Confiança

IMG_0168webA cortina de talos de piaçava milimetricamente cortados, limpos, esticados, “costurados” com um fio grosso que se enrola ao puxar de um cordinha, meses de trabalho da arte do Joel, é a proteção para a chuva e o sol da minha sala de refeições. A varanda é onde acontece grande parte do movimento da casa. É por onde os amigos chegam e sentam em volta da mesa para falarmos da vida, trocar receitas, fazer projetos que não saem do papel e outros que dão muito certo… É neste espaço que recebo os hóspedes para o café da manhã, onde almoço e janto…  Onde estico uma rede e vejo o jardim… Um local de entra e sai, foi por isso que me causou enorme surpresa a insistência de um passarinho em construir um ninho dentro da cortina enrolada.

IMG_0169Na primeira tentativa eu desmanchei o prenúncio de ninho. Ora, tem muito lugar bem melhor para isso, mais calmo, reservado… No jardim tem árvores de todos os tipos. Árvores de mato, como dizia meu irmão, na verdade árvores nativas, ótimas para receber ninhos. A casa do Xico e a garagem tem cobertura de piaçava, mais do que perfeito. Os arbustos de hibiscos são aconchegantes, tem também as traves de madeira nos tetos das varandas dos chalés. Acontece que desde ontem quando a função recomeçou tenho pensado na confiança que este passarinho tem na minha casa. Confiança não se compra, se conquista, é um jogo que se constrói ao longo de uma relação. E considero uma honraria, depois de ter conquistado a confiança de tantos profissionais com quem trabalhei, amigos e família, saber que sou confiável também para os passarinhos!  Posto isso, decidi quer chova ou faça sol esta cortina não se mexe até o passarinho cumprir a sua missão, montar o ninho, colocar ovos e nascerem os filhotinhos. Pode molhar as cadeiras, posso ficar sem mesa para as refeições, mas não vou decepcionar estes que fazem a melhor trilha sonora da minha vida.IMG_0161web

O fígado

sala de jantar

A foto desta sala de jantar que encontrei hoje no Facebook, é de uma cena que viajou em minha memória por mais de 30 anos. Ela faz parte do acervo pessoal do autor de novelas Gilberto Braga que generosamente está postando na rede social fotos incríveis, álbuns de família, registros de suas histórias, dos pais, irmão, avós e tios que desfilam em momentos preciosos, retratos de muitas épocas.
Mas a imagem desta sala de jantar me fez lembrar que no auge da novela Água Viva (1980) eu procurei o autor para marcar uma entrevista para o jornal O Globo. Gentil como sempre, Gilberto agendou a entrevista e convidou para almoçar. Seria um almoço frugal, ele afirmou este detalhe na conversa, pois costumava escrever também na parte da tarde os capítulos da novela que era um mega sucesso.
Cheguei na hora marcada no apartamento do Flamengo. Conversamos na sala, nem lembro qual era a pauta, mas devia ser algum momento importante da disputa entre os irmãos Nelson e Miguel Fragonard pelo amor de Ligia… Entrevista feita fomos ao almoço na bela sala da foto e como Gilberto havia avisado “um almoço frugal”. Sentamos cada um de um lado da mesa e quando o almoço chegou eu gelei: bife de fígado com purê de batatas. Jamais eu havia colocado uma lasca de fígado na boca. Resisti bravamente a todos os discursos dos meus pais de como o fígado era bom para a saúde e no jeito deles de educar jamais insistiram que eu comesse o que não queria. E agora aquele belo bife sorria prá mim. Gilberto ainda comentou que caso eu não gostasse podia pedir um omelete, mas eu jamais me permitiria confessar que não comia fígado. Aprendi em casa a aceitar o que fosse oferecido, a comer frutas com garfo e faca, a conhecer os copos e os talheres. Sem respirar, engoli cada pedaço do bife. Não sei qual o sabor, pois o purê ajudava na descida junto com alguns goles de guaraná. Quando vi a foto a história veio inteirinha, menos o sabor do fígado, continuo sem saber qual é… 

O Acuba

Campo de futebol

Campo de futebol

Quando o Acuba transborda, a vila vira do avesso como se colocasse prá fora as mágoas, os maus tratos, os descasos… Tudo o que se guarda, entala, acumula, um dia desagua sem medida… Desceram no estreito leito do rio Acuba cadeiras, armário, mesa, colchão, geladeira, garrafas pet, sacos plásticos, troncos, galhos, enfim, o resto do que achavam não servir no presente que jogaram fora sem pensar no futuro… As mazelas e o abandono fizeram com que as águas engrossadas pela chuva procurassem os caminhos antigos que ao longo dos anos foram modificados por construções, depredações e descontrole provocado pelo homem no desejo de ter suas casas onde não era seu lugar… Não deixaram o rio correr seu curso, acharam-se mais fortes que a natureza…

Fui muitas vezes Acuba em dia de tempestade. Sai derrubando o que vinha pela frente sem pensar nas consequências… Quem não segue seu caminho, fraqueja, foge, se entrega, posterga um dia vai ter que encontrar o caminho interrompido… Quem sai do seu rumo, da sua verdade, quando menos espera, basta apenas uma gota para transbordar numa avalanche as palavras contidas, respostas não dadas, tristezas, decepções… E quem não limpa seu leito, não deixa a água fluir, vai morrendo por dentro, assoreando as margens, secando a vida…

 Abaixo, o texto de Silvia Tagarielo publicado no Facebook… Ela é administradora da vila, aqui nasceu e vive. Tem um restaurante onde serve um maravilhoso acarajé e uma pequena mercearia onde vende o pão que faz…

“NASCI EM SANTO ANDRE, TENHO 41 ANOS, CONHEÇO UM POUCO DE CADA HISTORIA DO LOCAL. NESSES ANOS QUE VIVO AQUI MUITAS COISAS VÊM ACONTECENDO E UM DESSES ACONTECIMENTOS É O RIO DE SANTO ANDRE. ESTE RIO TINHA UMA LINDA HISTORIA MUITO BONITA. PORQUE DELE NOS BEBIAMOS AGUA, PESCAVAMOS PEIXE E TINHA UM LAGO MUITO GRANDE QUE ERA AO LADO DO CAMPO DE FUTEBOL, ONDE TODOS SE BANHAVAM.
TINHAM VARIOS BRAÇOS QUE DESVIAVAM A AGUA ONDE HOJE EXISTEM VARIAS CONSTRUÇÕES. DEVIDO A ESSAS CONSTRUÇÕES A ÁGUA NÃO TEM ONDE CORRER E FORA OUTRAS IRREGULARIDADES, COMO CONSTRUÇÕES NA BEIRA DO RIO, LIXOS JOGADOS, ESGOTO E MUITO MAIS.
TEVE UM EMPRESARIO QUE COLOCOU MANILHAS PARA REFUGIAR A ÁGUA PARA O RIO JOÃO DE TIBA, POR CAUSA DESSES ALAGAMENTOS. VENDIDA A CASA GRANDE ESSAS MANILHAS FORAM TIRADAS, QUE ERA UM PATRIMÔNIO PÚBLICO, E A PROPRIA COMUNIDADE DEIXOU ISSO ACONTECER E HOJE NOS ENCONTRAMOS NESSA SITUAÇÃO. O CENTRO DO POVOADO TODO ALAGADO E ISSO SO COM TRES DIAS DE CHUVA FORTE, IMAGINE SE CHOVESSE UMA SEMANA.
TA NA HORA DE CADA UM OLHAR PARA SEU PRORIO UMBIGO E FAZER SUA PARTE, PORQUE NOS SOMOS A CAUSA DE TUDO ISSO QUE ESTA ACONTECENDO. QUANDO SENTIMOS ENCURRALADOS TEMOS SEMPRE ALGUEM PARA APONTAR. SE CADA MORADOR FIZER SUA PARTE E O PODER PÚBLICO A DELA, TUDO ISSO PODE SER EVITADO.
SANTO ANDRE É TÃO PEQUENO E SE TIVERMOS DISPOSIÇÃO, CONCIÊNCIA E BOA VONTADE PODEMOS CUIDAR MUITO BEM DELE.”

Livrai-nos

Primeira visita à Vila de Santo André... Balsa aberta, eu e a alegria da Tania...

Primeira visita à Vila de Santo André… Balsa aberta, eu e a alegria da Tania…

Ardilosa, matreira, falsa é a depressão. Pega no susto, vai corroendo de mansinho, criando artimanhas, se esconde entre sorrisos e de repente explode de uma forma que nem dá tempo para pedir socorro. Tira do eixo e a vida escapole num salto.

Hoje perdi uma amiga assim e aprendi que não posso confiar na alegria dos posts no facebook, nem nas curtidas… É preciso mais palavras, conversas ao telefone, visitas, olhar no olho, pegar na mão e saber como vai a vida… Ah! Tania, você surpreendeu a todos os seus amigos. Ensolarada, alto astral, feliz, algum nó deu em seu coração e a opção foi o caminho mais curto…Fiquei esperando a sua visita para relembrar o primeiro verão na pousada, o réveillon da estreia, a boa sorte que você trouxe com toda a sua alegria…

Peço a Deus que você siga em paz. Peço também à Deus que nestes tempos em que não somos mais tão jovens, afaste de nós não as dores, pois para elas tem remédio, mas livrai-nos dos maus pensamentos, das caraminholas, dos falsos desejos, da menos valia, da baixa estima e da solidão, pois o caminho para a depressão é silencioso e cruel…

Parabólica

parabolica

 

Você assiste TV por antena parabólica? Certamente a maioria dos meus amigos respondera negativamente. A parabólica é como sinal de vida espetado nas casas mais simples do interior do país trazendo a programação das emissoras de tv aberta. As primeiras vezes que vim para o sul da Bahia, antes de dormir sintonizava na TV Globo e era muito estranho ver no intervalo comercial a tela ficar preta como se estivesse fora do ar. Simples, não havia o que exibir. Chegava apenas a programação da emissora sem os comerciais que na maioria são regionais.

As outras emissoras – Record, Bandeirantes, SBT – retransmitem a programação de São Paulo com direito a todos os comerciais. Mas a Globo, fez algo diferente, Para evitar este buraco negro nos últimos anos criou conteúdo com comerciais de produtos da Som Livre, da Globo Marcas e abriu uma brecha para as emissora afiliadas veicularem pequenos comerciais do que tem de melhor em sua região. Com isso o Aquífero Guarani, as belezas de Goiás, as maravilhas da TV Tem passaram a fazer parte da minha vida nos intervalos das novelas. Mas neste último ano “Isto É Pernambuco” e “Ó Minas Gerais” se tornaram mais constantes nos intervalos da programação. E não é que são também os estados de onde vêm os presidenciáveis Eduardo Campos e Aécio Neves?

Não preciso ir longe para ver que as casas com parabólica não tem reboco nem piso, muito menos saneamento básico como 40% dos domicílios (pesquisa IBGE). As localidades que não são atendidas com o programa “Luz para todos”, utilizam a energia através de baterias ou pequenos geradores. Mas de uma forma ou outras as famílias se conectam com o mundo. Segundo o Ministério das Comunicações são mais de 20 milhões de domicílios cobertos pela parabólica, num total de 54 milhões de residências no país.

E nesta enormidade de país com 16 milhões de analfabetos,  sendo a grande maioria de adultos vulneráveis à manipulação, num domingo nublado, fico pensando com meus botões sobre a extensão  da propaganda na vidas destas pessoas…  Tanto as campanhas de “Brasil um país para todos” como as de Pernambuco e Minas Gerais disseminadas em pílulas nos comerciais o quanto impactam, quais desejos remetem, o que levam a sonhar. O resultado veremos em 2014, quem tem mais bala na agulha e espaço na TV.

Os próximos 20 anos…

Rua de Santa Cruz Cabralia

Rua de Santa Cruz Cabralia

Um amigo querido testemunho dos meus últimos 40 anos, veio passar uma semana comigo e tivemos oportunidade de andar solto por este sul da Bahia. Foi pelas ruas simples do centro de Cabrália, num comentário muito “en passant”, que ele falou alguma coisa ou deu um sorriso, suficiente para me ver exatamente onde e como estou. Nós que  juntos andamos por ruas da Europa, jantamos com Juscelino Kubitschek, nos divertimos muito nas noites de Ipanema, desfilamos na comissão de frente da Portela abanando Becki Klabin, que assistimos “Laranja Mecânica” em Paris, fomos hippies de boutique, de repente estávamos onde escolhi viver, completamente distantes de qualquer padrão de glamour. Andando por ruas de paralelepípedo algumas sem calçada, olhando vitrines divertidas, apreciando uma arquitetura as vezes com casarios abandonados, cumprimentando pessoas que hoje fazem parte desta minha vida e não me viram na outra.

Se uma cartomante há 10 anos dissesse que eu viveria num lugar assim eu não acreditaria. É um presente poder renascer muitas vezes sem morrer. Começar um tempo novo, num lugar novo, com pessoas novas, aonde se quiser… Com algum desprendimento é possível buscar o que melhor convêm. E se não quiser mais ficar ali, sempre se pode voltar para o ponto de partida ou colocar as malas na estrada e sair no mundo.  Nada impede que se aprenda outras coisas, que se crie projetos ou se engaje em algum já existente, pois ter 60 anos nestes tempos é como ter 40… Como somos privilegiados!  Assistimos ao mundo na tela da TV ou na web, podemos perguntar qualquer coisa ao google, ter aulas de muitos idiomas, visitar museus, aprender até a fosquear vidros, minha última brincadeira… Chega-se com disposição numa idade em que crescemos acreditando que era o tempo de cuidar dos netos, calçar chinelos e logo teria o prazo vencido. Mas a realidade se mostra diferente quando se percebe que há ainda muito fôlego. Fico quase  uma hora pulando no rio nas aulas de hidro, ando de bicicleta, corro o jardim puxando a mangueira para molhar o gramado, e faço tudo isso pensando seriamente nos próximos 20 anos… Uma coisa já sei : serão muito mais emocionantes dos que os já vividos…

Em tempo : as fotos abaixo foram feitas nesta caminhada… Um pouco do que se vê nas ruas de Santa Cruz Cabrália.

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Valeu Pamplona!

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Em 1993 quando fui convidada por César Maia para ser Assessora de Eventos da Cidade do Rio de Janeiro, recebi de cara  dois desafios: dia 20 de janeiro a festa de São Sebastião e no final de fevereiro o carnaval. Para São Sebastião fizemos 4 festas, uma em cada canto da cidade, e para o carnaval comecei a delirar com a construção de um camarote que reunisse celebridades, artistas, empresários, intelectuais, formadores de opinião, enfim o “crème de la crème” do país, com pessoas que amassem a cidade e concordassem vestir uma camiseta com a logo Cidade Maravilhosa em lugar de uma marca de cerveja.

Era um sonho, eu tinha o aval do prefeito, sabia quem convidar, como produzir,  fazer a logística, mas precisava de um profissional, um decorador, arquiteto, cenógrafo, ou seja, alguém que pudesse transformar aquele espaço do sambódromo num local bacana para receber 120 pessoas por noite. Foi aí que entrou em minha vida Fernando Pamplona. Não lembro quem indicou, mas sei que foi empatia à primeira vista. Com total elegância vestindo camisas de linho e calças largas, sorriso grande, sempre impecavelmente barbeado e penteado, Pamplona foi a salvação para o meu grande desafio. Eu conhecia o seu nome desde os tempos do Salgueiro. Acompanhei suas vitórias e delirei ao assistir ao desfile de 69 quando ganhou com  “Bahia de Todos os Deuses”… Esta não era a sua primeira vitória na escola da Tijuca, mas para mim foi inesquecível… E com isso ter Pamplona com todo seu conhecimento fazendo parte da equipe naquele momento era fundamental….Tínhamos pouco $$$ mas ele tinha muita criatividade, um jeito manso de lidar com as pessoas, a tranquilidade de quem sabe o que está fazendo e o camarote ficou lindo… Hoje ao ler a notícia de sua partida aos 87 anos, fui buscar  algumas fotos que guardei como registro daquele trabalho para postar aqui com o meu agradecimento… Valeu Pamplona, foi muito bom você ter feito parte da minha vida… muito obrigada!

Casaco Marrom

giselle livro

De uma tacada só, hoje me dei de presente ler um livro… Acordei com “Non, je ne regrette rien” (Não, eu não lamento nada) na voz de Edith Piaf, saí de casa e fui ao correio ver o que me reservava na caixa postal. Lá estava o livro comprado através da Estante Virtual que comecei a ler ainda na balsa.

“Casaco Marrom – O amor nos tempos da guerrilha”, de Giselle Nogueira, foi lançado pela Record no selo Galera, voltado para jovens, mas é um livro para a minha geração. Quem passou pelos tempos de guerrilha, mesmo que não tivesse participado da luta armada, vai gostar do relato de Giselle, uma bela história…Tem um discurso tão bacana, que parece roteiro de cinema…

Como estou em tempos de rever a vida, este livro chegou à calhar. Há algumas semanas coloquei na parede da sala um quadro com uma colagem com fotos de muitos momentos divertidos. Amigos ali estão me sorrindo como há 20, 30 anos… Depois de enrolar por um ano a semana passada consegui colocar o ponto final em um livro com reflexões de um bom período profissional. E neste mexer de lembranças “Casaco Marrom”, assim como na música de Danilo Caymmi, Renato Correa e Gutemberg Guarabira, me fez “voltar aos velhos tempos de mim”.  Voltei à Ipanema do final dos anos 70, o AI 5, os anos de chumbo, o desaparecimento dos amigos, dores e alegrias… Verdades de um período que o Brasil não pode e nem deve esquecer… Está tudo ali em forma de leitura fácil no livro de Giselle, além de uma excelente pesquisa histórica que corre paralela a aventura … Vale olhar com atenção as prateleiras dos livros juvenis nas livrarias e encontrar “Casaco Marrom”, um belo registro.

Em tempo : Giselle é jornalista mineira, moradora de Vila de Santo André, escreve um blog para mulheres que viajam sozinhas e está fechando a mala para 15 dias na Sicília

9 anos se passaram

acessoPassei o último dia 9 pensativa celebrando silenciosamente 9 anos de vida no sul da Bahia.  Outra “encadernação”… Pensei em muitos temas para escrever e hoje fazendo uma geral nos arquivos encontrei as fotos do projeto que foi razão de estar aqui. Não vim por causa dele, mas o destino nos uniu. Tenho orgulho de todos os meus trabalhos. Alguns tiveram mais representatividade, outros mais singelos. Mas se eu tivesse feito só esse, teria valido a minha existência.

Caravana Veracel foi um presente para que eu visse o mundo além do Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa e Nova York, cidades onde vivi e todas os países e cidades que conheci. Foi um projeto criado para atender a necessidade da fabrica de celulose Veracel  se relacionar com os municípios do seu entorno e dizer prá que vinha. Um projeto que me levou para o interior do país e de mim.

Uma caravana de cidadania e alegria que em 10 semanas percorreu 1200 Km passando por Barrolândia, Itagimirim, Canavieiras, Itapebi, Eunápolis (duas vezes, nos bairros do Alecrim e Juca Rosa) Guaratinga, Porto Seguro (Bahianão), no Campinho em Cabrália e Belmonte. Mais de 30 mil crianças passaram pela área de recreação, 2000 famílias levaram para casa uma foto num porta retrato, 5000 crianças aprenderam a escovar os dentes, 950 pessoas passaram pelas oficinas, 300 crianças receberam óculos, 818 pessoas foram atendidas na tenda de saúde para diagnostico de hanseniase e quase 70 mil pessoas conheceram a Caravana Veracel.

Em 10 semanas Mariangela Sedrez (produtora), Cezar (Diskstand) e suas equipes se tornaram uma grande família. Eram 35 pessoas viajando e em cada localidade mais 30 se juntavam como apoio. Chorei em todos os fins de semana. Para quem viu mega eventos a simplicidade da caravana e o resultado colhido era comovente.

E continuo me comovendo com a simplicidade deste pedaço de Brasil… Aqui eu sei que posso fazer a diferença e o retorno é deslumbrante… Não é dinheiro, não é  título nem poder… Mas uma vida especial que nasce todos os dias com um passarinho colorido comendo o que restou do mamão, outro dia se vê uma lua cheia, criança livre na rua, chuvarada seguida de arco íris, um pedaço de grama que nasceu na areia e seguiu em frente, uma cigarra avisando o sol no dia seguinte, e toda a noite procuro a primeira estrela no céu e faço o mesmo pedido: ficar aqui prá sempre.

Tirando mofo

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Esta passando o tempo do mofo… Foram tantos dias de chuva que até as hóstias na Igreja mofaram. Creio que o Papa Francisco não soube, mas são tão raras as pessoas que comungam nesta vila que o fato foi comprovado por uma amiga que ficou com vergonha de falar com padre e em panico de engolir a poeirinha cinza… Acontecem coisas nesta vila que beiram Saramandaia, e no inverno se tornam ainda mais contundentes…

Neste tempo em que os dias são mornos e as noites frescas lavei muita roupa,  pendurei os casacos no sol, a casa foi limpa e agora vou forrar com placas de isopor algumas partes do armário próximas da parede.  Este é o processo de quem vive tão perto do mar numa casa cercada por muitas árvores no pós-inverno baiano.

Retirar o mofo tem também o sentido de sair de casa, visitar e receber amigos, andar de bicicleta, retomar as sessões de cinema no jardim, mesmo que seja preciso colocar alguma coisa nas costas. É começar a pensar no verão, nos amigos que virão, na alegria de descobrir no calendário que o carnaval é em março e a temporada será mais longa, separar os tecidos para novas colchas, tempo de produção…

E também tirar o mofo do que está parado, como um livro de memórias, uma blusa de crochê, 4 livros lidos só até a metade, enfim, tempo de colocar o trem nos trilhos e botar lenha prá andar…