Arquivo da categoria: Memórias

Por onde eu passei

…e assim se passaram 15 anos

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Apesar de minha mãe dizer que acabamos como pó, prefiro acreditar na alma e que quando as pessoas morrem vão para um outro local, um novo cenário e um dia nos reencontramos. Este sentimento espiritualista cristão me acalma.  Mas em nenhum momento diminui a vontade em estar junto. Recentemente na novela “Eta mundo bão” o personagem central repetia que “tudo de ruim que acontece é pra melhor”. Desculpe Walcir Carrasco, autor da novela, mas esta frase é minha, repetida intensamente nos últimos anos. Repito para mim  e para amigos em crise… Nada poderia ser pior do que a partida tão rápida do meu irmão. Em apenas 9 meses aquele homem lindo, cheio de sonhos, cumpriu sua parte nesta dimensão e se foi. Se ele ainda aqui estivesse certamente eu continuaria vivendo em uma vida louca entre Rio e São Paulo, sabe-se lá por onde mais, e apenas usufruindo deste paraíso nas férias… Não teria aprendido com a mudança das marés e as luas o verdadeiro movimento da vida… Hoje vivo na casa que foi dele, ainda com muitos de seu mas do meu jeito…Sou feliz em saber que ele está só do outro lado da cortina … Quem sabe vendo eu cuidar de tudo, da grama que nasceu, as árvores que estão altíssimas, das novas flores que plantei, da horta e dos amigos que me visitam e ouvem eu lembrar de suas historias… Cada dia que amanhece ou mergulho no mar agradeço por este presente. Qualquer hora nos vemos meu querido irmão… Hoje são 15 anos de sua partida…

Foto feita por Leila Castanheira, primeira travessia da balsa, 1992.

Meu Natal

dd4dc2c5-a22c-4f2b-9efd-f89009b4ef11Então é Natal… Não vou cantar a música da Simone nem lembrar que desisti de festejar há 15 anos… Este ano tudo está diferente. Em julho quando vi o meu braço esquerdo imobilizado devido uma queda, tive tempo para refletir sobre a importância dele… Sou destra, mas a parceria é dos dois… Pra escrever, pra me banhar, pra dirigir, pra comer, pra tanta coisa, inclusive costurar… E aí me deu uma vontade enorme de fazer bonecas, mas como ? Então para estimular o braço a ficar bom, prometi a mim mesma que faria muitas bonecas para distribuir às crianças da escola infantil de Santo André… 22 meninos e 19 meninas…   E assim, depois de 1 mês de gesso, dois meses de fisioterapia, fui recuperar os movimentos brincando de fazer bonecas de pano, com enorme carinho e amor, imaginando cada criança que iria receber. Detalhes de laços de fita, babados, bordado inglês na saia, arremate feito a mão nas camisetas dos meninos, cabelos de lã … Estes meses se passaram e com a ajuda da Lelê na “”costura reta” completei minha missão… Ainda fiz sacos para embalar e coloquei o papelzinho com o nome da criança para Papai Noel não se confundir… A festa aconteceu a semana passada e não assisti. Acho que iria me debulhar em lágrimas e tinha a desculpa da chegada de um amigo… Agradeço à Claudia Schembri que fez as fotos, a Sara Amorim que gentilmente trouxe de sp tecido marrom que não encontrei por aqui e Patricia Farina, diretora do Centro Educacional Maria Marta, que me permitiu fazer este sonho. O meu Natal já rolou… Não vi Papai Noel, mas não importa…

Em tempo : as bonecas de pano que faço são inspiradas na Tilda, criada pela design norueguesa Tone Finnanger que também desenvolveu outros tantos produtos em tecido como coelho, colchas, almofadas, etc… A minhas Tilda tem 53cm de comprimento, olhos pequenos, bochechas rosadas e pescoço alongado… Como todas as Tildas do mundo não tem boca, as crianças falam por elas…

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Ver com outros olhos

“Amanhã às 8 você faz a cirurgia… leva o cartão do SUS e o RG…”

“Estou trabalhando, não posso…”

“Oportunidade não se perde…”

Eram quase 5 da tarde quando aconteceu este diálogo. Saí atrás da Aninha, Secretária de Saúde, pedindo ajuda para saber como ter o cartão do SUS. Em poucos minutos estava em minhas mãos, é um procedimento muito fácil, me perguntei por que não fiz antes, pois mesmo com plano de saúde nunca se sabe o que a vida reserva na emergência. Segui com o cartão e sem a certeza de aceitar a proposta. Eu nada tinha pedido. Comentara sobre a necessidade de algum dia fazer esta cirurgia que não há como fugir, é questão de tempo, e assim do nada caiu a solução na minha mão. Era um prêmio que não sabia se devia receber. Continuei trabalhando até as 11 da noite, dividida entre meus pensamentos e a frase repetindo no ouvido “Oportunidade não se perde…”  Lembrava do meu plano de saúde, mas também da dúvida em fazer uma cirurgia que é simples, mas tão delicada, com algum médico no sul da Bahia.  E este grupo de cirurgiões oftalmologistas que acabara de chegar faz parte do melhor time de São Paulo.

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Há três meses eu estava às voltas com o projeto Voluntários do Sertão que escolheu Santa Cruz Cabrália para, durante 5 dias, fazer uma enorme transformação na vida da população. Poderia ter sido qualquer outra cidade com menos de 30 mil habitantes no país, mas chegou aqui por vontade política do prefeito Jorge Pontes que saiu buscando em Brasília boas propostas para a saúde da comunidade. No Ministério da Saúde ele soube no Sesai – Serviço de Saúde Indígena – sobre Dorinho, um menino do sertão de Condeúba que se transformou em empresário bem-sucedido e uma vez por ano realiza um fantástico mutirão. A maior ação de saúde e cidadania gratuita do país. Na sua 16ª edição queria atender índios e foi assim que juntou a vontade política com a ação humanitária. Cabrália é uma cidade com uma das maiores comunidades indígenas em área urbana do Brasil e se adequava ao perfil. O Prefeito topou a parada de oferecer hospedagem, alimentação, transporte local e estrutura para fazer acontecer. Reformou o hospital, transformou escolas em centros de atendimentos, teve que pedir macas emprestadas nas cidades vizinhas, fez muitas reuniões com todos os secretários, vendeu o sonho até para quem não achava possível e a partir do dia 16 começaram a chegar 20 carretas, depois voos da FAB com 387 voluntários entre médicos, enfermeiros, técnicos e profissionais diversos. A tudo isso somou-se 700 voluntários da cidade, entre funcionários municipais e moradores, e o sonho virou realidade. Até acontecer era difícil explicar, mas como diria minha mãe, o que é bom a gente conhece logo….

Voltando ao meu drama. Depois de uma noite entre pesadelos com discussões íntimas e filosóficas, ecoando “Oportunidade não se perde…” às 8hs eu estava no local marcado e me deparei com o circo armado. Era apenas Oftalmologia. Quatro carretas enormes cercadas por tendas. Cadeiras dispostas em filas, separadas por grades, uma triagem perfeita. O cartão do SUS e o RG na mão, digitadores conferindo informações e a fila começa a andar. Chegam voluntários pingando colírio nos olhos dos pacientes. Já dilatei várias vezes a pupila, conheço o procedimento. Crianças, velhos, jovens, mulheres, rapazes, se assustam com a gotinha. E ia eu seguindo o povo, mudando de cadeira, pois esta é uma fila sentada. À minha frente uma índia idosa, ao lado uma garota com pouco mais de 12 anos, pessoas carregando travesseiros e edredons, dormiram aguardando atendimento. Meu sentimento de culpa explode. Quero sair correndo, mas encontro com uma das voluntárias com quem conversei muito sobre logística e como superar dificuldades no evento, pois nem tudo o que pediam a cidade podia oferecer. Ela é profissional destacada de uma multinacional e uma vez por ano é só voluntária. Quando me viu escancarou um sorriso e disse: “que bom você estar aqui… faz os dois olhos de uma só vez… manda um beijo para o Dr. Neto…” e foi embora atarefada no maior astral… Recebo o comentário e carinho como sinal para não desistir, esqueço a culpa. E vou passando de cadeira a cadeira, andando muito rápido e em uma hora já estou no consultório oftalmológico. Um espaço pequeno onde cabe perfeitamente o médico sentado em um banquinho com seu equipamento e uma secretária numa mesinha com computador fazendo anotações. Ele examina e confirma: catarata. “Quer fazer os dois olhos? ”  Já não sou mais dona de mim e vou aceitando o que a vida me oferece.

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Mais gotinhas nos olhos, número do SUS e RG para um outro digitador registrar, colam adesivos na minha blusa, alguém me acompanha ao centro cirúrgico e quando percebo já estão me preparando. Touca nos cabelos, me vestem um tipo de avental, capa cobrindo os sapatos. Sentado ao meu lado, esperando a porta da sala de cirurgia abrir, um senhor passando dos 70 desabafa: “se o médico disser que não pode mais operar, vou prá casa feliz. Eu não sabia que tinha catarata”….  Assim como ele, no dia anterior uma senhorinha chegou com 100% de catarata. Estava cega, saiu enxergando tudo… Centenas de histórias assim.  A porta abre, me conduzem à uma cadeira azul tão inclinada que parece uma cama. Creio que deviam ter uma 8 iguais. Deito, alguém passa um líquido em volta do meu olho direito, cobre com uma venda, abre um buraco e coloca um aparelho para manter aberto. Incomoda um pouco. Chega outra pessoa que percebo ser o médico e pergunto quem é Neto. Era ele. Coincidência ter caído em suas mãos. Digo que Ana mandou um beijo. Ele diz que ela devia ter subido para vê-lo e avisa que vai mais uma gotinha e esta irá arder. Estou entregue às suas mãos. A partir daí fiquei com a impressão que havia uma música no ar, mas era o delicado barulho do laser. As luzes iam mudando de intensidade, parecia um caleidoscópio, até entrar um pequeno elemento verde esmeralda esplendoroso e a brincadeira acabou. Fecharam meu olho e começou tudo de novo do outro lado. Não havia passado 8 minutos quando levantei da cama. Eu enxergava tudo com muito mais luz. Saí tateando, me colocaram óculos escuros. E assim estou a menos de uma semana da cirurgia de cataratas nos dois olhos…. A minha vida tem outro brilho…. Quem passou por isso sabe o que estou falando, quem ainda não, vale saber que é o maior barato !! Nunca pensei que meus olhos estivessem tão embaçados… A gente vai se acostumando com o ruim, com poucos propósitos transformadores, nenhuma novidade e vai perdendo a beleza, o brilho e a cor… Nestes dias em que tenho que estar longe de multidão, sem óculos de grau nem olhos pintados, decidi que quero estar pronta a aceitar as ofertas de mudanças. Mesmo que tenha medo no princípio, discuta com meus botões, perca meu sono, tenho que lembrar sempre que “Oportunidade não se perde…”

EM TEMPO:

Os Voluntários do Sertão tinha estimativa de 30 mil atendimentos em cinco dias e chegou a 40.450.

As amigas

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Depois da minha pequena família, o meu bem mais precioso é o caderno de endereços. Nem os brincos de ouro, o medalhão de Nossa Senhora, os quadros de São Miguel Arcanjo e São Francisco de Assis, peças que tem algum valor pecuniário, eu quero tanto quanto o meu caderninho. Digital ou impresso não importa, é lá onde estão meus amigos, as pessoas que conheci e conquistei… Alguns estão mais próximos, outros distantes, mas com eles construí uma teia, um bordado bonito e firme, e a qualquer momento, num simples telefonema, posso pedir um colo ou ouvir um desabafo como se o tempo não tivesse passado…. Morar distante do grande centro me dá o prazer ao receber amigos e desfrutar por mais tempo a sua companhia. Do bom dia ao boa noite, lembrar histórias, construir novas, ficamos bem juntos por alguns dias.  Estes últimos têm sido de grande alegria com chegada de amigas que fazem parte do enredo da minha vida. Uma dos anos 80 quando morei em Nova York, outra de Lisboa em 2004. Lali e Mari, inesquecíveis… Schuma que conheci em Portugal para empreender uma deliciosa viagem onde quatro mulheres se revezaram na direção de um carro, veio também.  Viajamos de novo rindo demais das nossas aventuras por estradas portuguesas, depois cortando a Espanha e França, até uma maluquice de cruzar o estreito de Gibraltar e conhecer Marrocos. E, de repente, estas quatro mulheres me visitam. Um presente de Deus em dias de sol e noites estreladas, em volta de mesa farta, bebendo caipirinha na praia, vinho e whisky a noite, assando carne na churrasqueira, contando “causos” e tomando banho nas águas mornas e tranquilas de Santo André.

Os anos passaram e estamos encarando firme a maturidade. Em conversas percebo como continuamos crescendo como mulheres fortes. A ética e o respeito permeiam nossas conversas. Atitudes de cidadãs. Todas olhamos com cuidado o semelhante, a comunidade que nos cerca, o planeta. Ninguém ficou surpresa ao ver a compostagem do meu quintal nem a coleta seletiva que faço dos resíduos sólidos. Elas têm este pensamento no dia a dia, mesmo morando em apartamentos no meio de grandes centros urbanos. Entre outras coisas temos em comum o contato com alguma fé, uma força maior que nos encaminha, sem precisar entrar na questão de qual crença ou igreja. O Deus é o mesmo. Estamos conectadas com o universo. Não falamos sobre política, mas desejamos igualdade de condições aos brasileiros, oportunidades aos jovens e somos totalmente contra a corrupção venha de onde vier… Justiça sem sangue no olhar, com dignidade.

Orgulho destas amigas profissionais sérias e competentes. Lali (Jurovsky)  terapeuta  em Continuum Movement*, Mari (Mariangela Sedrez) produtora de super eventos como a árvore de Natal da Lagoa e o Festival do Vale do Café, e Schuma (Schumaher) atuante feminista, pedagoga, escritora, pesquisadora, liderança de fibra… Um caldeirão de ideias fervilha em minha casa nestes dias. Os meus amigos me fortalecem, me alimentam, me equilibram e me atualizam do mundo… Sentamos embaixo das árvores ou ficamos apenas vendo a maré subir e descer enquanto contamos nossas histórias nestes últimos anos…. Passamos a vida a limpo… A artrose, o colesterol estranho, a opção em deixar o cabelo branco, a dificuldade em abaixar o peso, a complacência com nossas mazelas, mas nunca fomos tão bonitas e felizes…

Sei que quando partirem ficarão temas que vão me acompanhar em reflexões ao longo de semanas, meses… Vai ficar um livro de Nossa Senhora Aparecida, um quadrinho poético para a parede, um par de brincos Swarovski, as rolhas dos vinhos que bebemos, fotos no celular, e mais do que isso, a certeza de que a qualquer dia nos encontramos de novo e teremos mais historias para acrescentar neste livro que escrevemos a tantas mãos…

*Continuum Movement um método de educação somática desenvolvido há mais de 50 anos pela americana Emile Conrad, que permite entrarmos em contato com a sabedoria e o potencial criativo e inesgotável dos nossos corpos. Estimulados pela emissão de sons e respirações, exploramos movimentos na linguagem formativa ondulatória, sinuosa, não-repetitiva, nem padronizada da vida. As explorações tornam possíveis maneiras inéditas de nos fortalecer e ganhar flexibilidade física e existencial.

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Sobre (e sob) a rede

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Há pouco mais de um ano Sara, moradora de São Paulo, apaixonada por New York, criou um espaço no Instagram para compartilhar fotos da Big Apple e convidou turistas e profissionais a fazer o mesmo… Assim surgiu @what_i_say_in_nyc que na semana passada tinha mais de 153 mil seguidores de todas partes do mundo postando fotos de ângulos fantásticos… Juntos construíram um grande álbum, formaram uma enorme tribo de loucos por Manhattan… O que começou como hobby e a deixava no conforto do anonimato, a semana passada tomou outra dimensão. Ah! o sucesso, sempre o sucesso, com o ego a inveja na cola,  de repente, ela viu sua conta hackeada. Trocaram a senha, mudaram o nome e começou uma conversa de extorsão. Momentos de terror até uma amiga conseguir postar um aviso que a conta tinha sido roubada e os seguidores que nunca a tinham visto, não sabiam se era mulher ou homem, nem em que lugar do planeta morava, passaram a enviar mensagens à base do Instagram denunciando o fato. Os gerentes internacionais responderam e mais do que devolver o espaço à Sara estão tentando enquadrar o larápio.

Este grito nas redes me fascina e me assusta.  Ao mesmo tempo são movimentos mágicos. Estamos vivendo isso todos os dias… Alguns assustam pela violência que vem nas entrelinhas ou até de forma bem direta… Prefiro os movimentos mágicos da rede embaixo de uma arvore que me levam à reflexão. Citar Nova York é sempre puxar um fio atoa na memória, qualquer imagem vem carregada de lembranças. Do sabor do cachorro quente nas esquinas, ao cheiro das castanhas assadas, o prazer da taça de vinho branco as sextas-feiras no bar da Grand Central, o vento frio no inverno cortando as ruas da ilha… Tudo me lembra… Viver lá aos 32 anos foi a primeira grande experiência pessoal que a vida me deu. Conclui este fato nos últimos tempos. Era eu comigo, eu com Deus e that´s it. Foram muitos fins de semana sozinha. Lembro que acordei uma segunda-feira com dor nos braços. Já no trem, a caminho do trabalho, ao ajeitar a roupa no corpo dei conta que tinha passado dois dias sentada no sofá fazendo aquela blusa de tricô. Explicada a dor nos braços e o sentimento de que cada ponto tinha um pensamento, um sonho, uma possibilidade, uma saudade.

Aprendi a colher as folhas de oak que caíam no jardim, a lavar, passar e arrumar. Andar na neve, ter reservas pois se o dinheiro acabasse não havia a quem pedir. A cortar o próprio cabelo, fazer mãos em pés nas noites de spa que inventava na banheira de casa. Quem não conviveu com a solidão, desconhece seus limites, diminui seus horizontes. Uma amiga que salta em paraquedas, parapente e asa delta, desce corredeiras em caiaque, faz stand up paddle, está com um frio na barriga pois pela primeira vez vai morar sozinha. Ela ainda vai descobrir o quanto será uma experiência transformadora. Mas não adianta falar, tem que meter a cara… Acho que a vida não é para passo miúdo. É para quem se arrisca, se atira no trampolim sem rede e se permite depois ficar deitada em uma, olhando o sabiá que constrói um ninho e nada mais importa neste momento.  Nem mesmo uma foto de New York.

1961

“Olá Léa, estou enganado ou você morou na rua Cascata, na Tijuca, Rio de Janeiro ? Em caso afirmativo, dentre outras, fomos colegas de colégio.  Sou Luiz Cezar, do Colégio Tijuca-Uruguay na rua Conde de Bonfim. “

Sou eu sim, respondi rapidamente à mensagem que chegou no facebook.

“Na época você tinha os cabelos compridos e era loura, muito bonita…”

Não era eu. Você está confundindo. Fui loura quando criança, depois alourei na maturidade com a ajuda de produtos químicos e confesso que não era um modelo de beleza para ser inesquecível….

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Procuro o perfil de quem manda a mensagem e encontro um homem próximo aos 70 anos, cabelos grisalhos com uma criança ao lado. O neto, presumo eu. Bingo, ele confere.  Uma série de nomes de ex-colegas ele traz à conversa. Lembro vagamente. Mas me recordo com todas as cores e formas da proprietária do colégio, Da. Carolina e sua irmã a ensandecida Da. Lola, loura platinada, que tirava o apito do bolso do avental para chamar os alunos. O colégio ficava em uma linda casa do tempo em que a Tijuca era um bairro elegante de classe média alta. Na parte superior era a residência da família, embaixo os empregados. A casa virou colégio na parte de serviço e as irmãs solteironas continuavam morando na parte alta. O quintal era grande, havia até uma quadra para esportes… Era um colégio pequeno, poucas turmas, na parte da manhã atendia ao ginásio e à tarde ao primário.

Cheguei lá por acaso. No dia 1 de janeiro de 1961 a minha família mudou de São Paulo para o Rio de Janeiro. Viemos em uma Kombi parando pela Dutra diante da ressaca do papai com tantas despedidas no réveillon. No volante papai, como copiloto mamãe, e distribuídos nos dois bancos cinco filhos legítimos, duas adotadas e um cachorro. Ainda tinham baldes, vassouras e panos para a primeira faxina na casa que papai havia alugado no bairro da Tijuca.  Aos 12 anos tudo o que eu conhecia do bairro era a casa da Da. Marina, mãe da tia Lygia, comadre e amiga da mamãe, aonde fiquei algumas vezes quando criança esperando ser levada para a casa da madrinha em Laranjeiras ou da vovó em Niterói.

Chegamos com o dia escurecendo, não havia luz nem móveis, mas achei linda. Em poucos dias estávamos bem instalados naquela grande casa, na arborizada e bucólica rua da Cascata, uma ladeira aonde no final havia uma queda de água entre as pedras e ao lado uma longa escadaria com acesso ao Morro da Formiga.  Uma rua residencial que tinha uma singela vila na entrada e apenas um pequeno edifício de três andares bem na metade. Gostei do novo ambiente, fiz algumas amizades e papai recomendou ao Victor, meu irmão quatro anos mais velho, que buscasse uma escola para nós dois. Depois de alguma pesquisa nas redondezas ele se encantou com a Tijuca-Uruguay, creio que muito mais pela arquitetura, as pitorescas dirigentes e o poético nome grafando Uruguay com ypsilon, do que por seu currículo escolar, tanto que lá só ficamos um ano.  Talvez por isso a memória dos tantos amigos que Luiz Cezar desfiou em nossa conversa era frágil.

Mais do que o colégio, professores e amigos, este ano eu descobri o Rio de Janeiro. O ônibus lotação que ia até Copacabana, o bonde até a Praça XV e Praça Tiradentes quando ia às compras com a mamãe, e todos os cinemas que haviam na Praça Saens Peña  – Olinda, Tijuca, Metro, Carioca e América – uma diversão aos domingo à tarde.  Foi uma paixão pela cidade e seu povo que eu não entendia como em dias de chuva usavam casaco e calçavam sandálias, pois no inverno em São Paulo eu aprendera a usar meias e sapato fechado. Era divertido ver como as pessoas eram muito mais espontâneas, conversavam em qualquer fila e no bonde, contavam suas histórias, e depois iam embora sem mesmo saber se iriam se reencontrar. Aprendi a comprar leite e manteiga fresca na CCPL, havia a Casa do Sabão que vendia tamancos de madeira que eu nunca tinha visto. Este foi o ano em que comecei a me tornar mulher: menstruei e ganhei o primeiro sutiã. Foi o ano em que comecei a dançar nos bailinhos do Clube Montanha e a torcer por meu irmão como goleiro no time da rua Canapó vestindo uma camisa escrita Smith que se transformou em seu apelido…

 

Foi um ano que me marcou profundamente, quando eu assumi que queria ser carioca, falar arrastado, escrever poesias sem nexo e saber sambar. Sinto muito Luiz Cezar, mas com tantas novidades você há de convir que o colégio era mero detalhe. Um turbilhão de novas emoções e descobertas como sentir o vento fresco no rosto quando seguia a passeio de bonde para o Alto da Boa Vista, ou quando papai colocava todos os filhos na Kombi e levava para tomar banho nas águas revoltas da praia da Barra. Era mais areia do que mar. Na volta parávamos em uma barraquinha e nos deliciávamos comendo milho verde. Mas sou imensamente grata por você ter tocado nesta memória e transformado este meu fim de semana em maravilhosas recordações…

Voltei

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Nos últimos anos tem sido assim: os meses de dezembro, janeiro e fevereiro correm mais do que as minhas pernas podem alcançar…. Hospedes chegam e partem, amigos visitam, passam para uma conversa, um almoço ali, um jantar acolá, uma tapioca no café da manhã, um prosecco na praia – todo mundo toma espumante! – , um vinho no fim da tarde, eles estão de férias e eu trabalhando, em casa e na prefeitura. O filho me conforta por 4 semanas, longas conversas, vida colocada em dia, presente e futuro. Acompanho a sua maturidade, orgulho do seu caminho bem construído.  Fico feliz com suas escolhas e a forma clara, lucida de olhar o mundo.  Recebo como presente uma foto nossa reproduzida em um bordado. Não pode ser mais delicado… Continuo costurando amizades e afetos, em forma de bonecas e colchas… Num êxtase de inventividade, uni retalhos com bordados e ficou surpreendente… Nenhuma modéstia, a esta altura da vida este sentimento deixou de habitar em mim.

O carnaval passou e pela primeira vez vi como é em Cabrália. Acontece uma semana antes do original, já é tradição. É a Bahia com todos os Bs As Hs  Is e As em caixa bem alta. Impossível conversar no volume do trio elétrico. Entrei em um para ver como é e babei com a super sofisticação da área interna. Suítes de luxo, palco de responsabilidade. Fico surda e tento entender as letras geralmente com duplo sentido na mistura de ritmos sertanejo, arroxa, pagode e o que mais vier. É assim por aqui. Tão perto e tão diferente do bloco de Santo André que sai no sábado de carnaval com sua charanga tocando “mamãe eu quero” e outras tantas marchinhas, levantando poeira pelas ruas, homens vestidos de mulher, crianças de borboleta, fantasias bizarras, poucas baianas…Tudo inesquecível…Uma exaustão, um prazer único, quem viveu pode contar.

Aproveitando a entressafra de dois dias com casa vazia, dei folga para a turma que pega pesado comigo, tempo para respirar, bateu um banzo. Saudades de escrever e dos irmãos. Tenho muitos amigos e pouca família. Não vejo há tempo os que me viram com catapora, com quem dividi a lata de leite condensado, disputei o ultimo bife do prato, dancei até cansar, pedi colo, dormi junto, compartilhei sonhos e mangas caídas do quintal. Em volta da mesa no almoço de domingo éramos um grupo forte, parecia que a cena jamais se apagaria. Caímos na vida, os esteios da casa partiram e temo em nosso reencontro sermos apenas velhinhos com pouca memória…

Nas memórias recentes encontro para jantar um amigo que hoje mora em BH e conheci quando cheguei na Bahia. Pensei um projeto, ele deu força, montamos juntos e assim nasceu a Caravana Veracel, uma ação de cidadania que só por ter visto acontecer justificaria a minha existência. Já disse isso também no projeto de voluntariado em Lisboa em 2004, no relato sobre Jerusalém em 2012, e sou feliz por ter sido parte de tantos sonhos, por onde deixei um pedaço de mim, vi se tornar realidade. Como é bom fechar ciclos, iniciar novos…. Estou neste tempo, enfim um novo ano… Sei que algumas vezes o barco emperra na areia, o motor não pega, dá preguiça e não há muito a fazer senão esperar a maré subir e ganhar novamente o mar. E chegou a hora. Estou soltando as amarras, 2016 aqui vou eu…

Felicidades

O publicitário Nizan Guanaes publicou a semana passada na Folha de São Paulo, um belo artigo com o sugestivo título “Rezar”. Como eu rezo, compartilhei no FB e outros tantos amigos comentaram e multiplicaram a informação. Uma corrente bacana se formou. Até onde eu vi eram mais de 24 mil compartilhamentos.  Eu penso que o que passa pela nossa cabeça é o alimento para a alma e o coração. Minhas constatações, não tem fundamento científico, apenas um olhar à vida e um ajuntamento de leituras variadas.

Eu sei como é difícil silenciar a mente. Ela fala mais do que a boca, corre de um lado para outro, muda de assunto traz lembranças antigas, projeta diálogos que jamais existiram, anda para frente e para trás no tempo.  Aquietar é tarefa árdua, por isso creio que enquanto rezo ou medito ou repito um mantra fujo da “mente vazia morada do demônio”. Ouvi pela primeira vez esta frase devia ter pouco mais de 13 anos. Ao lado da grande casa em que morávamos na Tijuca vivia uma família que tinha apenas um filho estudante do Colégio Militar, aplicado e bonitão. A mãe zelosa repetia esta frase ao telefone para as garotas que o procuravam, acrescentando: “pensa em outra coisa, vai ser melhor para você. ” E eu ouvia por trás da veneziana da janela do meu quarto e imaginava como devia ser difícil pensar em outra coisa e sedutora a morada do demônio com desejos ilimitados…

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O céu e o inferno, anjos e demônios, caminharam comigo ao longo dos meus 10 anos de idade. Na 4ª. série do primário, hoje ensino fundamental, entrou uma nova aluna que sentou na carteira ao meu lado. Sim, as carteiras escolares eram duplas, quem passou dos 50 conheceu esta forma integrativa nas antigas salas de aula. Rapidamente ficamos amigas e um dia ela confidenciou que via o meu anjo da guarda. Estudávamos em colégio de freiras e santos, anjos, querubins eram temas corriqueiros. Mas ver o anjo da guarda era delírio. E é claro que entrei nesta viagem sem contar para ninguém, nem mesmo ao padre no confessionário. Durante todo este ano, comi metade do prato de comida, meio sanduíche, meio picolé. Corri menos, pedalei menos ainda. Deixei de subir em árvores, pulei pouco corda, dormi num canto da cama, pois tinha que deixar espaço para o meu anjo. Ele não podia se cansar e também tinha suas vontades. Assim vivi um ano exercitando o dividir com quem não via. Apenas acreditava que estava comigo, zelava por mim. A garota foi embora o ano seguinte, e por mais doido que tenha sido a experiência aprendi a conversar com o meu anjo, com um Deus, sem qualquer medo do fogo do inferno.  Com Ele posso dividir alegrias, tristezas, duvidas… Prato de comida não é mais necessário…

Mesmo nos períodos em que estive mais para o profano do que para o sagrado, permaneci acreditando que foco, atenção, boas palavras e bons pensamentos, transformam.  Aonde você coloca a sua atenção – ou tensão, ou tesão – vai dar frutos. É por isso que neste final de ano, desejo que você ganhe alguns minutos de prazer em sua vida como uma prece, ou reflexão, ou meditação ou apenas um pensamento de gratidão por mais este ano.  Foi muito bom ter me disciplinado a escrever todas as semanas, feito novos amigos, compartilhado meus pensamentos. Que todas as boas coisas do universo façam parte do seu novo ano… Feliz 2016.

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Aos meus queridos

Desde ontem meu pensamento está nos que partiram… Acordei cedo, busquei companhia e não encontrei. Peguei 25km de estrada até  Mogiquiçaba, um pequeno povoado na divisa de Santa Cruz Cabrália com o município de Belmonte, onde deixei o corpo do meu irmão há quase 11 anos. No trajeto desliguei o som do carro, fui ao silencio pensando naqueles que partiram, em muito do que vivemos, recobrando imagens que vão além da fotografia do porta retratos na sala, do álbum da estante, da memória no computador. Imagens com movimentos, tons da voz, risos, trejeitos, cores favoritas, sabores, perfumes… Cena que nenhum filme mostra e só se reconstrói na imaginação e nem sei até que ponto é real. O tempo pode ter suavizado matizes, reverberado sons, alterado dimensões, mas é o que ficou. Torna-se uma verdade.

Estou num tempo de mais partidas do que chegadas, de repensar caminhos. Fui revendo tudo isso enquanto me desviava de alguns buracos na estrada, assim como os tropeços da vida. Mamãe e papai estão juntos no Rio de Janeiro. Victor optou pela Bahia. Escolha não se explica, segue-se o desejo. E lembro quantas vezes passei por esta estrada com ele, com outros pensamentos e muitas gargalhadas.  Jamais imaginei um dia estar aqui, tão integrada a esta gente tanto que junto comigo levei nesta viagem um abraço no coração de outras duas pessoas queridas que também foram colocados ao lado dele…

Parei o carro à beira da estrada. Por incrível que pareça nos minutos que  fiz minhas preces e acendi as velas no pequeno e simples cemitério nenhum carro, ninguém passou por perto. Era só eu e os queridos Victor, Dudu (Edoarda Casadei) e Doró (Dorothea Copony). Se acreditamos que existe um encontro além deste mundo, eles estarão próximos. Eram amigos das conversas e da boa mesa, tinham vivido muito, escolheram ficar por aqui… E lá seus corpos foram deixados, lado a lado. Hoje um pouco de mato no entorno, algumas flores nativas, a sombra das árvores e ainda se escuta, mesmo que distante, o barulho do mar. Lembrei deles, com muito carinho, nesta sexta-feira e em tanto outros queridos… Sei que partimos sem aviso prévio e por isso só nos resta  viver melhor enquanto aqui estivermos.

… e a vida continua

O meu pensamento é rápido mas as reflexões, desdobramentos e conclusões às vezes levam um tempo… Foi no twitter que soube da morte do filho da Cissa Guimarães. Que tragédia… Fiquei sem palavras, sem texto, sem raciocínio…

Ao ver uma foto do Rafael abraçado à mãe, revi em minha lembrança o pai, Raul Mascarenhas, que conheci quando tinha a mesma idade. Eu tinha 24 anos, recém separada com um filho de pouco mais de 1 ano, morando sozinha pela primeira vez.  Trabalhava com Flávio Cavalcanti em seu programa na TV Tupi e na equipe com mais de 30 profissionais fazia parte Carminha Mascarenhas. Cantora revelação nos anos 50, uma bela voz que fez parte da fase final da Era do Rádio, gravou sucessos de Ary Barroso e Lamartine Babo e cantou as grandes composições do início da Bossa Nova, ela selecionava os novos talentos que se apresentavam na Grande Chance e no MIT (Mercado Internacional do Talento), ambos no Programa Flávio Cavalcanti. Foi Carminha quem levou Alcione e Emilio Santiago para serem revelados no palco da TV Tupi.

Carminha foi casada com o pianista Raul Mascarenhas, com quem teve o filho Raulzinho. Nessa época ela era casada com o publicitário Renato Leuenroth irmão de Olivia. Grávida, Olivia era casada com o jovem promissor pianista e compositor Francis Hime e moravam nos Estados Unidos. As minhas amigas conheciam o talento de minha mãe em tricotar casaquinhos e sapatinhos para bebê e Carminha encomendou alguns conjuntinhos para presentear a cunhada.

Uma noite Raulzinho bateu na porta de minha casa para buscar a encomenda. Garoto bonito e com um jeito tímido, convidei para entrar. Ele ficou encantado com a quantidade de LPs (discos) que eu tinha, dos mais diversos gêneros e estilos. Deixei à vontade para ouvir o que quisesse e ao ir embora perguntou se podia voltar. Ele se tornou visita constante. Telefonava antes de ir, falava pouco e ficava “brincando” com os discos. Uma noite ao chegar, viu que eu tinha companhia. Ficou sem graça e nunca mais voltou. Passaram alguns anos e comecei a ler sobre o saxofonista Raul Mascarenhas, e daí não parou mais… Nos encontramos algumas vezes em shows, acompanhei seus casamentos, filhos, sucesso profissional e há poucos meses lembrei-me dessa historia ao saber que Carminha tinha se mudado para o Retiro dos Artistas no Rio. Um bom lugar para se viver… Pensei em fazer uma visita numa próxima viagem, quem sabe agora tenho mais motivos para isso… No coração da avó, do pai, da mãe e dos irmãos a dor é infinita…  No coração dos amigos a lembrança com saudades.