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Feliz 2017

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A Murta com seus frutos

Acordei e vi a árvore de Ingá florindo de um lado da casa e a de Murta cheia de frutos do outro. Para quem vive em um grande centro esses fatos nada representam, mas para quem tem uma exuberante natureza a sua volta são sinais, nem que seja a promessa da chegada de muitas abelhas que passarão a rodear com um zumbido tão alto que me levam a crer que tem uma serra elétrica nas proximidades… Ah! prazeres de uma outra qualidade de vida… Neste tempo de verão vejo a alegria com que os turistas por aqui passam e se encantam… É uma vila muito simples, por isso a cada dia mais raro em meio a tanta tecnologia, tragédia, violência urbana, pressão, caos, medo…

Todos os meus amigos e também os amigos dos meus amigos deveriam ter o direito de passar uma semana por ano em um local como Vila de Santo André, onde as ruas são de terra, onde espontaneamente acontecem pequenos eventos a beira do rio para alegrar os visitantes, onde a gastronomia vai do PF básico ao restaurante de luxo, onde chove nas madrugadas e tem sempre estrelas e uma lua desenhada no céu, onde se toma banho de mar pois até as ondas são tranquilas.

O meu prognostico é que este será meu ano azul…. Não são previsões da astrologia, do tarô ou da bola de cristal, mas assim defini com dias tão azuis e por ter ganho uma bolsa, um colar, uma agenda e uma luminária da mesma cor.  Basta muito pouco para se colorir um ano e se reposicionar diante de um futuro que começo a desenhar nestes primeiros dias… Se o azul ficar marinho vou dar um jeito de clarear… Feliz 2017 em seu 7º dia…

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O Ingá com suas flores

Carlos Alberto Vizeu

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Carlos Alberto Vizeu com seu grande amigo Boni.

Quando ainda não se falava em preservar memória, eu já guardava fotos, cartas, recortes das reportagens que escrevi…. Isto faz tão parte do meu DNA que escrevi  3 livros que caminham nesta esfera : Um Instante Maestro, sobre o apresentador de TV Flávio Cavalcanti; O Rei na Terra Santa, sobre a produção do show em Jerusalém, e A Verdade é a Melhor Notícia  onde relato a experiência de 30 anos em assessoria de imprensa. Com as empresas e pessoas com quem trabalhei, fechei cada projeto em caixas, pastas, onde entreguei todo o processo bem detalhado, documentado… E acho que foi esse meu olhar para a história / estória que me aproximou de Carlos Alberto Vizeu, profissional de publicidade, produtor e diretor de TV, que cuidou da memória da TV brasileira como se fosse a da sua família.

Conheci Vizeu quando ele procurava um jornalista para apresentar um programa de entrevistas que ocuparia um horário que a sua produtora, TeleTape, tinha na antiga TV Corcovado, de segunda a sexta, das 19 às 20hs. Nós tínhamos amigos em comum e foi num fim de tarde no Antoninos, à beira da Lagoa, que ele me falou sobre o projeto e dei a sugestão de uma série de profissionais que poderiam exercer a função… Mas foi na saída, me acompanhando até o carro, que Vizeu foi definitivo: “eu quero você apresentando o programa. ” Delírio, pensei. Eu tinha um escritório de assessoria de imprensa, muitos clientes e nenhum interesse no assunto. Televisão era uma lembrança do início da vida profissional, sempre morri de vergonha de me ver na telinha, fazer entrevistas fora de cogitação… Aconteceram mais alguns encontros para falarmos sobre este suposto programa que “alguém” iria apresentar e no final Vizeu me ganhou… Superei as dificuldades, aceitei a minha voz rouca, arrumei espaço na agenda e foi um ano imensamente feliz produzindo e apresentando o “Programa da Noite”.

Um ano feliz onde tive a oportunidade de conhecer o Vizeu devoto de Santa Edwiges, filho da Da. Yolanda e do Sr.Ary.  De conhecer Vizeu diretor de comerciais premiados nacional e internacionalmente, que preservava a memória da publicidade através do programa Intervalo, exibido durante muitos anos na então TV Educativa. E conhecer também o Vizeu apaixonado pela TV e sua trajetória, que anos depois pesquisou, escreveu, roteirizou e dirigiu um belíssimo documentário sobre os 60 anos da tv brasileira abordando os temas Os Pioneiros, Teledramaturgia, Telejornalismo, Show e Auditórios, Humor, Infantil, Propaganda, Tecnologia e TV’s Educativas. Este documentário é de tal importância que TODAS as emissoras de tv cederam seus arquivos para compor a série…

Vizeu foi um amigo de vida, daqueles que podemos ficar anos sem ver e quando encontramos nada mudou pois a essência do carinho e fidelidade à amizade permanecem… Desde 2003 ele atuava como consultor do Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) na Rede Vanguarda.  Juntos eles desenvolveram várias peças de publicidade, e o mais recente foi em agosto com o comercial de 13 anos da emissora que atua no Vale do Paraíba. Há poucos meses liguei para contar que a Luciana Savaget encontrara nos guardados da família uma longa entrevista que fiz com Edna Savaget, sua mãe, pioneira da TV, e gostaria de utilizar no documentário que está produzindo. Ele ficou feliz, “pede para ela me ligar, libero com o maior prazer”. E assim nos despedimos…Ele sempre doce, delicado, elegante… E assim, desta forma, ontem ele partiu deixando tantas memórias dos outros, mas não teve tempo de escrever o livro com a sua história…  Adoraria ter escrito este livro, assim como ter a cópia de todos os programas que fiz… Eu também preservo a memória dos outros e não cuido da minha… Mas encontrei no Youtube este vídeo do acervo do Dr. Jorge Bastos Garcia com a abertura do programa e parte de uma entrevista … Obrigada Vizeu por você ter passado em minha vida e deixado tão boas lembranças !

 

 

 

Ver com outros olhos

“Amanhã às 8 você faz a cirurgia… leva o cartão do SUS e o RG…”

“Estou trabalhando, não posso…”

“Oportunidade não se perde…”

Eram quase 5 da tarde quando aconteceu este diálogo. Saí atrás da Aninha, Secretária de Saúde, pedindo ajuda para saber como ter o cartão do SUS. Em poucos minutos estava em minhas mãos, é um procedimento muito fácil, me perguntei por que não fiz antes, pois mesmo com plano de saúde nunca se sabe o que a vida reserva na emergência. Segui com o cartão e sem a certeza de aceitar a proposta. Eu nada tinha pedido. Comentara sobre a necessidade de algum dia fazer esta cirurgia que não há como fugir, é questão de tempo, e assim do nada caiu a solução na minha mão. Era um prêmio que não sabia se devia receber. Continuei trabalhando até as 11 da noite, dividida entre meus pensamentos e a frase repetindo no ouvido “Oportunidade não se perde…”  Lembrava do meu plano de saúde, mas também da dúvida em fazer uma cirurgia que é simples, mas tão delicada, com algum médico no sul da Bahia.  E este grupo de cirurgiões oftalmologistas que acabara de chegar faz parte do melhor time de São Paulo.

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Há três meses eu estava às voltas com o projeto Voluntários do Sertão que escolheu Santa Cruz Cabrália para, durante 5 dias, fazer uma enorme transformação na vida da população. Poderia ter sido qualquer outra cidade com menos de 30 mil habitantes no país, mas chegou aqui por vontade política do prefeito Jorge Pontes que saiu buscando em Brasília boas propostas para a saúde da comunidade. No Ministério da Saúde ele soube no Sesai – Serviço de Saúde Indígena – sobre Dorinho, um menino do sertão de Condeúba que se transformou em empresário bem-sucedido e uma vez por ano realiza um fantástico mutirão. A maior ação de saúde e cidadania gratuita do país. Na sua 16ª edição queria atender índios e foi assim que juntou a vontade política com a ação humanitária. Cabrália é uma cidade com uma das maiores comunidades indígenas em área urbana do Brasil e se adequava ao perfil. O Prefeito topou a parada de oferecer hospedagem, alimentação, transporte local e estrutura para fazer acontecer. Reformou o hospital, transformou escolas em centros de atendimentos, teve que pedir macas emprestadas nas cidades vizinhas, fez muitas reuniões com todos os secretários, vendeu o sonho até para quem não achava possível e a partir do dia 16 começaram a chegar 20 carretas, depois voos da FAB com 387 voluntários entre médicos, enfermeiros, técnicos e profissionais diversos. A tudo isso somou-se 700 voluntários da cidade, entre funcionários municipais e moradores, e o sonho virou realidade. Até acontecer era difícil explicar, mas como diria minha mãe, o que é bom a gente conhece logo….

Voltando ao meu drama. Depois de uma noite entre pesadelos com discussões íntimas e filosóficas, ecoando “Oportunidade não se perde…” às 8hs eu estava no local marcado e me deparei com o circo armado. Era apenas Oftalmologia. Quatro carretas enormes cercadas por tendas. Cadeiras dispostas em filas, separadas por grades, uma triagem perfeita. O cartão do SUS e o RG na mão, digitadores conferindo informações e a fila começa a andar. Chegam voluntários pingando colírio nos olhos dos pacientes. Já dilatei várias vezes a pupila, conheço o procedimento. Crianças, velhos, jovens, mulheres, rapazes, se assustam com a gotinha. E ia eu seguindo o povo, mudando de cadeira, pois esta é uma fila sentada. À minha frente uma índia idosa, ao lado uma garota com pouco mais de 12 anos, pessoas carregando travesseiros e edredons, dormiram aguardando atendimento. Meu sentimento de culpa explode. Quero sair correndo, mas encontro com uma das voluntárias com quem conversei muito sobre logística e como superar dificuldades no evento, pois nem tudo o que pediam a cidade podia oferecer. Ela é profissional destacada de uma multinacional e uma vez por ano é só voluntária. Quando me viu escancarou um sorriso e disse: “que bom você estar aqui… faz os dois olhos de uma só vez… manda um beijo para o Dr. Neto…” e foi embora atarefada no maior astral… Recebo o comentário e carinho como sinal para não desistir, esqueço a culpa. E vou passando de cadeira a cadeira, andando muito rápido e em uma hora já estou no consultório oftalmológico. Um espaço pequeno onde cabe perfeitamente o médico sentado em um banquinho com seu equipamento e uma secretária numa mesinha com computador fazendo anotações. Ele examina e confirma: catarata. “Quer fazer os dois olhos? ”  Já não sou mais dona de mim e vou aceitando o que a vida me oferece.

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Mais gotinhas nos olhos, número do SUS e RG para um outro digitador registrar, colam adesivos na minha blusa, alguém me acompanha ao centro cirúrgico e quando percebo já estão me preparando. Touca nos cabelos, me vestem um tipo de avental, capa cobrindo os sapatos. Sentado ao meu lado, esperando a porta da sala de cirurgia abrir, um senhor passando dos 70 desabafa: “se o médico disser que não pode mais operar, vou prá casa feliz. Eu não sabia que tinha catarata”….  Assim como ele, no dia anterior uma senhorinha chegou com 100% de catarata. Estava cega, saiu enxergando tudo… Centenas de histórias assim.  A porta abre, me conduzem à uma cadeira azul tão inclinada que parece uma cama. Creio que deviam ter uma 8 iguais. Deito, alguém passa um líquido em volta do meu olho direito, cobre com uma venda, abre um buraco e coloca um aparelho para manter aberto. Incomoda um pouco. Chega outra pessoa que percebo ser o médico e pergunto quem é Neto. Era ele. Coincidência ter caído em suas mãos. Digo que Ana mandou um beijo. Ele diz que ela devia ter subido para vê-lo e avisa que vai mais uma gotinha e esta irá arder. Estou entregue às suas mãos. A partir daí fiquei com a impressão que havia uma música no ar, mas era o delicado barulho do laser. As luzes iam mudando de intensidade, parecia um caleidoscópio, até entrar um pequeno elemento verde esmeralda esplendoroso e a brincadeira acabou. Fecharam meu olho e começou tudo de novo do outro lado. Não havia passado 8 minutos quando levantei da cama. Eu enxergava tudo com muito mais luz. Saí tateando, me colocaram óculos escuros. E assim estou a menos de uma semana da cirurgia de cataratas nos dois olhos…. A minha vida tem outro brilho…. Quem passou por isso sabe o que estou falando, quem ainda não, vale saber que é o maior barato !! Nunca pensei que meus olhos estivessem tão embaçados… A gente vai se acostumando com o ruim, com poucos propósitos transformadores, nenhuma novidade e vai perdendo a beleza, o brilho e a cor… Nestes dias em que tenho que estar longe de multidão, sem óculos de grau nem olhos pintados, decidi que quero estar pronta a aceitar as ofertas de mudanças. Mesmo que tenha medo no princípio, discuta com meus botões, perca meu sono, tenho que lembrar sempre que “Oportunidade não se perde…”

EM TEMPO:

Os Voluntários do Sertão tinha estimativa de 30 mil atendimentos em cinco dias e chegou a 40.450.

As amigas

abertura cronica

Depois da minha pequena família, o meu bem mais precioso é o caderno de endereços. Nem os brincos de ouro, o medalhão de Nossa Senhora, os quadros de São Miguel Arcanjo e São Francisco de Assis, peças que tem algum valor pecuniário, eu quero tanto quanto o meu caderninho. Digital ou impresso não importa, é lá onde estão meus amigos, as pessoas que conheci e conquistei… Alguns estão mais próximos, outros distantes, mas com eles construí uma teia, um bordado bonito e firme, e a qualquer momento, num simples telefonema, posso pedir um colo ou ouvir um desabafo como se o tempo não tivesse passado…. Morar distante do grande centro me dá o prazer ao receber amigos e desfrutar por mais tempo a sua companhia. Do bom dia ao boa noite, lembrar histórias, construir novas, ficamos bem juntos por alguns dias.  Estes últimos têm sido de grande alegria com chegada de amigas que fazem parte do enredo da minha vida. Uma dos anos 80 quando morei em Nova York, outra de Lisboa em 2004. Lali e Mari, inesquecíveis… Schuma que conheci em Portugal para empreender uma deliciosa viagem onde quatro mulheres se revezaram na direção de um carro, veio também.  Viajamos de novo rindo demais das nossas aventuras por estradas portuguesas, depois cortando a Espanha e França, até uma maluquice de cruzar o estreito de Gibraltar e conhecer Marrocos. E, de repente, estas quatro mulheres me visitam. Um presente de Deus em dias de sol e noites estreladas, em volta de mesa farta, bebendo caipirinha na praia, vinho e whisky a noite, assando carne na churrasqueira, contando “causos” e tomando banho nas águas mornas e tranquilas de Santo André.

Os anos passaram e estamos encarando firme a maturidade. Em conversas percebo como continuamos crescendo como mulheres fortes. A ética e o respeito permeiam nossas conversas. Atitudes de cidadãs. Todas olhamos com cuidado o semelhante, a comunidade que nos cerca, o planeta. Ninguém ficou surpresa ao ver a compostagem do meu quintal nem a coleta seletiva que faço dos resíduos sólidos. Elas têm este pensamento no dia a dia, mesmo morando em apartamentos no meio de grandes centros urbanos. Entre outras coisas temos em comum o contato com alguma fé, uma força maior que nos encaminha, sem precisar entrar na questão de qual crença ou igreja. O Deus é o mesmo. Estamos conectadas com o universo. Não falamos sobre política, mas desejamos igualdade de condições aos brasileiros, oportunidades aos jovens e somos totalmente contra a corrupção venha de onde vier… Justiça sem sangue no olhar, com dignidade.

Orgulho destas amigas profissionais sérias e competentes. Lali (Jurovsky)  terapeuta  em Continuum Movement*, Mari (Mariangela Sedrez) produtora de super eventos como a árvore de Natal da Lagoa e o Festival do Vale do Café, e Schuma (Schumaher) atuante feminista, pedagoga, escritora, pesquisadora, liderança de fibra… Um caldeirão de ideias fervilha em minha casa nestes dias. Os meus amigos me fortalecem, me alimentam, me equilibram e me atualizam do mundo… Sentamos embaixo das árvores ou ficamos apenas vendo a maré subir e descer enquanto contamos nossas histórias nestes últimos anos…. Passamos a vida a limpo… A artrose, o colesterol estranho, a opção em deixar o cabelo branco, a dificuldade em abaixar o peso, a complacência com nossas mazelas, mas nunca fomos tão bonitas e felizes…

Sei que quando partirem ficarão temas que vão me acompanhar em reflexões ao longo de semanas, meses… Vai ficar um livro de Nossa Senhora Aparecida, um quadrinho poético para a parede, um par de brincos Swarovski, as rolhas dos vinhos que bebemos, fotos no celular, e mais do que isso, a certeza de que a qualquer dia nos encontramos de novo e teremos mais historias para acrescentar neste livro que escrevemos a tantas mãos…

*Continuum Movement um método de educação somática desenvolvido há mais de 50 anos pela americana Emile Conrad, que permite entrarmos em contato com a sabedoria e o potencial criativo e inesgotável dos nossos corpos. Estimulados pela emissão de sons e respirações, exploramos movimentos na linguagem formativa ondulatória, sinuosa, não-repetitiva, nem padronizada da vida. As explorações tornam possíveis maneiras inéditas de nos fortalecer e ganhar flexibilidade física e existencial.

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Voltei

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Nos últimos anos tem sido assim: os meses de dezembro, janeiro e fevereiro correm mais do que as minhas pernas podem alcançar…. Hospedes chegam e partem, amigos visitam, passam para uma conversa, um almoço ali, um jantar acolá, uma tapioca no café da manhã, um prosecco na praia – todo mundo toma espumante! – , um vinho no fim da tarde, eles estão de férias e eu trabalhando, em casa e na prefeitura. O filho me conforta por 4 semanas, longas conversas, vida colocada em dia, presente e futuro. Acompanho a sua maturidade, orgulho do seu caminho bem construído.  Fico feliz com suas escolhas e a forma clara, lucida de olhar o mundo.  Recebo como presente uma foto nossa reproduzida em um bordado. Não pode ser mais delicado… Continuo costurando amizades e afetos, em forma de bonecas e colchas… Num êxtase de inventividade, uni retalhos com bordados e ficou surpreendente… Nenhuma modéstia, a esta altura da vida este sentimento deixou de habitar em mim.

O carnaval passou e pela primeira vez vi como é em Cabrália. Acontece uma semana antes do original, já é tradição. É a Bahia com todos os Bs As Hs  Is e As em caixa bem alta. Impossível conversar no volume do trio elétrico. Entrei em um para ver como é e babei com a super sofisticação da área interna. Suítes de luxo, palco de responsabilidade. Fico surda e tento entender as letras geralmente com duplo sentido na mistura de ritmos sertanejo, arroxa, pagode e o que mais vier. É assim por aqui. Tão perto e tão diferente do bloco de Santo André que sai no sábado de carnaval com sua charanga tocando “mamãe eu quero” e outras tantas marchinhas, levantando poeira pelas ruas, homens vestidos de mulher, crianças de borboleta, fantasias bizarras, poucas baianas…Tudo inesquecível…Uma exaustão, um prazer único, quem viveu pode contar.

Aproveitando a entressafra de dois dias com casa vazia, dei folga para a turma que pega pesado comigo, tempo para respirar, bateu um banzo. Saudades de escrever e dos irmãos. Tenho muitos amigos e pouca família. Não vejo há tempo os que me viram com catapora, com quem dividi a lata de leite condensado, disputei o ultimo bife do prato, dancei até cansar, pedi colo, dormi junto, compartilhei sonhos e mangas caídas do quintal. Em volta da mesa no almoço de domingo éramos um grupo forte, parecia que a cena jamais se apagaria. Caímos na vida, os esteios da casa partiram e temo em nosso reencontro sermos apenas velhinhos com pouca memória…

Nas memórias recentes encontro para jantar um amigo que hoje mora em BH e conheci quando cheguei na Bahia. Pensei um projeto, ele deu força, montamos juntos e assim nasceu a Caravana Veracel, uma ação de cidadania que só por ter visto acontecer justificaria a minha existência. Já disse isso também no projeto de voluntariado em Lisboa em 2004, no relato sobre Jerusalém em 2012, e sou feliz por ter sido parte de tantos sonhos, por onde deixei um pedaço de mim, vi se tornar realidade. Como é bom fechar ciclos, iniciar novos…. Estou neste tempo, enfim um novo ano… Sei que algumas vezes o barco emperra na areia, o motor não pega, dá preguiça e não há muito a fazer senão esperar a maré subir e ganhar novamente o mar. E chegou a hora. Estou soltando as amarras, 2016 aqui vou eu…

Felicidades

O publicitário Nizan Guanaes publicou a semana passada na Folha de São Paulo, um belo artigo com o sugestivo título “Rezar”. Como eu rezo, compartilhei no FB e outros tantos amigos comentaram e multiplicaram a informação. Uma corrente bacana se formou. Até onde eu vi eram mais de 24 mil compartilhamentos.  Eu penso que o que passa pela nossa cabeça é o alimento para a alma e o coração. Minhas constatações, não tem fundamento científico, apenas um olhar à vida e um ajuntamento de leituras variadas.

Eu sei como é difícil silenciar a mente. Ela fala mais do que a boca, corre de um lado para outro, muda de assunto traz lembranças antigas, projeta diálogos que jamais existiram, anda para frente e para trás no tempo.  Aquietar é tarefa árdua, por isso creio que enquanto rezo ou medito ou repito um mantra fujo da “mente vazia morada do demônio”. Ouvi pela primeira vez esta frase devia ter pouco mais de 13 anos. Ao lado da grande casa em que morávamos na Tijuca vivia uma família que tinha apenas um filho estudante do Colégio Militar, aplicado e bonitão. A mãe zelosa repetia esta frase ao telefone para as garotas que o procuravam, acrescentando: “pensa em outra coisa, vai ser melhor para você. ” E eu ouvia por trás da veneziana da janela do meu quarto e imaginava como devia ser difícil pensar em outra coisa e sedutora a morada do demônio com desejos ilimitados…

anjo

O céu e o inferno, anjos e demônios, caminharam comigo ao longo dos meus 10 anos de idade. Na 4ª. série do primário, hoje ensino fundamental, entrou uma nova aluna que sentou na carteira ao meu lado. Sim, as carteiras escolares eram duplas, quem passou dos 50 conheceu esta forma integrativa nas antigas salas de aula. Rapidamente ficamos amigas e um dia ela confidenciou que via o meu anjo da guarda. Estudávamos em colégio de freiras e santos, anjos, querubins eram temas corriqueiros. Mas ver o anjo da guarda era delírio. E é claro que entrei nesta viagem sem contar para ninguém, nem mesmo ao padre no confessionário. Durante todo este ano, comi metade do prato de comida, meio sanduíche, meio picolé. Corri menos, pedalei menos ainda. Deixei de subir em árvores, pulei pouco corda, dormi num canto da cama, pois tinha que deixar espaço para o meu anjo. Ele não podia se cansar e também tinha suas vontades. Assim vivi um ano exercitando o dividir com quem não via. Apenas acreditava que estava comigo, zelava por mim. A garota foi embora o ano seguinte, e por mais doido que tenha sido a experiência aprendi a conversar com o meu anjo, com um Deus, sem qualquer medo do fogo do inferno.  Com Ele posso dividir alegrias, tristezas, duvidas… Prato de comida não é mais necessário…

Mesmo nos períodos em que estive mais para o profano do que para o sagrado, permaneci acreditando que foco, atenção, boas palavras e bons pensamentos, transformam.  Aonde você coloca a sua atenção – ou tensão, ou tesão – vai dar frutos. É por isso que neste final de ano, desejo que você ganhe alguns minutos de prazer em sua vida como uma prece, ou reflexão, ou meditação ou apenas um pensamento de gratidão por mais este ano.  Foi muito bom ter me disciplinado a escrever todas as semanas, feito novos amigos, compartilhado meus pensamentos. Que todas as boas coisas do universo façam parte do seu novo ano… Feliz 2016.

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Força na peruca

Não sou produtora. Sempre afirmei em todos os eventos que trabalhei. Sou cabeça de criar, inventar, promover e não me chamem para produzir. Tanto repeti que o universo me respondeu com um desafio: vai ser o que você não quer ser. A vida tem disso… Tudo o que negamos acaba um dia batendo em nossa porta. É o que temos que aprender na caminhada… E foi assim que surgiu o Festival de Inverno de Santo André. Tive uma ideia! Isto é normal. Vou escrever um projeto, também normal. Vou comunicar às pessoas, fazer os contatos, colocar toda a comunidade para participar. Tudo muito óbvio. Levei o projeto ao prefeito que adorou “é tudo o que desejo para Santa Cruz Cabrália”, ele falou. “Conte com o palco som luz e a estrutura para o festival”. Aprendi que em reuniões profissionais não se deve ir sozinho. Estava acompanhada da administradora da vila, Silvia, e da diretora de cultura da cidade, Rita, testemunhas da promessa de que o sonho ia sair do papel. Mas ficou apenas ali. E  agora que já coloquei as crianças e os jovens prá ensaiar um lindo espetáculo? Aos convidados que viriam de longe (diretor de cinema, atores, músicos, coreógrafa) enviei um email agradecendo e pedindo desculpas pela falta de recursos com o não cumprimento da palavra do prefeito. Mas para a turma daqui? Como dizer que nada iria acontecer? A oferta de patrocínio da Veracel, empresa de celulose do Sul da Bahia, é apenas 15% do orçamento !! Não acredito em políticos, mas acredito em milagres e em amigos. Hoje o palco começou a ser construído à beira do rio, como havia planejado. Um amigo que tem empresas de eventos em Porto Seguro, Locar Eventos e DiskStand, quando telefonei dizendo que estava tudo cancelado, disse: “nós vamos fazer de qualquer maneira”. Bem que eu poderia ter feito um moderno “crowdfunding” mas sou do tempo de ação entre amigos… Zenaide, Lily, Reghi, Luiz Felipe, Juliana, Eleonora, Rodrigo, Andréa, Nel, Betty, amigos pessoais e da vila que estão em São Paulo, Rio e BH deram uma ajuda para as faixas que já foram para a rua, para o fundo do palco que está sendo produzido (afinal um espetáculo tem que ter cenário!!!) e para os cartazetes com a programação que ficam prontos na 2ª. feira. O incrível Zé de Broi, talentoso diretor de arte que veio morar em nossa vila criou a comunicação visual… Ontem quando saí com uma enorme escada no carro e com a ajuda do Guinho colocamos as faixas na rua, lembrei dos mega eventos que participei onde não se colocavam faixas mas enormes outdoors, totens, anúncios de página inteira nos mais importantes jornais. Hoje vendo o caminhão descarregar o material com a estrutura do palco às beira do rio, foi uma enorme emoção. Talvez maior do que um Rock in Rio… Ficamos estabelecendo a melhor posição para palco e plateia… Serão 200 cadeiras brancas embaixo de um toldo, caso o tempo mude… Poucos vão precisar trazer cadeiras de casa… Ainda falta resolver o transporte e hospedagem dos 5 músicos que vem de Trancoso, camisetas para a equipe de voluntários, faixas para os bairros vizinhos, carro de som anunciando na comunidade e outros detalhes… Aprendi que o ótimo é inimigo do bom e faço do tamanho que der… Abaixo a programação e tenho imenso prazer em convidar a todos para este festival! Faço meu acerto de contas com a “produção” e realizo meu primeiro e único evento.

Fundo do palco

PROGRAMAÇÃO Dia 27 – Sexta-feira – 20h30 Dança

  • Fragmentos do espetáculo ABAPURU HOMEM NOVO apresentado por crianças e jovens do CCC
  • Apresentação do Grupo Afro Aféfé com os dançarinos Andressa, Guto, Jairo, Mari, Monica, Priscilla,  Simona e Vivian, e os percussionistas Kaito Odara e Marcello Bottini.

Dia 28 – Sábado – 20h30 Música

  • Apresentação dos alunos de cordas e flauta do IASA
  • Quarteto de cordas do Neojiba- Instituto SHC de Trancoso
  • Duo Ray Trapp& Marcelo Bottini

Dia 29 – Domingo – 20h30 Cinema

  • “Morde Diabo” – curta realizado por um grupo de jovens de Santo André na Oficina Itinerante de Vídeo Tela Brasil de Santa cruz Cabrália.
  • “Xingu” – longa com João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat, baseado na história real dos Irmãos Villas Boas.

Periquitos e cupins

Construindo um ninho (Foto : Cláudia Schembri)

Gosto dos domingos quando faço o café da manhã num ritual silencioso e solitário… Trago esta lembrança de todas as casas por onde vivi, o prazer de arrumar a mesa, colocar as delicias disponíveis na cozinha, preparar panquecas, passar o café e depois sentar para digerir calmamente o banquete e as letras dos jornais e revistas… Aqui em Santo André há uma alteração nos componentes da mesa. Sem jornais ou revistas do dia, “releio” minhas memórias, viajo nos pensamentos, enquanto os passarinhos chegam para comer o que sobrou do mamão cuja casca, cuidadosamente coloco em um pedaço de madeira na árvore. E foi olhando os passarinhos nesta manhã que vi dois periquitos trabalhando numa enorme casa de cupim. Eu bem que pensara em retirar a casa de cupim há algumas semanas quando fiz a poda no quintal, mas esqueci, e o Guinho, que me ensina os “segredos’ da vida rural, comentara que às vezes periquitos fazem ninho em velhas casas de cupim. Fiquei torcendo para os periquitos saírem ganhando nesta disputa e acho que deu certo. Enquanto um periquito entra na casa e faz a limpeza, o outro fica do lado de fora tomando conta.
Incrível a natureza ! E tão encantada com a cena do quintal, fui pesquisar no bom e velho Google sobre o assunto encontrando um blog bacana do Francisco Perna Filho, poeta, contista, compositor, professor universitário, um homem interessado em literatura e arte. Em seu espaço compartilha poemas e crônicas de autores como Gregório de Matos, Ledo Ivo, Torquato Neto E viva a internet ! Com quatro livros publicados, em seu blog encontrei o conto “Ninho de Periquitos” do goiano Hugo Carvalho Ramos (1895-1921) que acabou sendo a principal noticia do “meu jornal” esta manhã…

Desfiles de passarinhos nas fotos da Cláudia