21 dezembro 2011

Victor Vianna Penteado

Querido irmão,
Nestes 10 anos sem você aprendi que os piores fatos da minha vida se transformaram nos melhores presentes.  Percebi esta realidade depois de um longo tempo em choque com a sua partida repentina.  Sai no mundo em busca de explicações por que tudo isso aconteceu. Como eu, uma boa menina, continuaria vivendo sem o irmão essencial?
Pesquisei em muitas áreas.  Da astrologia em vidas passadas que me revelou termos sido irmãos em outras encarnações, ao estudo de Um Curso em Milagre, a formação no Reiki, as pequenas regressões, enfim, uma busca para compreensão interior que abriu uma fresta e hoje é uma porta escancarada.
Se você estivesse aqui certamente eu ainda estaria no Rio sem questionar sobre a vida. Continuaria no consumismo desenfreado, na disputa dos melhores projetos, fumando incessantemente e à beira de um infarto. Hoje não tenho você, mas tenho o prazer de dormir em sua cama olhando o céu e acordar com os passarinhos. Ando descalça pela casa, caminho pela areia assistindo a um espetáculo da natureza que nunca se repete. É sempre uma cor, uma textura e um cenário diferente!
Tenho procurado me cuidar fisicamente. Me alimento bem, me alongo e parei de fumar… Profissionalmente, apesar da grande mudança, sobrevivo com elegancia. De resto são as saudades do seu companheirismo, dos conselhos sempre ponderados, do seu jeito muito chic e muito simples, da forma inteligente em entrar numa discussão. Da sua amizade e generosidade com a família e amigos, da sua risada e humor as vezes ferino, do seu jeito em dizer “tolinha” diante de alguma questão idiota que eu pudesse ter levantado.
O quintal da sua casa esta bem cuidado. O areal virou um belo gramado. Muitas “árvores de mato” ainda se mantêm frondosas e plantei outras pelo terreno. Tenho 2 lindos cães que você iria amar, construí uma cobertura de piaçava para o carro e também um apartamento a mais para receber o Bernardo. Ah! Ja temos internet e wi-fi !
A vila continua do mesmo jeito, pouco mudou. Apesar da água encanada que não uso, prefiro manter o tratamento que você “inventou” para a água de poço. Hoje não sou mais chamada de “a irmã do finado Victor” ja me reconhecem pelo meu nome, estou sempre envolvida em projetos comunitários – você deveria imaginar isso!!-  e você continua na memória de muitos, nas minhas saudades pra sempre. Sou grata por você em minha vida…Alguma coisa no meu coração diz que você esta feliz por isso me  despeço sem uma só lágrima, enviando um grande abraço e um beijo carinhoso… Até qualquer hora !

Mudar a tela

Lembro que mamãe vez por outra saía de casa e dizia que ia “olhar vitrine”. Tanto podia ser em Copacabana, no centro do cidade ou até no comercio da Tijuca em torno da Praça Saens Pena. Hoje compreendi o que era esse movimento. Era uma necessidade de mudar o foco, sair do cotidiano da casa e ter novas informações mesmo que essas não tivessem grande valia. As vezes ela voltava destes passeios tendo adquirido apenas de um par de meias ou um novelo de lã, mas o ato não era consumir mas não se deixar consumir pela mesmice do cenário de casa.
Hoje me senti precisando “olhar vitrine” e saí de casa para ver – se é que isto é possível? – outra paisagem. Sair da tela do computador, do livro, da TV, dos fuxicos e costuras, do jardim e da própria casa. Vim ver e ouvir o barulho do mar, o vento nas árvores e o canto dos passarinhos que apesar de serem iguais aos do meu quintal penso que aqui soam diferente.
Fiquei de molho em casa por conta de um tombo. Saindo da varanda que liga ao quarto escorreguei e bati com as costas no pequeno degrau. O impacto foi tão forte que perdi a voz. Depois de algum tempo consegui gritar e gemia baixinho “mamãe, mamãe”. Foi o momento que mais me senti criança desprotegida. Graças a Deus ficou apenas um grande hematoma nas costas, uma dor que ja esta aliviada -viva a arnica! – e o pensamento deste pedido de socorro. Não lembro em qualquer momento de dificuldade ter gritado por ela, mas nessa queda, talvez por fração de segundos, me senti imobilizada. Um bebê sem voz e movimento. Deve ter sido como voltar ao útero, ao colo. Não pedi por Jesus, nem por meu pai ou qualquer Santo, mas por ela. Pensei muito nisso todos esses dias em que vi o mar de longe. E tudo isto me serviu para lembrar o quanto é importante desviar o foco, ver de outra forma e “olhar vitrine” nem que seja distanciar 20 passos de casa. Rever afetos, saudades e relações. Refrigerar a alma e o coração, mudar a tela da vida.
E mudei tanto o olhar que não fotografei o mar, mas a amendoeira que me protege do sol.

Corrente de blogueiros…

Carmen Silvia me encontrou no twitter por indicação do Ricardo Freire . Ela leu no site do Ricardo sobre a nossa vila, veio conhecer Santo Andre  e nos encontramos na Pousada Victor Hugo. Ela é o exemplo perfeito de quem está nas redes sociais. Tem o blog De uns tempos prá cá , é twiteira, assídua no Facebook e como viajante apaixonada posta o seu olhar pelo mundo.

Hoje me enviou um desafio: entrar numa corrente de blogueiros. As regras são simples, um jeito legal de aproximar blogueiros e divulgar suas viagens … Cada blogueiro convidado deve escrever um post citando 7 links do seu próprio blog e convidar mais 7 blogueiros. As regra estão aqui  …

Sou viajante de pensamentos, adorei o convite. Não tenho 7 amigos blogueiros, mas indico os que tenho e, como eu, viajam por outros caminhos…

Adorei pesquisar os meus posts, não sei se atendem as solicitações da corrente, mas procurei enquadrar da melhor maneira… Eis aqui os meus 7 :

  1. O post mais bonito : https://leapenteado.com/2010/01/18/os-4-filhos/  Talvez seja o mais dolorido, teclado no blackberry… uma despedida…
  2. O post mais popular https://leapenteado.com/2010/09/06/chico-e-tom/ É claro que seria popular pois escreco sobre Chico Anysio e Tom Cavalcante… foi super lido, o Tom indicou no facebook e no twitter
  3. O post que gerou mais discussão/controvérsia https://leapenteado.com/2010/09/05/igual-a-ela/ Discussão familiar…
  4. O post que ajudou/ajuda muita gente https://leapenteado.com/2011/05/01/os-vital-brazil/ Não sei bem se ajudou, mas propagou mais um pouquinho Vital Brazil um cientista que o país não pode esquecer
  5. O post cujo sucesso te surpreendeu https://leapenteado.com/2011/06/14/para-mulheres/ E não é que tocou muitas mulheres ?
  6. O post que não recebeu a atenção de que deveria https://leapenteado.com/2011/04/24/um-encontro-no-sabado-de-aleluia/ Adoro esta historinha… Imagino sempre um pequeno filme
  7.  O post do qual você tem mais orgulho https://leapenteado.com/2010/06/09/o-canto-na-noite/ Sou exatamente assim ! 
Para continuar a corrente convido meus amigos :

No taxi

No taxi pela avenida N.Sa.de Copacabana os prédios passam e lembro das minhas histórias pelas ruas desta cidade. Foram muitos anos ! Repasso como em slides o reencontro com tantos amigos queridos na noite anterior. Pedaços da minha vida estavam ali se juntando como num quebra cabeças. Faltaram algumas peças mas não prejudicaram a visão de um painel vivo da minha trajetória. Talvez sejam essas as pessoas que irão se despedir de mim caso eu morra no Rio.
Passo pelo Aterro vejo o apartamento na Praia do Flamengo e concluo que hoje esta cidade não é mais minha. Apesar de tantos amigos e fatos, todos estão num álbum de uma outra “encadernação” que sempre alguma foto ou lembrança escapa e se revela aonde eu estiver. Todos seguem comigo.
Ontem, entre um beijo e um abraço, não recordo quem disse que eu era uma pessoa do mundo. Não sei de qual mundo, talvez do meu próprio, desta pequena cidade, estado, país ou planeta que me transformei. Caminho sozinha mas trago no coração os amigos que estão espalhados pelo mundo real. E eles perguntam “quando você volta ?” , “por que ja vai embora amanhã”, ” fica mais um pouco” mas eu so consigo voltar para a minha base onde guardo todos com enorme carinho. Sou imensamente grata por seguirem comigo em qualquer caminho por onde eu va.

Querido amigo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acordei com você em meu pensamento querendo saber como está o batimento do seu coração, o aperto no peito e a dor profunda na alma frente à proximidade da consolidação do fim do casamento de tantos anos. Creio que você já sentiu isso quando ela se foi e deve ter sido forte a dor do abandono. Fica mesmo um enorme vazio e um grito que parece, jamais sairá da garganta. Passei por isso algumas vezes. Mas depois a vida vai ganhando seu próprio movimento, a gente também procura novas atividades e quando se percebe, aquele vulcão interno silenciou.

Até o dia em que tudo o que ficou parado retoma com outras cores frente à mesa de um juíz que sem saber da intimidade a dois vai definir o que é de quem. Não definir quanto as mágoas, pois estas cada um sabe de si. Mas o que dividir de material da relação de tantos anos. Eu já sentei numa mesa assim e ouvi da outra parte a reclamação de que havia levado um banquinho da cozinha! Não reclamou da ausência do filho, mas do banquinho de madeira.  Percebi que o “banquinho da cozinha” era uma forma velada de falar sobre os sonhos que acabaram, a não concretização dos desejos de uma vida em comum e da decepção com o outro com quem se dividiu suores em noites de amor e foi testemunha de uma terrível dor de barriga. Fatos corriqueiros entre os casais, coisas tão íntimas de que só se tem com quem divide o mesmo teto por longo tempo. Até mesmo reconhecer o outro com os olhos fechados através do hálito matinal ou aquele cheiro de shampoo que exala nos cabelos molhados.

Mas agora frente a frente, separados por uma mesa, cada um armado com seus defensores serão discutidos só assuntos perecíveis. Os sentimentos, mágoas e as decepções poderão transparecer quando os olhares se cruzarem, mesmo sem uma só palavra. Passei duas vezes por esta situação e não me lembro de em nenhuma delas ter conseguido pensar nos bons momentos frente ao juiz.  Foi como se tivessem incinerado todos os álbuns de fotos das alegres viagens. Ficou apenas um gosto amargo de engano. Não digo que fui enganada, mas posso ter me enganado na escolha do parceiro.

Mas como tudo na vida, isso também passará. Como passaram os pilequinhos de fim de noite, o sal do corpo molhado dos passeios ao mar, o buscar estrelas em noite escura.  Ainda bem que o tempo transforma, mesmo que doa tanto esta mutação. Talvez uma dor menor do que a   borboleta quando sai do casulo para voar…Novas asas para você e lembre-se que todos seus amigos estarão aqui para ajudar nestes novos tempos.

Um beijo carinhoso

Mudanças

Saí do quarto, olhei a janelinha da escada e a cena era incrível. Uma linha escura em movimento, com mais de um dedo de largura, saía da janelinha percorrendo a parede lateral de madeira, passava pela coleção de imagens de São Francisco no aparador da escada,  atravessava o degrau no alto e entrava pela porta da varanda. Era um movimento rápido. Apesar de sinuoso era continuo. Ordenadamente as formigas seguiam com seus filhotes para outro lugar. Interrompi a trajetória passando o dedo na madeira, mas as formigas não voltaram atrás, buscaram um caminho alternativo paralelo.

Aprendi nesta vida semi rural no sul da Bahia a ver coisas jamais imaginadas, e até apreciar o movimento das formigas no quintal. Mas nunca passaram por dentro de casa. Sentei na escada olhando as formigas e pensando nas mudanças da vida que não foram poucas. Acho que como elas eu não voltei atrás, busquei outras saídas. Há muito tempo fiz o levantamento de quantas casas morei num período de 23 anos e concluí que tinha passado por 27 endereços incluindo uma mudança nacional e outra internacional. Na época em que se tinha agenda de telefones os amigos reclamavam que o meu nome estava sempre riscado com tantos números que tive. E ia eu formiga com meu formiguinho embaixo do braço procurando um lugar melhor. Por mais incoerente que possa parecer, essas tantas mudanças me fizeram mais solida e consciente de minhas capacidades.

No final de ano quando todos fazem pensamentos para um novo tempo, como se o simples mudar da data na folhinha pudesse como num passe de mágica transformar a vida, eu desejo, profundamente, a todos os meus amigos que, como as formiguinhas que apareceram esta manhã em minha casa, continuem buscando um lugar melhor onde possam criar novos sonhos até uma próxima caminhada…

A saúde está morrendo

Da. Peninha na missa do dia 30 de novembro

A Helenita chegou hoje cedo contando do velório/enterro da filha de Da. Peninha. Carmelita tinha pouco mais de 30 anos, morreu ao dar à luz o 4º filho no Hospital Luiz Eduardo Magalhães em Porto Seguro. Consta que a criança era grande, ela fez muita força para o bebê sair e “aí foi arrebentando tudo: útero, ovário e deu uma hemorragia…” Assim Helenita descreveu o fato como contavam no velório. E o mais cruel: os médicos quebraram a clavícula do bebê ao tirarem de dentro da mãe !

Não bastasse isso, abro o Facebook e leio o comentário do Jeronymo Machado, produtor e empresário, sobre o atropelamento de sua mãe em Copacabana. Aos 80 anos, lúcida e ativa, Da.Elza ficou caída no chão, foi atendida pelos Bombeiros que chegaram rapidamente, mas na seqüência passou pelo horror dos corredores do Hospital Miguel Couto, um hospital público em área super nobre do Rio de Janeiro, até conseguir ser transferida para um hospital particular também com atendimento duvidoso.

De Porto Seguro ao Leblon não há diferença no atendimento médico. Público ou particular, a saúde no Brasil morre. Não entendo aonde foi parar a dignidade dos médicos. Tanto faz Carmelita, a mãe simples que morava em Ponto Central, uma pequena vila de Santa Cruz Cabrália e deixou 4 filhos, como Da. Elza, a mãe da zona sul do Rio de Janeiro, todos passam pelas mãos de algozes. Alguns mais sofisticados, como os que atenderam Da. Elza que está bem e se recupera em casa, como os incompetentes que andam pelo Sul da Bahia.

Da. Peninha vai ficar mais triste e encolhidinha no banco da missa. O Jeronymo mais revoltado com a sociedade em que vive. Até o dia em que todos juntos teremos coragem de dar um basta e exigir que ao menos educação e saúde sejam tratados com respeito neste país. Livrai-nos Senhor da saúde pública ! Amém.

Fim de tarde

Passa das 6 da tarde e a última restia de luz do dia ilumina o jardim. Relembro o telefonema que fiz a poucas horas para uma amiga que declarou não querer mais trabalhar. Esta deprimida. Tudo o que era bom na sua vida se tornou massacrante, cansativo. Ela so quer ficar quieta, mesmo sem saber como se manter se não trabalhar.
Tenho acompanhado algumas amigas que estão chegando ou recém passando dos 60 com dificuldades de encarar as mudanças. Sou rápida nas contas das idades dos que estão a minha volta e as vezes me surpreendo quando vejo tantos conhecidos setentões em atividade. Também deve ter sido difícil pra eles passar por esta mudança que ainda não me abalou. Claro que tudo esta alterado, mas sobrevivo. A “maturecência”, assim podíamos chamar a “adolescência da maturidade”, é delicada. Os seios não surgem, murcham. Os pelos somem, o corpo ganha um contorno mais pesado independente dos quilos, e ainda tem as rugas, os cabelos brancos e tudo que mais se conhece.
Acredito que a grande vitoria neste processo é conseguir tirar o foco do próprio umbigo, não se vitimar. Nem sempre o tempo traz soluções, mas nos dá um conhecimento, uma certa tranquilidade de olhar ate mesmo o envelhecimento externo com carinho, ja que o coração é eternamente jovem.
Mas é preciso vigiar o pensamento, ele pode ser traiçoeiro, levar para uma viagem de tristeza e envelhecer vai ser um peso insuportável de superar. E aí nem a luz do fim do dia se vê no jardim.

De onde vem os amigos…

Beira do Rio João de Tiba, foto Cláudia Schembri.

Estávamos sentados frente ao rio olhando a noite estrelada e conversando sobre assuntos tão delicadamente pessoais, quando percebi que a minha volta estavam meus mais novos velhos amigos… Excetuando a amiga que herdei do meu irmão, as outras relações foram construídas há menos de 7 anos. Falávamos sobre planos e também das nossas mazelas, algumas dores, desafios e superações, tudo isso embaixo de uma noite azul com uma brisa deliciosa. Voltei prá casa pensando de onde vêm os amigos.

Quando morei em Nova York, eu me senti muito orgulhosa por ter conquistado amigos que além de não falarem a minha língua, sabiam do meu país como algo distante no terceiro mundo. Eu vinha de uma vida de muitos amigos, de alguma repercussão como pessoa pública e conquistar americanos que mal sabiam pronunciar o meu sobrenome foi uma enorme vitória… Matei ali 10 anos de análise… Mas todos esses amigos vieram como os demais através da sala de aula, da vizinhança, do trabalho ou de algum local de diversão.

E foi da vizinhança nesta vila tão pequena aonde vivo que fiz os amigos com quem vi estrelas ontem a noite. Aqui não é preciso muito. É só chegar que de boca em boca as informações do novo morador é passada, e quando você encontra com alguém, abre um sorriso num cumprimento, já sabem quem você é e de onde veio… Uma forma gentil de abrir a rede e receber “estrangeiros”.

Mas nestes últimos dias com o lançamento do livro em São Paulo fui surpreendida com uma nova forma de fazer amigos.  Encontrei pessoas que me abraçaram com um enorme carinho, como se fossemos velhos amigos e me conheceram pela internet. Sabem detalhes da minha vida pelas coisas que escrevo, sonham um dia conhecer Vila de Santo André e foram buscar um autógrafo no livro. Fiquei profundamente tocada e descobri que alem do amor, existe a amizade incondicional!  Sou  querida por quem nunca tinha me visto pessoalmente!!! Não conhecem meus defeitos, o perfume que uso ou o tom da minha voz. Ainda não me viram atacada brigando com o mundo e gostam de mim mesmo assim… Escolheram esta amizade por que em algum momento escrevi uma palavrinha que tocou seu coração e gerou uma empatia. Adoro as possibilidades da tecnologia que nos faz tão perto e intima de tantos… Acredito que na vida só valem os amigos… E não importa de onde vieram…

Media luz

visão do jardim enquanto me balançava na rede


Um estouro no poste da rua e toda casa ficou a “media luz” como se os aparelhos pudessem usar apenas metade da sua potência. Desliguei o computador preocupada com os picos de energia. Ainda não escureceu, mas sala esta um pouco escura para ler ou fazer fuxico. Estico a rede na varanda e fico literalmente usando metade da minha energia para estar adequada à situação. Meio olho aberto, meia perna no ar, meio braço esticado, meio pensamento, tento respirar só por uma narina, brinco de ser metade. Missão impossível.

Uma das coisas que tenho percebido com o passar dos anos é que amadurecer faz consolidar a verdade de cada um. Ouvi muita gente dizer que os defeitos ficam mais aparentes, prefiro pensar nas qualidades. Não tenho como ser outra pessoa, mudar o caráter ou criar uma nova personalidade. Sou o que sempre fui talvez com um tom mais tênue. O que está na minha essência jamais se perdeu. Estou às portas do lançamento de um livro que me fez reviver o período em que fui repórter nas revistas da Bloch Editores e Editora Abril, e no jornal O Globo. Escrevi uma grande reportagem sobre o Projeto Emoções em Jerusalém, o incrível show realizado na Terra Santa com Roberto Carlos. Uma produção de se tirar o chapéu, repleta de desafios. Eu ainda não sei como escrever um livro, mas lembro como se faz uma boa reportagem. Em lugar de 10 páginas datilografadas, digitei 100, e o resultado chega esta semana às livrarias. Ali eu estou inteira, com os meus melhores sentimentos contando como uma equipe fez um sonho se tornar realidade. Pela metade, só mesmo a “media luz” deste fim de tarde curtindo o embalo da rede..