoria, mamãe que tricotou os mais lindos lindos casaquinhos e sapatinhos,; tio Feliciano Alves, historiador que me ajudou na escolha do nome; Dr. Carlos Montenegro, obstetra e ginecologista; Victor, irmão companheiro ate nesta hora; Dr. Antonio M. de A. Barata, meu psicanalista neste período; Déa e Humberto Machado, irmã e cunhado que conseguiu a vacina super hiper caríssima e especial que doei à Maternidade escola; bisa Mercedes Martins e vovó Flora Nobre pela torcida na chegada de um Sousa Martins; Moreira e Maria Dulce, padrinhos; Selma, a empregada de casa com as refeições rápidas, aos amigos da TV Estúdio (Flavio Cavalcanti Jr, Gilda Muller, Ghiaroni, Mandarino, Antonio Bello, Solange Boecke, Liana Rocha, Eduardo Sidney…) pelo suporte em toda a gestação  e a todo o país que aplaudiu quando Flávio Cavalcanti entrou fumando charuto em seu programa na TV Tupi dois dias depois dando a noticia da chegada do Bernardo.

Aos meus queridos

Desde ontem meu pensamento está nos que partiram… Acordei cedo, busquei companhia e não encontrei. Peguei 25km de estrada até  Mogiquiçaba, um pequeno povoado na divisa de Santa Cruz Cabrália com o município de Belmonte, onde deixei o corpo do meu irmão há quase 11 anos. No trajeto desliguei o som do carro, fui ao silencio pensando naqueles que partiram, em muito do que vivemos, recobrando imagens que vão além da fotografia do porta retratos na sala, do álbum da estante, da memória no computador. Imagens com movimentos, tons da voz, risos, trejeitos, cores favoritas, sabores, perfumes… Cena que nenhum filme mostra e só se reconstrói na imaginação e nem sei até que ponto é real. O tempo pode ter suavizado matizes, reverberado sons, alterado dimensões, mas é o que ficou. Torna-se uma verdade.

Estou num tempo de mais partidas do que chegadas, de repensar caminhos. Fui revendo tudo isso enquanto me desviava de alguns buracos na estrada, assim como os tropeços da vida. Mamãe e papai estão juntos no Rio de Janeiro. Victor optou pela Bahia. Escolha não se explica, segue-se o desejo. E lembro quantas vezes passei por esta estrada com ele, com outros pensamentos e muitas gargalhadas.  Jamais imaginei um dia estar aqui, tão integrada a esta gente tanto que junto comigo levei nesta viagem um abraço no coração de outras duas pessoas queridas que também foram colocados ao lado dele…

Parei o carro à beira da estrada. Por incrível que pareça nos minutos que  fiz minhas preces e acendi as velas no pequeno e simples cemitério nenhum carro, ninguém passou por perto. Era só eu e os queridos Victor, Dudu (Edoarda Casadei) e Doró (Dorothea Copony). Se acreditamos que existe um encontro além deste mundo, eles estarão próximos. Eram amigos das conversas e da boa mesa, tinham vivido muito, escolheram ficar por aqui… E lá seus corpos foram deixados, lado a lado. Hoje um pouco de mato no entorno, algumas flores nativas, a sombra das árvores e ainda se escuta, mesmo que distante, o barulho do mar. Lembrei deles, com muito carinho, nesta sexta-feira e em tanto outros queridos… Sei que partimos sem aviso prévio e por isso só nos resta  viver melhor enquanto aqui estivermos.

Querida Nanan

Com Ângela Gonzaga tínhamos 16/17 anos e ríamos da vida…

Fiquei feliz com o seu aviso no Facebook de uma foto em que eu estaria com sua mãe, Ângela, e outros amigos. Fui direto à fonte e não encontrei. No lugar estava uma foto linda da sua mãe enxugando você e o Daniel, um gostoso jeito de cuidadora, e apesar dos olhinhos assustados de vocês, talvez pela nudez frente à câmera, havia confiança. Com essa foto amanheceu o meu dia, mais de uma hora se passou e continuo com a esta imagem na retina. E pensei que talvez você gostasse de saber um pouco da minha amizade com sua mãe.

Conheci sua mãe no 1º ano do curso colegial do Instituto Coração de Jesus. Engraçado pois a escola de manhã tinha este nome e a noite chamava-se Veiga de Almeida, que depois se transformou em universidade. Tenho a impressão que Ângela não foi ao primeiro dia de aula, quando chegou a turma já se conhecia um pouco e lembro que a convidei para dividir a carteira comigo. Naquele tempo as carteiras escolares não eram individuais com apenas uma prancheta para colocar o caderno. Eram como escrivaninhas com um banco corrido aproximando os alunos.  E ficamos amigas de cara, talvez por no princípio da conversa termos descoberto que nascêramos no mesmo 3 de janeiro !

A amizade solidificou quando algumas semanas depois fui estudar na casa da sua mãe na rua Jaceguai 27. Ali começou uma nova vida, um presente que me acompanha até hoje. A consciência dos amigos, da construção coletiva, do pensamento conversado, discutido e alinhado, da liberdade e nenhum preconceito às diferenças. Lá podia se tudo, até fumar na frente dos pais. Era muita vanguarda para uma garota como eu que vinha de uma família “linha dura”. Uma casa de musica e acolhida, de boas palavras e sentimentos. A grandeza dos seus avós, Maria Ruth e Aloísio Porto Carrero de Miranda, a relação fraterna entre Ângela e sua irmã Regina, permeiam meus pensamentos… Generosamente compartilhavam filosofias, projetos, sonhos… Tudo isso na segunda parte dos anos 60 onde fervilhava a ditadura no país que vivia com um medo no ar… Muito se escreveu sobre isso, mas esta casa de número 27 foi meu ponto de partida para descobrir a literatura, o respeito, a política e também o amor, a paixão enlouquecedora na juventude, aquela que dá vontade de sair gritando e quando não dá certo chega a se pensar em cortar os pulsos. Não só eu descobri, como também vi sua mãe descobrir esta paixão. Lembro com detalhes, até com perfume e cores, o dia que sua mãe me confessou que estava apaixonada por seu pai. Ainda era segredo e fui privilegiada ao ouvir esta primeira declaração feita bem longe da casa dos seus avós, talvez para as paredes não ouvirem, mas no quarto da minha casa numa tarde de sábado.

São muitas historias… Você quer amizade mais plena do que aos 17/18 anos duas jovens terem juntas o prazer de ouvir Chico Buarque cantando numa reunião para pouco mais de 20 pessoas ? Aconteceu conosco, Roberto Abramson é testemunha… Sua mãe sempre muito afinada, eu sempre muito desafinada, e muitas vezes na saída do curso pré vestibular na cidade íamos pelas ruas  cantando “Quem te viu, quem te vê”…. Seu avô fez uma música, talvez você conheça, que sua mãe e sua tia cantavam em dueto nos “saraus” da Jaceguai…Se a memória não me falha, a letra é assim

“Se a noite se perdeu, e o céu se fez manhã, por que você não vem, se de tudo que era seu, você fez coisa vã, assim como a manhã, a manhã do amor…

Não, não deixe que o amanhã, se faça tarde e eu sem você chegar, se depois do por sol, você meu sol virá, na manhã do adeus, nos dois…”

Depois já casada com seu pai no apartamento na Tijuca cujos moveis tinham sido desenhados por ele, a chegada de vocês e um dia acabamos trabalhando juntas. Mas na verdade, desde que vi a foto no Facebook, queria lembrar à você do humor de sua mãe… Ela era sutil, inteligente, delicada e as vezes fazia piada com um olhar… Nós tínhamos piadinhas e termos só nossos, nos divertíamos muito, ríamos dos outros… E de nós mesmas !! Como você pode ver nesta foto…

E depois ela partiu e deixou que ficássemos pensando na sua alegria e tentando ser Ângela na vida… Generosa, tranquila, apaixonada ao ponto de não resistir a partida do seu pai e foi continuar a viver seu amor em outra esfera…21 anos é muito tempo, menos do que convivemos juntas, mas a lembrança é muito maior… Um beijo com carinho e por favor, mate a a minha curiosidade e coloque a foto no Facebook…

Memória Rock in Rio – Eleição 2000

Em 2004, no Rock in Rio Lisboa, com Roberto Medina e parte da equipe.

Procurando o titulo de eleitor e no clima de expectativa da eleição, a memória me levou a exatamente um dia igual a este, na cidade do Rio de Janeiro, há 12 anos. Eu fazia parte da equipe que preparava a volta do Rock in Rio em 2001, um mega e esperado evento. A cidade tinha como prefeito Luiz Paulo Conde, arquiteto e urbanista premiado, apoiador do festival tendo inclusive participado da coletiva de lançamento. A Artplan, empresa organizadora, era completamente PFL, partido do Conde e também do Rubem Medina, deputado federal e irmão do criador do festival, Roberto Medina. Conde se preparava para reeleição, mas tinha que enfrentar Cesar Maia. Importante voltar um pouco mais no tempo : Conde entrou na política em 1993 pelas mãos de Cesar ao ser nomeado Secretário de Urbanismo e o conheci nesta época. Eu também fazia parte da equipe, era Assessora de Eventos, cargo com estrutura de Secretaria.  Cesar admirava tanto Conde que em 1996 o elegeu seu substituto, pois visava o Governo do Estado na eleição de 98. Pouco depois Conde rompeu com Cesar e às vésperas da eleição de 2000 eram inimigos ferrenhos, cada um puxando para o seu lado.

Roberto Medina e todo o PFL davam como favas contadas a reeleição de Conde. Mas por questões de respeito e boas relações políticas, quando aconteceu o lançamento do festival, Medina pediu que eu levasse o projeto ao conhecimento de Cesar. E assim o fiz num encontro como sempre simpático, em seu escritório na Rua Voluntários da Pátria em Botafogo. Cesar ouviu atentamente, elogiou a ousadia, a determinação do empresário e se despediu  com a seguinte frase.

“Diga ao Medina para tratar você muito bem, pois dia 1º de janeiro eu serei prefeito desta cidade e você será de novo autoridade”.

Claro que não repeti a frase com a mesma ênfase. Faltando uns 15 dias para a eleição, almoçando com Medina, ouvi suas explicações de que não havia possibilidade de Cesar se eleger tal o número de intenções de votos que as pesquisas apontavam para Conde. Contestei, mas os números que ele apresentava eram quase que incontestáveis. Ele sabia muito bem do lado que eu estava e a forma discreta como conduzia esse assunto. Não coloquei adesivo no carro, não vesti camiseta, tudo para não criar constrangimento com a equipe da qual eu fazia parte e era totalmente Conde. No dia da eleição, estava em casa quando a televisão mostrou os primeiros resultados da vitória de Cesar e o rádio Nextel chamou. Do outro lado a frase lacônica de Medina acompanhada de boas risadas “não falo mais com você… você é uma bruxa…”

Claro que voltamos a nos falar e me coube ser a intermediária das conversas entre equipes Rock in Rio e da nova administração. Para fazer um festival daquele tamanho nos primeiros dias do ano seguinte era preciso uma relação muito firme com o gestor da cidade. O festival foi um sucesso. Optei por não voltar à política, aceitei a proposta de Medina em fazer parte da sua empresa de eventos, a Dream Factory, que nasceu após o Rock in Rio 2001. Boas lembranças, já posso ir votar.

Marta

Morando em Santa Cruz Cabrália há mais de 8 anos, esta é a primeira vez que acompanho uma campanha eleitoral municipal… Mesmo sendo eleitora nesta cidade, em 2204 e 2008 eu estava envolvida com projetos em São Paulo e só cheguei em cima da hora do voto. Desta vez acompanhei as definições dos candidatos, conversei com alguns e tive a certeza de que a minha escolha era a melhor para a cidade onde moro. Não escondo o motivo pelo qual voto na Marta, cheguei até a subir em palanque para falar sobre isso. Conheci Marta dia 21 de janeiro de 2005, não esqueço a data, era aniversário de uma amiga e estava indo ao aeroporto buscar outra amiga, quando vi a seguinte cena: a balsa em clima de verão com muitos carros e um grupo de mulheres conversando e entre elas, uma muito bem vestida, em cima de um salto bem alto. Em dado momento, outra mulher se aproxima e ouvi a bem vestida dizer:

“Não posso perdoar as mentiras que você falou sobre o meu marido na campanha, mas se você precisar de mim como Primeira Dama e Secretária de Ação Social, as portas do meu gabinete estão abertas como para qualquer outro cidadão”.

A bem vestida era a mulher do Prefeito recém-empossado. E era determinada. Antes de sair da balsa cheguei até ela, me apresentei e agradeci o lixo que voltara a ser retirado depois de um fim de ano sombrio quando o antigo gestor esquecera Vila de Santo André. E ali começou uma relação de respeito. Acompanhei seus projetos sociais, colaborei no que foi possível, tive uma passagem rápida como Secretária de Cultura, pois São Paulo me chamava para outros projetos, mas a amizade permaneceu.

Quando o marido saiu da prefeitura e ela deixou de ser autoridade e voltou a ser apenas mais uma moradora desta cidade, a nossa amizade se consolidou. Passaram alguns anos e um dia ouvi uma conversa de que ela seria candidata à Prefeita. Fui à sua casa tomar um café com bolo, como fazia vez por outra e ouvi a confirmação de que havia um desejo de entrar na disputa. Posso até dizer que Marta não se candidatou, mas foi levada a esta posição por milhares de pessoas que se sentiram abandonadas nesta última gestão. Não foi fácil dizer ao seu marido, um dos políticos mais experientes do sul da Bahia, que “namorava” a candidatura. E ele recebeu com respeito, apoiou e deixou-a livre para ir atrás do seu sonho.

Faltam poucos dias para a eleição e acredito que Marta é o melhor para Santa Cruz Cabrália. Nestes últimos dias os candidatos, incomodados com o seu sucesso, chegaram até a soltar um boato de que ela estava desistindo da candidatura. E desde quando esta mulher é de desistir de alguma coisa?

Já ouvi muitas vezes dizerem que para se conhecer uma pessoa é preciso lhe dar poder. Eu já a vi com poder, implantando projetos de melhoria, tratando às pessoas mais simples com dignidade, oferecendo oportunidades e com um olho voltado para o social.   Torço por Marta e por melhores dias para Cabrália …

Mulheres que enlouquecem

Desde que li no colegial a historia de Agripina, mãe de Nero, que foi amante do irmão Calígula, depois envenenou seu marido Gaius Crispus para ficar milionária e seduzir seu tio Claudio, Imperador de Roma, garantindo um futuro brilhante para seu filho, penso o que leva uma mulher a agir enlouquecidamente…

Quando é que o amor se torna tão insuportável que vira ódio?

Há muitos anos frequentava um grupo de pessoas de televisão e publicidade, onde havia uma atriz. Nos divertíamos muito, mesmo não sendo amigas próximas, eu a admirava. Uma manhã em casa a atriz discutiu com o marido, um rapaz mais jovem. A conversa chegou a um estágio em que ela pegou o revolver e o matou.

O que ela deve ter ouvido para retribuir com este gesto?

Estas e outras lembranças me voltaram hoje ao assistir uma cena patética em um vídeo que roda no sul da Bahia. Uma mulher ainda jovem, bem bonita, se coloca num palanque político para defender uma candidatura à prefeitura. Não fala apenas sobre as vantagens da candidatura que apoia, mas ataca seu ex-marido também envolvido em política, mas de outro partido. Chama-o de “protituto”, destila ódio. Não ataca apenas o pai de seus dois filhos, mas o primo com quem convive desde que nasceu, com quem casou à revelia da família hoje estilhaçada como pedra na vidraça.

Fico pensando se ao chegar a casa, como vai olhar os filhos. Vai ter coragem de repetir o que disse para a plateia que a aplaudia?

Fiquei revendo o vídeo com estas perguntas e pensando que a política assim como o amor é visceral. Ela não matou o marido como a atriz. O golpe foi com palavras, mas foi tão forte como um tiro que quer aniquilar moralmente. Sai o ódio da boca de quem fala, ensanguenta de mágoa os ouvidos da família.

Faço há alguns meses o difícil exercício de não julgar, apenas refletir e constatar. Tenho pena desta família e de todas as mulheres que enlouquecem. Lastimo a disputa de egos por um cargo político que dura apenas 4 anos.  Triste ver que vende-se até o respeito.

Muito simples

Da. Peninha em foto de Cláudia Schembri na festa de Santo André em 2011.

Da. Peninha morreu ontem a noite. Aquela senhorinha miúda e magrinha fazia jus ao apelido. Nunca  eu soube seu nome, poucas vezes ouvi a sua voz. Nos encontrávamos aos domingos na missa, sempre vestida com simplicidade, roupa limpa, cabelos bem penteados presos num coque. Nos últimos meses deixou de frequentar a igreja. Disseram que estava doente, fora internada e depois levada para a casa de um filho. Recentemente uma candidata a vereadora fez uma pesquisa visitando todos os moradores da pequena vila onde moro e chegou a uma triste constatação : 10 casas não tinham banheiro. Uma delas era de Da. Peninha. Fiquei chocada, assim como tantos outros moradores. No movimento Linda Vila que tem como objetivo pintar e arrumar o povoado,  Zé de Broi, o idealizador, se ofereceu para construir o banheiro, Maninha doou o vaso e uma pia. Mas Da. Peninha não viveu para ver o sonho, simples como ela, de ter um banheiro em casa.  Um direito de todos, assim como água na torneira.

No velório conversando com Sebastião, seu marido, soube que Da. Peninha teve 7 filhos, mas só restaram 2. Um caiu no mundo e o outro ainda nem sabia da morte da mãe. Olhando o corpo dormindo no caixão simples, a pele morena, a blusa clara com rendas, fiquei imaginando quantos anos teria vivido e antes de me despedir perguntei ao marido.

“64”, respondeu ele. Voltei prá casa repetindo a idade dela. Parecia que carregava todos os anos nas costas curvadas, mas só tinha um ano a mais do que eu.

Memória

Um fio da memória foi solto ao ver uma antiga foto de capa da revista Amiga com Lucia Alves, Tereza Sodré e Paulo Goulart no Facebook que me levou prá muito longe. Fui a primeira repórter contratada para esta revista. Na verdade tudo começou alguns meses antes quando, a convite do Moyses Fuks, me demiti da TV Continental para ir trabalhar na Bloch Editores. Eles iam lançar uma revista semanal de artistas – ainda não chamavam de celebridades – e enquanto esperava, fui trabalhar na Sétimo Céu. Publicação mensal, que além de reportagens com artistas, produzia fotonovelas coloridas também com celebridades. Alberto Maduar, diretor da revista, fazia as vezes de diretor de fotonovela e nestas ocasiões usava um colete como se estivesse dirigindo um filme em Hollywood. Nilton Ricardo era fotógrafo, Leonel Kaz redator, Áureo Abílio diretor de arte e ainda tinha um produtor que não recordo o nome. Saída da Tijuca para o “grand monde” eu ficava fascinada quando começavam literalmente a montar as fotonovelas. Chegavam do laboratório rolos de negativos tamanho 6X6cm que eram espalhados sob uma mesa com tampa de vidro e luz interior. Ali selecionavam as fotos de acordo com os diálogos que entravam como “balãozinho” sob a cabeça dos artistas…. Era esquema de super produção, com locação para as fotos e tinham até figurantes de fotonovela…

Na redação de Sétimo Céu conheci Aninha (Ana Maria Farias) que me ensinou a fazer promoção da revista nas rádios e programas de TV. Aninha era secretária, fazia de tudo e quando a revista ia para as bancas ela ia para as rádios e programas de auditório na TV levando exemplares para distribuir aos comunicadores. Com isso eles falavam da revista, um merchandising que acontecia pela simpatia e a relação por ela desenvolvida com aquelas pessoas. Aninha me abriu boas portas juntos às gravadoras e artistas, uma querida amiga.

Deixei a Sétimo Céu quando a revista Amiga dirigida por  Moyses Weltman (1932–1985) se preparava para ser lançada. Quem tiver os primeiros números da revista poderá ler nos créditos das reportagens não apenas Léa Penteado, mas também Ceres Viana ou Léa Ceres, que também sou eu… Escrevi até horóscopo. A equipe era muito pequena. Luiz Augusto Chabassus era redator e só meses depois chegaram Lucia Rito, José Luiz Sombra, Alexandra Bertola, Adriana Monteiro vindos de um curso para novos jornalistas que a Bloch realizava anualmente. Weltman era um veterano do rádio onde escreveu novelas entre elas “Jerônimo, o Herói do Sertão” e também com experiência em novelas para a TV. Vinha com o trunfo de ter sido diretor da Radiolândia, primórdio das revistas de famosos, concorrente da Revista do Rádio. Sempre vestia camisa social impecavelmente branca e engomada, foi um grande professor prá mim. A revista Amiga nasceu inspirada em uma revista italiana chamada Amica.  Até o tamanho era igual, um pouco maior do que as publicações daquele tempo, alguma coisa como a Caras de hoje. O conteúdo era composto de fotonovela italiana e notícias do meio artístico. Toda a revista era em preto e branco. Aos poucos as fotonovelas foram diminuindo e aumentando as páginas de reportagens.

Fui repórter e depois colunista da Amiga, assinando como Leleca Novidade, apelido que ganhei do Carlos Imperial. Minha formação profissional começou atrás daquelas mesas de jacarandá em um sofisticado edifício da Praia do Russel onde no restaurante comia-se com talheres de prata, usava-se guardanapo de linho, bebia-se água em copos bico de jaca cercada de obras de arte. No vai e vem com a família Bloch, estive um tempo na Manchete em São Paulo e voltei ao Rio para dirigir Sétimo Céu, a revista onde eu comecei. Eu tinha 26 anos e os tempos já eram outros. A acirrada disputa entre as revistas Amiga e Intervalo pegava fogo. Sétimo Céu estava fora desta briga, era quinzenal, na verdade aparecia em duas versões, uma com um coraçãozinho “Série Amor”, mas era tudo a mesma coisa. Seguindo a tendência das revistas europeias os “publishers” Moyses Fuks e Roberto Barreira pediam que seguisse o estilo da revista francesa, creio que o nome era “7 Jours”, onde em muitas reportagens os artistas apareciam completamente diferentes do que em seus shows e na vida real. Transformavam-se em personagens, como Silvie Vartan e Johnny Hollyday encarnando Marco Antonio e Cleópatra.  Fazer isso com Vanusa e Antonio Marcos era uma missão impossível. Mas tínhamos que produzir ao menos a capa e uma grande reportagem e/ou fotonovela em estilo próximo. A Bloch tinha um belíssimo estúdio na Rua Frei Caneca, mas não era fácil levar um artista para passar uma tarde vestido de padre ou duelando como lutadores romanos como fizeram Wanderley Cardoso e Jerry Adriani. Não havia photoshop e as produções eram complicadas, mas sempre muito divertidas…  Trabalho de maravilhosos profissionais.  Revendo as fotos de tantas capas encontradas nos sites http://arquivoderevistas.blogspot.com.br e http://revistaamiga-novelas.blogspot.com.br passou uma fotonovela da minha vida… Este fio da memória foi solto ao ver uma antiga foto de capa da revista Amiga com Lucia Alves, Tereza Sodré e Paulo Goulart no Facebook que me levou prá muito longe.

Em tempo: prá matar as saudades fiz um álbum de fotos das capas de revista que recolhi na internet e está neste endereço https://www.facebook.com/media/set/?set=a.4667225518942.259778.1242664499&type=3&l=045a8dea11

Sobre poesia e mitos

Não lembro em qual show ouvi pela primeira vez Maria Bethânia falando um trecho do poema Cântico Negro do português José Régio, mas lembro perfeitamente que voltei prá casa com a última estrofe me acompanhando :

“ Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí! “

Vez por outra o poema me assola, como nos últimos dias ouvindo Maria Inêz do Espírito Santo contar lindamente o mito indígena do Caranguejo e do Jaguar que está em seu livro “O Gosto de Terra Natal”. Conta a lenda que o Caranguejo tinha o poder de jogar seus olhos para longe e ver outras terras. Os olhos iam, viam de tudo e voltavam. O Jaguar ficou fascinado quando soube que o Caranguejo tinha esse dom e pediu que fizesse o mesmo com seus olhos. O Caranguejo atendeu ao pedido do Jaguar e mandou seus os olhos para o outro lado do lago. Os olhos foram e voltaram. O Jaguar ficou deslumbrado com o que seus olhos tinham visto e  queria conhecer mais. Apesar do Caranguejo alegar o perigo, pois era a hora do pai da Traíra andar pelo lago e poderia devorar seus olhos, o Jaguar tanto insistiu que lá foram seus olhos. Foram e não voltaram. O Jaguar se desesperou com a cegueira, quis devorar o Caranguejo que fugiu para o fundo do lago. E lá ficou o Jaguar na mata desesperado até que apareceu o Gavião Real e ofereceu ajuda. Com leite retirado de uma árvore e sementes, o Gavião Real criou novos olhos para o Jaguar. Como pagamento exigiu que toda caça feita pelo Jaguar um pedaço ficasse para o Gavião Real. E assim foi feito. Até hoje o Jaguar não come tudo o que caça.

Mito e poema se encontram no momento em que a experiência de cada um é única. Não posso viver com os olhos dos outros, nem seguir o que não for o meu caminho.

Esta historia foi recolhida entre os Taulipang, nação indígena de Roraima e publicada no livro “Lendas do Índio Brasileiro” de Alberto da Costa e Silva. Quem quiser conhecer mais sobre Maria Inêz dê uma olhada em seu site www.mariainezdoespiritosanto.com.br

Ebulição

Foto : Cláudia Schembri

Resolvi processar diferente e fazer coisas que só estavam nos pensamentos. Sinto tal qual um formigueiro em fase de “correção”* transferindo ideias e sonhos de um lado para o outro, como fazem as formigas ao mudar de casa. Elas seguem em fila, às vezes atravessam áreas enormes até encontrar o que consideram seu espaço. Não sei se isto ocorre em alguma época específica ou em condições climáticas especiais, mas sinto que meus pensamentos estão fazendo uma trajetória parecida, buscando novos lugares dentro de mim.  Em alguns momentos brincam como num jogo das cadeiras disputando um lugar para sentar. Alguém sempre cai fora, o funil vai apertando, e como em toda disputa, que vença o melhor. Com isso concluo que nem sempre ideias antigas merecem ter espaço.

Estou em plena ebulição. É um processo tão interessante e para aliviar a agitação mental faço atividades fora do cotidiano. Tenho feito muito pão. Não amasso a farinha nem coloco prá descansar. É tudo na máquina, mas nem por isso sou uma “padeira” menos eficiente. Tenho saído pelas poucas ruas da vila a pé ou de bicicleta, visito amigos, releio livros antigos que foram importantes em momentos de reflexão e até mudei o escritório de lugar…   Agora vejo de um ponto mais alto as árvores e o jardim. Meu horizonte foi ampliado. Só uma questão de saber o que vislumbrar.

Com isso lembrei de uma metáfora que o Dr. Lair Ribeiro utiliza em seus cursos quando fala sobre o limite de cada um. Conta que nos circos criam os elefantes preso a uma corda. Crescem sem saber de sua força nem do seu tamanho. E mesmo quando são soltos não vão longe. Andam apenas no limite do picadeiro para as suas exibições. Às vezes reflito se amarrei a minha corda em uma das árvores do quintal, se não restringi o meu picadeiro, mas ao contrário do elefante fui  muito mais bicho solto. Não sei prá onde vou, posso até nem sair do lugar.  Mas sei que todos os caminhos são experiências ricas e algo está mudando dentro de mim.

* correção =  aprendi na Bahia que assim chamam o movimento das formigas mudando de lugar